Introdução aos Estudos Linguísticos/Início
Capa do manual: Manual de Introdução aos Estudos Linguísticos, Paulo Nunes da Silva, 2010

Leitura obrigatória · Introdução aos Estudos Linguísticos

Manual de Introdução aos Estudos Linguísticos

Paulo Nunes da Silva

Edição privada · 2010

Repositório
Repositório Aberto da Universidade Aberta
Handle
10400.2/11900
Extensão
292 páginas · português · acesso aberto
Palavras-chave
Linguística; Linguística geral; Fonética; Fonologia; Morfologia; Sintaxe; Semântica; Pragmática

Resumo

O Manual de Introdução aos Estudos Linguísticos constitui uma introdução à Linguística e foi redigido como recurso para a unidade curricular de Introdução aos Estudos Linguísticos. Nesse sentido, inclui reflexões acerca de temas centrais no âmbito desta área disciplinar, desde a emergência da Linguística aos diversos níveis de análise.

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1.ª Parte

Linguística e Linguagem Verbal

Introdução

A Linguística consiste no estudo científico da linguagem verbal. Esta definição implica que, à semelhança de qualquer outra disciplina científica, a Linguística propõe-se analisar e descrever um determinado objecto de estudo, aplicando metodologias próprias e adequadas à área do conhecimento sobre a qual reflecte.

A delimitação de um objecto de estudo próprio e distinto do objecto de outras ciências, assim como a aplicação de metodologias adequadas à área de conhecimento em que se insere constituem dois dos requisitos necessários ao surgimento de qualquer disciplina científica.

O objecto de estudo da Linguística é constituído pela linguagem verbal nas suas diferentes manifestações: as línguas naturais, como o português, o castelhano, o francês, o italiano, o inglês, o alemão, etc.

As línguas naturais não são objectos unidimensionais. Elas podem ser analisadas em domínios muito diversos. Cada um desses domínios abrange uma área restrita do conhecimento linguístico e é o objecto de estudo de uma subdisciplina distinta. Por agora, destacamos os seguintes domínios e as disciplinas em que são analisados:

– os sons utilizados para falar em cada língua natural (Fonética) e a sua organização subjacente (Fonologia);

– a constituição interna das palavras (Morfologia);

– a ordem das palavras e dos grupos de palavras nas frases, assim como as funções que nelas desempenham (Sintaxe);

– o significado convencional das palavras, das frases e dos textos (Semântica);

– o significado das palavras, das frases e dos textos em situações de comunicação concretas e sempre únicas, assim como os actos de fala que os falantes realizam quando falam ou escrevem (Pragmática).

No âmbito de cada uma das disciplinas indicadas entre parênteses, são concebidos e aplicados métodos de análise próprios, que os linguistas consideram ser os mais adequados para descrever o domínio em questão. Um 8 dos objectivos centrais de uma unidade curricular de iniciação à Linguística consiste na explicitação das metodologias e dos conceitos operatórios mais importantes que são utilizados em cada uma destas subdisciplinas da Linguística.

Deve ser sublinhado que as subdisciplinas atrás listadas não constituem compartimentos estanques, e que não esgotam os inúmeros domínios da comunicação verbal susceptíveis de serem estudados. De facto, há outras dimensões das línguas naturais que são abrangidas pela Linguística, algumas das quais mantêm relações estreitas com outras disciplinas científicas, estabelecendo pontes com áreas do conhecimento afins. Por exemplo, no âmbito da Psicolinguística, reflecte-se, entre outras questões, sobre os mecanismos cognitivos que nos permitem falar e interpretar o que os outros falantes nos dizem, e sobre as diferentes etapas que sistematicamente se observam no processo de aquisição das línguas naturais por parte das crianças. Dada a perspectiva que adopta para estudar a linguagem verbal, a Psicolinguística recorre necessariamente a conceitos quer da Linguística, quer da Psicologia.

Ao longo da primeira parte (Linguística e Linguagem Verbal), dedicar-nos-emos a questões de Linguística Geral (ou Teoria da Linguagem), isto é, à reflexão sobre temas que dizem respeito a todas as línguas naturais. Nos três temas que inicialmente propomos (1. Linguística e Semiótica, 2. Saussure e a emergência da Linguística como disciplina científica e 3. Chomsky e a gramática formal e sintagmática), concentrar-nos-emos na delimitação e na caracterização do objecto de estudo da Linguística: no primeiro Capítulo, definiremos o conceito de língua natural, distinguiremos diferentes tipos de sinais e explicitaremos quais são os que maioritariamente integram as línguas naturais; nos dois temas seguintes, destacaremos as reflexões de Saussure e de Chomsky que propiciaram o surgimento e o estabelecimento da Linguística como disciplina científica.

Na segunda parte (Os Níveis de Análise Linguística), que engloba seis temas (4. Fonética, 5. Fonologia, 6. Morfologia, 7. Sintaxe, 8. Semântica e 9. Pragmática), reflectiremos sobre os objectivos, as metodologias e os conceitos operatórios centrais próprios dos diferentes níveis de análise linguística. Nessa altura, aplicaremos os instrumentos de análise dessas 9 subdisciplinas de modo a descrever a variedade do português conhecida como português europeu (PE).

Deve ser sublinhado, ainda, que os limites entre os diferentes níveis de análise linguística nem sempre são fáceis de traçar, havendo zonas de fronteira que só o concurso entre duas disciplinas (Fonética e Fonologia, Fonologia e Morfologia, etc.) permite descrever de modo completo.

Por fim, na terceira parte (Mudança Linguística e Variação Linguística), dedicar-nos-emos às complexas questões da evolução e da variação linguísticas. Reflectiremos, por um lado, sobre o facto de todas as línguas vivas estarem sujeitas à mudança, à evolução ao longo dos tempos. Por outro lado, salientaremos que, mesmo num dado momento da sua evolução, as línguas não são entidades homogéneas; pelo contrário, evidenciam fenómenos de variação que reflectem a diversidade sociocultural das sociedades em que são utilizadas.

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Capítulo 1

Linguística e Semiótica

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• definir o conceito de língua natural;

• referir algumas das mais relevantes propriedades das línguas naturais;

• compreender o conceito de sinal;

• explicitar em que consiste o processo de semiose;

• reconhecer sinais naturais (indícios) e sinais artificiais (signos e símbolos);

• identificar sinais próprios da linguagem verbal e sinais próprios de linguagens não verbais;

• distinguir os conceitos de signo e símbolo;

• indicar o objecto de estudo da Linguística e o objecto de estudo da Semiótica.

1.1. O conceito de língua natural

A faculdade ou capacidade de linguagem inerente ao ser humano concretiza-se nas línguas naturais, que nos permitem comunicar as informações mais diversas. Etimologicamente, comunicar significa “tornar comum, partilhar”. De facto, quando comunicamos uma dada informação, ela passa a ser partilhada pelo sujeito falante e pelo(s) seu(s) interlocutor(es).

Designamos por línguas naturais os diferentes conjuntos de sinais verbais e de regras do seu uso que, num determinado momento histórico, são adquiridos e utilizados para comunicar pelos seres humanos que se inserem numa dada comunidade. Estes conjuntos de sinais verbais e respectivas regras de uso desenvolvem-se espontaneamente nas sociedades em que servem de meio de comunicação.

Ficam excluídas do conjunto das línguas naturais as línguas artificiais (como o esperanto), uma vez que não configuram, em caso algum, a língua materna dos sujeitos falantes de uma comunidade, e dado que foram construídas com uma dada intenção por uma pessoa ou por um grupo restrito de pessoas. Todavia, incluímos entre as línguas naturais não só as línguas vivas (como o português), mas também as línguas mortas (como o latim), que, tendo sido usadas como língua materna ao longo de um dado período, deixaram de ser quotidianamente utilizadas, quer porque evoluíram de tal modo que se transformaram noutras línguas distintas, quer porque se extinguiram devido ao desaparecimento de todos os sujeitos falantes que as usavam. Uma língua viva difere de uma língua morta pelo facto de que, no momento actual, as línguas vivas constituem a língua materna de sujeitos falantes, ou seja, são adquiridas pelos seres humanos durante a sua infância através do contacto com outros falantes que as usam no dia-a-dia. As línguas mortas, pelo contrário, já não são utilizadas no dia-a-dia, embora o possam ser ainda em contextos específicos; é o que acontece com o latim, especialmente em contextos de natureza religiosa e científica.

As línguas naturais são compostas por sinais orais articulados no nosso aparelho fonador1, e podem ter representação gráfica - no caso do português, das restantes línguas românicas e das línguas anglo-saxónicas, recorrendo ao alfabeto latino; outras línguas são graficamente representadas com base noutros alfabetos, como o alfabeto cirílico, o alfabeto hebraico, o alfabeto árabe, etc.

A oralidade configura o uso primário de qualquer língua natural, facto que é consensualmente aceite e que é comprovado pelas duas razões seguintes: primeiro, porque nem todas as línguas naturais conhecidas possuem representação escrita; segundo, porque, só após terem adquirido a capacidade de se expressarem oralmente na sua língua materna, as crianças aprendem a representá-la graficamente. Estes dois factos apontam para que o modo primário de realização das línguas naturais seja a oralidade, enquanto a escrita constitui um uso secundário baseado naquele.

Entre as propriedades mais relevantes das línguas naturais, destacamos três que evidenciam as elevadas potencialidades comunicativas da linguagem verbal, tendencialmente ilimitadas em comparação com outras formas de transmissão de conteúdos entre seres humanos. Essas propriedades são o diferimento, a produtividade e a reflexividade.

A propriedade de diferimento consiste na possibilidade de utilizarmos as línguas naturais para veicularmos informações sobre entidades ou objectos que não estão presentes na situação de comunicação ou sobre eventos que não estão a ocorrer nesse momento. As informações transmitidas nas frases seguintes ilustram esta propriedade da linguagem verbal.

(1) Em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia por mar.

(2) O quadro Mona Lisa foi pintado por Leonardo da Vinci.

A frase (1) refere um acontecimento que se deu há mais de 500 anos, evidenciando que podemos servir-nos da linguagem verbal para veicular ideias sobre pessoas e factos que não estão enraizados na situação de comunicação 14 em que nos encontramos neste preciso momento. O exemplo (2) designa um objecto - possivelmente, a mais famosa pintura de Leonardo da Vinci - que se encontra actualmente exposto no Museu do Louvre, em Paris. Com esta frase, fica demonstrado que é possível usar a linguagem verbal para nos referirmos a esse objecto, independentemente do local onde estamos. O enunciado foi produzido em Coimbra, mas poderia ter sido produzido em Lisboa, no Porto, em Bragança, em Faro, ou em qualquer outro lugar onde estivesse o sujeito falante que o proferisse.

Deste modo, o diferimento diz respeito à possibilidade de comunicarmos não apenas acerca daquilo que nos rodeia, não apenas acerca do que vemos e experienciamos enquanto estamos a falar, mas sobre qualquer evento que aconteceu ou que vai acontecer, sobre qualquer objecto que não se encontra no local em que estamos a falar, sobre qualquer pessoa que existe ou já existiu ou poderá vir a existir, e até sobre pessoas, entidades ou eventos irreais, ficcionados.

Não é polémico afirmar que a maior parte dos enunciados que produzimos constituem exemplos desta propriedade. Imagine-se como seriam limitadas as potencialidades comunicativas da linguagem verbal se ela apenas nos permitisse comunicar acerca de entidades presentes na situação de comunicação em que nos encontramos num dado momento ou sobre acontecimentos que estivessem a decorrer nesse momento e nesse local. A linguagem verbal permite, num certo sentido pelo menos, que os sujeitos falantes se evadam das coordenadas temporais e espaciais em que inevitavelmente se encontram enraizados.

A produtividade (ou criatividade) diz respeito à capacidade de produzirmos e interpretarmos enunciados que nunca ouvimos ou lemos anteriormente. Atente-se no exemplo seguinte.

(3) A Catarina tem muita vergonha dos colegas da escola e, por isso, não quer que lhe cantem os “parabéns” quando fizer anos.

A quase totalidade dos falantes nativos de português (pelo menos os que têm como língua materna a variante europeia do português) seguramente conhece e já ouviu ou leu cada uma das palavras que compõem esta frase 15 noutros enunciados. Mas é possível que nunca as tenha ouvido ou lido exactamente segundo esta ordem. Se houver falantes nativos do português que nunca tenham ouvido este enunciado anteriormente, e se, mesmo assim, o conseguirem interpretar correctamente (como parece plausível conceber), fica comprovada a propriedade de produtividade.

É que cada sujeito falante tem armazenado na sua memória um conjunto de palavras, assim como as regras necessárias ao seu uso. E, de acordo com o que pretende transmitir e com a situação de comunicação em que se insere, um sujeito falante selecciona as palavras que lhe parecem ser mais adequadas e ordena-as segundo as regras que conhece. Não se pense, portanto, que, enquanto sujeitos falantes, nos limitamos a repetir enunciados completos que já ouvimos ou lemos e que memorizámos para uso posterior: todos os dias produzimos e ouvimos enunciados que nunca tínhamos produzido nem ouvido antes, isto é, enunciados que integram palavras que até podemos já conhecer mas que nunca tínhamos utilizado numa mesma frase segundo uma dada ordem. E, mesmo assim, sabemos interpretar esses enunciados. A produtividade diz respeito, portanto, quer à capacidade de produzirmos novos enunciados, quer à capacidade de interpretarmos novos enunciados que nunca tenhamos ouvido ou lido anteriormente.

A reflexividade consiste na possibilidade de usarmos um dado sistema semiótico (ou seja, uma determinada linguagem ou forma de transmissão de informações) para nos referirmos a esse mesmo sistema semiótico. Por outras palavras, podemos usar uma língua como o português para falarmos sobre a nossa própria língua. Atente-se nas frases seguintes.

(4) Em português, a forma verbal concorda em pessoa e em número com o sujeito da oração.

(5) Os advérbios terminados em -mente não são graficamente acentuados.

As informações contidas nestas frases dizem respeito a características da língua portuguesa relativas à Sintaxe, em (4), e à acentuação gráfica das 16 palavras na escrita, em (5). Servimo-nos, portanto, de uma dada língua (o português) para comunicarmos informações relativas a essa mesma língua.

As gramáticas, os dicionários de línguas, de sinónimos, de antónimos, de verbos, os prontuários ortográficos, todos estes géneros discursivos constituem exemplos evidentes da reflexividade que caracteriza as línguas naturais. Na verdade, qualquer reflexão sobre qualquer língua evidencia esta propriedade, pelo que podemos dizer que é a reflexividade que possibilita a existência da Linguística enquanto disciplina científica.

Quando atrás nos referimos a sistemas semióticos, ficou implícita a ideia de que os seres humanos possuem outras formas de comunicação, outras linguagens, e que nem todas se caracterizam pela reflexividade. De facto, as línguas naturais não constituem, evidentemente, a única forma de que o Homem dispõe para comunicar: os seres humanos transmitem informações através da linguagem verbal mas também usando linguagens não verbais. A linguagem gestual dos surdos-mudos, a sinalização que regula o trânsito, o código Morse e a sinalização por bandeiras (nas praias, nas corridas de automobilismo, etc.) são alguns exemplos de formas de comunicação não verbais que temos à nossa disposição. Além disso, enquanto seres pensantes, temos a capacidade de interpretar sinais espontâneos, isto é, sinais que não foram criados pelo Homem, não tendo, portanto, qualquer intenção comunicativa subjacente. Como exemplo destes sinais, refira-se as nuvens negras com o significado de “(probabilidade de ocorrência de) chuva” e o fumo com o significado de “fogo”.

Concentrar-nos-emos, a seguir, no conceito de sinal. Propomo-nos analisar detalhadamente alguns tipos de sinais e determinar os que são maioritariamente utilizados no âmbito da linguagem verbal.

1.2. Tipos de sinais: indícios, símbolos e signos

O processo de comunicação concretiza-se sempre que alguém interpreta um sinal. E o que é um sinal? É algo que está em vez de algo; é a manifestação de algo que representa uma coisa distinta de si mesmo. A palavra cão, por exemplo, designa um animal doméstico. Constitui um sinal, na medida em que representa uma entidade (o animal cão) com a qual não se confunde; no processo de comunicação, o sinal substitui, refere essa entidade. Recorde-se, a propósito, uma célebre frase do filósofo inglês Bertrand Russell: «a palavra cão não ladra». Esta frase sublinha o facto de que o sinal e a entidade por ele referida são realidades distintas.

Ao processo de interpretação de um sinal chamamos semiose. Para que haja semiose são requeridos três elementos: o sinal, o sujeito que o interpreta e um objecto ou entidade para que remete o sinal. O esquema seguinte ilustra a relação que existe entre estes três elementos no processo de semiose.

Sujeito / Sinal / Objecto
Texto da figura
  • Sujeito
  • Sinal
  • Objecto

Em presença de um dado sinal, o sujeito interpreta-o e forma uma representação mental do objecto referido pelo sinal. Por outras palavras, o sujeito reconhece um dado objecto quando interpreta adequadamente o sinal que, numa situação de comunicação concreta, está em vez desse objecto. Ou ainda: o sujeito “chega” mentalmente ao objecto (concreto ou não) através da mediação do sinal, com a ajuda deste.

A disciplina que estuda os sinais é a Semiótica (ou Semiologia). Distinguindo-se da Linguística, que estuda apenas os sinais utilizados no âmbito da linguagem verbal (o mais importante dos sistemas de comunicação humanos), a Semiótica estuda todos os outros sinais artificiais que os seres humanos utilizam para comunicar.

A vida em sociedade só é possível graças ao uso sistemático de sinais e à capacidade que temos de os interpretar. Nas ruas de uma qualquer localidade, deparamo-nos com inúmeros sinais: os que regulam o trânsito (semáforos, passadeiras, sinais de sentido proibido, de limite de velocidade, de aproximação de escolas ou hospitais), os que identificam lojas ou cafés, os números de porta, as fardas dos polícias ou dos militares, etc. Para vivermos em sociedade (e, em sentido literal, para sobrevivermos), necessitamos de conhecer e de saber interpretar correctamente esses sinais.

Podemos comunicar usando diferentes tipos de sinais. Uma vez que a Linguística se dedica ao estudo da linguagem verbal, importa reflectir sobre o tipo de sinais predominantemente utilizado no âmbito das línguas naturais. Essa reflexão contribuirá para caracterizar a linguagem verbal e para determinar o seu lugar proeminente entre as diferentes formas de comunicação de que dispõe o ser humano.

Num primeiro momento, podemos distinguir os sinais em função de um critério que releva do facto de eles surgirem (ou não) de modo espontâneo e da existência (ou não) de uma intenção comunicativa subjacente à sua ocorrência.

Alguns sinais são naturais, uma vez que surgem de modo espontâneo e sem que haja subjacente qualquer intenção de comunicar. As nuvens negras no céu podem ser interpretadas como “(probabilidade de ocorrência de) chuva”. Uma coluna de fumo avistada ao longe indica a existência de “fogo”, mesmo que este não seja directamente visível. O vapor emanado de uma chávena revela que o café ou o chá está “quente”. Trata-se, em todos os casos, de indícios (ou índices).

De acordo com a definição de sinal atrás apresentada, cada um destes indícios representa algo distinto de si mesmo: as nuvens negras designam “chuva”, o fumo designa “fogo” e o vapor designa “temperatura elevada”. Por outro lado, os indícios, sendo sinais naturais, surgem espontaneamente, não tendo subjacente qualquer intenção comunicativa. Mas nós, enquanto seres pensantes, podemos interpretá-los, podemos deduzir que eles representam algo. Os diagnósticos médicos, por exemplo, dependem da capacidade de interpretar adequadamente um tipo de sinais naturais - os sintomas - que o paciente manifesta: febre, tosse, etc. Um conjunto de sintomas indica, frequentemente de modo claro para um médico que os saiba interpretar, uma 19 doença específica. Também uma impressão digital ou uma pegada de determinado tamanho e configuração constituem indícios que podem ser relevantes na investigação criminal: eles eventualmente apontam para a presença de um determinado indivíduo no local do crime.

Há situações em que o Homem pode provocar e manipular alguns sinais naturais com intenções comunicativas. Como vimos, o fumo indica “fogo”, pois a nossa experiência quotidiana ensina-nos que há uma relação de causa-efeito entre ambos. Mas certas tribos de índios da América do Norte desenvolveram uma forma de comunicar à distância usando sinais de fumo. Esta utilização do fumo, por parte de seres humanos, com o objectivo de comunicarem uns com os outros constitui não um sinal natural mas um sinal artificial. Neste caso, o fumo permite duas interpretações: como sinal natural, ele indica “fogo”; como sinal artificial, ele designa uma dada informação que o índio pretende veicular. Também a tosse constitui geralmente um sinal natural, na medida em que pode ser interpretada como sintoma de “garganta inflamada, congestionada”. Todavia, em certas situações, podemos usar deliberadamente a tosse como sinal artificial: tossimos com uma dada intenção comunicativa (mesmo sem que tenhamos qualquer problema ou obstrução na garganta), por exemplo, para avisar a pessoa que está a falar que se deve calar porque está a dizer algo de inconveniente perante algum dos presentes.

A maior parte dos sinais que utilizamos e interpretamos são artificiais (ou sinais propriamente ditos), isto é, trata-se de sinais criados pelo Homem com a intenção de comunicar. Incluem-se neste grupo as palavras de todas as línguas naturais, assim como os sinais de linguagens não verbais, de que são exemplo os sinais do código da estrada e outros, omnipresentes nas nossas sociedades, como a cruz verde que indica a existência de uma farmácia ou como a sirene e os sinais luminosos (de cor azul) das ambulâncias, que assinalam um “veículo com prioridade”.

Os sinais artificiais podem ser subdivididos com base no critério da existência (ou não) de semelhança ou analogia entre o sinal e aquilo que ele refere. Os símbolos são sinais que se assemelham de algum modo ao seu referente, que mantêm uma relação de analogia com o que designam.

Atente-se no sinal que a seguir reproduzimos: ✝. Esta cruz é um símbolo frequentemente utilizado para representar “o cristianismo”. Todos os edifícios 20 que constituem templos cristãos (igrejas, catedrais, capelas, etc.) integram cruzes entre os seus elementos decorativos e arquitectónicos, seja numa torre, no altar, numa capela ou noutros locais do seu interior. Existe uma relação de contiguidade entre a cruz e o que ela representa (“a religião cristã”), pois Jesus Cristo, que ensinou os princípios da religião cristã, foi crucificado. Por isso, a cruz constitui, neste caso, um símbolo.

O conceito abstracto de “justiça” é muitas vezes representado, nas sociedades ocidentais, pela imagem de uma mulher de olhos vendados, segurando uma espada numa mão e uma balança na outra. Observa-se igualmente uma relação de analogia entre os princípios e os valores que associamos à justiça e esta imagem que a simboliza: a venda nos olhos significa que todos os cidadãos são tratados de igual modo perante a justiça, independentemente do seu estatuto social, económico, religioso e político. A balança representa o processo de avaliar, de pesar a infracção cometida, tendo em conta eventuais atenuantes e agravantes. A espada simboliza a força que a justiça possui para aplicar a lei. Esta imagem de uma mulher de olhos vendados com uma espada e uma balança constitui, por isso, um símbolo.

Também uma pomba branca (quando simboliza a “paz”), uma serpente (quando, no relato bíblico do pecado original, simboliza a “astúcia” e a “perfídia”), ou uma figura desenhada de mulher com barriga proeminente (para indicar “mulher grávida”) constituem exemplos de símbolos. Em todos estes casos, é possível inferir uma relação de semelhança entre o sinal (ou as suas características típicas) e o que ele representa. Não se pense, todavia, que todos os símbolos são imagens, apreensíveis pelo sentido da visão. Veremos adiante que as onomatopeias (sinais sonoros, captáveis pelo sentido da audição) também constituem símbolos.

Os signos, tal como os símbolos, são sinais artificiais. Todavia, os signos não manifestam quaisquer semelhanças com o seu referente.

A bandeira vermelha que vemos hasteada na praia indica “proibição de tomar banho”, mas não há uma relação de analogia entre a cor vermelha e o formato rectangular da bandeira e aquilo que ela refere. Trata-se, portanto, de um signo.

O sinal verde que encontramos nos semáforos também constitui um signo. Ele indica que “o condutor pode avançar”, não existindo qualquer relação 21 de semelhança entre a cor verde e a forma circular do sinal e o que ele designa.

Para que fique clara a distinção entre signo e símbolo, justifica-se reflectir um pouco mais sobre este tema. Em muitos sinais de trânsito, por exemplo, ocorrem simultaneamente elementos que constituem símbolos e elementos que configuram signos. Analisemos os seguintes.

Sentido proibido Passadeira para peões Curva à esquerda e / contra-curva / (proibição) (informação) (aproximação de perigo)
Texto da figura
  • Sentido proibido Passadeira para peões Curva à esquerda e
  • contra-curva
  • (proibição) (informação) (aproximação de perigo)

O sinal de “sentido proibido” é composto por um círculo vermelho (que remete para uma “proibição”) e por uma faixa horizontal branca no centro. Todos os elementos que integram o sinal constituem signos, pois não há qualquer analogia entre a cor e a forma desses elementos e aquilo que eles designam (“sentido proibido”).

O sinal que indica “aproximação de passadeira para peões” também é composto por vários elementos. A forma rectangular e o fundo de cor azul indicam que se trata de um “sinal de tipo informativo”. Entre a sua forma, a sua cor e aquilo que elas referem (“sinal informativo”) não existe qualquer semelhança, pelo que estes dois elementos do sinal, em conjunto, configuram um signo. Todavia, a imagem da figura humana a caminhar sobre um piso com riscas brancas pintadas no chão representa “um peão a atravessar uma passadeira”. Há, neste caso, uma relação de semelhança entre estes dois elementos do sinal de trânsito (a figura humana e o piso com riscas brancas) e o que eles representam (“um peão a atravessar uma passadeira”). Deste modo, 22 a forma e a cor do sinal constituem um signo, mas a figura humana e as riscas brancas do piso configuram um símbolo.

O mesmo tipo de análise se aplica ao sinal de “curva à esquerda e contra-curva”. O formato triangular, o rebordo vermelho e o fundo branco referem, em conjunto, “aproximação de perigo”. Não havendo semelhança entre a forma e as cores e aquilo que designam (“aproximação de perigo”), concluímos que esses elementos configuram um signo. Quanto ao elemento a negro, que assinala “curva à esquerda e contra-curva”, há uma relação de analogia entre esse sinal e o que ele designa. Na verdade, a sua forma assemelha-se à de uma curva à esquerda seguida de uma contra-curva quando perspectivadas a partir de um plano elevado. Assim, o elemento a negro que integra este sinal constitui um símbolo.

Uma vez que os sinais de trânsito incluem elementos que são signos e outros que são símbolos, compreende-se que sejam designados precisamente por sinais de trânsito, e não por signos ou por símbolos de trânsito. Trata-se, em todos os casos, de sinais artificiais: sinais criados pelo Homem com uma intenção comunicativa subjacente.

Vejamos agora o tipo de sinais que predomina nas línguas naturais. Serão elas constituídas por signos ou por símbolos?

A palavra livro remete para um objecto que contém capa e folhas de papel impressas com caracteres, muitas vezes integrando também imagens, e que serve para ser lido (e visto). Não existe qualquer relação de analogia entre a palavra livro e o objecto que ela refere. De facto, o mesmo objecto podia ser designado, em português, por uma sequência de sons completamente diferente que remetesse para o conceito de “objecto com capa e folhas de papel impressas”. Reforçando esta ideia de que não há uma relação motivada entre a palavra e o que ela refere, recorde-se que, em inglês, o mesmo objecto é designado pela palavra book. Possivelmente, haverá tantas designações para este objecto quantas as línguas naturais faladas em sociedades humanas que o conhecem e manuseiam.

O mesmo raciocínio se aplica à maior parte das palavras usadas em português e noutras línguas: entre as palavras beijo, sinfonia, nadar, dançar, belo, azul, rapidamente, hoje e aquilo que cada uma delas refere não há 23 qualquer relação de semelhança ou de analogia. Trata-se, portanto, e em todos os casos, de signos: signos linguísticos.

Há, todavia, algumas palavras que mantêm uma relação motivada com o que designam. Vejamos as seguintes onomatopeias, comummente utilizadas em português: miau, có-có-ró-có, tlim e dlim-dlão. Todos estes exemplos constituem tentativas de imitação, de reprodução de sons: o miar dos gatos em miau; o cantar dos galos em có-có-ró-có; a queda no chão de um objecto metálico (uma moeda, por exemplo) em tlim; o toque de um sino em dlim-dlão. Há, portanto, uma relação de analogia entre estes sinais e o que eles representam: em todos os casos, observam-se semelhanças entre a sonoridade das onomatopeias e os sons que com elas se pretende referir2. Deste modo, as onomatopeias constituem símbolos.

Sublinhe-se, por um lado, que as onomatopeias diferem de língua para língua. Cock-a-doodle-doo é uma onomatopeia frequentemente utilizada em inglês para representar o cantar do galo; oua-oua representa muitas vezes, em francês, o ladrar do cão. Sabendo-se que os cães e os galos emitem sensivelmente os mesmos sons, estejam em território onde se fale português, inglês ou francês, fica demonstrado o carácter convencional das onomatopeias. Enquanto tentativa de imitação de sons que existem na realidade extralinguística através da linguagem verbal, a sonoridade das onomatopeias é necessariamente condicionada pela língua falada na sociedade em que elas emergem.

Por outro lado, deve ser salientado o facto de as onomatopeias constituírem uma ínfima parte dos sinais verbais utilizados em qualquer língua natural.

É o conceito de signo linguístico que constitui a essência das línguas naturais3. O uso de sinais verbais que, por convenção, estão sistematicamente 24 associados a um dado referente (o qual em nada se assemelha à sonoridade desses sinais) caracteriza-se por uma capacidade potencialmente ilimitada de referir: o que é concreto (cão, mesa, candeeiro), o que é abstracto (amor, liberdade, justiça) e até o que não existe mas que foi inventado, criado pela imaginação do ser humano (Pégaso, Sherlock Holmes, Astérix)4.

Em suma, segundo um critério baseado na existência (ou não) de uma intenção comunicativa subjacente ao surgimento do sinal, distinguimos sinais naturais (os indícios) e sinais artificiais. Segundo um critério que decorre da existência (ou não) de relações de semelhança entre o sinal artificial e o que ele designa, distinguimos signos e símbolos.

O fumo, quando é interpretado como “fogo”, é um indício. A cruz, quando assinala o “cristianismo”, é um símbolo. A bandeira vermelha na praia, que indica “proibição de tomar banho no mar”, é um signo não linguístico. A palavra livro, que refere um “objecto composto por folhas de papel impressas”, é um signo linguístico5.

Os sinais artificiais são sempre convencionais, no sentido em que a relação que existe entre o sinal e o que ele representa depende de uma imposição social, de uma convenção estabelecida à qual se sujeitam os indivíduos de uma dada comunidade.

O esquema seguinte sistematiza a classificação de sinais que temos vindo a apresentar.

TIPOLOGIA DE SINAIS

Naturais Indícios / Sinais Símbolos / Artificiais / Linguísticos / Signos / Não linguísticos
Texto da figura
  • Naturais Indícios
  • Sinais Símbolos
  • Artificiais
  • Linguísticos
  • Signos
  • Não linguísticos

Actividades

1. Entre as asserções seguintes, indique as que são verdadeiras e as que são falsas. Corrija as que assinalar como falsas.

a) As línguas vivas são necessariamente línguas naturais.

b) As línguas naturais são necessariamente línguas vivas.

c) Um sinal consiste na manifestação de algo que remete para uma entidade que não se confunde com o próprio sinal.

d) O processo de semiose envolve três elementos: um sujeito, um sinal e um objecto que é designado pelo sinal.

e) As palavras de uma língua natural são sinais naturais.

f) Os semáforos constituem um exemplo de sinais utilizados no âmbito de uma linguagem não verbal.

g) A cruz verde que assinala a existência de uma farmácia constitui um símbolo.

h) Os indícios e os símbolos são sinais naturais.

i) Quase todas as palavras das línguas naturais constituem signos.

j) Num mesmo sinal de trânsito, podem coexistir elementos que são signos e outros que são símbolos.

k) Os sinais naturais são sinais convencionais.

l) Há signos linguísticos e signos não linguísticos.

2. Indique se os sinais (no seu todo ou tendo em consideração os diferentes elementos que os constituem) que apresentamos nas alíneas seguintes são exemplos de signos ou de símbolos. Justifique a sua resposta.

a) Sinal de proibição de fumar

Sinal de proibição de fumar

b) Sinal que indica a existência de um lugar de estacionamento para pessoas portadoras de deficiência

Sinal que indica um lugar de estacionamento para pessoas portadoras de deficiência

Referências bibliográficas

a) Leituras complementares

DUARTE, Inês (2000), Língua portuguesa. Instrumentos de análise, Lisboa, Universidade Aberta, p. 15-21.

MATEUS, Maria Helena Mira, e Alina VILLALVA (2006), O essencial sobre linguística (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), Lisboa, Caminho, p. 11-28, 49-51.

b) Obra referida

ANDRADE, Amália, e Maria do Céu VIANA (1996), “Fonética”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho.

Notas

  1. No Capítulo 4 – Fonética, será apresentada uma descrição sucinta do aparelho fonador – cf. ANDRADE e VIANA (1996: 129-130, 136-140).
    ↩
  2. Quando uma onomatopeia é integrada no sistema linguístico, respeitando as normas ortográficas e combinando-se com sufixos verbais (miau > miar, miou; tlim > tilintar, tilintaram) ou com sufixos nominais (os tiquetaques dos relógios), passa a designar-se palavra onomatopeica ou palavra onomatopaica.
    ↩
  3. Do ponto de vista das designações utilizadas, não deixa de causar estranheza dizer que as línguas naturais são essencialmente constituídas por sinais artificiais: os signos linguísticos. Todavia, devemos relativizar a importância desta contradição meramente terminológica, uma vez que ela se deve a duas oposições que é metodologicamente conveniente estabelecer: por um lado, entre as línguas naturais (como o português, o italiano ou o inglês) e outras linguagens ditas artificiais (da lógica, de programação de computadores, etc.); por outro lado, entre sinais que brotam espontaneamente, sem a intervenção voluntária do Homem (como as nuvens negras), e sinais que têm subjacente uma intenção comunicativa (de que são exemplo as palavras).
    ↩
  4. Outras propriedades do signo linguístico serão explicitadas no Capítulo 2 - Saussure e a emergência da Linguística como disciplina científica.
    ↩
  5. No âmbito da tradição anglo-saxónica, designa-se por symbol e por icon o que designámos por signo e por símbolo, respectivamente. Ou seja, regra geral, para os autores de língua inglesa, symbol é um sinal que não mantém uma relação de analogia com o seu referente, enquanto icon é um sinal que, de algum modo, se assemelha ao objecto que designa.
    ↩
29
Capítulo 2

Saussure e a emergência da Linguística como disciplina científica

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• reconhecer a importância das reflexões de Saussure para o surgimento da Linguística como disciplina científica;

• definir os conceitos de língua e fala;

• justificar a concepção saussureana segundo a qual o conceito de língua é objecto de estudo da Linguística;

• distinguir perspectiva sincrónica e perspectiva diacrónica na análise das línguas naturais;

• compreender a relação de complementaridade existente entre as duas perspectivas de análise (sincrónica e diacrónica) em Linguística;

• definir os conceitos de significante e significado;

• indicar as mais relevantes propriedades do signo linguístico;

• definir os conceitos de sintagma e paradigma;

• distinguir relações paradigmáticas e relações sintagmáticas;

• identificar paradigmas abertos e paradigmas fechados.

Introdução

Apesar de a actividade de reflectir sobre a linguagem verbal ser antiga, só recentemente surgiu uma disciplina científica cujo objecto de estudo é a linguagem verbal. A tradição associa a emergência da Linguística como ciência à publicação das propostas teórico-metodológicas do linguista suíço Ferdinand de Saussure. Estas propostas foram compiladas, a partir de apontamentos de alunos seus, na obra Cours de linguistique générale, originalmente editada em 1916 e constituída por um conjunto de reflexões de natureza epistemológica: acerca do objecto de estudo da Linguística, das perspectivas e métodos de análise possíveis, de conceitos operatórios básicos aplicáveis a qualquer língua natural, etc.

Ao longo da exposição sobre este tema, procuraremos demonstrar a relevância do pensamento de Saussure para o surgimento e desenvolvimento da Linguística. Se é certo que alguns dos seus principais contributos foram superados ao longo da segunda metade do século XX, ele continua a ser uma referência incontornável no panorama da Linguística: não só por ser geralmente considerado o fundador desta disciplina enquanto ciência com um objecto de estudo próprio, mas também porque, sem conhecer as suas reflexões, não se poderá entender plenamente os caminhos que a Linguística tem vindo a seguir desde então.

Explicitemos, então, as principais dicotomias (ou oposições) conceptuais que Saussure estabeleceu: língua/fala, sincronia/diacronia, significante/significado e sintagma/paradigma.

2.1. Língua/Fala

No Curso de linguística geral, a dicotomia língua/fala (langue/parole, no original) é a primeira oposição a ser estabelecida. Para Saussure, a língua constitui um sistema abstracto de signos e de regras, sendo um tesouro virtual que uma dada comunidade de sujeitos falantes possui. A fala consiste na utilização do sistema abstracto que é a língua, em cada situação de comunicação concreta. Sendo a língua o sistema virtual, abstracto, a fala é o seu uso, a sua apropriação por sujeitos falantes específicos em situações sempre únicas - cada uma delas com dois ou mais interlocutores, e localizada num tempo e num espaço determinados e irrepetíveis.

Por outras palavras, a fala é a utilização concreta que os sujeitos falantes fazem do sistema abstracto que é a língua, sistema esse que se encontra “armazenado” na memória dos sujeitos falantes. A fala é, pois, o acto individual de selecção e ordenação de signos segundo as regras de uso estabelecidas numa dada língua natural. A designação parole, traduzida em português por fala, remete para a apropriação de uma dada língua por parte de um determinado sujeito falante num determinado tempo e num determinado espaço (na oralidade ou na escrita).

Segundo esta concepção, língua e fala opõem-se, em primeiro lugar, porque a língua é de natureza social e a fala é de natureza individual. Distinguem-se, ainda, porque a língua possui carácter abstracto enquanto a fala possui carácter concreto. Explicitemos estas diferenças entre os dois conceitos.

Uma língua pertence a toda uma comunidade de falantes e não pode ser alterada pela vontade de um único indivíduo; se um sujeito falante julgar que, em português, se deve alterar uma dada regra (imagine-se, por exemplo, estabelecer que a forma verbal não tem de concordar em número e em pessoa com o sujeito da frase, ou passar a designar por uma outra sequência de sons o animal que nomeamos por cavalo), a sua vontade não se consegue sobrepor ao sistema estabelecido que se impõe a todos os falantes do português. A 33 língua, precisamente devido ao seu carácter social, não está dependente da vontade de um único falante.

A fala, pelo contrário, é de natureza individual, dizendo respeito à prática de apropriação da língua por parte de cada sujeito falante. Quando falamos e quando escrevemos, cada um de nós serve-se de um conjunto de signos e de regras (previstos no sistema abstracto que é a língua) em situações concretas, perante determinados sujeitos falantes, num espaço e num tempo únicos. Cada um dos sujeitos falantes caracteriza-se pelo seu modo próprio e singular de utilizar a língua que pertence a todos os falantes da comunidade linguística. Por exemplo, um sujeito falante pode utilizar habitualmente a palavra linda para se referir a uma dada actriz, enquanto outro preferirá utilizar a palavra bonita. O primeiro sujeito falante poderá dizer preferencialmente parcómetro e o segundo, parquímetro. O primeiro poderá, ainda, utilizar recorrentemente a estrutura sintáctica estar a + infinitivo (estou a gostar do filme) e o segundo, a estrutura estar + gerúndio (estou gostando do filme). Exemplos destes poderiam ser repetidos até à exaustão para comprovar que não há dois falantes do português que utilizem exactamente da mesma maneira o sistema abstracto que é a língua, seja pela utilização de determinadas palavras e não de outras, seja pela selecção preferencial de certas estruturas sintácticas, seja pela diferente articulação de sons (ou porque fala uma variedade do português que se caracteriza por regionalismos fonéticos, ou devido às características singulares da cavidade oral de cada sujeito falante, etc.), seja, ainda, por outras especificidades linguísticas.

O quadro seguinte sistematiza as distinções que temos vindo a explicitar.

LÍNGUA FALA / Carácter social Carácter individual / (tesouro colectivo) (apropriação da língua pelos falantes) / Domínio do abstracto Domínio do concreto
Texto da figura
  • LÍNGUA FALA
  • Carácter social Carácter individual
  • (tesouro colectivo) (apropriação da língua pelos falantes)
  • Domínio do abstracto Domínio do concreto

Relembremos uma analogia proposta por Saussure (1978: 47) para ilustrar a oposição entre língua e fala:

«podemos comparar a língua a uma sinfonia, cuja realidade é independente da forma como a executam; os erros que possam cometer os músicos que a tocam de modo nenhum podem comprometer essa realidade».

Pensemos, por exemplo, na 9.ª sinfonia de Beethoven: o “Hino da alegria”. Esta sinfonia já foi tocada tantas vezes que é plausível conceber que tenham sucedido situações como as seguintes: umas vezes, a sinfonia foi executada a um ritmo mais rápido e outras a um ritmo mais lento; umas vezes, ela foi tocada por orquestras que integravam um número mais elevado de músicos e outras vezes foi tocada por orquestras que incluíam um número de músicos mais restrito, o que, possivelmente, deu origem a execuções com volumes de som muito distintos. Além desta disparidade no ritmo de execução da mesma composição e na constituição das orquestras que a tocaram, não é inverosímil imaginar que, pelo menos em algumas das apresentações desta sinfonia, ocorreram erros e falhas, isto é, alguns músicos não tocaram as notas que era suposto terem tocado, tendo havido enganos, quer na nota tocada, quer na sua duração. Em todos os casos que enumerámos, todavia, pode-se dizer que (bem ou menos bem) foi executada a 9.ª sinfonia de Beethoven e não uma outra composição qualquer.

Segundo a analogia proposta por Saussure, a 9.ª sinfonia de Beethoven (tomada em abstracto) assemelha-se ao conceito de língua, uma vez que se trata de um sistema susceptível de ser concretizado em cada execução; e cada uma das diferentes execuções da sinfonia assemelha-se ao conceito de fala, pois constitui uma actualização, sempre diferente, sempre única, de um sistema virtual, abstracto. Do mesmo modo, se uma língua é um sistema abstracto, um tesouro de virtualidades, quando um sujeito falante utiliza uma dada língua para comunicar (por exemplo, o português), ele actualiza, concretiza as virtualidades dessa língua.

Mas se a língua pertence ao domínio do abstracto, do virtual, como podem os linguistas estudá-la e descrevê-la de modo empírico? Recorrendo aos dados que são manifestados através da fala. A fala, precisamente porque pertence ao domínio do concreto, do manifesto, é susceptível de ser registada e analisada. Ora, a fala actualiza o sistema que é a língua; então a análise dos dados da fala permite extrair conclusões acerca do sistema de regras e de 35 signos que é a língua, porque a língua subjaz a todos os usos particulares, a todos os dados concretos manifestados na fala. Por outras palavras, a fala é a realidade manifesta que nos permite aceder ao sistema abstracto que é a língua. E assim, se o objecto de estudo da Linguística é a língua, a sua matéria é a fala - entendendo por matéria o material de análise, os dados empíricos que necessitam de ser analisados pelos linguistas para descrever a língua.

Observemos um exemplo que ilustra o acabámos de expor. Atente-se nos enunciados (6) e (7), a partir dos quais procuraremos extrair conclusões acerca da regra de concordância entre o sujeito e a forma verbal. Sublinhe-se que estes enunciados situam-se no plano da fala, uma vez que constituem enunciados concretos produzidos numa situação de comunicação singular: o locutor é o autor deste texto, o espaço é o gabinete que ocupa na Delegação de Coimbra da Universidade Aberta, e o tempo corresponde sensivelmente às 16h15m do dia 2 de Janeiro de 2007.

(6) O gato adormeceu no sofá.

(7) A gata adormeceu no sofá.

Da alteração introduzida no enunciado (7) - substituição de o gato por a gata - não resultou qualquer alteração formal no verbo, pelo que é legítimo concluir que, em português, não há concordância em género entre sujeito e forma verbal.

Veja-se, agora, o enunciado (8).

(8) Eu adormeci no sofá.

A substituição de um sujeito de 3.ª pessoa do singular (o gato, a gata) por um sujeito de 1.ª pessoa do singular (eu) desencadeou uma alteração na forma verbal (adormeceu, adormeci). Logo, podemos concluir que existe concordância em pessoa entre sujeito e forma verbal.

Prossigamos, com a análise dos enunciados (9) e (10).

(9) Os gatos adormeceram no sofá.

(10) As gatas adormeceram no sofá.

A substituição de o gato e a gata por os gatos e as gatas, nos enunciados (9) e (10), carreou uma alteração na forma verbal dos enunciados (6) e (7), que passou a estar flexionada na 3.ª pessoa do plural. E assim, com base nos enunciados (6), (7), (8), (9) e (10) podemos concluir que há concordância em número e em pessoa entre sujeito e forma verbal, mas não em género. Esta regra, que pertence ao domínio abstracto da língua, foi inferida a partir de enunciados concretos, foi deduzida com base em dados facultados pelo domínio concreto da fala.

Com o estabelecimento da dicotomia língua/fala, Saussure delimitou o objecto de estudo próprio da Linguística: a língua. Para este autor, uma ciência deve estudar o que é social e estável e não o que é individual e momentâneo. Logo, a Linguística, enquanto disciplina científica, deverá ter como objecto de análise a língua (o sistema abstracto que subjaz a todos os usos linguísticos) e não os próprios usos linguísticos (sempre individuais e enraizados em situações de enunciação concretas). Segundo esta concepção, a tarefa do linguista é analisar os dados da fala com o objectivo de extrair conclusões que se apliquem à língua. Recorde-se, a propósito, a célebre frase com que se encerra o Curso de linguística geral:

«a Linguística tem por único e verdadeiro objecto a língua encarada em si mesma e por si mesma» (Saussure, 1978: 380).

A concepção segundo a qual o objecto de estudo da Linguística é constituído unicamente pelo conceito saussureano de língua foi superada ao longo da segunda metade do século XX, em particular com o advento da teoria enunciativa de Émile Benveniste e das teorias dos actos de fala de John Austin e de John Searle. As abordagens propostas por estes autores - e outras desenvolvidas com base em pressupostos idênticos - rejeitaram a concepção de sujeito falante idealizado e culturalmente desenraizado que foi preconizada por Saussure ao secundarizar a fala. A partir das propostas de Benveniste, de 37 Austin e de Searle, os linguistas procuraram trazer para o centro das atenções o conceito de fala (parole), assim como o sujeito falante concreto e integrado numa situação de comunicação única, definida por coordenadas de tipo pessoal (quem fala e com quem?), temporal (quando fala?) e espacial (onde fala?). Actualmente, não é polémico afirmar que a Linguística interessa-se quer pela língua, quer pela fala.

Além disso, hoje a Linguística mantém relações estreitas com outras áreas do conhecimento que podem trazer abordagens relevantes para o estudo das línguas naturais, como a Psicologia, a Sociologia, a Inteligência Artificial, etc. O diálogo estabelecido entre a Linguística e cada uma destas três áreas deu origem a novas disciplinas que integram conceitos e métodos próprios de ambas as disciplinas: a Psicolinguística (ou Linguística Cognitiva), a Sociolinguística e a Linguística Computacional.

Deste modo, ao contrário do que era defendido na última frase do Curso de linguística geral - o estudo da língua encarada em si mesma e por si mesma -, a Linguística actual procura estabelecer pontes com outras disciplinas, pelo menos com aquelas cujos pontos de vista, conceitos operatórios e metodologias de análise podem enriquecer o conhecimento que já foi acumulado sobre as línguas naturais.

Há que sublinhar, todavia, a relevância da dicotomia língua/fala, originalmente proposta por Saussure: ela serviu para estabelecer o objecto de estudo de uma nova disciplina científica (que não se confunde com o objecto de nenhuma outra ciência), propiciando e legitimando, consequentemente, a emergência da Linguística como ciência.

2.2. Sincronia/Diacronia

Delimitado o objecto de estudo da Linguística, Saussure reflectiu sobre o facto de ser possível estudá-lo segundo duas perspectivas distintas: ao longo do tempo ou num dado momento. Diacronia é o termo desta dicotomia que diz respeito à perspectiva de estudo de uma língua tendo em consideração as alterações que ela sofre através dos tempos. Sincronia remete para a descrição de uma língua num determinado momento da sua história. Numa perspectiva diacrónica, a Linguística procura fazer a história da língua: ao explicitar as alterações que foram ocorrendo ao longo do tempo, estabelece-se a evolução de uma dada língua. Numa perspectiva sincrónica, a Linguística tem como objectivo descrever o funcionamento de uma língua num dado momento, abstraindo das modificações decorrentes da intervenção do factor tempo, isto é, sem considerar a evolução dessa língua através dos tempos.

Qualquer língua natural pode ser analisada sob estes dois pontos de vista. Se quisermos estudar a evolução do português ao longo dos tempos, procuraremos enumerar as alterações que a nossa língua foi sofrendo. Se pretendermos estudar a gramática do português num determinado momento (por exemplo, no início do século XXI ou o português falado no tempo de Gil Vicente), desenvolveremos o nosso estudo com o objectivo de explicitar as regras de funcionamento da nossa língua num período de tempo muito restrito, sem tomar em consideração as alterações que o português conheceu quer antes, quer, eventualmente, após o momento definido.

Sublinhando a diferença entre estes dois pontos de vista sobre o estudo de uma língua, Saussure opôs, do seguinte modo, linguística diacrónica (ou evolutiva) a linguística sincrónica (ou estática):

«é sincrónico tudo o que se refere ao aspecto estático da nossa ciência, diacrónico tudo o que diz respeito às evoluções. De igual modo, sincronia e diacronia designarão, respectivamente, um estado da língua e uma fase da evolução» (Saussure, 1978: 144).

Para ilustrar estas duas perspectivas de análise do mesmo objecto, o autor propôs uma analogia com o jogo de xadrez (cf. Saussure, 1978: 154-156). No início de um jogo, todas as peças estão dispostas de uma dada forma: há um determinado estado de jogo, estático, definido pelo número de peças existentes, pelos valores dessas peças (a rainha é mais valiosa do que a torre, que é mais valiosa do que o bispo, etc.) e pelos lugares que elas ocupam no tabuleiro. A imagem seguinte mostra o estado de jogo inicial.

Tabuleiro de xadrez com as peças na posição inicial

Após o primeiro movimento, observa-se uma alteração na disposição de uma peça, como se pode ver na imagem seguinte. Estamos perante um novo estado de jogo, distinto do estado de jogo inicial.

Tabuleiro de xadrez depois do primeiro movimento

E, após o segundo movimento, são já duas as peças que alteraram as respectivas posições em relação ao estado de jogo inicial, como se verifica na imagem seguinte.

Tabuleiro de xadrez depois do segundo movimento

Estamos perante um outro estado de jogo, diferente dos dois estados de jogo apresentados nas imagens anteriores. Na verdade, após cada movimento, sucedem-se as alterações nos lugares ocupados pelas peças; uma a uma, vão alterando as suas posições e tendo uma localização diferente da que tinham no início do jogo. Deste modo, pode-se dizer que, depois de qualquer peça ter sido movimentada, existe um novo estado de jogo, diferente do que existia antes dessa jogada.

Vejamos de que modo o jogo de xadrez configura uma boa analogia com as perspectivas sincrónica e diacrónica de análise linguística. Observámos que, no início da partida, existe um estado de jogo caracterizado pelo número de peças e pela sua disposição no tabuleiro. Este estado de jogo é comparável a um estado de língua: também numa determinada sincronia, é possível explicitar os elementos que constituem uma dada língua, e descrever as regras a que eles estão sujeitos de modo a serem combinados para formarem enunciados gramaticais.

Vimos, igualmente, que cada jogada desencadeava uma modificação nesse estado de jogo. No caso de uma língua, cada alteração linguística dá origem a um novo estado de língua, a uma nova sincronia necessariamente diferente da sincronia anterior, pelo menos no que diz respeito ao elemento que 41 sofreu a alteração. Tal como a enumeração de todas as jogadas, do início ao fim do jogo, reflecte a história de uma partida de xadrez, também a listagem de todas as alterações sofridas por uma língua ao longo dos tempos constitui a história dessa língua.

Em suma, por um lado, a história de uma dada partida de xadrez é constituída pelo conjunto de jogadas que ambos os jogadores efectuaram, desde o início até ao final dessa partida. Esta perspectiva, em que o observador tem em consideração todas as alterações ocorridas ao longo da partida, é análoga à perspectiva diacrónica de análise de uma língua.

Por outro lado, em qualquer momento, o jogo pode ser analisado, independentemente do que aconteceu antes e do que vai suceder até ao final. Esta perspectiva, em que o observador se abstrai do que se passou antes e do que vai ocorrer depois, e em que procura apenas descrever um estado de jogo num determinado momento da sua ocorrência (enumerando os elementos que dele fazem parte e explicitando as respectivas posições, assim como as relações que mantêm uns com os outros), é semelhante à perspectiva sincrónica de análise de uma língua.

Para se compreender plenamente a importância desta dicotomia nas reflexões de Saussure, é conveniente salientar que a ciência no século XIX se caracterizou pela primazia das abordagens historicistas. No sentido de ilustrar o predomínio deste tipo de abordagens, recordemos a importância decisiva que tiveram os estudos efectuados por Charles Darwin que deram origem à teoria da evolução das espécies por selecção natural, proposta na sua publicação de 1859 On the origin of species.

Também no estudo das línguas naturais foram privilegiadas as abordagens de natureza histórica. Muitas investigações linguísticas realizadas no período anterior à publicação do Curso de linguística geral procuravam fazer a história das línguas, estabelecer a sua genealogia; situando-se na perspectiva do historiador, essas investigações abordavam a evolução das línguas ao longo do tempo e reconstruíam a sua ascendência6.

Saussure, pelo contrário, defendeu a ideia de que deve ser privilegiada a abordagem sincrónica no estudo das línguas naturais. No âmbito desta perspectiva, o investigador situa-se na posição do sujeito falante e descreve o funcionamento de uma dada língua, a sua gramática.

«Para o sujeito falante a sucessão no tempo é inexistente: ele está perante um estado. Por isso, o linguista que quiser compreender este estado deve fazer tábua rasa de tudo o que o produziu e ignorar a diacronia» (Saussure, 1978: 145).

Segundo este autor, existe uma oposição absoluta entre sincronia e diacronia: estas duas perspectivas de análise linguística são apresentadas como inconciliáveis (cf. Saussure, 1978: 147). A concepção de Saussure, todavia, foi superada ao longo da segunda metade do século XX e, actualmente, é consensual a ideia de que as duas perspectivas se complementam. Por um lado, a perspectiva diacrónica de análise linguística não prescinde da abordagem sincrónica. Por outro lado, uma análise de tipo diacrónico traz contributos importantes para a compreensão de fenómenos explicitados no âmbito da perspectiva sincrónica. Exemplifiquemos.

Num estudo de natureza diacrónica, podemos traçar como objectivo a enumeração das modificações linguísticas que se deram no português ao longo do século XX. Nesse caso, precisamos de conhecer duas sincronias do português: a do início e a do final do século XX. Por outras palavras, teremos de realizar previamente pelo menos dois estudos de carácter sincrónico: um que descreva o estado de língua do português no início do século XX, e um outro que descreva o funcionamento do português no final desse mesmo século. Os resultados da comparação entre essas duas descrições da gramática do português relativas a dois períodos circunscritos constituem um estudo diacrónico da língua portuguesa, uma vez que, ao apontar as modificações sofridas pela nossa língua durante os cem anos em causa, estaremos a explicitar a evolução que se deu no português ao longo do século XX. Comprova-se, assim, que a abordagem diacrónica não prescinde da contribuição da perspectiva sincrónica de análise linguística. A abordagem sincrónica é indispensável à realização de estudos de natureza diacrónica.

Vejamos agora de que modo a abordagem diacrónica pode ser relevante para a descrição da sincronia das línguas naturais. Pensemos na preposição por e na sua combinação com os artigos definidos o(s) e a(s). Como explicar os usos desta combinação que se observam nos enunciados (11), (12) e (13)?

(11) Vagueei por toda a localidade à procura de uma oficina.

(12) Vim pelo caminho que me indicaste.

(13) Juro-te pela minha saúde.

Se a combinação resulta da contracção de por + o/a, como se explica que o resultado final seja pelo e pela (e não, porventura, * poro ou * pora7)? Só recorrendo a estudos diacrónicos sobre a nossa língua se poderá entender como se chegou a esta forma no português actual. Por outras palavras, o conhecimento de fases pretéritas da língua portuguesa, de sincronias anteriores à actual, pode ajudar a esclarecer dúvidas relativas a particularidades ou fenómenos que não conseguimos explicar se tivermos em consideração unicamente a sua gramática actual.

Uma análise diacrónica que dê conta da etimologia desta contracção e das subsequentes evoluções fonéticas que ela sofreu permitirá compreender como, a partir das palavras per + lo se chegou à forma actualmente consagrada na norma do português europeu: pelo. Segundo Paul Teyssier (1993: 67), até ao fim do século XVI,

«as duas preposições per e por reduzem-se a uma única, por, mas em combinação com o artigo definido é pelo que suplanta polo».

A explicação proposta, ainda que escassamente desenvolvida e contextualizada no presente texto, comprova que alguns factos linguísticos 44 atestados numa dada sincronia podem ser devidamente compreendidos se recorrermos a estudos diacrónicos.

Os exemplos apresentados evidenciam que as perspectivas diacrónica e sincrónica de análise das línguas se caracterizam pela complementaridade e não por uma oposição absoluta e inconciliável.

Saussure opôs linguística sincrónica a linguística diacrónica. É importante sublinhar, todavia, que linguística sincrónica e diacrónica não correspondem a duas disciplinas diferentes no âmbito da Linguística, mas a duas perspectivas distintas de abordagem de um mesmo objecto de estudo: as línguas naturais.

A dicotomia sincronia/diacronia constituiu uma reacção deste autor contra o historicismo na reflexão linguística, tendência dominante na ciência ao longo do século XIX. Ele rejeitou a perspectiva diacrónica de análise das línguas e indicou o caminho que a Linguística deveria seguir: o estudo das línguas num dado momento, com o objectivo de dar conta do seu funcionamento, da sua gramática. Também neste sentido, Saussure pode ser considerado o fundador da Linguística moderna, uma vez que a Linguística do século XX foi, predominantemente, uma disciplina que adoptou a perspectiva sincrónica na análise das línguas naturais.

2.3. Significante/Significado

Na secção 1.2. do Capítulo 1 (Tipos de sinais: indícios, símbolos e signos), definimos o signo como um sinal artificial que não apresenta semelhanças com o seu referente. Propomo-nos, agora, aprofundar esta definição e expor outras características do signo linguístico.

Procuraremos, inicialmente, explicitar em que consiste a dicotomia saussureana significante/significado; de seguida, tomá-la-emos como ponto de partida para indicar as propriedades mais relevantes do signo linguístico. Pontualmente, enriqueceremos as reflexões originais de Saussure com contributos posteriores de outros autores, que serão devidamente assinalados.

2.3.1. Carácter biface do signo linguístico

A distinção entre significante e significado, proposta por Saussure, remete para o carácter biface do signo linguístico. Todos os signos linguísticos têm duas faces, isto é, todos são compostos por significante (expressão) e significado (conteúdo).

O significante é a face material, a face fisicamente manifesta do signo linguístico. Na oralidade, o significante corresponde ao som ou sequência de sons que produzimos quando falamos; na escrita, corresponde aos caracteres gráficos que desenhamos quando escrevemos. O significante de um signo é, portanto, a sua expressão fónica (na oralidade) ou gráfica (na escrita).

O significado é a face conceptual, a face não manifesta do signo linguístico: trata-se de um conceito, de uma representação mental que temos armazenada na nossa memória.

No âmbito de uma dada língua, esta representação mental está sistematicamente associada a um dado significante. À sequência de sons [kɑ̃w] (que representamos na escrita pela sequência de grafemas cão) corresponde, na língua portuguesa, um significado que, a título de exemplo, podemos 46 explicitar do seguinte modo: “mamífero doméstico que ladra”8. À sequência de sons [‘mezɑ] (que representamos ortograficamente pelos caracteres mesa) corresponde, na nossa língua, um significado traduzível do seguinte modo: “tampo horizontal apoiado em um ou mais sustentáculos”9. E o mesmo se verifica em relação a qualquer sequência de sons que, produzida no âmbito de uma dada língua, possua um significado. Deste modo, a relação entre significante e significado pode ser concebida do seguinte modo: o significante, manifesto, aponta para o significado, não manifesto.

Esta associação entre significante e significado encontra-se generalizada, ou seja, impõe-se a todos os falantes de língua portuguesa. Se assim não fosse, se cada falante de português pudesse associar, a seu bel-prazer, um determinado significado a um dado significante a comunicação através da linguagem verbal tornar-se-ia inviável10.

As duas faces do signo linguístico são indissociáveis, como as duas faces de uma moeda ou as duas páginas de uma folha de papel. O signo só existe quando a um significante está associado um significado. Um significante sem significado é apenas uma sequência de sons que não veicula qualquer conteúdo; um significado sem significante é um conceito para o qual ainda não se encontrou forma de exprimir; é, por outras palavras, algo indizível.

Originalmente Saussure concebeu o significante como uma imagem acústica de natureza psíquica, e não como uma sequência de sons concreta, 47 que se manifesta fisicamente e que é susceptível de ser captada através da audição. Segundo o autor,

«o signo linguístico une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material, puramente físico, mas a marca psíquica desse som, a sua representação fornecida pelo testemunho dos sentidos» (Saussure, 1978: 122).

Hoje em dia, contudo, é uma ideia consensual entre os linguistas definir significante opondo o seu carácter físico à natureza conceptual do significado. O significante é fisicamente manifestado; o significado é mentalmente representado.

2.3.2. Carácter sonoro (vocal) do signo linguístico

O significante do signo linguístico é constituído por sons que são produzidos pelo aparelho fonador dos sujeitos falantes. O signo linguístico tem, por isso, carácter sonoro11.

Para distinguir as línguas naturais relativamente a formas de comunicação não verbal, não é suficiente dizer que o signo linguístico tem carácter sonoro, uma vez que há sinais sonoros que não se integram na linguagem verbal. As sirenes das ambulâncias e dos carros de polícia ou de viaturas de bombeiros, as buzinas dos automóveis, os apitos dos comboios, os alarmes contra incêndio ou assalto constituem exemplos de sinais sonoros. Mas todos eles são também exemplos de signos não linguísticos.

O signo linguístico tem carácter sonoro, pois comunicamos verbalmente utilizando sons. Mas, mais especificamente, o signo linguístico tem carácter vocal, uma vez que os sons que utilizamos para comunicar verbalmente têm origem nas cordas vocais do seres humanos.

Uma forma de comunicação à base de sons vocalizados tem algumas vantagens importantes relativamente à linguagem gestual, por exemplo:

– deixa as mãos desocupadas, possibilitando a realização de outras tarefas com as mãos enquanto se comunica;

– permite a comunicação entre pessoas que não estão mutuamente visíveis (por exemplo, numa sala à noite quando falta a electricidade); devido a esta propriedade, com o advento do telefone, tornou-se viável a comunicação entre pessoas que não ocupam o mesmo espaço;

– é quase ilimitado o número de combinações de sons possíveis.

2.3.3. Carácter arbitrário do signo linguístico

Vimos atrás que o signo linguístico é composto por significante e por significado. Nesta secção, trataremos da relação arbitrária que existe entre essas duas faces do signo linguístico.

A ligação entre significante e significado é arbitrária, imotivada, no sentido em que a sequência de sons [kɑ̃w] só por convenção está associada ao significado de “mamífero doméstico que ladra”. Não há uma relação natural, de analogia ou semelhança entre a sequência de sons e o conceito que ela representa. A relação arbitrária ou imotivada pode ser demonstrada pela comparação com palavras de outras línguas que têm significados equivalentes: cão (português), perro (espanhol), chien (francês), dog (inglês). Em todos os casos, trata-se de signos cujo significante está associado a um significado susceptível de ser explicitado por “mamífero doméstico que ladra”. Com base nestes exemplos, podemos dizer que significantes diferentes (de línguas também diferentes) apontam para um mesmo significado. Uma vez que exemplos como o que apresentámos poderiam ser exaustivamente listados, podemos concluir que a arbitrariedade é uma propriedade do signo linguístico.

Como propriedade complementar à arbitrariedade do signo linguístico, devemos acrescentar que existe, simultaneamente, uma relação necessária entre significante e significado. A convenção que impõe a associação entre o significante [kɑ̃w] e o significado “mamífero doméstico que ladra”, em português, é generalizada a todos os sujeitos falantes desta língua. Por outras palavras, nenhum falante do português pode associar livremente ao significante [kɑ̃w] o significado de “felino doméstico que mia e ronrona”, por exemplo, ou 49 um outro qualquer, porque se tal acontecesse as línguas naturais não permitiriam a comunicação.

Arbitrariedade não se confunde, por isso, com livre vontade individual: um sujeito falante não pode alterar as associações entre significante e significado segundo a sua vontade. Essas associações são impostas, e cada sujeito falante tem de se subordinar a elas, sob pena de inviabilizar a comunicação com outros sujeitos falantes da mesma língua.

O signo linguístico caracteriza-se, deste modo, pela relação simultaneamente arbitrária e necessária que existe entre significante e significado.

Ao longo do Capítulo 1 (Linguística e Semiótica), definimos o signo como um sinal artificial que não mantém uma relação de analogia com aquilo que denota. Nessa altura, referimo-nos à relação entre o signo como um todo (significante + significado) e o objecto da realidade extralinguística que ele designa. Sublinhámos com uma citação célebre - «a palavra cão não ladra» - a natureza distinta do signo (a palavra cão, situada no plano da realidade linguística) e a do objecto que ele refere (o animal concreto, a quem podemos fazer festas e dar de comer, situado no plano da realidade extralinguística). Há uma relação arbitrária entre qualquer signo (linguístico ou não linguístico) e aquilo que ele designa. Aliás, é justamente essa propriedade que define o signo, por oposição ao símbolo.

Nesta secção, estamos a apontar um segundo nível de arbitrariedade. Trata-se agora de explicitar a relação arbitrária que existe não apenas entre o signo linguístico como um todo (significante + significado) e um objecto da realidade extralinguística que ele designa, mas entre dois elementos internos ao signo linguístico: significante e significado.

Existe uma relação arbitrária e necessária, portanto, a dois níveis diferentes:

– entre significante e significado;

– entre signo linguístico (significante + significado) e referente (objecto da realidade extralinguística).

Para se compreender melhor estes dois níveis de arbitrariedade inerentes ao signo linguístico, é conveniente definir e delimitar os conceitos de significado e referente. É o que nos propomos fazer na secção seguinte.

2.3.4. Os conceitos de Significante, Significado e Referente

Definimos, na secção anterior, o significado como a face conceptual, não manifesta do signo linguístico. O significado de um determinado signo consiste numa representação mental que está armazenada nas mentes dos sujeitos falantes. Trata-se de um conceito e tem, portanto, natureza abstracta. O significado de cão, por exemplo, é um conceito que memorizámos. Não se confunde com o animal concreto e palpável que temos em casa ou que encontramos na rua a vaguear. Esse animal, com existência própria, é o referente da palavra cão.

A citação seguinte, de Inês Sim-Sim (1998: 121), sublinha esta distinção entre o significado (conceito susceptível de ser interiorizado na nossa memória) e o referente (objecto designado):

«conceitos são generalizações, produto da categorização realizada com base na identificação de atributos relevantes partilhados pelas entidades que integram a categoria. A síntese dos atributos é muitas vezes materializada na atribuição de um nome a um conceito. […] As palavras são as ferramentas básicas da linguagem; são [signos] que representam uma realidade. A representação não é a realidade, apenas a representa. E representar é, de algum modo, tornar presente o real… Podemos representar o real de diversas formas, através do desenho, do gesto… ou das palavras. O processo de atribuição de um rótulo à realidade que esse rótulo representa é chamado nomeação, sendo a palavra […] a representação verbal dessa realidade».

Como qualquer sinal, o signo representa a realidade; não é a realidade. Melhor: é uma outra realidade (linguística) distinta da realidade extralinguística.

A distinção entre o sinal que representa um objecto e o próprio objecto foi salientada por René Magritte na pintura que a seguir reproduzimos.

Pintura de Magritte: um cachimbo com a legenda «Ceci n’est pas une pipe»

A frase inserida na pintura de Magritte - «Ceci n’est pas une pipe» (em português, isto não é um cachimbo) - aponta para a diferença de natureza que há entre um dado objecto e a representação que dele é feita. A imagem de um cachimbo não é o objecto cachimbo, mas apenas uma representação desse objecto.

Podemos transpor o mesmo raciocínio para a distinção entre significado e referente: o significado de um signo não é o referente que se pretende representar com esse signo, mas apenas uma representação mental desse referente.

Para sistematizar estas questões, apresentamos a seguir o triângulo da significação, proposto por Ogden e Richards na sua obra The meaning of meaning, originalmente publicada em 1923.

Significado

Significante Referente
Texto da figura
  • Significante Referente

O significante, a face manifesta do signo linguístico, remete directamente para o significado, a face conceptual do signo linguístico. O significado, por sua vez, aponta directamente para um determinado referente. A relação entre significante e referente é representada a tracejado, uma vez que é mediada pelo significado; só indirectamente o significante remete para o referente.

O significante e o significado de um determinado signo são realidades internas à língua: só existem porque também existem línguas naturais. O referente, pelo contrário, é uma realidade externa à língua: existe independentemente de haver um signo que o designa.

Para comprovar esta ideia, bastará pensar que há espécies de animais que habitam em locais de difícil acesso (por exemplo, nas florestas da Amazónia e da ilha do Bornéu) e que ainda são desconhecidas dos seres humanos. Esses animais (isto é, esses referentes) existem, mesmo que, pelo facto de ainda serem desconhecidos para nós, não haja em qualquer língua um signo (significante + significado) que sirva para os designar.

Ilustremos com um exemplo, para melhor se compreender as relações entre significante, significado e referente. Concentremo-nos na palavra cão que ocorre na seguinte frase:

(6) Já levaste o cão à rua hoje?

Como qualquer signo, a palavra cão é composta por um significante e por um significado: o significante [kɑ̃w] aponta para o significado “mamífero doméstico que ladra”. Este significado, por sua vez, aponta para um animal concreto, que pode ser o cão que vive na nossa casa e que diariamente necessita de ser levado à rua, para passear e fazer as suas necessidades fisiológicas.

O significado de cão não deve ser confundido com o animal concreto, isto é, com o seu referente. O significado é um conceito abstracto, armazenado nas nossas mentes, e que se insere no plano da realidade linguística. O referente é um animal que se situa no plano da realidade extralinguística e que tem existência própria, independentemente da designação com que a ele nos referimos. Por isso, é correcto dizer que «a palavra cão não ladra»; já o 53 referente da palavra cão, esse ladra, morde, corre, lambe, brinca, etc. O mesmo raciocínio é válido para qualquer outro signo linguístico de qualquer língua natural.

Retomamos agora o triângulo que atrás apresentámos, e inserimos uma linha a demarcar a fronteira entre o plano da realidade linguística e o plano da realidade extralinguística.

Significado / Plano da realidade / linguística / Plano da realidade / extralinguística / Significante Referente
Texto da figura
  • Significado
  • Plano da realidade
  • linguística
  • Plano da realidade
  • extralinguística
  • Significante Referente

O significante e o significado (as duas faces do signo linguístico) incluem-se no plano da realidade linguística. O referente situa-se no plano da realidade extralinguística.

Propomo-nos evidenciar esta diferença entre significado e referente recorrendo a mais alguns exemplos. Vejamos, em primeiro lugar, como certas construções podem ter significados diferentes embora designem o mesmo referente. Atente-se nos exemplos seguintes, celebrizados por autores como Frege e Husserl, que reflectiram sobre esta questão:

(7) O vencedor de Austerlitz é o vencido de Waterloo.

(8) A estrela da manhã é a estrela da tarde.

No exemplo (7), o vencedor de Austerlitz e o vencido de Waterloo são grupos nominais com significados diferentes que remetem para o mesmo 54 referente12. O significado do grupo nominal o vencedor de Austerlitz pode ser explicitado da seguinte forma: “comandante do exército que venceu a batalha de Austerlitz”. Quanto ao significado do grupo nominal o vencido de Waterloo, ele pode ser explicitado do seguinte modo: “comandante do exército que perdeu a batalha de Waterloo”. Apesar de terem significados distintos, ambos os grupos nominais apontam para um mesmo referente: Napoleão Bonaparte.

No exemplo (8), o significado do grupo nominal a estrela da manhã pode ser explicitado da seguinte forma: “último astro luminoso a tornar-se invisível no firmamento quando amanhece”. Já o significado do grupo nominal a estrela da tarde pode ser explicitado da seguinte forma: “primeiro astro luminoso a ser visível no firmamento quando anoitece”. Também neste caso, apesar de possuírem significados diferentes, os dois grupos nominais remetem para o mesmo referente: o planeta Vénus.

Vejamos agora um outro exemplo, em que um grupo nominal pode designar referentes distintos, dependendo do momento em que é utilizado.

(9) O presidente da república portuguesa visitou a Índia.

O grupo nominal o presidente da república portuguesa tem um significado susceptível de ser explicitado da seguinte forma: “chefe de estado de Portugal”. Se o enunciado (9) foi produzido em Janeiro de 2007, o referente do grupo nominal o presidente da república portuguesa é Cavaco Silva, o homem que, nesse período de tempo, desempenhava o cargo de chefe de estado português e que visitou oficialmente a Índia. Todavia, este mesmo enunciado já foi produzido em 1992, precisamente quando um outro indivíduo que foi presidente da república portuguesa visitou a Índia. Nessa altura, o referente do grupo nominal o presidente da república portuguesa era Mário Soares. Deste 55 modo, o mesmo grupo nominal, utilizado em momentos diferentes, serve para designar referentes distintos.

Muitos outros exemplos com características semelhantes poderiam ser apresentados: o filme que vi ontem, o homem que me atendeu no supermercado, os pronomes pessoais (eu, tu, ele, etc.). Todos estes casos constituem exemplos de palavras ou construções sintácticas que, mantendo um significado constante, podem designar referentes distintos, consoante o momento e o lugar em que falamos, assim como as pessoas envolvidas na situação de comunicação (quem fala, quem ouve e de quem se fala). E todos eles demonstram que significado e referente são realidades distintas13.

2.4. Sintagma/Paradigma

Vimos já que Saussure defendeu a perspectiva sincrónica na análise das línguas, em oposição à abordagem diacrónica. Além disso, o Estruturalismo, movimento teórico em que Saussure se inseria, preconizava que os diferentes elementos de um dado sistema devem ser estudados, não de modo isolado, mas evidenciando as relações que mantêm uns com os outros. Segundo a perspectiva estruturalista de análise, cada elemento do sistema não vale por si só, mas apenas em relação com todos os outros elementos desse mesmo sistema. Dito de outro modo, cada elemento do sistema define-se não pelo que é (positivamente), mas por aquilo que os outros não são (negativamente).

Consequentemente, as relações entre as unidades das línguas naturais são uma questão central para a Linguística, tal como era concebida por este autor. Segundo Saussure (1978: 207),

«num estado de língua tudo se baseia nas relações. Resta saber como é que elas funcionam».

A dicotomia sintagma/paradigma diz respeito aos tipos de relações que existem entre os elementos de qualquer língua natural (por exemplo, fonemas, morfemas, palavras e sintagmas). As relações entre esses elementos podem ser sintagmáticas ou paradigmáticas.

Relações sintagmáticas são as que se observam entre as unidades presentes numa frase. Exemplifiquemos com dois tipos de relações sintagmáticas: a concordância e a ordem das palavras na frase.

A concordância é uma relação de identidade formal que se estabelece entre diversas unidades de uma frase a nível do género, do número, da pessoa e do tempo. Existe uma relação de concordância quando uma propriedade formal de uma dada palavra requer que a forma de uma outra palavra, com que se combina, se adeqúe à primeira. Atente-se na frase seguinte:

(10) A minha filha foi ontem ao cinema.

No exemplo (10), existe concordância a vários níveis entre diferentes unidades que ocorrem na frase. Há concordância em género (feminino) e em número (singular) entre o artigo definido a, o determinante possessivo minha e o substantivo filha. Observa-se também concordância em género (masculino) e em número (singular) entre o artigo definido o (contraído com a preposição a) e o substantivo cinema. Há, igualmente, concordância em número (singular) e em pessoa (3.ª pessoa) entre o substantivo filha e a forma verbal foi. Por fim, verifica-se ainda concordância em tempo entre a forma do verbo ir (flexionada no pretérito perfeito) e o advérbio ontem.

Se alterarmos algum dos elementos que controlam a concordância com outras unidades, estas unidades terão também de ser alteradas. Por exemplo, se em vez do substantivo filha ocorrer filho, todas as unidades que concordam com este substantivo em género (a e minha) terão de ser substituídas por unidades que reponham a relação de concordância a nível do género (o e meu), como se pode observar no enunciado (11).

(11) O meu filho foi ontem ao cinema.

E se o substantivo ocorrer no plural (filhos), então o artigo e o determinante possessivo também terão de ocorrer no plural (os e meus). Porque o predicado concorda em número (e em pessoa) com o sujeito, neste caso também a forma verbal terá de se adaptar a essa alteração (foram), como se verifica em (12).

(12) Os meus filhos foram ontem ao cinema.

Retomemos o exemplo (10) para exemplificar outra relação de natureza sintagmática entre as unidades de uma língua: a ordem das palavras na frase.

(10) A minha filha foi ontem ao cinema.

Se procedermos a alterações na ordenação das palavras na frase, verificamos que algumas ordenações são possíveis e que outras geram frases agramaticais14.

(13) A minha filha ontem foi ao cinema.

(14) Ontem a minha filha foi ao cinema.

(15) * A filha minha foi cinema ao ontem.

(16) * Minha a filha ao foi cinema ontem.

Os exemplos (13) e (14) constituem frases possíveis em português, e os exemplos (15) e (16) são frases agramaticais, sintacticamente incorrectas. A única diferença entre elas reside na ordenação distinta das unidades que as constituem, uma vez que as frases são compostas exactamente pelas mesmas unidades. De facto, os elementos que ocorrem nas frases combinam-se de acordo com regras de co-ocorrência, as quais são distintas de língua para língua.

As relações sintagmáticas (de que a concordância e a ordem das palavras na frase constituem dois exemplos) são, portanto, relações em presença: consistem nas relações entre duas ou mais unidades que ocorrem numa dada frase.

Um sintagma é um grupo de duas ou mais unidades que mantêm entre si uma determinada relação (de concordância ou de ordem, por exemplo) e que formam um conjunto no interior de uma frase. Dizer que as unidades de um sintagma formam um conjunto no interior de uma frase equivale a afirmar que há uma relação entre elas que é mais forte do que a que se observa entre cada uma destas unidades e qualquer outra unidade exterior ao sintagma. Nos exemplos (10), (13) e (14), as unidades do sintagma a minha filha mantêm relações de concordância e de ordem entre si. A relação que as une é, por 59 isso, mais forte do que a relação que o substantivo filha mantém com o substantivo cinema, por exemplo.

Por analogia com a ordenação horizontal dos caracteres (da esquerda para a direita), típica da representação escrita das línguas europeias, diz-se que as relações sintagmáticas são verificáveis num eixo horizontal.

Relações paradigmáticas (ou relações associativas) são as que se observam entre um dado elemento presente numa frase e todos os outros que, não tendo ocorrido nessa frase, o poderiam substituir no mesmo ponto do enunciado15.

Relembremos o exemplo (10) para ilustrar esta definição de relações paradigmáticas.

(10) A minha filha foi ontem ao cinema.

No lugar onde ocorre o substantivo cinema poderia ocorrer uma outra palavra: teatro, circo, parque, jardim, dentista, etc. O exemplo (17) evidencia esta possibilidade de comutar o substantivo cinema por qualquer uma daquelas palavras.

(17) A minha filha foi ontem ao cinema. / teatro / circo / parque / jardim / dentista / etc.
Texto da figura
  • (17) A minha filha foi ontem ao cinema.
  • teatro
  • circo
  • parque
  • jardim
  • dentista
  • etc.

Todas as palavras listadas verticalmente no exemplo (17) podem ocorrer na posição em que surge a palavra cinema; mas só uma ocorre de facto quando o enunciado é produzido.

Outras substituições noutras posições do enunciado são possíveis. Em vez do determinante possessivo minha, poderíamos usar os determinantes tua, sua, nossa e vossa, como se comprova no exemplo (18).

(18) A minha filha foi ontem ao cinema. / tua / sua / nossa / vossa
Texto da figura
  • (18) A minha filha foi ontem ao cinema.
  • tua
  • sua
  • nossa
  • vossa

Além disso, no ponto da frase em que ocorre o advérbio ontem poderíamos colocar um outro advérbio ou uma construção sintáctica com a mesma função localizadora (no pretérito) deste advérbio de tempo: anteontem, no dia 15, à tarde, na semana passada, etc.

(19) A minha filha foi ontem ao cinema. / anteontem / no dia 15 / à tarde / na semana passada / etc.
Texto da figura
  • (19) A minha filha foi ontem ao cinema.
  • anteontem
  • no dia 15
  • à tarde
  • na semana passada
  • etc.

No exemplo (19), não nos restringimos à substituição de uma palavra por outra. Incluímos, entre as unidades passíveis de comutar com o advérbio ontem, construções sintácticas (nomeadamente sintagmas) que desempenham a mesma função dos advérbios de tempo: os adverbiais temporais no dia 15, à tarde e na semana passada.

Em todos os exemplos apresentados, apesar das diversas substituições propostas, continuamos perante frases gramaticais, sintacticamente correctas. As relações paradigmáticas são, portanto, relações de oposição entre uma unidade que ocorre num enunciado e todas as outras que poderiam estar nesse mesmo lugar, porque nessa posição relativa só uma unidade pode ocorrer.

Ao conjunto de unidades substituíveis entre si na mesma posição relativa de uma determinada frase chamamos paradigma. Por outras palavras, um paradigma consiste num inventário, num conjunto de escolhas possíveis.

Os paradigmas podem ser abertos ou fechados, consoante sejam grupos com um número ilimitado de unidades ou grupos com um número restrito de unidades que podem ocorrer num dado ponto do enunciado.

No exemplo (17), não listámos todas as unidades que podem substituir a palavra cinema. Na verdade, muitas outras unidades podem ocupar essa posição relativa. Trata-se, neste caso, de um paradigma que constitui um conjunto aberto de unidades.

Já no exemplo (18), enumerámos todos os determinantes possessivos que poderiam ocorrer naquela frase e naquela posição relativa. Dado que esse grupo é composto por um número finito de unidades, estamos perante um paradigma que configura um conjunto fechado de unidades: o conjunto dos pronomes pessoais possessivos (no caso concreto, desempenhando a função de determinante).

No exemplo (19), incluímos não apenas palavras isoladas mas também grupos de palavras, sintagmas. Deste modo, trata-se também de um paradigma aberto, uma vez que poderíamos inserir naquela posição relativa um conjunto (potencialmente) ilimitado de unidades, quer sejam advérbios de tempo, quer sejam adverbiais temporais - a única restrição é que concordem com o valor temporal de pretérito da forma verbal.

Assim, os paradigmas não dizem respeito unicamente a palavras isoladas, mas a unidades com diferentes configurações: fonética e fonológica (os fones16 e os fonemas17), morfológica (os morfemas18), sintáctica e sintagmática (as palavras e os sintagmas).

Ilustremos, com o exemplo (20), no qual abrimos um paradigma relativo a morfemas que constituem sufixos verbais de modo-tempo e de pessoa-número.

(20) À terça-feira, almoç o na cantina. / as / a / amos / ais / am
Texto da figura
  • (20) À terça-feira, almoç o na cantina.
  • as
  • a
  • amos
  • ais
  • am

Neste caso, o paradigma integra todos os sufixos de modo-tempo e de pessoa-número do presente do indicativo dos verbos regulares da 1.ª conjugação.

Nos exemplos (21) e (22), abrimos paradigmas de fonemas, isto é, de unidades sonoras constitutivas do significante de uma palavra. Em (21), trata-se de um paradigma de sons consonânticos e, em (22), estamos perante um paradigma de sons vocálicos. Sublinhe-se que, no caso da palavra chato, duas letras (⟨ch⟩19) representam um único som consonântico.

(21) b ato / c / ch / d / f / g / l / m / n / p / r / t
Texto da figura
  • (21) b ato
  • c
  • ch
  • d
  • f
  • g
  • l
  • m
  • n
  • p
  • r
  • t

Esta esquematização indica que existe em português um conjunto de palavras que se distinguem, a nível do significante, apenas pelo som consonântico inicial: bato, cato, chato, dato, fato, gato, mato, nato, pato e rato. Em rigor, e porque estamos a considerar o significante destas palavras unicamente na oralidade (e não na sua representação escrita), outros três exemplos devem ser acrescentados a estes: cacto, jacto e tacto20. Tal como as outras que listámos, também estas três palavras diferem de bato apenas na consoante inicial. O facto de, na sua ortografia, integrarem mais uma letra não é relevante para o caso, porque, em português europeu, a letra ⟨c⟩, nas palavras em questão, não representa qualquer som.

Vejamos agora o exemplo (22).

(22) M a l / e / i
Texto da figura
  • (22) M a l
  • e
  • i

É o som vocálico que permite distinguir o significante das palavras mal, mel e mil. Em português, estas três vogais são as únicas que podem ocorrer 64 naquele contexto: após a consoante inicial graficamente representada por ⟨m⟩ e antes da consoante final representada por ⟨l⟩.

Os exemplos (21) e (22) evidenciam casos de paradigmas fechados, uma vez que, além das que apresentámos, não há outras unidades que possam ocorrer naquela posição relativa.

As unidades que fazem parte de um paradigma não podem ser utilizadas simultaneamente no mesmo ponto do enunciado; apenas uma pode ocorrer nessa posição relativa. O conceito de paradigma está, portanto, relacionado com a noção de escolha de uma unidade entre um conjunto (mais numeroso ou mais restrito) de unidades possíveis. Como se trata de relações entre um elemento que ocorre numa frase e todos os outros que, não integrando essa frase, o poderiam substituir na mesma posição relativa, um paradigma evidencia relações em ausência entre as unidades que o constituem. Estas relações são observáveis num eixo vertical, como evidenciam os exemplos (17) a (22).

Actividades

1. Entre as citações seguintes, indique as que reflectem uma perspectiva sincrónica de análise linguística e as que reflectem um ponto de vista diacrónico. Explicite as razões que justificam a sua escolha.

a) «O léxico do Português Moderno, acompanhando a evolução científica e técnica, tem-se enriquecido com empréstimos do Francês (táxi, chofer, hotel, boné), do Italiano (piano, sonata), ou do Inglês (líder, pudim, repórter, stresse), não deixando, embora, de continuar a recorrer ao Grego e ao Latim (automóvel, televisão, vídeo)»21.

b) «Os tempos compostos são construídos com o auxiliar ter e o particípio passado do verbo principal. Se compararmos com os tempos simples, verificamos que o auxiliar não pode ocorrer senão em alguns tempos gramaticais, sendo portanto defectivo quanto ao Pretérito Perfeito, contrariamente ao que acontece em outras línguas»22.

c) «No português europeu normal, [ɐ], quando tónico, […] aparece, na maioria dos casos, antes de consoante nasal, a exemplo de cama, cana e sanha. Mas nessa mesma situação tónica existe uma oposição de pequeno rendimento entre [a] e [ɐ]. É a que se observa, nos verbos da 1.ª conjugação, entre as primeiras pessoas do plural do presente (ex.: amamos [ɐ‘mɐmuʃ]) e do pretérito perfeito do indicativo (ex.: amámos [ɐ‘mamuʃ])»23.

d) «A consoante nasal [n], [em posição intervocálica], começa por nasalar a vogal que a precede e depois deixa de ser articulada: assim, a palavra LANA passa sucessivamente a lãna, lãa e lã»24.

2. Apresente três características do signo linguístico.

3. Abra um paradigma de consoantes com base na palavra cão, e indique todas as palavras do português que encontrou.

4. Atente na frase seguinte:

Comprei dois livros.

a) Substitua a palavra sublinhada na frase por cinco outras que poderiam ocorrer na mesma posição relativa sem provocar agramaticalidade, e explicite o paradigma que obteve.

b) Indique se se trata de uma paradigma aberto ou fechado. Justifique.

Referências bibliográficas

a) Leitura obrigatória

SAUSSURE, Ferdinand de (1978 1916), Curso de linguística geral (trad.), 4.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, cap. 3 da Introdução (p. 32-46); caps. 1 e 3 da Primeira Parte (p. 121-128; 141-158); cap. 5 da Segunda Parte (p. 207-213).

b) Leitura complementar

MATEUS, Maria Helena Mira, e Alina VILLALVA (2006), O essencial sobre linguística (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), Lisboa, Caminho, p. 39-48.

c) Obras citadas ou referidas

AKMAJIAN, Adrian, et alii (1995), Linguistics. An introduction to language and communication, 4th ed., Cambridge/London, The MIT Press.

FROMKIN, Victoria, e Robert RODMAN (1993), Introdução à linguagem (trad.), Coimbra, Livraria Almedina.

MATEUS, Maria Helena Mira, e Alina VILLALVA (2006), O essencial sobre linguística (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), Lisboa, Caminho.

SAUSSURE, Ferdinand de (1978 1916), Curso de linguística geral (trad.), 4.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote.

SIM-SIM, Inês (1998), Desenvolvimento da linguagem, Lisboa, Universidade Aberta.

TEYSSIER, Paul (1993), História da língua portuguesa (trad.), Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora.

Notas

  1. Árvores genealógicas das línguas naturais “descendentes” do Indo-Europeu são apresentadas nas seguintes obras: Mateus e Villalva (2006: 77); Akmajian et alii (1995: 311); Fromkin e Rodman (1993: 332).
    ↩
  2. O asterisco que antecede estas formas indica que se trata de palavras não existentes em português. Sublinhe-se que o asterisco serve também para indicar a agramaticalidade (isto é, incorrecção gramatical) de uma frase.
    ↩
  3. O significado de cão pode ser explicitado de inúmeras outras formas, desde que descrevam o animal em causa de modo não ambíguo.
    ↩
  4. A explicitação destes significados tem subjacente uma concepção positiva (e não diferencial) do significado. Saussure, todavia, concebeu o significado linguístico de modo diferencial. A sua posição decorre do quadro teórico do Estruturalismo, em que o autor se inseria. Segundo a abordagem preconizada pelo Estruturalismo, cada elemento de um dado sistema mantém relações com todos os outros elementos desse mesmo sistema; deve, por isso, ser definido negativamente: cada elemento é aquilo que os outros não são. Transpondo esta concepção para o significado das unidades linguísticas, Saussure defendeu a ideia de que o significado do signo linguístico deve ser explicitado de modo negativo. Para este autor, o «conteúdo [da palavra] só fica verdadeiramente determinado pelo concurso do que existe fora dela. […] No interior duma mesma língua, todas as palavras que exprimem ideias vizinhas limitam-se reciprocamente» (Saussure, 1978: 196). Por exemplo, inserindo-se no sistema de unidades linguísticas que designam animais domésticos, o significado da palavra cão corresponde a “animal que não é gato, nem galo, nem coelho, etc.”; do mesmo modo, o significado da palavra mesa deverá ser delimitado pelo significado de outras peças de mobiliário, podendo ser definido como uma “mobília que não é nem cadeira, nem sofá, nem armário, etc.”.
    ↩
  5. Cf. adiante a secção 2.3.3. (Carácter arbitrário do signo linguístico).
    ↩
  6. Recorde-se que a oralidade configura o uso primário das línguas naturais. O signo linguístico tem, portanto, carácter sonoro, mais especificamente, carácter vocal.
    ↩
  7. Como determinamos que os dois grupos nominais têm significados diferentes? Compare-se o exemplo (7) com o enunciado seguinte: O vencedor de Austerlitz é o vencedor de Austerlitz. Esta frase não é informativa; é uma tautologia, porque não traz nenhuma informação acrescida. Já a frase (7) é informativa, pois pode transmitir ao alocutário um conteúdo que ele desconhecia: que o comandante do exército que venceu uma dada batalha (Austerlitz) foi o mesmo comandante que perdeu uma outra batalha (Waterloo). Ora, se a frase (7) é informativa, então os grupos nominais que ela integra não são sinónimos, ou seja, não têm o mesmo significado.
    ↩
  8. Significado e referente são também susceptíveis de serem designados por intensão e extensão, respectivamente. Em inglês, meaning e referent são, igualmente, designações comuns para estes conceitos.
    ↩
  9. As frases agramaticais, isto é, as frases sintacticamente incorrectas, são assinaladas com um asterisco.
    ↩
  10. Esta definição reflecte apenas parcialmente o conceito saussureano de paradigma. As relações paradigmáticas, segundo Saussure, são as que se observam entre um dado termo e todos os que, não ocorrendo no enunciado, se lhe podem associar numa série mnemónica virtual. Cf. Saussure (1978: 211): «em ausente, ausência, ausentar, etc., há um elemento comum a todos os termos, o radical; mas a palavra ausente pode-se encontrar implicada numa série com outro elemento, o sufixo (cf. ausente, presente, clemente, etc.); a associação pode assentar também na simples analogia dos significados (ausente, distante, afastado, etc.) ou, pelo contrário, na semelhança das imagens acústicas (por exemplo, tangente, justamente)». Nestes exemplos apresentados, a palavra ausente constitui, portanto, o centro de um conjunto de outras palavras que, por associação mental, podem relacionar-se com a primeira. A associação mental pode basear-se quer no significante das palavras, quer no seu significado, quer ainda em elementos constituintes das palavras (o radical, o sufixo, etc.). Ver Saussure (1978: 211-213).
    ↩
  11. Ver Capítulo 4 - Fonética.
    ↩
  12. Ver Capítulo 5 - Fonologia e Prosódia.
    ↩
  13. Ver Capítulo 6 - Morfologia.
    ↩
  14. Para representar letras ou grafemas, convencionou-se colocar os caracteres entre ângulos ⟨ ⟩.
    ↩
  15. O par cato e cacto, assim como o par tato e tacto, constituem, na norma do português europeu, palavras homófonas, ou seja, palavras com um significante oral igual, mas com significantes gráficos diferentes e com significados também diferentes.
    ↩
  16. CARDEIRA, Esperança (2006), O essencial sobre a história do português, Lisboa, Caminho, p. 78.
    ↩
  17. MATEUS, Maria Helena Mira, et alii (2003), Gramática da língua portuguesa (5.ª ed.), Lisboa, Caminho, p. 159.
    ↩
  18. CUNHA Celso, e Lindley CINTRA (1988), Nova gramática do português contemporâneo (5.ª ed.), Lisboa, Edições João Sá da Costa, p. 37.
    ↩
  19. CASTRO, Ivo (2006), Introdução à história do português, 2.ª edição revista e muito ampliada, Lisboa, Edições Colibri, p. 75.
    ↩
68
Capítulo 3

Chomsky e a gramática formal e sintagmática

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• reconhecer a importância dos contributos de Chomsky para a evolução da Linguística contemporânea;

• definir os conceitos de competência e desempenho;

• distinguir gramática descritiva de gramática prescritiva (ou normativa);

• identificar a relevância do conceito de criatividade na concepção de gramática de Chomsky;

• definir os conceitos de gramaticalidade e de aceitabilidade;

• compreender o carácter formal e sintagmático da análise em constituintes imediatos proposta por Chomsky.

Introdução

Propomo-nos apresentar algumas reflexões acerca da importância da teorização de Chomsky para a Linguística contemporânea. O pensamento deste autor evoluiu muito desde as suas primeiras propostas, e não constitui nosso objectivo fazer uma resenha desses desenvolvimentos. Pretendemos, antes, tentar mostrar como a sua teorização é incontornável para a Linguística, explicitando alguns dos seus conceitos centrais, como a noção de competência, a noção de gramaticalidade e a sua concepção de gramática formal e sintagmática.

3.1. Competência e desempenho

A capacidade de linguagem verbal, que é inerente ao ser humano, permite distingui-lo claramente dos restantes animais. Apesar de haver animais que possuem as suas formas de comunicação, as suas “linguagens” (as abelhas e os golfinhos, por exemplo), a faculdade de linguagem verbal, com toda a riqueza e sofisticação que a caracterizam, é específica do homem. Ela serve de suporte ao pensamento, mas é também usada para interagir com outros sujeitos falantes (dar ordens, aconselhar, pedir, asserir, prometer são alguns exemplos de actos que todos os dias realizamos através da linguagem) e até com finalidades de natureza estética e lúdica, não estando, portanto, confinada exclusivamente à função de comunicação no seu sentido mais restrito.

A incomensurável diferença entre a linguagem verbal e outras linguagens usadas por animais, em termos de complexidade de funcionamento e de diversidade dos conteúdos susceptíveis de serem comunicados, entre outros aspectos, levou o filósofo inglês Bertrand Russell a escrever o seguinte: «por muito eloquente que seja o ladrar de um cão, ele nunca nos poderá dizer que os seus pais eram pobres mas honestos».

Os seres humanos nascem já com mecanismos específicos que possibilitam a aquisição da linguagem verbal. Qualquer criança, desde que exposta a um ambiente em que se fala uma dada língua, adquire essa língua como língua materna. Um filho de falantes nativos de português, se crescer em ambiente onde só ouve falar francês, por exemplo, adquire o francês (e não o português) como língua materna. Quer isto dizer que uma criança tem um mecanismo de aquisição da linguagem verbal (que é universal porque comum a todos os seres humanos) e que, em contacto com uma língua particular nos seus primeiros anos de vida, adquire essa língua como língua materna. Dito de outro modo, a criança adquire competência para comunicar usando uma determinada língua natural.

O conceito de competência foi proposto por Chomsky na sequência da dicotomia saussureana língua-fala. É possível estabelecer uma distinção entre 72 o conhecimento intuitivo que cada sujeito falante tem da sua língua materna (competence ou competência) e a utilização que faz dela (performance ou desempenho). A competência diz respeito ao conhecimento linguístico interiorizado que o sujeito falante possui de uma dada língua natural, e o desempenho ao uso efectivo dessa língua enraizado em situações concretas, ou seja, perante outros sujeitos falantes, num tempo e num espaço determinados. Esta distinção corresponde à diferença entre o que um indivíduo sabe sobre uma dada língua natural (competência) e o que ele faz com essa mesma língua (desempenho).

Existe uma distinção conceptual importante entre o conceito de língua segundo Saussure e o de competência segundo Chomsky: tal como foi perspectivada por Saussure, a língua consiste basicamente num conjunto de unidades depositadas na mente dos sujeitos falantes; já o conceito de competência implica a propriedade da linguagem conhecida como criatividade25. À passividade inerente ao conceito de língua segundo Saussure, Chomsky contrapôs a dinâmica que caracteriza a competência dos sujeitos falantes.

Por criatividade, entende-se a capacidade de um sujeito falante produzir e compreender enunciados que nunca ouviu anteriormente. Essa capacidade funda-se no conhecimento de um conjunto de elementos e de regras de uma dada língua. Ou seja, quando falamos, não nos limitamos a reproduzir frases que já ouvimos, repetindo-as numa outra situação (como certos papagaios conseguem fazer); estamos constantemente a criar novas frases a partir de palavras e de regras que conhecemos26.

Retomamos o exemplo (3) para evidenciar que, com base num conjunto de palavras que qualquer falante nativo do português reconhece, é possível gerar uma frase (provavelmente) nunca antes lida ou ouvida (entenda-se, com as palavras dispostas exactamente desta maneira).

(3) A Catarina tem muita vergonha dos colegas da escola e, por isso, não quer que lhe cantem os “parabéns” quando fizer anos.

Deste modo, o conceito de competência, segundo Chomsky, tem inscrita a possibilidade de o sujeito falante gerar um número potencialmente infinito de frases a partir de um número finito de signos e de regras de combinação desses signos.

Porque é que esta distinção subtil entre língua e competência é relevante para o estudo das línguas naturais? Porque as propostas teórico-metodológicas de Chomsky se enraízam na propriedade da criatividade. Segundo este autor, a gramática deve explicitar o conhecimento linguístico implícito que os sujeitos falantes têm da sua língua (o português, por exemplo). Ora, se os sujeitos falantes geram, com base num conjunto finito de signos e de regras que têm disponíveis na sua memória, um conjunto infinito de frases, então o objectivo de uma gramática adequada deve consistir em explicitar, em enumerar esse conjunto finito de signos e de regras.

Sendo uma gramática um modelo da competência dos sujeitos falantes, a noção de criatividade está, portanto, inscrita na própria concepção de gramática.

3.2. Gramática descritiva e gramática prescritiva

Sublinhe-se que a palavra “gramática” recobre várias acepções, de que vamos sublinhar duas. Numa perspectiva tradicional, a gramática é vista como a enumeração de um conjunto de regras que serve para prescrever o uso correcto e adequado de uma língua. As gramáticas de tipo prescritivo (ou normativo) têm como objectivo estabelecer o que se deve dizer/escrever, segundo uma fórmula do tipo “deve dizer-se assim, e não de outra maneira”. Mas esta não é uma forma científica de perspectivar os factos linguísticos. Nenhuma disciplina científica tem como objectivo enumerar um conjunto de prescrições relativamente ao seu objecto de estudo; pelo contrário, as diferentes áreas científicas pretendem descrever um determinado objecto.

Deste modo, na concepção de Chomsky, sob um ponto de vista científico, que é o que subjaz à Linguística, a gramática deve ser concebida como a descrição do funcionamento de uma dada língua, isto é, como a enumeração das regras (em número finito) que permitem gerar um número infinito de frases no âmbito dessa mesma língua. Por outras palavras ainda, a gramática deve explicitar a competência dos sujeitos falantes de uma determinada língua natural.

É necessário salientar, contudo, que uma concepção prescritiva do funcionamento da língua faz sentido em determinados contextos, como no ensino, ou na elaboração de documentos oficiais, ou ainda na linguagem dos meios de comunicação social.

O objectivo do linguista, todavia, consiste em descrever os modos como os falantes usam uma língua e não os modos como eles deveriam usar essa mesma língua. Por outras palavras, ao linguista cabe descobrir e explicitar as regras de uma língua, e não fazê-las ou impô-las.

A noção de regra das gramáticas prescritivas (a imposição de certos usos linguísticos aos sujeitos falantes) é, portanto, bem diferente da noção de regra em Linguística e nas gramáticas descritivas (a descrição dos usos linguísticos dos sujeitos falantes).

Não é relevante, neste ponto da exposição, desenvolver uma reflexão sistemática sobre as diversas teorizações de Chomsky e a evolução do seu pensamento (desde a teoria padrão à teoria padrão alargada, à hipótese lexicalista, etc.). Todavia, justifica-se exemplificar de que modo ele se propôs explicitar o conjunto finito de regras que permite gerar um número infinito de frases. É o que procuraremos fazer a seguir.

3.3. Gramaticalidade e aceitabilidade

Uma gramática adequada deve, então, explicitar como é possível, com base num conjunto finito de regras e de signos, os sujeitos falantes de uma língua gerarem um conjunto infinito de frases. Colocada a questão nestes termos, não é de estranhar que a Sintaxe ocupe um lugar central nas teorizações de Chomsky, uma vez que esta disciplina trata dos modos como se combinam as unidades linguísticas para construir uma frase.

Sublinhe-se que uma gramática adequada não só deve dar conta de como se formam as frases gramaticalmente correctas de uma dada língua, mas também prever as frases gramaticalmente incorrectas. As regras que esta gramática explicita devem, portanto, permitir efectuar previsões acerca da gramaticalidade das frases que podem ser geradas no âmbito de uma língua.

O conceito de gramaticalidade não deve ser confundido com o conceito de aceitabilidade. A gramaticalidade diz respeito às combinatórias possíveis entre os elementos que constituem as frases. Em português, a frase (23) é gramatical, mas a frase (24) não o é, apesar de ambas serem constituídas pelas mesmas unidades.

(23) A Rita teve um filho em Fevereiro.

(24) * Rita a filho um teve Fevereiro em.

A ordem das palavras na frase (24) não respeita as regras de combinação dos constituintes próprias do português. É, por isso, uma frase agramatical, ou seja, incorrecta do ponto de vista sintáctico.

O conceito de gramaticalidade constitui, portanto, uma noção sintáctica, uma vez que decorre das combinações e das ordenações possíveis das palavras nas frases.

Por vezes, acontece que uma frase agramatical (uma frase sintacticamente incorrecta) é aceitável num dado contexto. Não é invulgar ouvirmos frases como a seguinte:

(25) * A gente vamos ao Porto no sábado.

A ausência de concordância adequada entre o sujeito a gente (de 3.ª pessoa do singular) e a forma verbal vamos (de 1.ª pessoa do plural) torna esta frase agramatical. E, contudo, em determinadas situações, ela pode ser aceitável, nomeadamente, entre sujeitos falantes que, no uso que fazem da língua portuguesa, não estabelecem aquela concordância.

Estes exemplos ilustram o facto de gramaticalidade e aceitabilidade serem conceitos que se situam em planos diferentes: o conceito de gramaticalidade situa-se no plano sintáctico, porque tem que ver com as combinatórias possíveis entre as palavras numa frase; o conceito de aceitabilidade situa-se no plano semântico-pragmático, porque tem que ver com o grau de aceitação que uma frase tem numa dada situação (tendo em conta quem fala e quem ouve, onde e quando se fala, o tema sobre o qual se fala, o maior ou menor grau de formalidade que caracteriza a situação, etc.).

Na concepção de Chomsky, o conceito de gramaticalidade é central para se elaborar uma explicitação adequada da competência dos sujeitos falantes, para sistematizar as regras do funcionamento (isto é, a gramática) de uma dada língua.

3.4. Regras sintagmáticas (ou regras de reescrita)

Definido o conceito de gramaticalidade, vejamos agora como Chomsky se propôs elaborar as regras da gramática por ele concebida. Comecemos por apresentar uma frase e, de seguida, representar esquematicamente a estrutura sintáctica que lhe subjaz, explicitando os seus constituintes e o modo como se apresentam combinados.

(26) A Rita teve um filho.

O diagrama seguinte – um indicador sintagmático, também conhecido por diagrama em árvore invertida – representa a estrutura sintáctica subjacente à frase (26) e explicita as categorias27 dos constituintes que a integram.

F / SN SV / Det N V SN / Det N / A Rita teve um filho
Texto da figura
  • F
  • SN SV
  • Det N V SN
  • Det N
  • A Rita teve um filho

A frase (F) é composta por um sintagma nominal (SN) e por um sintagma verbal (SV)28. O SN, por sua vez, integra um determinante (Det) e um nome (N), enquanto o SV inclui um verbo (V) e um sintagma nominal (SN). Este SN, por fim, é também constituído por um determinante (Det) e por um nome (N)29.

Uma forma de explicitar as regras sintagmáticas que possibilitam a construção desta frase com esta estrutura é a seguinte:

a) F → SN + SV

b) SN → Det + N

c) SV → V + SN

As regras sintagmáticas (ou regras de reescrita) são instruções que explicitam os modos como os constituintes das frases podem ser combinados para que sejam geradas frases gramaticais. São frequentemente regras de ramificação, na medida em que permitem desdobrar um sintagma nos diversos elementos que o compõem30.

As regras sintagmáticas a), b) e c) devem ser lidas do seguinte modo:

a) F reescreve-se SN + SV;

b) SN reescreve-se Det + N;

c) SV reescreve-se V + SN (e este SN, segundo a regra b), reescreve-se Det + N).

São estas as regras sintagmáticas que permitem a construção da frase (26). Mas elas permitem a construção de inúmeras outras frases com a mesma estrutura sintáctica. Veja-se as frases (27), (28) e (29).

(27) O António comprou um livro.

(28) Aquele cão encontrou o dono.

(29) A Ana viu o filme.

O poder explicativo de uma gramática deste tipo fica evidenciado pelo facto de, com base num número restrito de regras (apenas 3), ser possível gerar um número muito elevado de frases.

Exemplifiquemos com a frase (27). Também neste caso, a frase F é constituída por um SN (o António) e por um SV (comprou um livro). O SN é constituído por um Det (o) e por um nome (António). O SV é constituído por um V (comprou) e por outro SN (um livro), que, por sua vez, é constituído por um Det (um) e por um N (livro). A mesma análise se pode aplicar às frases (28) e (29).

Porque se trata de uma análise em que se vai sucessivamente decompondo a totalidade da frase em constituintes menores, designa-se por análise em constituintes imediatos. Este tipo de análise procura, então, fornecer uma descrição dos diferentes tipos de constituintes (classes sintácticas e classes sintagmáticas) em que as frases se podem decompor.

Os constituintes imediatos de F são, em todas as frases indicadas, o SN e o SV. Os constituintes imediatos de cada um dos SN são o Det e o N. Os constituintes imediatos do SV são o V e um outro SN. Mas o Det o (em o António) não é um constituinte imediato de F, uma vez que não depende directamente desse nó, mas do nó SN; logo este Det é constituinte imediato de SN, mas não de F.

Voltemos às regras a), b) e c). Dissemos que as regras sintagmáticas devem permitir a construção de frases gramaticais, e só dessas. Mas as regras que apresentámos permitem construir frases agramaticais, como (30) e (31).

(30) * O João adoeceu a casa.

(31) * O gato comeu o leite.

Tal como vimos com os exemplos (26) - (29), a frase (30) é composta por um SN (o João) e por um SV (adoeceu a casa), e o mesmo se verifica na frase (31). Por que razão as frases (26) - (29) são gramaticais e as frases (30) - (31) não o são?

Em (30), o verbo adoecer é intransitivo, ou seja, não exige a comparência de qualquer outro constituinte que com ele co-ocorra, pelo que o SV de que esse verbo constitui o núcleo pode ser preenchido unicamente por V31. Em (31), há uma incompatibilidade semântica entre o verbo comer (aplicável a alimentos sólidos) e o carácter líquido do alimento leite.

Estes exemplos mostram que as regras inicialmente estabelecidas não são suficientes para prever todas as frases gramaticais possíveis em português, e só essas. É necessário, por isso, reformular as regras de modo a que elas sejam aplicáveis também às frases (30) e (31).

Uma solução possível para superar a dificuldade atestada na frase (30) é estabelecer, na regra sintagmática c), o carácter facultativo da ocorrência de um SN dependente de SV, como propomos em c’):

c’) SV → V (+ SN)

O SN colocado entre parênteses pretende significar que esse constituinte é facultativo no SV, enquanto o V é um constituinte obrigatório. A regra assim reelaborada prevê, então, que o SV seja constituído obrigatoriamente por um V e, facultativamente, também por um SN. Estabelecida deste modo, a regra c’) permite gerar quer as frases (22), (27), (28) e (29) (que integram verbos transitivos), quer a frase (30) (que inclui um verbo intransitivo).

O obstáculo colocado pela frase (31) é de natureza diferente, uma vez que diz respeito à informação semântica (e não apenas sintáctica) de cada 82 palavra. O verbo comer combina-se com constituintes que referem alimentos sólidos, e o nome leite carreia, no seu significado, uma informação de alimento líquido.

Uma solução para este problema requer que se recorra ao significado das palavras e que se estabeleçam restrições de co-ocorrência, tais como o verbo comer poder ocorrer com alimentos no estado sólido (como bife, bolachas ou legumes), mas não com alimentos no estado líquido (como leite, água ou vinho); o inverso é válido para o verbo beber. Essas restrições de co-ocorrência decorrem, portanto, já não de questões de natureza unicamente sintáctica, mas também da informação semântica inerente a cada palavra.

Porque recai fora do âmbito do que pretendemos demonstrar com estas breves reflexões (nomeadamente o processo de elaboração e reformulação das regras sintagmáticas), não se justifica desenvolver este ponto. O que é importante destacar neste processo é que, sempre que se verifica que uma dada regra não permite prever todas as frases gramaticais ou que possibilita que se gerem frases agramaticais, torna-se necessário reformular a regra de modo a adequá-la aos usos linguísticos.

É relevante sublinhar que as regras sintagmáticas se caracterizam pela recursividade, isto é, pela possibilidade de se reaplicarem um número indeterminado de vezes, podendo gerar frases infinitamente longas (e de difícil compreensão). Atente-se na frase (32):

(32) A tia do primo do sobrinho do irmão da avó da Joana saiu.

Nesta frase, o SN constituinte imediato de F (A tia do primo do sobrinho do irmão da avó da Joana) decompõe-se em

Det (a) + N (tia) + SPrep (do primo do sobrinho do irmão da avó da Joana).

Este SPrep, por sua vez, é constituído por

Prep (de) + SN (o primo do sobrinho do irmão da avó da Joana).

Por seu turno, este SN é composto por

Det (o) + N (primo) + SPrep (do sobrinho do irmão da avó da Joana).

E assim sucessivamente. Com base neste exemplo, podemos estabelecer as seguintes novas regras sintagmáticas:

d) SN → Det + N (+ SPrep)

e) SPrep → Prep + SN

A propriedade de recursividade é evidenciada pelo facto de o SN se poder ramificar em Det + N + SPrep, e de o SPrep se decompor em Prep + SN. Assim, SN e SPrep podem combinar-se de modo recorrente, gerando frases de extensão (teoricamente) infinita32. As línguas naturais possuem mecanismos recursivos deste tipo, pelo que uma gramática adequada deve necessariamente explicitar as regras que os possibilitam. É o que fazem regras como as que apresentámos em d) e em e).

A elaboração de regras sintagmáticas como as que acabámos de explicitar permite descrever os modos de combinação possíveis entre as diversas classes sintácticas e sintagmáticas. Se forem exaustivamente elaboradas, ou seja, se tiverem em conta todas as estruturas sintácticas possíveis em português, estas regras (em número finito) permitem prever as frases gramaticais (em número infinito) passíveis de serem geradas na nossa língua.

Deste modo, estamos perante uma gramática simultaneamente sintagmática (porque, ao propor uma análise em constituintes imediatos, dá conta das combinatórias possíveis entre os constituintes das frases numa dada língua) e formal (porque explicita, num modelo rigoroso e sistemático, as 84 estruturas sintácticas das frases produzidas, reconhecidas a partir de uma análise linguística empírica33).

Segundo Nique (1978: 24), «as gramáticas [anteriores a Chomsky] eram todas modelos taxinómicos da língua, isto é, podiam reduzir-se a colecções de exemplos mais ou menos bem descritos, a listas de frases correctas e incorrectas, mas não emitiam qualquer hipótese sobre o funcionamento das línguas e nada explicavam sobre as suas regularidades». Na concepção de Chomsky, pelo contrário, a gramática deve explicitar o sistema de regras inerente à competência dos sujeitos falantes de uma dada língua34.

Este tipo de gramática propõe-se descrever o funcionamento das línguas naturais independentemente da situação em que os sujeitos falantes as utilizam e, até, independentemente dos sujeitos falantes concretos que as usam para comunicar. Nesta teorização, tal como na de Saussure, o sujeito falante é um ser idealizado, desprovido de quaisquer marcas socioculturais, como a actividade socioprofissional, o meio social em que está inserido, os papéis sociais que desempenha, etc.

Só com a Teoria Enunciativa de Émile Benveniste e a Teoria dos Actos de Fala de John Austin (propostas nos anos 60 do século XX) o sujeito falante concreto e inserido numa dada cultura e numa dada situação de enunciação é trazido para o centro das atenções dos linguistas. A partir daí, coordenadas situacionais como o tempo e o lugar em que se dá a interacção verbal, os participantes e as suas características culturais, os respectivos papéis sociais (por exemplo, professor vs. aluno, director vs. secretária, polícia vs. condutor de automóvel, médico vs. paciente, juiz vs. réu), o tema da conversa, assim como os actos que realizamos na e pela linguagem são considerados elementos relevantes a ter em consideração na descrição do funcionamento das línguas naturais. Reflexões como as de Benveniste e de Austin acabaram por desembocar no surgimento de novas disciplinas, como a Sociolinguística e a Pragmática.

Actividades

1. Aplicando os conceitos de gramaticalidade e aceitabilidade, classifique os enunciados seguintes. (No caso dos enunciados que considerar inaceitáveis, deverá explicitar uma situação plausível em que seja evidente essa inaceitabilidade)

a) A maior parte das pessoas vieram a pé.

b) Tu és um gajo baril!

2. Com base nos enunciados analisados na pergunta anterior, justifique a afirmação seguinte: «gramaticalidade é um conceito eminentemente sintáctico; aceitabilidade é um conceito eminentemente semântico-pragmático».

Referências bibliográficas

a) Leitura complementar

RUWET, Nicolas, e Noam CHOMSKY (1979), A Gramática Generativa (trad.), Lisboa, Edições 70, p. 9-19, 29-33, 38-40, 43-48.

b) Obras citadas

CHOMSKY, Noam (1978), Aspectos da teoria da sintaxe (trad.), Coimbra, Arménio Amado Editor.

NIQUE, Christian (1978), Iniciação metódica à Gramática Generativa (trad.), Lisboa, Publicações Dom Quixote.

Notas

  1. Na perspectiva de Chomsky (1978: 84), «é necessário rejeitar o conceito [de Saussure] de langue como sendo meramente um inventário sistemático de itens e regressar à concepção Humboldtiana de competência subjacente como um sistema de processos generativos».
    ↩
  2. Não confundir, portanto, esta acepção do conceito de criatividade com outras acepções, como, por exemplo, a capacidade de gerar novas palavras (neologismos), ainda não inscritas na norma.
    ↩
  3. Referimo-nos quer às classes sintácticas (determinante, nome, verbo, etc.), quer às classes sintagmáticas (sintagma nominal, sintagma verbal, etc.) em que se inserem os constituintes da frase. As classes sintácticas apontadas pelas gramáticas tradicionais são as seguintes: artigo, substantivo/nome, pronome, verbo, adjectivo, advérbio, preposição, conjunção e numeral. Na gramática proposta por Chomsky, a classe dos determinantes integra o artigo e alguns usos dos pronomes possessivos e demonstrativos (nomeadamente nos contextos em que o pronome se combina com um nome, como em o meu livro ou esse carro). As classes sintagmáticas são as seguintes: sintagma nominal, sintagma verbal, sintagma preposicional, sintagma adjectival e sintagma adverbial. Cada uma das classes sintagmáticas tem como núcleo, portanto, uma das seguintes classes sintácticas: nome/substantivo, verbo, preposição, adjectivo e advérbio.
    ↩
  4. O sintagma nominal (SN) pode ser designado por grupo nominal (GN). Do mesmo modo, também o sintagma verbal (SV) pode ser designado por grupo verbal (GV), sendo o mesmo raciocínio válido para os restantes sintagmas, de tipo preposicional, adjectival e adverbial.
    ↩
  5. Não é relevante, por agora, indicar os meios pelos quais determinamos que a Rita é um SN, que teve um filho é um SV e que um filho é um SN. Os testes de constituência serão tratados no capítulo 7, dedicado à sintaxe.
    ↩
  6. Pode acontecer que um sintagma seja constituído unicamente pelo seu núcleo. Veja-se mais adiante a regra c’), que prevê que um SV seja obrigatoriamente composto por um V e facultativamente também por um SN.
    ↩
  7. A frase O João adoeceu na quarta-feira à noite demonstra que, facultativamente, podem ocorrer outros constituintes. Todavia, com verbos como os das frases (26), (27), (28) e (29) a ocorrência de outros constituintes no SV é obrigatória.
    ↩
  8. Repare-se neste outro exemplo, do escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, em que a recursividade se deve, agora, à ocorrência sucessiva de orações relativas, cujo sujeito é o referente do complemento directo da respectiva oração subordinante: «João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém».
    ↩
  9. Veja-se as regras apresentadas em a), b), c), c’), d) e e).
    ↩
  10. Cf. Chomsky (1978: 85): «as gramáticas tradicionais são deficientes na medida em que não formulam muitas das regularidades básicas da língua a que se referem. Este facto é particularmente nítido ao nível da sintaxe».
    ↩
87
2.ª Parte

Os Níveis de Análise Linguística (Fonética, Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Semântica, Pragmática)

Introdução

Introduzidos alguns conceitos fundamentais de Linguística Geral, é altura de tratar agora dos diferentes níveis de análise linguística, das áreas passíveis de descrição numa língua natural.

Como muitas vezes acontece com qualquer síntese esquemática, o diagrama que a seguir se propõe35 é simultaneamente esclarecedor e redutor. Por um lado, permite arrumar de um modo conveniente as disciplinas linguísticas, mas, por outro, não deixa entrever as áreas que são comuns à Morfologia e à Sintaxe ou à Semântica e à Pragmática. De facto, as fronteiras entre as disciplinas indicadas são muito menos nítidas do que o diagrama sugere.

Pragmática / Semântica / Sintaxe / Morfologia / Fonologia / Fonética
Texto da figura
  • Pragmática
  • Semântica
  • Sintaxe
  • Morfologia
  • Fonologia
  • Fonética

Esta apresentação das áreas de descrição linguística propicia, em alguns casos, uma leitura pertinente: a unidade mínima da Morfologia (o morfema), por 89 exemplo, é de complexidade superior à unidade mínima da Fonologia (o fonema). Por sua vez, a unidade mínima da Sintaxe (o sintagma) é de complexidade superior à unidade mínima da Morfologia.

Deste modo, justifica-se uma abordagem sequencial dos níveis de análise linguística, em função da ordem apresentada: Fonética, Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Semântica, Pragmática. É essa sequência que seguiremos ao apresentarmos os principais objectivos e conceitos operatórios de cada uma destas disciplinas linguísticas.

Notas

  1. Extraído, com algumas alterações, de AITCHISON (1978: 14).
    ↩
90
Capítulo 4

Fonética

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• definir o objecto de estudo da Fonética;

• identificar factos linguísticos que são estudados no âmbito desta disciplina;

• reconhecer as diferentes zonas do aparelho fonador (e respectivas funções);

• classificar as consoantes, vogais e semivogais do português, servindo-se de critérios de natureza articulatória;

• compreender a necessidade de criar alfabetos fonéticos para representar graficamente os sons da fala;

• utilizar o Alfabeto Fonético Internacional para efectuar transcrições fonéticas;

• distinguir transcrições fonéticas largas de transcrições fonéticas estreitas.

4.1. O objecto de estudo da Fonética e conceitos operatórios básicos

Vimos já que as línguas naturais são constituídas por signos, unidades providas de significante e de significado. Logo, entre os objectivos da Linguística deverá estar incluída a descrição da face significante dos signos linguísticos. A Fonética e a Fonologia estudam a matéria fónica das línguas, embora o façam a partir de perspectivas diferentes.

A Fonética descreve as propriedades físicas e articulatórias dos sons. Recordemos a dicotomia saussureana langue/parole para melhor definirmos o objecto de estudo da Fonética. A língua é o sistema abstracto, o modelo constante de todas as manifestações linguísticas particulares. A fala é o fenómeno individual e concreto, a realidade física variável de falante para falante. A Fonética ocupa-se dos sons da fala porque procede à análise dos sons no plano físico e fisiológico e fá-lo com base em metodologias semelhantes às das ciências de tipo laboratorial.

A Fonética trata, então, dos sons da fala e do modo como estes sons são produzidos e recebidos. Podemos, a partir desta definição, entrever três áreas de descrição no âmbito desta disciplina:

a) a Fonética Acústica procede ao estudo das ondas sonoras que constituem os sons da fala, descrevendo as propriedades físicas dos sons;

b) a Fonética Articulatória procede ao estudo da produção dos sons da fala, analisando a anatomia do aparelho fonador e explicitando a articulação dos sons da linguagem;

c) a Fonética Perceptiva procede ao estudo da percepção dos sons da fala, abordando o modo como o ouvido capta os sons da fala.

Ao longo deste Capítulo, vamos concentrar a nossa atenção na Fonética Articulatória. Justifica-se começar por efectuar uma descrição sumária do aparelho fonador, que é composto por todos os órgãos do corpo humano que 93 participam na produção dos fones. O aparelho fonador permite-nos produzir os sons linguísticos que, sistematicamente associados a significados, possibilitam a comunicação verbal entre os seres humanos.

Os fones (ou segmentos fonéticos) são os sons, articulados pelos sujeitos falantes recorrendo ao aparelho fonador, que fazem parte de uma dada língua. Com os fones, os sujeitos falantes compõem os significantes dos signos linguísticos da língua que dominam, propiciando a comunicação. Vejamos, então, como é constituído o aparelho fonador dos seres humanos, para melhor compreendermos como são produzidos os fones.

É possível distinguir três zonas no aparelho fonador, cada uma desempenhando papéis diferentes mas complementares e, todos eles, necessários à comunicação verbal36.

A zona da respiração é constituída pelos órgãos que participam na expiração do ar, como os brônquios, os pulmões e a traqueia. A matéria-prima da fala é o ar, designado em Fonética por sopro fónico. A respiração consta de duas fases: a inspiração e a expiração. É na fase da expiração que se dá a fonação, a produção dos sons da linguagem.

A zona da fonação é composta pelos órgãos que participam na produção do som, nomeadamente as cordas vocais e a glote, localizadas na laringe. Nesta zona é criada a energia sonora utilizada na fonação. O ar que transporta as ondas sonoras tem origem na zona da respiração; as ondas sonoras são produzidas na zona da fonação. A laringe é, portanto, «responsável pela alternância entre sons vozeados e não-vozeados, pelas alternâncias de tons e pela entoação dos enunciados»37.

Por fim, a zona da articulação (zona também conhecida pelas designações de cavidades supralaríngeas e de cavidades supraglóticas – ou seja, cavidades localizadas acima da laringe e da glote) é constituída pelos órgãos que participam na configuração articulatória do som: - a cavidade oral (ou tracto oral ou cavidade bucal) e a cavidade nasal (ou tracto nasal).

Na cavidade oral, destacam-se os seguintes articuladores:

– a língua (divisível em ápice, coroa e dorso);

– os lábios;

– os dentes incisivos superiores e os alvéolos (gengivas onde estão enraizados estes dentes);

– os maxilares superior e inferior;

– o palato (onde se pode distinguir o palato duro, na zona anterior da boca, do palato mole ou véu palatino, na zona posterior da boca).

É no palato mole que se localiza a úvula, a qual se pode deslocar de modo a fechar o canal de acesso às fossas nasais, expelindo o sopro fónico pela cavidade oral, ou de modo a abrir o canal de acesso às fossas nasais, expelindo por aí parte do sopro fónico, permitindo, por isso, a produção de sons nasais.

Os articuladores são, portanto, órgãos ou estruturas anatómicas que contribuem para a configuração dos fones. Esta definição tornar-se-á mais clara quando, adiante, procedermos à classificação articulatória dos fones existentes em português. Veremos, nessa altura, que as designações dos fones decorrem, em parte, do ponto da cavidade oral onde se dá a essa configuração, sendo possível distinguir sons bilabiais, labiodentais, alveolares, palatais, uvulares, etc.

4.2. Relações entre sistema ortográfico e sistema fonético

Ao longo desta secção, procuraremos evidenciar a ideia segundo a qual os alfabetos fonéticos constituem instrumentos indispensáveis para quem se dedica à investigação fonética. A constatação de que não há uma relação unívoca entre a oralidade e a grafia ditou a necessidade de criação destes sistemas de notação da oralidade, nos quais a um som corresponde um e um só carácter, e vice-versa.

Não existe uma relação biunívoca entre a oralidade e a escrita, porque um som pode ser representado graficamente de maneiras diferentes e porque uma letra pode ter valores fónicos diversos, inclusivamente, uma letra nem representar qualquer fone.

Há cinco casos distintos de não coincidência entre a oralidade e a escrita:

a) uma letra pode não representar qualquer som (homem, óptimo, actividade);

b) uma mesma letra (as letras ⟨x⟩, ⟨g⟩, ⟨r⟩ e ⟨e⟩, por exemplo) pode representar sons distintos (exame, enxame; gestão, gorila; rato, aro; ele, perna);

c) um som (o som [s], por exemplo) pode ser representado na escrita por letras ou grupos de letras diferentes (acesso, aço, sopa, asso, próximo);

d) a uma sequência de duas letras pode corresponder um único som (olheiras, arroz, assassino, chamar, ninho, entrar, antes, índio, ontem, mundo);

e) uma única letra pode representar uma sequência de dois sons (toxicodependente, axila).

É importante ter presentes estas discrepâncias entre sistema ortográfico e sistema fonético quando se efectuam transcrições fonéticas, como adiante veremos.

4.2.1. O Alfabeto Fonético Internacional (A.F.I.) e a classificação dos fones do português

Em Fonética, é essencial distinguir sons consonânticos de sons vocálicos. Nos sons consonânticos, há um obstáculo à passagem do sopro fónico na zona da articulação; nos sons vocálicos, não existe qualquer obstáculo à passagem do sopro fónico. O critério que propicia a distinção entre consoantes e vogais é, portanto, o grau de liberdade que o sopro fónico encontra nas cavidades supraglóticas.

Tradicionalmente, as consoantes são classificadas segundo quatro critérios de tipo articulatório.

a) Vibração laríngea

Quando as cordas vocais estão relaxadas, deixam passar o sopro fónico sem produzir qualquer vibração. Quando estão retesadas, o sopro fónico tem de exercer uma certa pressão para atravessar a glote (o orifício entre as cordas vocais), fazendo vibrar as cordas vocais. No primeiro caso, são produzidas consoantes não-vozeadas (ou surdas ou áfonas); no segundo caso, são produzidas consoantes vozeadas (ou sonoras).

Sublinhe-se que se trata de sons surdos e sonoros apenas do ponto de vista articulatório (isto é, tendo em conta a existência ou não de vibração nas cordas vocais). Do ponto de vista acústico não há, evidentemente, sons surdos.

b) Ressonância nas cavidades oral e nasal

Sempre que o véu palatino (onde se localiza a úvula) recua, fecha as fossas nasais à passagem do ar, impedindo o sopro fónico de passar pela cavidade nasal. Deste modo, o sopro fónico é expelido na totalidade pela cavidade oral, produzindo-se consoantes orais (uma vez que há ressonância apenas na cavidade oral).

Quando o véu palatino baixa, permite que o sopro fónico passe por ambas as cavidades; são produzidas, neste caso, consoantes nasais, havendo ressonância nas cavidades oral e nasal.

c) Obstáculo à passagem do sopro fónico

Quando há um obstáculo total à passagem do sopro fónico, produzem-se consoantes momentâneas. Quando esse obstáculo é parcial, produzem-se consoantes contínuas. Após a apresentação da classificação articulatória tradicional dos sons consonânticos, explicitaremos quais são as consoantes momentâneas e quais são as consoantes contínuas.

d) Localização do ponto de articulação

As consoantes iniciais das palavras pato, bato e mato articulam-se com os dois lábios. Diz-se, por isso, que são consoantes bilabiais. As consoantes iniciais das palavras faca e vaca articulam-se colocando os dentes incisivos sobre os lábios inferiores. Logo, são consoantes labiodentais.

Apresentamos, no quadro seguinte, a classificação articulatória tradicional dos sons consonânticos da língua portuguesa (segundo a norma da variante europeia), assim como o carácter correspondente no Alfabeto Fonético Internacional (doravante A.F.I.).

As designações dos sons consonânticos decorrem quer dos nomes dos articuladores que são responsáveis pela sua configuração, quer dos elementos indicados em cada um dos critérios de classificação das consoantes, como veremos adiante.

CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA EXEMPLOS / DOS SONS CONSONÂNTICOS / [p] consoante oclusiva bilabial surda pato, apogeu / [t] consoante oclusiva apicodental surda tambor, átomo / [k] consoante oclusiva velar surda cacto, pouco, quem, aquilo / [b] consoante oclusiva bilabial sonora bato / [d] consoante oclusiva apicodental sonora dado / [g] consoante oclusiva velar sonora gato / [m] consoante nasal bilabial mato, amigo / [n] consoante nasal apicoalveolar nata, canal, pólen / [ɲ] consoante nasal palatal manhã / [f] consoante fricativa labiodental surda faca, afecto / [v] consoante fricativa labiodental sonora vaca, avença / [s] consoante fricativa alveolar surda saco, assar, cera, caça, próximo / [z] consoante fricativa alveolar sonora zebra, azar, casa, exame / [ʃ] consoante fricativa palatal surda chá, xarope, este, comes / [ʒ] consoante fricativa palatal sonora já, agir, mesmo / [ɾ] consoante vibrante simples caro, beber / [R] consoante vibrante múltipla uvular rato, carro, Henrique / [l] consoante lateral apicoalveolar lata, mala / [ʎ] consoante lateral palatal malha
Texto da figura
  • CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA EXEMPLOS
  • DOS SONS CONSONÂNTICOS
  • [p] consoante oclusiva bilabial surda pato, apogeu
  • [t] consoante oclusiva apicodental surda tambor, átomo
  • [k] consoante oclusiva velar surda cacto, pouco, quem, aquilo
  • [b] consoante oclusiva bilabial sonora bato
  • [d] consoante oclusiva apicodental sonora dado
  • [g] consoante oclusiva velar sonora gato
  • [m] consoante nasal bilabial mato, amigo
  • [n] consoante nasal apicoalveolar nata, canal, pólen
  • [ɲ] consoante nasal palatal manhã
  • [f] consoante fricativa labiodental surda faca, afecto
  • [v] consoante fricativa labiodental sonora vaca, avença
  • [s] consoante fricativa alveolar surda saco, assar, cera, caça, próximo
  • [z] consoante fricativa alveolar sonora zebra, azar, casa, exame
  • [ʃ] consoante fricativa palatal surda chá, xarope, este, comes
  • [ʒ] consoante fricativa palatal sonora já, agir, mesmo
  • [ɾ] consoante vibrante simples caro, beber
  • [R] consoante vibrante múltipla uvular rato, carro, Henrique
  • [l] consoante lateral apicoalveolar lata, mala
  • [ʎ] consoante lateral palatal malha

Sublinhe-se que as consoantes orais não são explicitamente assinaladas nas designações para evitar redundâncias, uma vez que todas as consoantes que não são nasais são necessariamente orais. Do mesmo modo, porque 99 todas as consoantes nasais, vibrantes e laterais são também sonoras, seria redundante indicar que, além de nasais (por exemplo), essas consoantes são igualmente sonoras.

Quanto ao modo de articulação, as consoantes podem ser

– oclusivas (na produção das consoantes oclusivas, observa-se um fechamento ou oclusão total da cavidade oral)38;

– fricativas (a articulação das consoantes fricativas ou constritivas corresponde a uma espécie de fricção entre dois articuladores, decorrendo de uma constrição ou estreitamento do canal por onde passa o sopro fónico);

– vibrantes (na articulação das consoantes vibrantes, observa-se uma vibração, simples ou múltipla39);

– laterais (as consoantes laterais são aquelas cuja produção se dá com a aproximação da língua ao palato e a consequente passagem do sopro fónico por ambos os lados da língua);

– nasais (as consoantes nasais são produzidas quando o véu palatino baixa, e o sopro fónico passa quer pela cavidade oral, quer pela cavidade nasal).

Registe-se que todas as consoantes oclusivas são momentâneas, na medida em que a produção do som consonântico oclusivo se dá num único momento, não podendo ser prolongado. Já as consoantes contínuas podem ser fricativas, nasais, laterais ou vibrantes40.

Quanto ao ponto de articulação, as consoantes podem ser

– bilabiais (os articuladores que permitem a produção destas consoantes são os lábios);

– labiodentais (estas consoantes produzem-se quando os dentes incisivos superiores se encostam ao lábio inferior);

– apicodentais (quando o ápice – ou ponta da língua – se encosta aos dentes incisivos do maxilar superior, permite a produção das consoantes apicodentais);

– (apico)alveoleares (estas consoantes são produzidas quando o ápice da língua toca ou se aproxima dos alvéolos, zona da cavidade oral onde se aloja a raiz dos dentes incisivos superiores);

– palatais (quando a coroa da língua se encosta ao palato ou se aproxima dele, são produzidas consoantes palatais);

– velares (na produção destas consoantes, a língua encosta-se ao véu palatino);

– uvulares (a vibração da úvula dá origem a consoantes vibrantes múltiplas).

Justifica-se fazer uma breve referência às consoantes laterais apicoalveolares localizadas em final de sílaba. A articulação das consoantes laterais apicoalveolares presentes nas palavras lata e mala (em início de sílaba) não é a mesma que em mal e malta (em final de sílaba). Na verdade, quando a consoante lateral se apresenta em contexto de final de sílaba (como em mal e malta), diz-se que ela é velarizada41. Cada um destes dois fones ocorre, portanto, num contexto específico. Dito de outro modo, o sujeito falante não é livre de escolher articular um ou outro; a ocorrência de um ou outro fone é determinada pelo contexto em que ocorre (em início ou em final de sílaba).

Seguidamente, indicamos os três critérios de tipo articulatório que nos permitem classificar as vogais:

a) Localização do ponto de articulação

Consoante a língua se situe na parte anterior, na parte central ou na parte posterior da cavidade oral, são articuladas vogais anteriores, centrais ou posteriores.

b) Grau de abertura

Existem quatro graus de abertura da cavidade oral, que possibilitam a produção de vogais abertas, semiabertas, semifechadas e fechadas.

c) Nasalidade

Quando o sopro fónico passa apenas pela cavidade oral produzem-se vogais orais. Quando passa pelas cavidades oral e nasal produzem-se vogais nasais.

Apresentamos agora a classificação articulatória tradicional dos sons vocálicos da língua portuguesa (norma da variante europeia), juntamente com os caracteres do A.F.I. que lhes correspondem.

No quadro seguinte, são indicadas as vogais orais.

CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA / DAS VOGAIS ORAIS / [a] vogal central aberta casa, lá / [ɐ] vogal central semiaberta casa, lei, lenha / [ɨ] vogal central semifechada bebida, cidade / [ɛ] vogal anterior semiaberta eco, pé / [e] vogal anterior semifechada medo, ler / [i] vogal anterior fechada ali / [ɔ] vogal posterior semiaberta avó, forte / [o] vogal posterior semifechada avô, força / [u] vogal posterior fechada mudo, carro
Texto da figura
  • CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA
  • DAS VOGAIS ORAIS
  • [a] vogal central aberta casa, lá
  • [ɐ] vogal central semiaberta casa, lei, lenha
  • [ɨ] vogal central semifechada bebida, cidade
  • [ɛ] vogal anterior semiaberta eco, pé
  • [e] vogal anterior semifechada medo, ler
  • [i] vogal anterior fechada ali
  • [ɔ] vogal posterior semiaberta avó, forte
  • [o] vogal posterior semifechada avô, força
  • [u] vogal posterior fechada mudo, carro

No quadro que a seguir apresentamos, são indicadas as vogais nasais.

CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA / DAS VOGAIS NASAIS / [ɐ̃] vogal central semiaberta nasal fantástico, lã / [ẽ] vogal anterior semifechada nasal pensamento, gente / [ĩ] vogal anterior fechada nasal sim, tingir / [õ] vogal posterior semifechada nasal bom, fonte / [ũ] vogal posterior fechada nasal mundo, atum
Texto da figura
  • CLASSIFICAÇÃO ARTICULATÓRIA
  • DAS VOGAIS NASAIS
  • [ɐ̃] vogal central semiaberta nasal fantástico, lã
  • [ẽ] vogal anterior semifechada nasal pensamento, gente
  • [ĩ] vogal anterior fechada nasal sim, tingir
  • [õ] vogal posterior semifechada nasal bom, fonte
  • [ũ] vogal posterior fechada nasal mundo, atum

As vogais orais, à semelhança do que acontece com as consoantes orais, não são explicitamente assinaladas nas respectivas designações. Tal seria redundante uma vez que todas as vogais que não são nasais são necessariamente orais.

Além dos fones apresentados, há ainda semivogais (ou sons semivocálicos ou glides). Estes fones são designados semivogais porque partilham características das vogais e das consoantes: aproximam-se das vogais porque, do ponto de vista da sua articulação, as semivogais não encontram obstáculo na passagem do sopro fónico; aproximam-se das consoantes porque, tendo em conta a posição que podem ocupar no interior da sílaba, as semivogais nunca constituem núcleo de sílaba.

SEMIVOGAIS / [j] semivogal anterior pai / [w] semivogal posterior pau
Texto da figura
  • SEMIVOGAIS
  • [j] semivogal anterior pai
  • [w] semivogal posterior pau

As semivogais ocorrem apenas nos ditongos. Os ditongos são compostos por sequências de vogal + semivogal ou de semivogal + vogal, sequências essas que fazem parte uma mesma sílaba.

Segundo um critério de ressonância (na cavidade oral ou nas cavidades oral e nasal), existem dois tipos de ditongos:

– ditongos orais (por exemplo: sai, sei42, dói, foi, fui; mau, céu, meu, viu, touro43)

– ditongos nasais (mãe, põe, muito; levarão/levaram).

Segundo um critério que releva da localização da semivogal relativamente à vogal, é também possível distinguir dois tipos de ditongos. Nos ditongos crescentes, a semivogal antecede a vogal. Estes ditongos são assim designados porque se passa de uma menor abertura bucal a uma maior abertura bucal. As palavras quase, equestre e quando incluem um ditongo crescente.

Nos ditongos decrescentes, a vogal antecede a semivogal. Estes ditongos são assim designados porque se passa de uma maior abertura bucal a uma menor abertura bucal. As palavras sai, sei e mãe incluem um ditongo decrescente.

É conveniente proceder à distinção entre ditongo e hiato. Um ditongo, como vimos, é uma sequência de vogal + semivogal ou vice-versa, sendo os dois sons articulados na mesma sílaba. Um hiato é uma sequência de dois sons vocálicos articulados em duas sílabas diferentes.

Concluímos esta secção apresentando alguns exemplos de ditongos e de hiatos.

Ditongo Hiato / pais país / Deus dê-os
Texto da figura
  • Ditongo Hiato
  • pais país
  • Deus dê-os
viu vi-o / riu rio
Texto da figura
  • viu vi-o
  • riu rio

4.2.2. Transcrições fonéticas

À anotação gráfica da oralidade através da utilização de um alfabeto no qual cada carácter corresponde a um som dá-se o nome de transcrição fonética (ou notação fonética). As transcrições fonéticas efectuam-se entre parêntesis rectos [ ] e representam os sons linguísticos (designados fones ou segmentos fonéticos).

Existem dois tipos de transcrições: transcrições fonéticas largas (que especificam menos detalhes fonéticos) e transcrições fonéticas estreitas (que especificam mais detalhes fonéticos). A título de exemplo, refira-se que uma transcrição fonética larga não se preocupará em assinalar as consoantes oclusivas imperfeitas ([β], [δ] e [ɣ]) ou as consoantes laterais apicoalveolares velarizadas ([ɫ]), enquanto uma transcrição fonética estreita deverá assinalar a especificidade desses fones, distinguindo-os das consoantes oclusivas perfeitas ([b], [d] e [g]) e da consoante lateral apicoalveolar ([l]), respectivamente.

A transcrição fonética de uma palavra, para ser correctamente efectuada, requer as três características seguintes:

a) selecção e ordenação dos caracteres e diacríticos do A.F.I.44;

b) colocação desses caracteres entre parênteses rectos;

c) notação da sílaba tónica, usando um diacrítico correspondente ao acento agudo.

A notação da sílaba tónica pode ser efectuada de duas maneiras:

– o diacrítico é colocado imediatamente antes do primeiro carácter que faz parte da sílaba tónica (como em [‘mezɐ]);

– o diacrítico é colocado sobre o carácter que representa a vogal da sílaba tónica (como em [mézɐ]).

Ao longo desta exposição, optaremos pela primeira possibilidade de notação da sílaba tónica: nas transcrições fonéticas, colocaremos o diacrítico antes do primeiro fone da sílaba tónica. Esta opção deve-se ao seguinte: as vogais nasais são, por definição, assinaladas com um diacrítico correspondente ao til, o qual indica precisamente o traço de nasalidade que as caracteriza. Ora, se optássemos pela segunda possibilidade, quando o acento de uma palavra recai sobre uma sílaba que tem por núcleo uma vogal nasal, seria necessário sobrepor-lhe dois diacríticos: um que indicasse a nasalidade e outro que assinalasse a sílaba tónica. Para evitar eventuais dificuldades que daí resultem, optámos por notar a sílaba tónica antes do primeiro fone que a integra. Sublinhe-se, todavia, que, nas provas de avaliação, ambas as notações serão consideradas igualmente correctas.

Veremos, a seguir, alguns exemplos de transcrições fonéticas de palavras isoladas.

– gato: [‘gatu]

– casa: [‘kazɐ]

Na transcrição fonética da palavra gato, salientamos o facto de a vogal localizada em final de palavra ser uma vogal posterior fechada, representada no A.F.I. pelo carácter [u].

Quanto à palavra casa, as duas vogais representam-se ortograficamente pela mesma letra (⟨a⟩), mas, na oralidade, constituem fones distintos: a vogal central aberta, na primeira sílaba, e a vogal central semiaberta, na segunda (representados no A.F.I. respectivamente por [a] e [ɐ]).

Além disso, deve notar-se que o som consonântico inicial é uma consoante oclusiva velar surda (representada no A.F.I. pelo carácter [k]), e que o som consonântico localizado no início da segunda sílaba é uma consoante fricativa alveolar sonora (pelo que é representado pelo carácter [z]).

Em palavras como arroz ou malha, as transcrições fonéticas reflectem o facto de cinco letras representarem apenas quatro fones, uma vez que as sequências de letras ⟨rr⟩ e ⟨lh⟩ representam um único fone:

– arroz: [ɐ‘Roʃ]

– malha: [‘maʎɐ]

Já em maxilar, pelo contrário, a transcrição fonética desta palavra com sete letras integra oito fones, justamente porque a letra ⟨x⟩ representa uma sequência de dois sons:

– maxilar: [maksi’laɾ]

Sublinhe-se, ainda, que as palavras monossilábicas não são notadas com o diacrítico que assinala a sílaba tónica. Deste modo, as transcrições fonéticas de palavras como um ou mais ou lá são as seguintes:

– um: [ũ]

– mais: [majʃ]

– lá: [la]

Vejamos agora algumas transcrições fonéticas de palavras não isoladas (ou seja, de palavras contextualizadas) para comprovarmos que o contexto em que as palavras ocorrem pode influenciar a actualização de alguns dos fones que constituem a sua face significante.

Quando a palavra carros é articulada isoladamente, o fone final é uma consoante fricativa palatal surda [ʃ]. Atente-se no que acontece quando a palavra é seguida de uma outra cujo fone inicial é uma consoante não-vozeada, uma consoante vozeada e uma vogal. Para tal, apresentaremos as transcrições fonéticas das seguintes sequências de palavras: carros cinzentos, carros vermelhos e carros azuis.

– carros cinzentos: [‘kaRuʃsĩ’zẽtuʃ]

– carros vermelhos: [‘kaRuʒvɨɾ’meʎuʃ]

– carros azuis: [‘kaRuzɐ’zujʃ]

Quando a palavra seguinte se inicia por uma consoante não-vozeada (como no caso da sequência carros cinzentos), o fone final da palavra carros continua a ser uma consoante fricativa palatal surda [ʃ].

Mas quando essa palavra é seguida de uma outra cujo fone inicial é uma consoante vozeada, o fone final da palavra carros é uma consoante fricativa palatal vozeada [ʒ]. O traço que distingue as duas consoantes fricativas palatais é justamente o traço [± vozeado]: [ʃ] é uma consoante não-vozeada e [ʒ] é uma consoante vozeada. Observa-se, portanto, um fenómeno de co-articulação, ou seja, a ocorrência subsequente de um fone com uma determinada característica (neste caso, o fone [v], com o traço [+ vozeado]), influencia a articulação do fone precedente: o vozeamento que caracteriza o fone inicial da palavra vermelhos influencia a consoante que a precede, transmitindo-lhe esse traço.

Por fim, quando se segue uma palavra iniciada por vogal, o som final da palavra carros é articulado como consoante fricativa alveolar sonora [z]45.

As reflexões que apresentámos sublinharam que o processo de representação gráfica da oralidade através de transcrições fonéticas requer um esforço de abstracção do sistema de regras ortográficas, com o objectivo de a um fone associarmos sempre o mesmo carácter do A.F.I., e de a um carácter do A.F.I. associarmos sempre o mesmo fone.

Actividades

1. Apresente a transcrição fonética das palavras indicadas.

a) profissão

b) requintado

c) antigamente

d) ginásio

e) inflexível

f) jasmim

2. Classifique articulatoriamente os sons iniciais das seguintes palavras:

a) importante

b) chegar

c) dente

d) entrada

e) cinco

f) alto

Referências bibliográficas

a) Leitura obrigatória

ANDRADE, Amália, e Maria do Céu VIANA (1996), “Fonética”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, p. 115-146.

b) Leitura complementar

CUNHA, Celso, e Lindley CINTRA (1984), Nova gramática do português contemporâneo (5.ª ed.), Lisboa, Edições João Sá da Costa, p. 25-62.

c) Obra referida

AITCHISON, Jean (1993), Introdução aos estudos linguísticos (trad.), Mem-Martins, Publicações Europa-América.

Notas

  1. Esta descrição e caracterização do aparelho fonador deve ser complementada com a análise das imagens reproduzidas em ANDRADE e VIANA (1996: 129-130, 136-138).
    ↩
  2. ANDRADE e VIANA (1996: 131).
    ↩
  3. Quanto às três consoantes oclusivas sonoras – [b], [d] e [g] –, verifica-se que, em alguns casos, os sujeitos falantes não as articulam com uma oclusão total, nomeadamente quando estas consoantes se encontram em posição intervocálica, como nas palavras seguintes: aba, sede, água. Diz-se então que se trata de consoantes oclusivas imperfeitas, respectivamente bilabial, apicodental e velar. As consoantes oclusivas imperfeitas são representadas, no A.F.I., pelos caracteres [β], [δ] e [ɣ]. A distinção entre oclusivas perfeitas e imperfeitas afecta apenas as consoantes oclusivas sonoras.
    ↩
  4. Em português europeu, coexistem duas consoantes vibrantes múltiplas em variação livre: uma uvular e uma apicoalveolar (produzida com a vibração do ápice da língua contra os alvéolos onde se alojam os dentes incisivos superiores). Dizer que se trata de dois fones em variação livre significa dizer que, em todas as palavras que contenham o som consonântico vibrante múltiplo (por exemplo, em rua ou em arroz), podemos optar por usar um ou outro desses dois fones, uma vez que tal escolha não origina diferenças de significado na palavra enunciada.
    ↩
  5. Só a consoante vibrante múltipla é contínua; a consoante vibrante simples é uma consoante momentânea.
    ↩
  6. A consoante lateral apicoalveolar velarizada é representada no A.F.I. por [ɫ].
    ↩
  7. [ɐj] no português padrão; [ej] em regiões do sul de Portugal.
    ↩
  8. Na pronúncia da língua-padrão do português europeu, verifica-se a monotongação deste ditongo ([o] em vez de [ow]); todavia, ele mantém toda a sua vitalidade nas regiões do norte de Portugal, onde ainda permite distinguir, por exemplo, osso de ouço e posar de pousar.
    ↩
  9. Em ANDRADE e VIANA (1996: 155-157) são expostos todos os caracteres do A.F.I., assim como os diacríticos.
    ↩
  10. Retomaremos este assunto quando abordarmos o conceito de alomorfe no Capítulo 6 – Morfologia.
    ↩
110
Capítulo 5

Fonologia e Prosódia

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• definir o objecto de estudo da Fonologia;

• reconhecer o carácter abstracto do conceito de fonema;

• identificar fonemas do português, utilizando as operações de segmentação e de comutação;

• definir o conceito de par mínimo;

• reconhecer as principais características do sistema fonológico do português;

• distinguir variantes livres de variantes contextuais;

• definir o objecto de estudo da Prosódia;

• compreender que o acento e a entoação são fenómenos supra-segmentais relevantes para a comunicação verbal em português.

5.1. O objecto de estudo da Fonologia e conceitos operatórios básicos

O surgimento de uma disciplina como a Fonologia deve-se ao facto de a Fonética não esgotar a análise a que a matéria fónica pode ser sujeita. Ambas as disciplinas estudam a oralidade mas segundo perspectivas diferentes.

A Fonética, já o referimos, estuda os sons da fala, os sons fisicamente produzidos e apreendidos. A Fonologia estuda os sons visando depreender a realidade abstracta da língua em face da realidade concreta da fala. Por outras palavras, a Fonologia analisa a estrutura abstracta subjacente aos sons da fala. Esta disciplina obriga, portanto, a um exercício de abstracção a partir do nível sonoro das línguas, pois o nível fonológico possui carácter abstracto.

A distinção entre Fonética e Fonologia assenta nos três critérios seguintes (dois deles relevam de dicotomias saussureanas):

a) A língua é o sistema abstracto, o modelo constante de todas as manifestações linguísticas particulares. A fala é o fenómeno individual e concreto, é a realidade física variável de falante para falante. A Fonética é a disciplina que descreve os sons da fala. A Fonologia é a disciplina que se ocupa da organização desses sons no plano da língua.

A Fonética estuda factos sonoros, realidades físicas apreensíveis produzidas na fonação (os fones). A Fonologia estuda unidades abstractas que se materializam através da fala (os fonemas). O fone é o som fisicamente produzido e apreendido. O fonema é a unidade mínima distintiva, ou seja, é o mais pequeno segmento da cadeia falada, constituído por um conjunto de traços distintivos. Constitui o arquétipo, o modelo abstracto de um som.

Por traço distintivo (ou traço pertinente ou traço diferencial) entende-se a unidade que permite distinguir dois fonemas no âmbito de uma língua natural. Exemplos de traços distintivos46 são os seguintes:

[± consonântico] [± silábico]

[± vozeado] [± nasal]

[± contínuo] [± alto]

Vejamos esquematicamente alguns traços distintivos que caracterizam três consoantes do português47:

[± consonântico] [± nasal] [± vozeado] / /p/ + – – / /b/ + – + / /m/ + + +
Texto da figura
  • [± consonântico] [± nasal] [± vozeado]
  • /p/ + – –
  • /b/ + – +
  • /m/ + + +

Estas três consoantes distinguem-se com base em apenas dois traços distintivos: [± vozeado] e [± nasal].

O fone é a realização fonética de um fonema. Constitui a concretização no plano da fala do fonema, que é uma unidade do plano da língua. Já dissemos que a fala é a actualização do sistema que é a língua. O nível fonético funciona, então, como a concretização dessa abstracção que é a organização fonológica. É possível estabelecer a seguinte relação de equivalência:

Língua Fonologia Fonema

Fala Fonética Fone

A unidade mínima da Fonética é, então, o fone, e a unidade mínima da Fonologia é o fonema. Sublinhe-se que uma transcrição fonética se efectua entre parêntesis rectos [ ] e que uma transcrição fonológica se efectua entre barras oblíquas / /.

b) No âmbito da Fonética, porque se analisa as propriedades físicas dos sons, procura descrever-se o significante do signo linguístico. No âmbito da Fonologia, também é estudado o significante mas em relação com o significado.

Exemplifiquemos com duas palavras e as respectivas transcrições fonéticas:

gato - [´gatu]

rato - [´Ratu]

Nas palavras apresentadas, a substituição da consoante oclusiva velar sonora [g] pela consoante vibrante múltipla uvular [R] provocou uma alteração a nível do significado. Estamos em presença de dois fones diferentes: [g] e [R]. Porque a comutação de um pelo outro produz alterações no significado, diz-se que estes fones actualizam dois fonemas distintos: /g/ e /R/.

Vejamos agora um outro caso. É possível articular o fone inicial da palavra rato de dois modos diferentes: utilizando a consoante vibrante múltipla uvular (em que a úvula é o articulador que produz a vibração) ou a consoante vibrante múltipla apicoalveolar (na qual o ápice da língua vibra contra os alvéolos onde se alojam os dentes incisivos superiores). A substituição da consoante vibrante múltipla uvular pela consoante vibrante múltipla apicoalveolar não comporta qualquer alteração ao nível do significado desta ou de outras palavras.

Estes dois sons são articulatoriamente diferentes, logo, trata-se de dois fones distintos. Mas, porque a ocorrência de um ou de outro não implica diferenças de significado, diz-se que constituem actualizações de um mesmo fonema: o fonema vibrante múltiplo /R/. A unidade abstracta é a mesma; a sua concretização é que é diferente. De facto, o fonema vibrante múltiplo /R/ pode, em português, ter uma actualização apicoalveolar ou uma actualização uvular.

A abordagem no âmbito da Fonética termina com a identificação de fones distintos nestas palavras. A abordagem no âmbito da Fonologia começa precisamente após a identificação dos fones, tendo como objectivo determinar se esses fones actualizam fonemas diferentes ou se são actualizações de um mesmo fonema.

c) A reflexão em Fonética pode ser levada a cabo autonomamente, não necessita do contributo da Fonologia. Mas o inverso não se verifica: a Fonologia não pode prescindir da Fonética (como é sugerido no parágrafo anterior).

Mais do que uma relação de oposição entre Fonética e Fonologia há, portanto, uma relação de complementaridade: as unidades fónicas descritas pela Fonética constituem o ponto de partida para a Fonologia chegar às unidades abstractas da matéria fónica.

Importa sublinhar a ideia segundo a qual, subjacente aos usos linguísticos, há um sistema fonológico constituído por um conjunto de unidades abstractas com determinadas características (os fonemas), entre as quais se contam o facto de cada uma delas poder ocorrer em determinados contextos e não poder ocorrer noutros. Por exemplo, os fonemas consonânticos e semivocálicos não podem ser núcleo de sílaba, ao contrário do que acontece com os fonemas vocálicos. Além disso, nem todas as consoantes podem surgir em início absoluto de palavra, e são em número muito reduzido as que podem ocorrer em final de sílaba.

Os contextos relevantes para a ocorrência (ou distribuição) dos fonemas consonânticos são os seguintes: posição inicial de sílaba (em início absoluto de palavra, em posição intervocálica ou medial e em posição posterior a uma consoante) e posição final de sílaba.

O quadro seguinte mostra os contextos mais comuns de ocorrência das consoantes em português.

em início absoluto de palavra / (carta) / em posição inicial de sílaba em posição intervocálica (ou medial) / (carta) (cara) / CONSOANTES após uma consoante / (carta) / em posição final de sílaba / (carta)
Texto da figura
  • em início absoluto de palavra
  • (carta)
  • em posição inicial de sílaba em posição intervocálica (ou medial)
  • (carta) (cara)
  • CONSOANTES após uma consoante
  • (carta)
  • em posição final de sílaba
  • (carta)

Os contextos relevantes para a distribuição dos fonemas vocálicos são os seguintes: posição tónica (vogais acentuadas) e posição átona (vogais não acentuadas). Em posição átona, as vogais podem ser pré-tónicas (quando ocorrem antes da sílaba tónica)48 ou pós-tónicas (quando ocorrem após a sílaba tónica); entre as vogais que ocorrem em posição átona pós-tónica, há ainda que distinguir as que ocorrem em posição não-final49 e as que ocorrem em posição final50.

O quadro seguinte mostra os possíveis contextos de ocorrência das vogais em português.

em posição tónica / (casa) / VOGAIS pré-tónicas / (cantar) / em posição átona / (casa) / finais / (casa) / pós-tónicas / (casa) / não-finais / (estômago)
Texto da figura
  • em posição tónica
  • (casa)
  • VOGAIS pré-tónicas
  • (cantar)
  • em posição átona
  • (casa)
  • finais
  • (casa)
  • pós-tónicas
  • (casa)
  • não-finais
  • (estômago)

Para uma explicitação abreviada do sistema fonológico do português europeu, veja-se MATEUS (1996: 174-176). Para uma explicitação mais detalhada e sistematizada, veja-se MATEUS et alii (2003: 991-996) ou MATEUS, FALÉ e FREITAS (2005: 167-172).

5.2. Pares mínimos e oposições fonológicas

A identificação das unidades fonológicas (os fonemas) faz-se através das operações de segmentação (divisão) e de comutação (substituição). Estas operações são complementares e utilizam-se quer para inventariar o conjunto de fonemas que existem numa dada língua, quer para determinar os contextos em que cada um deles ocorre.

A operação de segmentação consiste na divisão de um enunciado (frase ou palavra) nas suas unidades mínimas distintivas, ou seja, nos fonemas que constituem o seu significante.

Por exemplo, podemos decompor as palavras avô, pão e mal nos fonemas que compõem a sua face significante:

avô - /ɐ/ /v/ /o/

pão - /p/ /ɐ̃/ /w/

mal - /m/ /a/ /l/

No teste da comutação, procede-se à substituição de um único fone por outro no mesmo contexto, como nos exemplos seguintes:

avô - avó (/ɐ‘vo/ - /ɐ‘vɔ/)

pão - mão (/pɐ̃w/ - /mɐ̃w/)

mal - mel (/mal/ - /mɛl/)

A utilização sistemática destes testes permite listar todos os fonemas das línguas naturais. Os três pares de palavras que apresentámos identificaram os seguintes fonemas do português: /o/, /ɔ/, /p/, /m/, /a/ e /ɛ/.

Designa-se por oposição fonológica (ou oposição distintiva) a relação de oposição entre duas unidades fónicas cuja comutação implica alterações ao nível do significado. O modo convencional de representar estas oposições é o seguinte:

/o/ ~ /ɔ/

/p/ ~ /m/

/a/ ~ /ɛ/

Foram estas as oposições fonológicas que o teste da comutação, aplicado àqueles três pares de palavras, permitiu estabelecer.

A dois significantes semelhantes que têm um único elemento diferencial (e têm, por isso, significados diferentes) dá-se o nome de par mínimo (ou par distintivo). Um par mínimo é, então, um par de significantes que remetem para significados distintos e que diferem num único fonema localizado na mesma posição.

Os três pares de palavras atrás apresentados são pares mínimos. Mas os que se seguem não são:

– pato e galo (/’patu/ e /’galu/) - as duas palavras diferem em dois fonemas;

– pato e patos (/’patu/ e /’patuʃ/) - a segunda palavra possui mais um fonema do que a primeira;

– pato e tapo (/’patu/ e /’tapu/) - as palavras têm exactamente os mesmos fonemas mas dispostos numa ordem diferente;

Cada par mínimo permite identificar dois fonemas. Retomemos os três pares mínimos já apontados. As palavras avó e avô permitem identificar o fonema vocálico posterior semiaberto /ɔ/ e o fonema vocálico posterior semifechado /o/. As palavras pão e mão permitem a identificação do fonema consonântico oclusivo bilabial surdo /p/ e do fonema consonântico nasal bilabial /m/. Por fim, as palavras mal e mel propiciam a identificação do fonema vocálico central aberto /a/ e do fonema vocálico anterior semiaberto /ɛ/.

A relação de oposição fonológica está ligada à noção de exclusão, à noção de ausência, uma vez que a presença de uma unidade exclui todas as outras que poderiam ocorrer naquele ponto do enunciado. Trata-se de uma relação paradigmática51.

Podemos agora completar a definição já apresentada de fonema: é uma entidade abstracta, um conjunto de traços distintivos que permite estabelecer um contraste de significado no interior de um par mínimo. Possui uma função distintiva, ou seja, serve para distinguir os significantes dos signos.

Vimos já que se, num dado contexto, a substituição de um som por outro comporta mudança de significado da palavra, então esses dois sons constituem actualizações de dois fonemas distintos. É o que acontece com o par pato/bato. O fone [p] é a actualização do fonema consonântico oclusivo bilabial surdo /p/. O fone [b] é a actualização do fonema consonântico oclusivo bilabial sonoro /b/.

Dissemos igualmente que, em termos de significado, é indiferente articularmos a palavra rato com uma consoante vibrante múltipla apicoalveolar ou com uma consoante vibrante múltipla uvular. E concluímos que estes dois fones actualizam o mesmo fonema, ou seja, que não existe oposição fonológica entre eles.

Por outras palavras, quando, num dado contexto, a substituição de um fone por outro não comporta diferenças de significado, estamos em presença de alofones de um mesmo fonema. Alofones são, então, variantes (entidades concretas) de um mesmo fonema (entidade abstracta). Os alofones são dois (ou mais) fones que actualizam um mesmo fonema. E porque dizemos que actualizam um mesmo fonema? Porque da substituição de um fone pelo outro não decorre qualquer alteração a nível do significado da palavra em que se inserem. Se da substituição de um fone por outro não resulta qualquer alteração de significado na palavra em questão, então esses fones não reflectem qualquer oposição fonológica; dado que os fonemas se caracterizam precisamente pela sua função distintiva, concluímos que esses fones, em vez de actualizarem dois fonemas diferentes, constituem actualizações de um único fonema.

Há dois tipos de alofones, segundo um critério de (in)dependência relativamente ao contexto em que ocorrem.

a) Variantes livres ou individuais são alofones não determinados pelo contexto. Diz-se que estão em variação livre os dois fones vibrantes múltiplos (apicoalveolar e uvular) que podem ocorrer em carro ou em rato. O falante é 120 livre de optar por um ou outro fone. Numa dada situação, pode utilizar um e no momento seguinte pode utilizar outro.

b) Variantes contextuais ou combinatórias são alofones determinados pelo contexto. Diz-se que dois alofones estão em distribuição complementar quando um apenas surge em contextos nos quais o outro nunca ocorre. Por conseguinte, estes alofones nunca ocorrem no mesmo contexto (ao contrário do que sucede com as variantes livres).

Como exemplo, refira-se o fonema consonântico lateral apicoalveolar em mala e em malta. Na palavra mala, o fone consonântico lateral ocorre em posição inicial de sílaba, e é actualizado como consoante lateral apicoalveolar [l]; em malta, o fone consonântico lateral ocorre em final de sílaba, e, por isso, é actualizado como consoante lateral apicoalveolar velarizada [ɫ]. Não é possível que o fone consonântico lateral apicoalveolar [l] surja em final de sílaba, nem que o fone consonântico lateral apicoalveolar velarizado [ɫ] surja em início de sílaba. Trata-se, neste caso, de alofones contextuais porque o falante não é livre de escolher: a ocorrência de uma ou outra variante está condicionada a priori pelo contexto em que ocorre cada um dos fones.

Em contexto intervocálico, há oposição fonológica entre o fonema consonântico vibrante simples /r/ e o fonema consonântico vibrante múltiplo /R/, o que se comprova através de pares mínimos como muro/murro e caro/carro. Todavia, nos contextos de início de palavra e de final de sílaba, dá-se a neutralização dessa oposição. Em início de palavra só pode ocorrer a consoante vibrante múltipla (como em rato, por exemplo). Em final de sílaba só pode ocorrer a consoante vibrante simples (como em arte ou em comer).

Há neutralização de oposição fonológica quando a oposição entre dois fonemas não se realiza em determinados contextos, ou seja, quando dois fonemas que se opõem em certas posições (por exemplo, há oposição fonológica entre as consoantes vibrantes simples e múltipla em contexto intervocálico, nomeadamente entre duas vogais orais) não se opõem noutras (no caso dos fonemas vibrante simples e múltiplo, esta neutralização observa-se nos contextos de início de palavra e de final de sílaba). Fala-se de neutralização a propósito de fonemas que têm em comum pelo menos um traço 121 distintivo. Os fonemas vibrantes simples e múltiplo têm em comum o traço [+ vibrante]. A unidade fonológica que resulta de uma neutralização designa-se por arquifonema e caracteriza-se pelo(s) traço(s) comum(ns) aos dois fonemas: neste caso, o traço [+ vibrante].

5.3. O objecto de estudo da Prosódia

Ainda no âmbito do plano fónico de uma língua, mas não constituindo objecto de estudo nem da Fonética nem da Fonologia, há que registar outros fenómenos analisados pela Prosódia. Esta disciplina procede ao estudo da entoação, da intensidade, da duração, do ritmo e do tom da cadeia falada. Estuda, por outras palavras, fenómenos de carácter supra-segmental52.

Vamo-nos referir ao acento e à entoação, uma vez que na nossa língua têm implicações importantes no significado das palavras e dos enunciados. Tanto o acento como a entoação são fenómenos prosódicos, supra-segmentais, porque se sobrepõem ao corte e à análise do enunciado em morfemas e em fonemas.

5.3.1. O acento

O acento é o processo fónico que permite colocar em relevo uma determinada sílaba. Resulta da conjugação das propriedades de intensidade, altura e duração. A sílaba sobre a qual recai o acento é articulada com maior intensidade, ou seja, com maior força expiratória do que as sílabas átonas. É igualmente articulada num tom mais elevado e é mais longa do que as restantes sílabas.

Em português, o acento tem uma função distintiva, pois uma mesma sequência de fones pode ter significados diferentes em função da sílaba em que recai o acento. As palavras íntimo e intimo são constituídas pelos mesmos 123 fonemas, ordenados exactamente nas mesmas posições. A única diferença reside na sílaba em que recai o acento: antepenúltima em íntimo, penúltima em intimo.

Também entre partiram e partirão a única diferença ao nível fónico reside na posição do acento: penúltima sílaba no caso de partiram, última sílaba no caso de partirão. Os pares de palavras seguintes constituem outros exemplos do mesmo fenómeno: crítica/critica, influência/influencia e matrícula/matricula.

O acento pode, na língua portuguesa, recair em qualquer uma das três últimas sílabas, e só nessas. É essa a razão pela qual o plural de palavras como júnior e sénior é, respectivamente, juniores ([ʒuni’ɔrɨʃ]) e seniores ([sɛni’ɔrɨʃ]) – em ambos os casos, estamos em presença de palavras graves – e não *júniores ([‘ʒuniɔrɨʃ]) e *séniores ([‘sɛniɔrɨʃ]): é que, nestes casos, estaríamos a fazer recair a sílaba tónica na quarta sílaba a contar do fim53.

Quando recai na terceira sílaba a contar do fim da palavra, estamos em presença de uma palavra proparoxítona ou esdrúxula (exemplos de palavras esdrúxulas são os seguintes: referência, hipérbole, musicólogo, pálpebra, dúvida, belíssimo, olimpíadas, lápide). Na ortografia do português, a vogal da sílaba tónica das palavras esdrúxulas é sempre marcada com um acento gráfico.

Sempre que o acento recai na segunda sílaba a contar do fim da palavra, estamos em presença de uma palavra paroxítona ou grave (exemplos de palavras graves são os seguintes: Cristóvão, fácil, tórax, livro, carro, feriado, mitologia, lagosta). A maior parte das palavras da língua portuguesa é acentuada na penúltima sílaba a contar do fim da palavra. O português é, portanto, uma língua predominantemente grave, quanto à acentuação das suas palavras.

Quando o acento recai na última sílaba da palavra, estamos em presença de uma palavra oxítona ou aguda (exemplos de palavras agudas são os 124 seguintes: correr, ali, amanhã, composição, maracujá, assim, lençol, juiz, peru, francês).

5.3.2. A entoação

Para além do acento, também a entoação pode ser pertinente para determinar o significado de um enunciado. A entoação consiste na curva melódica do enunciado, curva essa que é marcada por variações de altura: ela pode ter movimentos ascendentes, descendentes ou uniformes. Estes movimentos podem combinar-se na articulação de um mesmo enunciado (ou seja, um enunciado pode ter uma curva melódica do tipo descendente-ascendente ou vice-versa, etc.).

Um enunciado assertivo (do tipo de As aulas recomeçaram hoje ou A Ana teve treze valores no exame) normalmente caracteriza-se por uma curva melódica descendente. O final de muitas perguntas tem uma entoação ascendente (por exemplo, em As aulas recomeçaram hoje? ou A Ana teve positiva no exame?).

Em português, é possível que duas frases exactamente iguais (constituídas pelas mesmas palavras, as quais se apresentam ordenadas do mesmo modo) tenham significados diferentes devido à sua entoação:

(16) Vais sair já? (interrogação)

(17) Vais sair já! (ordem)

(18) Fecha a porta. (ordem)

(19) Fecha a porta. (pedido)

Actividades

1. Entre os pares de palavras a seguir apresentados, aponte aqueles que constituem pares mínimos. Justifique.

– amo / ano

– casar / caçar

– acento / assento

– hera / ela

– ato / alho

– mão / mãe

2. Apresente três pares mínimos e indique as oposições fonológicas que esses pares lhe permitiram identificar.

Referências bibliográficas

a) Leituras complementares

MATEUS, Maria Helena Mira (1996), “Fonologia”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, p. 171-185.

MATEUS, Maria Helena Mira, Isabel FALÉ, e Maria João FREITAS (2005), Fonética e fonologia do português, Lisboa, Universidade Aberta, p. 167-172.

b) Obras referidas

MARTINS, Maria Raquel Delgado (1988) Ouvir falar. Introdução à fonética do português, Lisboa, Caminho.

MATEUS, Maria Helena Mira, et alii (2003), Gramática da língua portuguesa (5.ª ed. revista e aumentada), Lisboa, Caminho.

Notas

  1. O conjunto de traços distintivos que se generalizou entre os linguistas foi aquele proposto por Noam Chomsky e Morris Halle (cf. MARTINS (1988: 105-118). Em MATEUS (1996: 179-185) são classificados todos os fonemas do português com base nesses traços.
    ↩
  2. O sinal + indica que a consoante possui o traço distintivo em questão e o sinal – indica que não possui esse traço distintivo.
    ↩
  3. As palavras seguintes incluem exemplos de vogais átonas em posição pré-tónica: tirar, levar, colar e parar.
    ↩
  4. As vogais átonas pós-tónicas não finais, por definição, ocorrem apenas nas palavras esdrúxulas, como nos exemplos seguintes: apêndice, cérebro, átomo e bárbaro.
    ↩
  5. As vogais pós-tónicas finais ocorrem apenas em palavras graves, como as seguintes: abre, tudo e cara.
    ↩
  6. Cf. dicotomia saussureana sintagma/paradigma, explicitada ao longo do Capítulo 2 – Saussure e a emergência da Linguística como disciplina científica.
    ↩
  7. Opõe-se segmental a supra-segmental com base na Teoria da Dupla Articulação de André Martinet. Sendo possível dividir a cadeia falada em monemas (unidades mínimas significativas, compostas por significante e por significado; monema é um sinónimo não perfeito de morfema) e em fonemas (unidades mínimas distintivas, constituídas apenas por significante), diz-se que os monemas e os fonemas são fenómenos segmentais, ou seja, são unidades que podem ser identificadas recorrendo à operação de segmentação, de divisão dos enunciados. Mas o acento e a entoação são fenómenos concomitantes, que se sobrepõem aos monemas e aos fonemas, não sendo, portanto, segmentáveis. Diz-se, então, que se trata de fenómenos supra-segmentais. Embora as três disciplinas se ocupem do plano fónico das línguas naturais, a Fonética e a Fonologia tratam de fenómenos segmentais e a Prosódia de fenómenos supra-segmentais.
    ↩
  8. Em usos como *júniores e *séniores aparentemente o hiato da segunda e da terceira sílabas – ⟨io⟩ – é transformado em ditongo crescente – [jɔ]. Deste modo, e em rigor são as seguintes as transcrições fonéticas destas palavras articuladas como se a sílaba tónica fosse a sílaba inicial: [‘ʒunjɔrɨʃ] e [‘sɛnjɔrɨʃ]. E assim fica reposta a regularidade do português, pois as palavras são articuladas como esdrúxulas, ou seja, acentuadas na antepenúltima sílaba.
    ↩
127
Capítulo 6

Morfologia

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• definir o objecto de estudo da Morfologia;

• distinguir os conceitos de palavra e de morfema;

• reconhecer morfemas lexicais e morfemas gramaticais;

• distinguir morfemas livres de morfemas presos;

• identificar os diferentes tipos de constituintes das palavras;

• segmentar palavras do português em morfemas;

• reconhecer os diferentes processos de formação de palavras.

6.1. O objecto de estudo da Morfologia e conceitos operatórios básicos

A Morfologia procura descrever a estrutura interna dos significantes e as regras que determinam a formação das palavras.

Uma palavra comporta um significante e, pelo menos, um significado. Mas o conceito de palavra não coincide com o conceito de morfema (ou monema). O morfema é a unidade mínima significativa, isto é, uma unidade que não pode ser dividida sem que se lhe destrua ou altere o significado. Um morfema é, portanto, um signo linguístico, dotado de significante e de significado; é o signo linguístico mínimo. Também as palavras são signos linguísticos, mas frequentemente constituídas por mais do que um morfema. Aliás, todas as palavras de todas as línguas são formadas por um ou mais morfemas.

As palavras monomorfémicas (ou monomorfemáticas) são palavras constituídas por um único morfema, comportam apenas uma unidade mínima significativa (como pai, feliz). As palavras polimorfémicas (ou polimorfemáticas) são palavras constituídas por mais do que um morfema, comportam duas ou mais unidades mínimas significativas dispostas sucessivamente (pais, infelizmente).

Analisar a estrutura interna das palavras equivale, portanto, a descrever os morfemas que as constituem e os modos como se podem combinar para formar as palavras de uma dada língua.

6.1.1. Morfemas lexicais e morfemas gramaticais

Segundo um critério semântico, isto é, ao nível do seu significado, podemos distinguir morfemas de significação lexical e morfemas de significação gramatical.

Os morfemas de significação lexical remetem para a realidade extralinguística, para uma significação externa ao discurso: para pessoas, seres, objectos, ideias, estados de coisas, qualidades, etc. Estes morfemas pertencem a paradigmas abertos. Quer isto dizer que é sempre possível acrescentar mais uma unidade ao conjunto formado pelos morfemas, por 130 exemplo, que designam objectos. As constantes inovações tecnológicas, por exemplo, desembocam no surgimento de novos instrumentos que é necessário nomear: o aparelho que designamos por telefone tem pouco mais de um século; o que designamos por computador é ainda mais recente. O aparecimento das palavras que os designam comprova que os morfemas que permitem representar o mundo que nos rodeia pertencem a um conjunto não fechado.

Os morfemas de significação gramatical remetem para uma significação interna ao discurso, para as relações entre as unidades das frases e para as funções dessas unidades nas frases. Estes morfemas pertencem a paradigmas fechados. A título de exemplo, refira-se que não é todos os dias que surge uma nova preposição na língua portuguesa (como, por hipótese, poderia suceder no caso dos substantivos). Na verdade, estes morfemas fazem parte de um conjunto cujo número de unidades dificilmente se altera.

A diferença entre os dois tipos de morfemas torna-se explícita recorrendo ao exemplo seguinte. O significado de gato pode ser explicado a alguém que não fale português apontando para o animal a que a palavra se refere. Aponta-se para o animal ao mesmo tempo que se diz gato e essa pessoa (um falante de inglês, por exemplo) fica a saber que aquele animal, que na sua língua se designa por cat, em português é designado por gato. Mas não seria possível explicar o significado da preposição de da mesma maneira. Porque a preposição de não remete para uma realidade extralinguística, seja uma entidade ou um objecto do mundo que nos rodeia. Remete, antes, para relações de natureza gramatical, para as relações entre as palavras numa dada frase.

6.1.2. Morfemas livres e morfemas presos

Segundo um critério formal, podemos distinguir morfemas livres e morfemas presos. Morfemas livres são aqueles que podem ocorrer isoladamente (como mãe). Morfemas presos são aqueles que só ocorrem agregados a outros morfemas (o morfema de plural presente em mães, por exemplo).

A palavra monomorfemática feliz pode ocorrer isoladamente; o morfema que a constitui é, então, um morfema livre. Mas o prefixo in-, assim como o sufixo -mente, que lhe podemos agregar, só podem ocorrer juntamente com outro(s) morfema(s); logo, são morfemas presos. Todos os prefixos e sufixos são, por definição, morfemas presos, uma vez que não podem ocorrer senão agregados a outro(s) morfema(s).

Não se pode dizer que todos os morfemas lexicais são morfemas livres ou vice-versa. Muitos morfemas lexicais são morfemas presos, na medida em que só podem ocorrer agregados a morfemas gramaticais.

Vejamos as palavras seguintes:

– gato

– mesa

– dormir

Todas estas palavras incluem um morfema lexical (cujo significante é, respectivamente, gat-, mes- e dorm-), mas esse morfema nunca ocorre isoladamente, sem estar agregado a morfemas gramaticais. Nestes casos, trata-se dos morfemas de género (masculino em gato, feminino em mesa), assim como a vogal temática e o morfema de infinitivo (em dormir).

Por outro lado, há morfemas gramaticais que ocorrem isoladamente, como as preposições de e para ou as conjunções e e mas. São, por isso, morfemas livres.

6.1.3. Os constituintes das palavras

É pertinente distinguir igualmente entre palavras primitivas e palavras derivadas. As palavras primitivas (como sapato ou tecla) são aquelas que não se formaram a partir de nenhuma palavra e podem, além disso, dar origem a novas palavras. As palavras derivadas (como sapateiro ou teclado), por seu turno, foram formadas a partir de outras palavras (primitivas).

Explicitemos agora todos os constituintes de palavras (unidades que se associam entre si de acordo com regras morfológicas próprias de cada língua):

– o radical;

– os afixos54;

– a base;

– o tema.

O radical é o segmento do significante que permanece comum numa família de palavras. Os afixos são as unidades que podem ser agregadas ao radical, quer em posição anterior, quer em posição posterior, quer ainda em posição interior (este caso não se observa em nenhuma palavra do português).

Para ilustrar com exemplos os conceitos definidos, analisemos a seguinte família de palavras (ou palavras cognatas, isto é, um conjunto de palavras que se formaram em torno de um mesmo radical).

barco barquinho embarcar embarcação

barca barqueiro desembarcar reembarcar

O radical destas palavras é grafado ⟨barc⟩ ou ⟨barqu⟩ (repare-se que, na oralidade, o significante deste morfema mantém-se em todas as palavras, apesar da diferença a nível de ortografia). Como se pode comprovar, é esse morfema que se mantém em todas as palavras da mesma família, irmanando-as:

– ao nível do significante (porque lhes confere uma sonoridade idêntica);

– ao nível do significado (porque lhes dá um sentido comum).

Todos os outros componentes destas palavras são afixos: -o em barco, -inh e -o em barquinho, em-, -a- e -r em embarcar, etc.

A base distingue-se do radical pelo seguinte: ela é o segmento do significante da palavra que é susceptível de receber afixos. O conceito de base é, portanto, mais abrangente do que o de radical, porque uma base pode ser constituída apenas por um radical, mas também pode ser composta por um radical e por um ou mais afixos. Vejamos dois exemplos.

O radical barc- constitui a base da palavra embarcar, tendo-lhe sido agregados os afixos em- (em posição inicial; por isso, trata-se de um prefixo), 133 -a- e -r (estes dois afixos, foram colocados em posição final; logo, são sufixos). Mas, a partir de embarcar, formaram-se as palavras desembarcar e reembarcar. Logo, embarcar é também uma base (que inclui o radical barc- e os afixos em-, -a- e -r).

Na flexão verbal, também se utilizam as designações de vogal temática e de tema. A vogal temática é a vogal que se agrega ao radical (em posição final) dando origem ao tema do verbo. É, portanto, um afixo, e, dentro desta classe de morfemas, um sufixo. Tem uma função classificativa: permite identificar o verbo como pertencendo a uma das três conjugações existentes em português55. Embarcar, por exemplo, inclui uma vogal temática posposta ao radical: -a-.

O tema é constituído pelo conjunto formado por radical e vogal temática56. Nos verbos regulares, o radical é o segmento do significante que permanece comum a todas as formas verbais flexionadas.

Todos os constituintes das palavras são, naturalmente, morfemas, porque compostos por significante e por significado: o radical é um morfema; cada afixo (vogal temática incluída) é um morfema; quanto à base, ela pode integrar um ou mais morfemas, como vimos; por fim, o tema inclui necessariamente mais do que um morfema: pelo menos, o radical e a vogal temática (eventualmente, pode conter também um ou mais afixos, como se observa no tema do verbo desembarcar: desembarca-).

Dadas estas definições, podemos introduzir os conceitos de palavra simples e de palavra composta. As palavras simples possuem um único radical (por exemplo, couve e chuva). Já as palavras compostas integram mais do que um radical (couve-flor e guarda-chuva). Voltaremos a abordar estes conceitos quando definirmos o processo de formação de palavras designado composição.

Refira-se ainda a distinção entre morfema, morfe e alomorfe57. Um morfema é a unidade mínima significativa (entidade abstracta, do plano da 134 língua). Um morfe é uma entidade concreta do plano da fala, pelo que o seu significante é a manifestação física do significante da unidade abstracta que é o morfema. Em princípio, cada morfe diferente representa um morfema diferente. Mas há casos em que dois (ou mais) significantes distintos possuem o mesmo significado. Quando tal acontece, estamos em presença de alomorfes de um mesmo morfema. Alomorfes são, então, variantes fonéticas do significante de um morfema.

Todos os alomorfes são morfes, ou seja, são concretizações de um morfema. Mas, nos casos em que um mesmo significado pode ser actualizado por significantes diferentes, diz-se que esses morfes constituem alomorfes de um mesmo morfema.

Vejamos um exemplo. O significante do morfema de plural da palavra casas é actualizado oralmente de modos diferentes nas seguintes sequências de palavras:

casas pretas [ʃ]

casas brancas [ʒ]

casas amarelas [z]

Estes exemplos comprovam que a realização do significante do morfema de plural está condicionada ao fone seguinte58. É possível concluir, então, que as actualizações do significante do morfema de plural (os fones [ʃ], [ʒ] e [z]) constituem alomorfes desse morfema em português, porque estes significantes remetem para um mesmo significado (precisamente o significado de “plural”).

Em suma, a alomorfia constitui uma diferença de significante e não de significado: os significantes dos morfes são diferentes mas actualiza-se o mesmo morfema, porque o significado se mantém constante apesar das variações a nível do significante.

Temos vindo a referir casos de palavras cujos morfemas são facilmente segmentáveis, mas há casos em que a divisão não pode ser estabelecida. Diz-se que há amálgama quando dois ou mais morfemas combinam os seus significantes de tal forma que não é possível segmentá-los. Todavia, apesar de os significantes não serem identificáveis como segmentos, os significados estão presentes e são reconhecíveis através do processo de comutação. Nesses casos, os significantes dos morfemas estão amalgamados.

É o que acontece nas palavras seguintes:

– à (contracção da preposição a e do artigo a);

– dela (contracção da preposição de e do pronome pessoal ela)

Também se observam casos de amálgama em morfemas como as desinências número-pessoais e modo-temporais das formas verbais.

A forma verbal amavas é segmentável nos seguintes morfemas:

a) am- (radical);

b) -a- (vogal temática: verbo da 1.ª conjugação);

c) -va- (desinência modo-temporal: modo indicativo, pretérito imperfeito);

d) -s (desinência número-pessoal: 2.ª pessoa do singular).

O significante do morfema -va- (que tem o significado de modo e de tempo) não pode ser dividido de tal modo que se diga que uma parte desse significante veicula o significado de modo e que uma outra parte veicula o significado de tempo. O mesmo raciocínio é válido para o significante do morfema -s: não se pode dizer que parte desse significante remete para o significado de 2.ª pessoa e que uma outra parte remete para o significado de número singular. Logo, os significantes desses morfemas estão amalgamados.

A forma verbal venderemos é divisível nos morfemas seguintes:

a) vend- (radical);

b) -e- (vogal temática: verbo da 2.ª conjugação);

c) -re- (desinência modo-temporal: modo indicativo, tempo futuro);

d) -mos (desinência número-pessoal: 1.ª pessoa do plural).

Também neste caso se observa que o significante do morfema -re- não é susceptível de ser segmentado, não se podendo afirmar, por isso, que uma parte desse significante remete para o significado de modo e que outra parte veicula um significado de tempo. A mesma ideia pode ser transposta para a desinência número-pessoal -mos.

6.2. Morfologia flexional

No âmbito dos estudos morfológicos, é costume distinguir-se entre morfologia flexional e morfologia derivacional. Vamos referir-nos em primeiro lugar à morfologia flexional. O seu objecto de estudo é constituído pelos morfemas flexionais, aqueles que expressam categorias gramaticais: género, número, grau, modo, tempo e pessoa. Por outras palavras, a morfologia flexional estuda todas as formas presas que expressam significação de tipo gramatical. Os morfemas flexionais ocorrem geralmente nas seguintes classes de palavras: substantivos, adjectivos, artigos, pronomes, (alguns) numerais e verbos.

A distinção entre morfemas flexionais e morfemas derivacionais assenta em dois pontos:

a) Os morfemas flexionais não alteram nunca a classe gramatical da palavra à qual são agregados: gato ⟩ gatos, bonita ⟩ bonitas. Os morfemas derivacionais, pelo contrário, podem alterar a classe gramatical da palavra à qual se juntam: feliz ⟩ felizmente.

b) Em geral, os morfemas flexionais não contribuem para a significação lexical das palavras, ao contrário do que pode suceder com os morfemas derivacionais:

– gato ⟩ gatos (ambas as palavras se referem à mesma entidade extralinguística)59;

– barco ⟩ barqueiro (alterou-se o significado lexical base: de objecto para agente).

É possível listar de modo completo os processos de flexão de uma língua, uma vez que o número de morfemas que podemos combinar é previsível60. O 137 diagrama seguinte indica os diferentes tipos de flexão que existem em português.

singular / número / plural / nominal masculino / género / feminino / FLEXÃO / grau61 / modo/tempo / verbal / número/pessoa
Texto da figura
  • singular
  • número
  • plural
  • nominal masculino
  • género
  • feminino
  • FLEXÃO
  • grau61
  • modo/tempo
  • verbal
  • número/pessoa

A flexão nominal diz respeito aos substantivos, adjectivos, pronomes e artigos (e alguns numerais). A flexão verbal designa os fenómenos de flexão que se verificam apenas nos verbos.

6.3. Morfologia derivacional

No âmbito da morfologia derivacional, procede-se ao estudo dos mecanismos que permitem a formação de novas palavras a partir das já existentes no léxico de uma língua.

6.3.1. Processos de formação de palavras

Subjacente à formação de novas palavras, há três tipos de operações: operações aditivas, operações subtractivas e operações modificativas62. Propomo-nos explicitar, a seguir, os principais processos de criação lexical.

I. Operações aditivas (derivação, composição, reduplicação)

a) Derivação ou afixação

A derivação é o processo mais enriquecedor do léxico. Consiste na junção de afixos a uma base. Consoante a posição do afixo em relação à base, distingue-se, em português,

– derivação por prefixação (quando o afixo precede o radical: fazer ⟩ refazer, contente ⟩ descontente);

– derivação por sufixação (quando o(s) afixo(s) está(ão) em posição posterior relativamente ao radical: fácil ⟩ facilitar, ambiente ⟩ ambientar);

– derivação por circunfixação (ou parassíntese)63 (quando há, simultânea e obrigatoriamente, a junção de um prefixo e de um (ou mais) sufixo(s) a uma base: tarde ⟩ entardecer, louco ⟩ enlouquecer).

A palavra infelizmente não constitui um caso de derivação parassintética. Não houve a junção simultânea e obrigatória do prefixo e do sufixo à palavra primitiva, o que é comprovado pela existência das palavras infeliz e felizmente. Já em entardecer e em enlouquecer, o prefixo e o(s) sufixo(s) foram obrigatoriamente agregados à base em simultâneo, como se comprova pelo facto de não existirem as seguintes formas lexicais: *entarde ou *tardecer; *enlouco ou *louquecer.

Noutras línguas, existe ainda o processo de derivação por infixação, que se dá quando o afixo se agrega no interior da base. Este processo de formação de palavras, todavia, não se verifica em português.

b) Composição

O processo de composição consiste na junção de duas ou mais bases. Segundo um critério que decorre de as bases manterem ou não a sua integridade silábica, podemos distinguir dois tipos de composição:

– composição por justaposição (quando as bases mantêm a sua integridade silábica e acentual: segunda-feira, luso-brasileiro, girassol);

– composição por aglutinação (quando as bases perdem a sua integridade silábica e acentual: aguardente, pernalta, embora).

Note-se que não é o uso do hífen que permite distinguir palavras compostas por justaposição de palavras compostas por aglutinação. Em palavras como girassol, varapau ou rodapé, as duas bases mantiveram a sua integridade silábica (ou seja, não se perdeu qualquer elemento dos seus significantes originais), pelo que são palavras compostas por justaposição e, no entanto, não integram qualquer hífen.

O uso do hífen é uma convenção meramente ortográfica, não decorrendo do processo de formação das palavras compostas. Aliás, a palavra girassol (gira + sol > girassol), para obedecer a regras e natureza ortográfica, teve de incorporar uma letra extra relativamente ao modo como se redigem as palavras primitivas.

No caso das palavras compostas por justaposição, na oralidade, as bases são perfeitamente reconhecíveis, mantendo a sua integridade silábica.

Em suma, no caso do processo de composição, a ortografia não é considerada um critério válido para determinar se se trata de composição por 140 justaposição ou de composição por aglutinação. Só quando se perdeu algum elemento do significante oral das palavras primitivas se pode dizer que estamos em presença de palavras compostas por aglutinação. É o que se verifica em palavras como as seguintes:

– água + ardente > aguardente

– perna + alta > pernalta

– em + boa + hora > embora

O processo de composição por aglutinação produz casos de amálgama, porquanto não é possível segmentar claramente o significante de cada um dos morfemas constituintes da palavra composta ou, no caso de ser possível, observa-se que parte de, pelo menos, um desses significantes se perdeu no processo de formação da nova palavra.

c) Reduplicação

O processo de reduplicação consiste na repetição de um ou vários sons da palavra primitiva, podendo até ser repetida toda a palavra primitiva:

– Lurdes ⟩ Lulu;

– avó ⟩ vovó;

– dói ⟩ dói-dói.

Nos casos em que se repete apenas uma parte da palavra primitiva – como em Lulu e em vovó –, em rigor, trata-se simultaneamente de uma operação aditiva (porque se acrescenta algo ao significante da palavra primitiva) e subtractiva (porque se suprime parte da palavra primitiva).

Este processo de criação lexical manifesta-se sobretudo na linguagem infantil e familiar. As palavras criadas com intenção de manifestar afecto entre pessoas com elevado grau de familiaridade designam-se hipocorísticos. Muitas palavras criadas através do processo de reduplicação são, portanto, hipocorísticos, como Lulu, vovó e titi 64.

II. Operações subtractivas (derivação regressiva, siglação, acronímia, abreviação)

a) Derivação regressiva (ou regressão)

Neste processo de formação de palavras, a vogal temática e o morfema de infinitivo são substituídos por uma marca de género. Verifica-se a supressão dos sufixos flexionais verbais e o acrescentamento de um sufixo flexional nominal de género. A derivação regressiva é, portanto, um processo de nominalização deverbal, isto é, que permite criar substantivos a partir de verbos.

Alguns exemplos de palavras derivadas por regressão são os seguintes:

– caçar ⟩ caça;

– chorar ⟩ choro;

- tocar ⟩ toque.

Para se concluir que estamos em presença de um processo de derivação regressiva, é necessário efectuar uma investigação de carácter diacrónico, no sentido de verificar qual a forma que surgiu em primeiro lugar. Só no caso de o substantivo ter sido criado a partir do verbo é que se verificou derivação regressiva. Se se deu o inverso (a forma verbal ter sido gerada a partir da forma nominal), então a palavra formou-se por derivação por sufixação.

b) Siglação (ou lexicalização de siglas)

A siglação é um processo que permite simplificar sequências linguísticas extensas. As siglas são palavras formadas com recurso às letras iniciais de outras palavras, como nos exemplos seguintes:

– Polícia de Segurança Pública ⟩ PSP;

– Comunidade dos Países de Língua Portuguesa > CPLP

– Rádio Televisão Portuguesa > RTP

As siglas soletram-se, lêem-se letra a letra, dado que a sequência de letras não permite obter uma leitura silábica.

c) Acronímia

Os acrónimos são palavras formadas com recurso às letras ou sílabas iniciais de outras palavras, como nos exemplos seguintes:

– Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa ⟩ PALOP;

– síndrome de imuno-deficiência adquirida > SIDA.

– Organização das Nações Unidas > ONU.

Este processo, tal como a siglação, permite reduzir sequências linguísticas extensas e abreviar o tempo que se gasta a enunciar uma dada designação.

Não há diferenças no processo de formação das siglas e dos acrónimos. A distinção reside no resultado fónico obtido: as siglas lêem-se letra a letra, enquanto os acrónimos se lêem silabicamente, como qualquer outra palavra.

Sublinhe-se ainda que, neste processo de formação, são as letras e não os sons iniciais das palavras primitivas que dão origem ao acrónimo. Esta ideia pode ser comprovada por acrónimos como BANIF ou CIMPOR:

– BANco Internacional do Funchal > BANIF;

– CIMentos de PORtugal > CIMPOR.

A vogal na sequência de letras <ban> da palavra primitiva banco é uma vogal nasal. Já no acrónimo BANIF a primeira vogal é uma vogal oral. Se na formação do acrónimo se agregassem fones e não letras, então a primeira vogal de BANIF teria de ser nasal.

Em CIMPOR, observa-se o fenómeno inverso: uma vogal oral na palavra primitiva (o fone [i] da primeira sílaba da palavra cimentos) é articulada como vogal nasal no acrónimo. Também este exemplo evidencia que o que se agrega nos acrónimos são as letras e não os sons das palavras primitivas.

d) Abreviação (ou truncamento)

A abreviação consiste na supressão de uma parte da palavra primitiva. Na maioria dos casos, é a parte final que é truncada. Os exemplos seguintes ilustram casos de abreviação:

– exposição ⟩ expo;

– otorrinolaringologista ⟩ otorrino;

– José ⟩ Zé.

6.3.2. Outros processos de enriquecimento do léxico65 (derivação imprópria, empréstimo)

a) Derivação imprópria (ou conversão)

A derivação imprópria consiste na mudança de classe gramatical da palavra, sem que haja qualquer alteração formal. Assim, este processo não envolve modificações ao nível do significante, mas apenas ao nível da categoria gramatical. Ou seja, não envolve alterações formais mas funcionais. Por conseguinte, trata-se de um processo sintáctico (e não morfológico), pois não implica quaisquer modificações na estrutura interna da palavra.

Os exemplos seguintes ilustram casos de derivação imprópria:

– O carro azul é meu. (adjectivo)

– O azul daquele carro é bonito. (substantivo)

– Hoje vou jantar feijoada. (verbo)

– O jantar está pronto. (substantivo)

b) Empréstimo

Este processo consiste na importação de palavras de uma língua para outra, e na sua posterior integração – fonética, morfológica e gráfica – na língua-alvo. Os exemplos seguintes ilustram casos de empréstimo:

– rugby > râguebi;

– bonbon > bombom;

– macherone > macarrão;

Se o processo é designado por empréstimo, a palavra importada é designada por estrangeirismo.

Resta-nos apontar as razões que estão subjacentes à criação de novas palavras; elas são essencialmente duas:

a) a necessidade de designar novas realidades, de nomear novos referentes (uma inovação tecnológica ou uma nova doença, por exemplo, propiciam o surgimento de novas palavras, como sucedeu com computador e sida). Esta é, sem dúvida, a principal razão que está na origem da formação de novas palavras.

b) por simples fruição estética (assim se explica o aparecimento de palavras como Lusíadas, neologismo de Camões, ou do verbo outrar-se – isto é, “tornar-se outro” – usado por Fernando Pessoa).

Actividades

1. Considere o corpus seguinte:

mãe dono honesto

mães donas desonesta

a) Divida as palavras em morfemas.

b) A partir do corpus apresentado, indique exemplos de palavras constituídas por:

– um morfema;

– dois morfemas;

– mais do que dois morfemas.

2. Indique e defina os processos de criação lexical subjacentes ao aparecimento das segundas formas nos pares dados:

a) rico ⟩ enriquecer

b) Bárbara ⟩ Babá

c) Associação Académica de Coimbra ⟩ AAC

Referências bibliográficas

a) Leitura complementar

AZUAGA, Luísa (1996), “Morfologia”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, p. 215-228, 232-241.

Notas

  1. No conceito de afixo inclui-se o que, no âmbito da gramática tradicional, se designava por prefixos, infixos e sufixos (isto é, morfemas derivacionais), mas também as desinências verbais, as desinências nominais e a vogal temática (ou seja, morfemas flexionais).
    ↩
  2. Nos verbos amar, comer e partir, o radical é, respectivamente, am-, com- e part-, e a vogal temática (-a-, -e- e -i-) permite identificar cada um dos verbos como pertencendo à 1.ª, à 2.ª e à 3.ª conjugações.
    ↩
  3. Ama-, come- e parti- são os temas dos verbos amar, comer e partir.
    ↩
  4. Recorde-se, a propósito, a distinção entre fonema, fone e alofone explicitada ao longo do Capítulo 4 – Fonética. Embora tratando-se de conceitos diferentes, há um paralelismo que é possível estabelecer entre fonema e morfema (são ambos entidades do plano da língua), entre fone e morfe (são ambos entidades do plano da fala) e ainda entre alofone e alomorfe (são ambos variantes, actualizações possíveis da correspondente entidade abstracta).
    ↩
  5. Caso surja em posição final de enunciado, actualiza-se como consoante fricativa palatal surda [ʃ].
    ↩
  6. Todavia, a flexão em género por vezes altera a significação lexical de uma palavra: o galo / a gala (“ave doméstica” e “espectáculo”), a capital / o capital (“cidade onde está instalado o poder político” e “valor monetário, dinheiro”), a música / o músico (“conjunto de sons melodiosos” e “homem que toca música”), a quadra / o quadro (“estrofe com quatro versos” ou “época” e “pintura” ou “painel emoldurado”).
    ↩
  7. Refira-se que a flexão é condicionada sintacticamente pela concordância, fenómeno sintáctico pelo qual um determinado substantivo (pode também ser um pronome) exerce uma influência formal sobre o verbo de que é sujeito, e sobre os adjectivos, pronomes, artigos e numerais que se lhe referem. Como consequência dessa influência os pronomes, os adjectivos, os artigos e os numerais tomam marcas de género e de número do substantivo e o verbo toma as suas marcas de número e de pessoa.
    ↩
  8. No caso dos substantivos: normal, aumentativo e diminutivo. No caso dos adjectivos: normal, comparativo (de superioridade, de igualdade e de inferioridade) e superlativo (absoluto - sintético e analítico - e relativo - de superioridade e de inferioridade).
  9. Uma vez que actualmente não constituem processos relevantes de criação lexical, não referiremos as operações de tipo modificativo (concretamente, os fenómenos de apofonia e metátese).
    ↩
  10. Este processo verifica-se fundamentalmente na verbalização denominal e deadjectiva (verbos formados a partir de substantivos e de adjectivos). Como excepção, refira-se o adjectivo denominal desalmado, formado a partir de alma (adjectivo formado a partir de um substantivo).
    ↩
  11. Outras palavras que constituem hipocorísticos são os diminutivos, como Luisinha ou Toninho.
    ↩
  12. Em rigor, estes processos não deverão ser incluídos no âmbito da morfologia derivacional, uma vez que ou não comportam alterações formais nas palavras primitivas (como no caso da derivação imprópria) ou se trata da importação de palavras de uma língua estrangeira (como no caso do empréstimo). Julgamos, todavia, que se justifica integrá-los no âmbito mais vasto das reflexões sobre formação de novas palavras no português, dado que se trata de dois processos de enriquecimento do léxico relevantes (em particular, o processo de empréstimo).
    ↩
147
Capítulo 7

Sintaxe

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• explicitar o objecto de estudo da Sintaxe;

• distinguir gramaticalidade de aceitabilidade;

• reconhecer padrões típicos de ordenação das palavras nas frases em português;

• parafrasear os múltiplos sentidos de frases caracterizadas por ambiguidade estrutural;

• identificar as principais categorias sintácticas e sintagmáticas;

• utilizar testes de constituência para identificar constituintes das frases;

• utilizar testes de identificação dos constituintes que desempenham as principais funções sintácticas;

• proceder à análise de frases em constituintes imediatos;

• representar a estrutura de frases simples recorrendo a diagramas em árvore.

7.1. Objecto de estudo da Sintaxe e conceitos operatórios básicos

Ao longo deste Capítulo, explicitaremos o objecto de estudo da Sintaxe e alguns dos principais conceitos com que ela opera. A Sintaxe é a disciplina linguística que se ocupa da análise das regras de combinação das palavras que constituem os sintagmas e as frases.

Enquanto falantes de português, sabemos distinguir frases gramaticais de frases agramaticais. Uma frase gramatical é uma combinação de palavras que respeita os padrões de organização sintáctica (a nível da distribuição das classes sintácticas na frase e das funções sintácticas que desempenham) que são característicos de uma dada língua, enquanto numa frase agramatical esses padrões não são respeitados.

Diz-se, por isso, que todos os falantes nativos de uma língua têm um conhecimento sintáctico intuitivo, isto é, possuem a capacidade de emitir juízos acerca da gramaticalidade das frases de uma língua. Sabemos, por exemplo, que as palavras devem ocorrer na frase segundo uma determinada ordem:

(20) A Daniela aprecia comida chinesa.

(21) * Chinesa a aprecia comida Daniela.

Ambas as frases são constituídas pelas mesmas palavras. Mas a frase (21) é agramatical porque a ordenação das palavras não é correcta, não está de acordo com os padrões de distribuição das palavras nas frases na nossa língua. Em português, assim como noutras línguas, a posição que cada palavra ocupa na frase é decisiva.

Se alterarmos a sequência das palavras, além de frases agramaticais, podemos também originar frases com significados distintos:

(22) O caçador matou o elefante.

(23) O elefante matou o caçador.

As diferenças entre as duas frases no plano do significado decorrem da posição que as palavras ocupam umas em relação às outras. O mesmo sintagma (o caçador) desempenha funções sintácticas diferentes nestas frases: sujeito em (22) e complemento directo em (23). O reconhecimento das funções sintácticas das palavras na frase é essencial para a interpretação correcta dos enunciados.

Estes exemplos levam-nos a concluir que o significado de uma frase é mais do que a mera soma do significado das palavras que a compõem. A Sintaxe está ligada à noção de função, ao papel que uma palavra ou um sintagma desempenham na frase. E a posição que cada palavra ou sintagma ocupa na frase é fundamental para determinar a sua função sintáctica (sujeito, predicado, complementos).

Por outro lado, as frases (22) e (23) ilustram a ideia segundo a qual o português é uma língua cuja ordem mais natural das palavras na frase é SVO (Sujeito, Verbo, Objecto directo). SVO designa um padrão sintagmático abstracto que foi configurado a partir das relações sintagmáticas predominantes na língua portuguesa. A título de mera exemplificação, diga-se que há línguas de tipo SOV (como o turco, o persa e o japonês), VSO (o irlandês, o escocês, o galês e o bretão), VOS (o malgaxe), OVS e OSV (como algumas línguas faladas por indígenas da região da Amazónia). Todavia, mais de 95% das línguas conhecidas antepõem o sujeito ao objecto.

Mas nem todas as alterações na ordem das palavras produzem modificações ao nível do significado global da frase:

(24) Ontem fui ao cinema.

(25) Fui ao cinema ontem.

(26) Fui ontem ao cinema.

Estas frases podem ser usadas para designar a mesma acção. Enquanto falantes nativos de língua portuguesa, sabemos que duas frases que contêm 151 as mesmas palavras podem ter significados diferentes devido à ordenação distinta dessas palavras. Logo, a Sintaxe deverá formular regras que comprovem que as frases (24), (25) e (26) são gramaticais em português e que a frase (27) não é:

(27) * Fui ao ontem cinema.

Em suma, as frases não são formadas por palavras agrupadas ao acaso: há regras (sintácticas) que determinam como se deve combinar as palavras numa frase. Estas regras sintácticas diferem de língua para língua. Uma vez que os falantes nativos de cada língua conhecem intuitivamente as regras, são capazes de reconhecer frases sintacticamente bem formadas (frases gramaticais) e frases sintacticamente mal formadas (frases agramaticais).

É importante, nesta altura, distinguir os conceitos de gramaticalidade e aceitabilidade. A gramaticalidade relaciona-se com aspectos de carácter morfológico e sintáctico: uma frase é gramatical se respeita as regras morfo-sintácticas de uma língua, ou seja, se está de acordo com os padrões de formação e de combinação de palavras (tendo em conta, por exemplo, as relações de concordância e a ordenação das palavras na frase). A aceitabilidade está relacionada com aspectos de carácter semântico-pragmático, isto é, com o sentido global da frase e com a situação concreta em que o falante produz um enunciado. Muitas vezes uma frase gramatical não é aceitável66:

(28) ? Este é o gato que matou o rato que comeu o queijo que estava na casa que o Pedro construiu.67

A gramaticalidade de uma frase não é, portanto, uma condição suficiente para a sua aceitabilidade.

Outras vezes, a inaceitabilidade deriva de incompatibilidades semânticas:

(29) ? Aquela pedra está a chorar.

(30) ? O elefante saltitou levemente de nenúfar em nenúfar.

Estas frases, gramaticais mas semanticamente anómalas, desrespeitam compatibilidades semânticas: não se atribui a uma pedra a capacidade de chorar; os elefantes não saltam; e mesmo que o fizessem, não seria por certo com leveza, dado o seu peso68. Estes exemplos revelam claramente que a gramaticalidade não deriva do facto de a frase ser ou não verdadeira mas apenas do respeito pelas regras morfo-sintácticas de uma dada língua.

Por vezes, uma frase agramatical é aceitável numa dada situação:

(31) * Haviam muitas pessoas no estádio.

(32) * A gente somos poucos mas bons.

Estes dois enunciados são agramaticais e, no entanto, são aceitáveis entre falantes que, em contextos como os que foram apresentados, não usem o verbo haver flexionado na 3.ª pessoa do singular, nem façam a concordância entre o sujeito sintáctico a gente (flexionado no singular) e o verbo (flexionado no plural) – do ponto de vista sintáctico, o sintagma a gente encontra-se no singular, embora semanticamente remeta para uma pluralidade de pessoas.

Além de emitirmos juízos acerca da gramaticalidade das frases, temos igualmente a capacidade de reconhecer frases estruturalmente ambíguas:

(33) A mulher lavou as roupas que encontrou no tanque.

Esta frase é ambígua pois é possível atribuir-lhe dois significados, que explicitamos a seguir:

– “a mulher encontrou as roupas no tanque e lavou-as”;

– “a mulher encontrou as roupas e lavou-as no tanque”.

A ambiguidade aqui evidenciada (designada ambiguidade estrutural) advém, não do facto de uma palavra conter mais do que um significado (este tipo é designado ambiguidade lexical), mas do modo como as palavras estão ordenadas na frase. Pela posição que ocupa na frase, não é claro se o sintagma preposicional no tanque depende do verbo encontrar ou do verbo lavar.

O nosso conhecimento sintáctico intuitivo permite-nos, igualmente, reconhecer dependências locais, como nos exemplos que se seguem:

(34) Lamento que o seu avô tenha falecido.

(35) * Lamento que o seu avô faleceu.

O verbo lamentar selecciona na oração subordinada completiva um verbo no modo conjuntivo.

(36) Gosto da Joana.

(37) Amo a Joana.

O verbo gostar é regido pela preposição de, o que não acontece com o verbo amar.

A descrição sintáctica das frases de cada língua natural deverá, então, explicitar os seguintes pontos:

– a gramaticalidade das frases;

– a ordem de colocação das palavras nas frases;

– o conhecimento que os sujeitos falantes têm da ambiguidade estrutural;

– o conhecimento que têm da função gramatical de cada uma das partes da frase;

– a capacidade que um falante tem de produzir e compreender um número infinito de frases.

7.1.1. Categorias sintácticas e categorias sintagmáticas

As frases constituem unidades com uma estrutura hierárquica, nas quais as palavras são agrupadas em unidades sucessivamente maiores: os sintagmas. Um sintagma é uma palavra ou grupo de palavras que formam um conjunto no interior de uma frase. As categorias sintácticas (ou classes de palavras) principais são aquelas que constituem o núcleo de sintagmas. Eis a correspondência entre categorias sintácticas e categorias sintagmáticas:

CATEGORIAS SINTÁCTICAS CATEGORIAS SINTAGMÁTICAS / Verbo Sintagma Verbal (SV) / Substantivo (Nome) Sintagma Nominal (SN) / Adjectivo Sintagma Adjectival (SAdj) / Advérbio Sintagma Adverbial (SAdv) / Preposição Sintagma Preposicional (SP)
Texto da figura
  • CATEGORIAS SINTÁCTICAS CATEGORIAS SINTAGMÁTICAS
  • Verbo Sintagma Verbal (SV)
  • Substantivo (Nome) Sintagma Nominal (SN)
  • Adjectivo Sintagma Adjectival (SAdj)
  • Advérbio Sintagma Adverbial (SAdv)
  • Preposição Sintagma Preposicional (SP)

Tanto as categorias sintácticas como as categorias sintagmáticas são distribucionalmente equivalentes. Significa isto que as palavras isoladas ou os grupos de palavras que pertencem a uma mesma categoria são, em princípio, substituíveis e não causam agramaticalidade, como se comprova com o exemplo seguinte:

O elefante / Aquele automóvel / O homem que eu vi no cinema é enorme. / A ponte Vasco da Gama / Ela
Texto da figura
  • O elefante
  • Aquele automóvel
  • O homem que eu vi no cinema é enorme.
  • A ponte Vasco da Gama
  • Ela

7.1.2. Testes de constituência

Vejamos agora como é possível identificar os sintagmas dentro de uma frase. Para tal utilizam-se os chamados testes de constituência.

Estes testes não devem ser confundidos com os testes formais que permitem identificar os constituintes que desempenham as funções sintácticas de sujeito, de predicado, de complemento directo, etc. Embora em alguns casos eles coincidam, os testes de constituência permitem indicar que certos grupos de palavras dentro da frase mantêm entre si relações mais fortes (de ordem e de concordância, por exemplo).

Teste da substituição

Se for possível substituir um grupo de palavras dentro de uma frase por um pronome ou por um advérbio, por exemplo, então esse grupo é um sintagma. Vejamos os exemplos seguintes:

(38) Os cães ladram.

(39) Eles ladram.

(40) Espero por ti à porta do cinema.

(41) Espero lá por ti.

O facto de ser possível substituir os cães e à porta do cinema respectivamente pelo pronome eles e pelo advérbio lá evidencia que, em (38) e em (40), os grupos de palavras sublinhados constituem sintagmas.

Teste da deslocação

Se for possível deslocar um grupo de palavras dentro de uma frase, então é provável que essas palavras constituam um sintagma:

(42) O rato gosta de queijo da serra.

A partir do SV desta frase (gosta de queijo da serra), podemos perguntar-nos acerca da divisão subsequente. Usando o teste da deslocação verificamos que de queijo da serra constitui um SP dependente do SV indicado:

(43) De queijo da serra o rato gosta.

(44) * Queijo da serra o rato gosta de.

Um outro modo de realizar este teste consiste no uso de construções clivadas do género das que usamos em (46), (47) e (48):

(45) Os colegas deram um livro ao Pedro.

(46) Foi ao Pedro que os colegas deram um livro.

(47) Foi um livro que os colegas deram ao Pedro.

(48) * Foi um livro ao Pedro que os colegas deram.

Porque as frases (46) e (47) são gramaticais e a frase (48) não o é, conclui-se que um livro e ao Pedro constituem, não um único sintagma, mas dois sintagmas distintos (embora dependentes do mesmo SV).

Teste da coordenação

Um grupo de palavras forma um sintagma se puder ser coordenado com um outro grupo de palavras através das conjunções e ou ou:

(49) O João e a Maria já leram o último livro do Saramago.

(50) Esta noite fico em casa ou vou ao cinema.

Em (49), identificámos dois SN recorrendo a este teste: o João, a Maria. Em (50), identificámos dois SV: fico em casa, vou ao cinema.

Teste da retoma anafórica

Um grupo de palavras forma um SV se puder ser retomado anaforicamente, ou seja, se puder ser referido por uma outra palavra ou por um outro grupo de palavras.

(51) O Pedro partiu para Paris às dez horas.

(52) O Pedro partiu para Paris às dez horas e a Joana também.69

Através destes testes (usados sucessivamente) podemos estabelecer os constituintes das frases. Atente-se na seguinte frase:

(53) A Joana ofereceu um disco ao namorado.

Pelo teste da retoma anafórica, fica demonstrado que ofereceu um disco ao namorado é um SV:

(54) A Joana ofereceu um disco ao namorado e a Catarina fez o mesmo.

Pelo teste da substituição verificamos que a Joana é um SN:

(55) Ela ofereceu um disco ao namorado.

Também pelo teste da substituição comprovamos que um disco é um SN:

(56) A Joana ofereceu-o ao namorado.

Ainda pelo mesmo tipo de teste é possível concluir que ao namorado é um SP:

(57) A Joana ofereceu-lhe um disco.

7.2. Representações da estrutura da frase simples

Retomando o exemplo (53), representemos esquematicamente as sucessivas divisões que fomos estabelecendo.

A Joana ofereceu um disco ao namorado / A Joana ofereceu um disco ao namorado / A Joana ofereceu um disco ao namorado / A Joana ofereceu um disco a o namorado / A Joana ofereceu um disco a o namorado
Texto da figura
  • A Joana ofereceu um disco ao namorado
  • A Joana ofereceu um disco ao namorado
  • A Joana ofereceu um disco ao namorado
  • A Joana ofereceu um disco a o namorado
  • A Joana ofereceu um disco a o namorado

Num primeiro momento, apresentámos a frase completa. De seguida, identificámos, passo a passo, o SV ofereceu um disco ao namorado (cf. (54)), o SN a Joana (cf. (55)), o SN um disco (cf. (56)) e o SP ao namorado (cf. (57)).

Por fim, registe-se que o SN a Joana pode ainda ser dividido nos seus constituintes imediatos: a e Joana. O mesmo se verifica no SN um disco (um e disco) e no SP ao namorado (divisível num primeiro momento na preposição a e no SN o namorado; por sua vez, o SN o namorado é divisível no determinante o e no nome namorado).

Deste modo, é possível dividir uma frase em blocos (designados constituintes) e subdividir cada um dos blocos em blocos menores, até encontrarmos palavras individuais. Constituinte é, então, qualquer palavra ou construção que faça parte de uma construção maior. Constituinte imediato é um constituinte que forma directamente qualquer construção dada.

Joana é um constituinte imediato do SN a Joana mas é apenas constituinte de a Joana ofereceu um disco ao namorado. Um disco é um constituinte imediato do SV ofereceu um disco ao namorado mas é apenas constituinte de a Joana ofereceu um disco ao namorado. Um constituinte imediato de frase é a Joana ou ofereceu um disco ao namorado (uma vez que a frase se divide primeiramente nesses dois sintagmas).

Daí designarmos os procedimentos que explicitámos por análise em constituintes imediatos. Este tipo de análise permite salientar o facto de as frases se organizarem hierarquicamente e as dependências de cada palavra ou grupo de palavras.

O modo de representação estrutural da frase que usámos designa-se por caixa de Hockett, em virtude de ser esse o nome do linguista americano que a propôs. Mas a análise em constituintes imediatos pode ser também representada através de um diagrama em árvore invertida. Designa-se este tipo de representação por diagrama em árvore invertida uma vez que a “raiz” ocupa a posição superior e os “ramos” a posição inferior.

Quer a caxa de Hockett, quer o diagrama em árvore invertida constituem indicadores sintagmáticos, ou seja, formas de representar de modo esquemático a estrutura sintáctica das frases, subdividindo-as em blocos sucessivamente menores.

Apresentamos, a seguir, o diagrama em árvore da frase (39):

(58) A Rita adora aquele cão.

Diagrama em árvore (invertida)
F / SN SV / Det. N V SN / Det. N / A Rita adora aquele cão
Texto da figura
  • F
  • SN SV
  • Det. N V SN
  • Det. N
  • A Rita adora aquele cão

Neste diagrama, F designa frase; Det designa determinante; N designa nome (ou substantivo); por fim, V designa verbo. Ainda neste tipo de representação, P designa preposição, Adj designa adjectivo e Adv designa advérbio.

A análise em constituintes imediatos tem a vantagem de permitir visualizar a estrutura hierárquica que está subjacente a uma determinada frase, em particular no caso do diagrama em árvore.

Dissemos já que as categorias sintagmáticas são distribucionalmente equivalentes, o que significa que um SN pode substituir outro SN e formar uma frase sintacticamente correcta (embora possa ser semanticamente anómala). Então o SN a Rita deve poder comutar de posição com o SN aquele cão. E, de facto, a frase seguinte é gramatical:

(59) Aquele cão adora a Rita.

A análise em constituintes imediatos, representada esquematicamente por diagramas em árvore, revela-se, portanto, adequada a uma descrição sintácticas das frases das línguas naturais, tendo em consideração os pontos relevantes a que se propõe dar resposta (como a gramaticalidade das frases, os padrões de distribuição das palavras nas frases, e a capacidade de os sujeitos falantes produzirem e compreenderem um número potencialmente infinito de frases).

7.3. Testes de identificação das principais funções sintácticas

As funções sintácticas eram definidas pela gramática tradicional segundo um critério semântico, isto é, tendo em conta o significado: o sujeito, por exemplo, era definido como o agente da acção. Numa frase como a seguinte, tal definição era aceitável:

(60) O Pedro comeu a maçã.

Mas essa definição não é adequada em frases como as seguintes:

(61) O Pedro padece de uma doença grave.

(62) O Pedro apanhou uma bofetada.

Nestas frases, o sujeito é o paciente da acção ou do estado designado pelo verbo70. Estes exemplos invalidam uma definição da função sintáctica de sujeito com base em critérios nocionais. É preferível definir as funções sintácticas com base em critérios sintácticos, formais.

Propomo-nos enumerar, agora, os testes formais de identificação dos constituintes da frase que desempenham as principais funções sintácticas.

Sujeito

São os seguintes os testes que permitem identificar os constituintes que desempenham a função de sujeito:

a) O sujeito é o SN constituinte imediato de frase e ocorre geralmente em posição pré-verbal, isto é, à esquerda do verbo.

b) É também o controlador da concordância verbal: o verbo concorda com o sujeito em número e em pessoa.

c) A única forma do pronome pessoal que pode substituir um sujeito de 3.ª pessoa é a forma nominativa: ele(s)/ela(s).

d) O constituinte que na forma activa desempenha a função de sujeito é antecedido na respectiva frase passiva pela preposição por.

e) O sujeito de uma frase constitui a resposta à pergunta quem (ou o que) + SV?

Verifiquemos a pertinência destes testes a partir da frase seguinte:

(63) O rapaz comeu um gelado.

O sujeito (o rapaz) ocorre à esquerda do verbo e este concorda em número e em pessoa com aquele SN (3.ª pessoa do singular). O rapaz é substituível pelo pronome pessoal ele (Ele comeu um gelado) e na correspondente frase passiva é antecedido pela preposição por (Um gelado foi comido pelo rapaz). A resposta à pergunta quem comeu um gelado? é o rapaz.

Complemento directo

Eis os testes que permitem identificar os constituintes que desempenham a função sintáctica de complemento directo:

a) O complemento directo ocorre à direita do verbo e, geralmente, não é introduzido por qualquer preposição; por isso, na representação em árvore é, na maioria dos casos, o SN constituinte imediato de SV71.

b) É substituível pela forma acusativa do pronome pessoal: o(s)/a(s).

c) Na passiva, este constituinte desempenha a função de sujeito.

d) Constitui a resposta à pergunta quem (ou o que) é que + SN sujeito + Verbo.

Comprovemos, a partir do exemplo (63), se estes testes permitem identificar o constituinte que desempenha a função de complemento directo.

O SN um gelado ocorre à direita do verbo e não é introduzido por qualquer preposição (pelo que é constituinte imediato de SV). É substituível pela forma acusativa do pronome pessoal (O rapaz comeu-o) e na passiva desempenha a função de sujeito (Um gelado foi comido pelo rapaz). Por fim, constitui a resposta à pergunta o que é que o rapaz comeu?

Complemento indirecto

Apresentamos, agora, os testes que permitem identificar os constituintes que desempenham a função de complemento indirecto:

a) O complemento indirecto é introduzido pela preposição a72, sendo um SP constituinte imediato de SV.

b) Pode ser substituído pela forma dativa do pronome pessoal: lhe.

c) Responde à pergunta a quem (ou a que) é que + SN sujeito + verbo + complemento directo?

Procedamos à comprovação da justeza destes testes a partir das seguintes frases:

(64) O miúdo deu um brinquedo ao amigo.

(65) O Carlos limpou o pó à mesa.

Ao amigo, em (64), e à mesa, em (65) são constituintes introduzidos pela preposição a. São, também, substituíveis pela forma dativa do pronome pessoal (O miúdo deu-lhe um brinquedo e O Carlos limpou-lhe o pó). Constituem, ainda, as respostas às perguntas a quem é que o miúdo deu um brinquedo? e a que é que o Carlos limpou o pó?

Predicado

Veremos, por fim, os testes que permitem identificar os constituintes que desempenham a função sintáctica de predicado. Note-se que o predicado, em sentido restrito, corresponde à forma verbal isolada, e, em sentido lato, à forma verbal acompanhada dos outros constituintes que dependem de SV. Os testes apresentados permitem a identificação do predicado em sentido lato.

a) O predicado constitui a resposta à pergunta O que + fazer/acontecer + SN sujeito?

b) Pela construção de uma frase coordenada à frase em questão (com um sujeito diferente e contendo o advérbio também como substituto do SV) identifica-se o predicado73.

Retomemos o exemplo (64). Formula-se a interrogativa referida (O que fez o miúdo?) e obtemos, como resposta, o predicado: deu um brinquedo ao amigo.

Vejamos um outro exemplo:

(66) A casa ruiu.

Neste caso, formulamos a pergunta O que aconteceu à casa? e obtemos igualmente o predicado: ruiu.

Quanto ao segundo teste apresentado, relembremos a frase (63) e procedamos às alterações nele previstas:

(67) O rapaz comeu um gelado e a irmã também.

Individualiza-se, assim, o SV (comeu um gelado) por omissão, uma vez que ele não ocorre na segunda oração.

7.4. Propriedades de subcategorização

Dissemos já que os elementos de uma mesma categoria sintáctica (assim como os de uma mesma categoria sintagmática) podem substituir-se mutuamente num determinado contexto, sem causar agramaticalidade.

(68) A Ana leu o livro.

O SN sujeito pode ser substituído pelo SN o Carlos ou por a Rita:

(69) O Carlos leu o livro.

(70) A Rita leu o livro.

Do mesmo modo, o verbo e o complemento directo são substituíveis por outras formas:

(71) A Ana rasgou o livro.

(72) A Ana comprou o livro.

(73) A Ana leu o jornal.

(74) A Ana leu a revista.

Todavia, nem sempre esta comutação pode acontecer. Atente-se nas seguintes frases:

(75) As crianças adoeceram.

(76) * As crianças foram.

(77) * As crianças deram.

As formas adoeceram, foram e deram pertencem à mesma categoria sintáctica (estamos, em todos os casos, em presença de verbos), mas não são substituíveis no mesmo contexto. Tal impossibilidade deriva do facto de existirem restrições nas relações dos verbos com outros constituintes. Os verbos ir e dar exigem complementos; o verbo adoecer não. Mas mesmo em relação ao tipo de complementos que exigem, aqueles verbos (ir e dar) distinguem-se:

(78) As crianças foram à escola.

(79) * As crianças deram à escola.

Os verbos impõem restrições combinatórias. E a natureza da categoria com a qual o verbo se pode combinar para formar o SV é uma característica lexical sintacticamente relevante. Constitui aquilo que se designa por propriedades de selecção categorial ou propriedades de subcategorização. Cada verbo selecciona a categoria sintagmática dos constituintes com os quais pode ou deve ocorrer no interior do SV.

Um quadro de subcategorização explicita esquematicamente as propriedades de subcategorização de um determinado verbo. Por exemplo, o quadro de subcategorização do verbo ir é o seguinte:

ir v : [sv __ SP]

Esta representação esquemática significa que, numa frase em que ocorra, o verbo ir ocupa uma posição inicial no SV seguido obrigatoriamente por um SP.

Veja-se agora o quadro de subcategorização do verbo dar:

dar v : [sv __ SN SP]

Ou seja, o verbo dar ocorre em início de SV seguido por um SN e por um SP (o que é confirmado pelo enunciado (64)). Até pode acontecer que alguma destas categorias sintagmáticas não esteja explícita, mas tem de haver a possibilidade de a recuperar contextualmente, apesar de subentendida.

Vejamos outros exemplos:

(80) O Pedro arrumou os livros na estante.

(81) O Pedro arrumou os livros.

(82) * O Pedro arrumou.

O verbo arrumar ocorre obrigatoriamente com um SN e opcionalmente com um SP. O seu quadro de subcategorização é o seguinte:

arrumar v : [sv __ SN (SP)]

Estas restrições que os verbos apresentam não se reduzem às categorias sintagmáticas que seleccionam; abrangem igualmente a selecção das preposições que podem ocorrer com eles:

(83) * As crianças foram do parque.

Foi respeitado o quadro de subcategorização (o verbo ir ocorre, no interior de um SV, à esquerda de um SP) mas não a preposição com que este verbo pode combinar.

Atente-se agora nas frases seguintes:

(84) O Pedro deu um presente à mãe.

(85) O Pedro abriu a janela.

(86) O Pedro obedeceu à mãe.

(87) O Pedro espirrou.

(88) Nevou.

A partir das frases dadas é possível sistematizar as categorias sintagmáticas com que ocorrem os verbos nas frases apresentadas:

dar SN V SN SP

abrir SN V SN

obedecer SN V SP

espirrar SN V

nevar V

Esta sistematização remete para a classificação tradicional de verbos transitivos, intransitivos e impessoais:

– dar: verbo transitivo directo e indirecto (ocorre com sujeito, com complemento directo e com complemento indirecto);

– abrir: verbo transitivo directo (ocorre com sujeito e com complemento directo);

– obedecer: verbo transitivo indirecto (ocorre com sujeito e com complemento indirecto);

– espirrar: verbo intransitivo (apenas ocorre com um sujeito);

– nevar: verbo intransitivo e impessoal (não ocorre nem com sujeito nem com complemento directo ou indirecto).

Designa-se por argumentos internos os constituintes subcategorizados pelo verbo, ou seja, os sintagmas que são constituintes imediatos de SV.

Argumento externo é o constituinte exterior ao SV: o SN constituinte imediato de F, que desempenha a função de sujeito.

Os argumentos internos dependem hierarquicamente de SV, ao contrário do que acontece com o argumento externo, que depende de F (o que é visível quando se representa a estrutura sintáctica da frase num diagrama em árvore).

Na frase (84):

– um presente e à mãe são os argumentos internos do verbo dar;

– o Pedro é um argumento externo do mesmo verbo.

Todos eles são argumentos obrigatórios: têm de ocorrer combinados com o verbo dar, mesmo que não estejam explícitos.

Mas há também argumentos opcionais, isto é, argumentos que, se forem suprimidos, não causam agramaticalidade. No caso da frase (68), o SP no domingo passado é um argumento opcional:

(89) O Pedro deu um presente à mãe no domingo passado.

Temos vindo a tratar de frases simples (frases que contêm apenas uma predicação), mas existem igualmente frases complexas (frases que contêm mais do que uma predicação).

O verbo é uma expressão predicativa. Predicar significa atribuir propriedades a entidades (A Inês canta bem) ou estabelecer uma relação entre entidades (O Pedro gosta de fruta). Uma frase simples é uma frase com uma única predicação; uma frase complexa é uma frase com mais do que uma predicação.

Vejamos os exemplos seguintes:

(90) A Joana vê televisão.

(91) A Joana vê televisão e come pipocas.

O exemplo (91) é uma frase complexa, na qual as orações estão articuladas por coordenação; trata-se de duas frases simples justapostas, articuladas pela conjunção coordenativa copulativa e. A sua estrutura sintáctica é representada pelo seguinte diagrama em árvore:

F / F1 F2 / SN SV (SN) SV / Det N V SN (Det) (N) V SN / N N / A Joana vê televisão e (a Joana) come pipocas
Texto da figura
  • F
  • F1 F2
  • SN SV (SN) SV
  • Det N V SN (Det) (N) V SN
  • N N
  • A Joana vê televisão e (a Joana) come pipocas

Há coordenação quando as orações de uma frase complexa podem ocorrer isoladamente. Ambas estão ao mesmo nível no diagrama em árvore: não há uma que dependa da outra. O sujeito da segunda oração (neste caso, a Joana) pode não estar explícito, mas é contextualmente recuperável.

Sintacticamente, não há limite para o número de frases coordenadas. O único limite é a capacidade de memória dos falantes e dos ouvintes. O mesmo se verifica com a subordinação (ou encaixe); mas, neste caso, as orações que constituem a frase complexa não estão já ao mesmo nível na estrutura de constituintes, porque a(s) oração(ões) subordinada(s) depende(m) de uma oração subordinante.

Como vimos quando nos referimos às propriedades de subcategorização, os argumentos seleccionados por um verbo são em número finito. Um verbo não pode seleccionar mais do que três ou quatro argumentos, como na frase seguinte:

(92) (i) Os rapazes transportaram (ii) um piano (iii) da loja de instrumentos musicais (iv) para a sala de espectáculos.

Esse facto poderia levar-nos a pensar que as frases das línguas naturais não variam muito. Mas as frases podem ter membros coordenados ou subordinados em número infinito. O seguinte excerto de um texto de Carlos 172 Drummond de Andrade é revelador quanto às potencialidades infinitas da recursividade:

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.74

Actividades

1. Explicite a ambiguidade que se verifica na seguinte frase, fazendo uma dupla paráfrase:

Gosto de conversar com homens e mulheres inteligentes.

2. a) Elabore um diagrama em árvore que represente a estrutura sintáctica da seguinte frase:

A Catarina deu uma caixa de bombons ao irmão.

2. b) Identifique os constituintes que, na frase apresentada na alínea anterior, desempenham as funções sintácticas de sujeito, de complemento directo e de complemento indirecto.

2. c) Explicite os testes formais que lhe permitiram identificar os constituintes referidos na resposta à pergunta anterior.

Referências bibliográficas

a) Leitura obrigatória

DUARTE, Inês, e Ana Maria BRITO (1996), “Sintaxe”, in FARIA, Isabel Hub et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, pp. 247-275.

b) Leitura complementar

MATEUS, Maria Helena Mira, et alii (2003), Gramática da língua portuguesa (5.ª ed. revista e aumentada), Lisboa, Caminho, pp. 277-295, 435-439, 551-557.

Notas

  1. O ponto de interrogação colocado no início da frase indica que ela é de aceitabilidade duvidosa.
    ↩
  2. A possibilidade de usar repetidamente a mesma construção (no caso, quatro orações relativas consecutivas) designa-se por recursividade. Este fenómeno tem como consequências o facto de não existir limite para a extensão de uma frase e de não ser possível exibir uma lista completa de todas as frases que podem ser geradas numa dada língua natural. O que é possível estudar é o sistema finito de regras sintácticas que permite gerar um número infinito de frases.
    ↩
  3. A questão é um pouco mais complexa: em certos contextos (na literatura e nas anedotas, por exemplo), frases como estas são aceitáveis. Os textos literários (sobretudo os textos líricos) muitas vezes derrogam as compatibilidades semânticas esperadas.
    ↩
  4. Ou O Pedro partiu para Paris às dez horas e a Joana fez o mesmo.
    ↩
  5. Um outro exemplo: O pó acumulou-se sobre a mesa. O SN o pó é o sujeito desta frase mas não é o agente da acção.
    ↩
  6. Tal não se verifica com os chamados verbos copulativos (como ser, estar, permanecer, ficar, etc.). Nestes casos, o SN constituinte imediato de SV não desempenha a função de complemento directo. Outras excepções constituem os verbos regidos por preposições, tais como os exemplos que se seguem: gostar de fruta, pegar em halteres, chamar por ti, esperar por ela, cumprir com as suas obrigações, etc. Nestes casos, o complemento directo é um SP constituinte imediato de SV.
    ↩
  7. Note-se que nem todos os sintagmas preposicionais iniciados por esta preposição desempenham a função de complemento indirecto (como, por exemplo, em fui à missa ou regresso à noite).
    ↩
  8. Veja-se os testes de constituência já apresentados, nomeadamente o teste da retoma anafórica.
    ↩
  9. Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia.
    ↩
175
Capítulo 8

Semântica

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• explicitar o objecto de estudo da Semântica;

• definir o conceito de significado;

• distinguir significado lexical de significado gramatical;

• distinguir significado literal de significado não-literal;

• aplicar a metodologia da análise sémica (ou análise componencial) para a descrição do significado lexical das palavras;

• identificar diferentes tipos de relações semânticas entre palavras;

• distinguir os campos de análise da Semântica Lexical e da Semântica Frásica;

• identificar diferentes tipos de relações semânticas entre frases.

8.1. Objecto de estudo da Semântica e conceitos operatórios básicos

A Semântica é a disciplina linguística que procede ao estudo do significado das unidades linguísticas. Lida, portanto, com o significado, ou seja, com a face não manifesta do signo linguístico, o que constitui uma dificuldade acrescida desta disciplina: investiga um objecto de estudo não material, não manifesto (no que se distingue da Fonética, da Morfologia e da Sintaxe).

O significado de uma palavra consiste numa representação mental, num conceito que os sujeitos falantes têm interiorizado e que associam sistematicamente a um dado significante. Os significados das palavras e das frases constituem representações conceptuais da realidade que nos rodeia, mas também de entidades fictícias (como Sherlock Holmes, Pégaso ou o Pai Natal) e de eventos que não se deram (o apocalipse bíblico).

É costume distinguir, em Linguística, significado lexical de significado gramatical. O significado lexical diz respeito às palavras que têm um referente na realidade extralinguística. Cão, Lisboa, Sherlock Holmes e lâmpada designam entidades reais ou ficcionadas que existem no mundo em que estamos inseridos: um animal ou classe de animais, uma cidade, um personagem da literatura policial e um objecto que serve para iluminar. Os substantivos (ou nomes), os verbos, os adjectivos e os advérbios são tipicamente classes de palavras com significado lexical.

O significado gramatical diz respeito às relações que se estabelecem entre as unidades linguísticas nas frases. As preposições de e para, e as conjunções porque e contudo não designam uma entidade que existe no mundo; o seu significado serve, em vez disso, para evidenciar relações entre elementos das frases ou entre frases. As preposições, as conjunções e os artigos são classes de palavras com significado gramatical. Também os morfemas nominais de género e número, assim como os morfemas verbais de modo, tempo, pessoa e número têm significado gramatical.

Uma forma de distinguir claramente as palavras com significado lexical das palavras com significado gramatical consiste em raciocinar do seguinte modo: podemos ensinar a um falante nativo de inglês o significado da palavra 178 cão apontando para o seu referente, se esse animal passar à nossa frente na rua. Apontamos para o animal, dizemos cão e o nosso interlocutor compreende que aquele significante remete para um significado susceptível de ser explicitado como “mamífero doméstico que ladra”.

Mas o mesmo método não serve para ensinar o significado de palavras como de e contudo, precisamente porque elas têm um significado de natureza gramatical. Para descrever o significado destas palavras necessitamos de recorrer a outras estratégias (por exemplo, à tradução ou à exemplificação com base em frases nas quais elas sejam utilizadas).

Sempre que nos servimos da linguagem verbal, veiculamos informação. Intuitivamente, cada falante possui um conjunto de saberes acerca do significado das palavras da sua língua materna. É esse conhecimento semântico intuitivo que nos permite aceitar umas frases e não aceitar outras:

(93) O António bebeu água ao almoço.

(94) O meu filho é o meu herdeiro.

(95) ? O António bebeu pescada ao almoço.

(96) ? O meu filho é o meu pai.

Todas estas frases são gramaticais, uma vez que não violam regras de carácter morfo-sintáctico, mas (95) e (96) não são aceitáveis porque desobedecem a regras de natureza semântica: o verbo beber é compatível com alimentos líquidos, mas não com alimentos sólidos, e não é possível um homem ser, objectivamente, ao mesmo tempo filho e pai da mesma pessoa.

É também o conhecimento semântico intuitivo que nos permite dizer que as frases que se seguem, embora tenham uma estrutura sintáctica distinta, são equivalentes ao nível do significado:

(97) O Carlos comeu um pacote de bolachas.

(98) Um pacote de bolachas foi comido pelo Carlos.

A Semântica procura, então, explicitar o conhecimento intuitivo que cada falante possui acerca do significado das palavras e das frases da sua língua materna.

8.2. Semântica Lexical

Vamos começar por tratar de questões de Semântica Lexical, área da Semântica que procura descrever o significado das palavras de uma dada língua, bem como as relações que se estabelecem entre os significados das palavras dessa mesma língua.

8.2.1. Significado literal e significado não-literal

A Semântica Lexical procura descrever aquelas palavras cujo significado remete para a realidade extralinguística. Além disso, concentra-se no estudo do significado lexical denotativo, rejeitando, pelo menos numa primeira abordagem, o significado lexical conotativo, em virtude da subjectividade que subjaz à conotação. Por exemplo, imaginemos que, num texto cuja temática é a política portuguesa, ocorrem as seguintes frases:

(99) A rosa murchou.

(100) A laranja está amarga.

Nestes casos, rosa pode não designar a flor que todos nós conhecemos mas o “Partido Socialista”, assim como laranja pode não designar um determinado citrino mas o “Partido Social Democrata”. Esta associação deve-se ao facto de serem essas as cores que permitem identificar aqueles partidos no espectro partidário português.

Coloca-se então uma questão importante: se as palavras têm um determinado significado, como é possível que elas nem sempre signifiquem aquilo que basicamente significam? Como é possível que rosa (que normalmente designa um tipo de flor) signifique, em (99), “PS”? E como é possível que laranja (que normalmente designa um fruto) signifique, em (100), “PSD”?

A resposta consiste no seguinte: as palavras podem acumular um significado literal e um significado não-literal ou metafórico. “PS” e “PSD” são significados não-literais de rosa e laranja (na variante europeia do português).

O significado literal (relacionado com o conceito de denotação) remete para a(s) entidade(s) a que a palavra (ou frase) objectivamente se refere. O significado não-literal (relacionado com a conotação) remete para o conjunto de associações que o uso de uma palavra (ou frase) pode evocar. A Semântica Lexical preocupa-se primariamente com o significado literal de uma palavra.

Há ainda outros aspectos importantes do significado. Muitas vezes os locutores comunicam mais do que o que literalmente dizem, como na frase seguinte:

(101) Quando é que deixaste de fumar?

Esta frase, não o referindo explicitamente, implica que o interlocutor costumava fumar.

Além disso, por vezes os falantes comunicam exactamente o contrário daquilo que dizem, como em (102):

(102) Fizeste muito bem!

Se este enunciado ocorre quando uma mãe diz à criança após esta ter partido um copo, ela pretende comunicar o inverso do que a frase literalmente diz. Veremos, ao longo do Capítulo 9, que estes aspectos da significação são abordados no âmbito da Pragmática.

8.2.2. Análise sémica (ou análise componencial)

Dissemos que um dos objectivos da Semântica Lexical consiste em descrever os significados de uma dada língua. Vejamos um tipo de análise que permite fazê-lo.

É possível especificar o significado de uma palavra através de um conjunto de traços semânticos ou propriedades semânticas. Por traço 182 semântico (ou sema) entende-se a unidade mínima de significação (abstracta).

Pode fazer-se a seguinte analogia: o traço semântico está para a Semântica como o traço distintivo está para a Fonologia. Tal como o fonema /p/ se caracteriza pelos traços distintivos [+ consoante] e [+ bilabial], por exemplo, o significado de mulher pode ser caracterizado pelos traços semânticos [+ humano] e [+ feminino]. Tenha-se em consideração, todavia, que o traço distintivo releva de características de natureza articulatória (do significante) e é usado caracterizar unidades mínimas distintivas (os fonemas), enquanto o traço semântico remete para características de natureza conceptual e pretende-se com ele caracterizar a face conceptual do signo linguístico (o significado).

É conveniente não confundir traço semântico com morfema: o significado de um morfema pode ser constituído por vários traços semânticos.

O quadro que a seguir se apresenta procede à distinção, com base neste tipo de análise, entre o significado das palavras homem, cão e leão.

homem cão leão / [+ animado] [+ animado] [+ animado] / [+ macho] [+ macho] [+ macho] / [+ humano] [- humano] [- humano] / [- felino] [- felino] [+ felino]
Texto da figura
  • homem cão leão
  • [+ animado] [+ animado] [+ animado]
  • [+ macho] [+ macho] [+ macho]
  • [+ humano] [- humano] [- humano]
  • [- felino] [- felino] [+ felino]

O significado das três palavras inclui os traços [+ animado] e [+ macho]. Distinguem-se porque o significado de homem inclui o traço [+ humano] (ao contrário do significado de cão e leão). Por outro lado, o significado de leão inclui o traço [+ felino] (ao contrário do significado de homem e cão).

Este tipo de descrição do significado das palavras designa-se por análise sémica (ou análise componencial) e é um tipo de análise decalcado sobre o modelo fonológico. Recordemos o exemplo de anomalia semântica apresentado no início do capítulo:

(103) ? O António bebeu pescada ao almoço.

A explicação da análise componencial para esta anomalia semântica reside no facto de o verbo beber ter necessariamente de ocorrer com um complemento directo cujo significado se caracterize pelo traço [+ líquido].

8.2.3. Relações semânticas entre palavras

Vejamos agora as relações semânticas que estruturam o léxico de uma língua: sinonímia, antonímia, hiperonímia/hiponímia e holonímia/meronímia.

Sinonímia

A sinonímia é uma relação semântica instituída entre palavras com significados idênticos. Sinónimos são palavras de significante distinto mas equivalentes do ponto de vista semântico. Essas palavras pertencem à mesma categoria sintáctica: começar / iniciar (verbos), chefe / patrão (substantivos).

As palavras bêbado e embriagado são sinónimas: designam um mesmo estado. Todavia, não são substituíveis em todos os contextos. Em termos de registo de língua (variação diafásica), uma mesma pessoa pode utilizar no seu dia-a-dia as duas designações, mas não as utiliza nas mesmas situações. Numa situação mais formal há tendência para usar embriagado, enquanto numa situação menos formal usa-se preferencialmente bêbado. Dizemos, por isso, que são sinónimos estilísticos, uma vez que possuem o mesmo núcleo conceptual mas são utilizados em registos de língua diferentes. O mesmo se verifica com chato e aborrecido, chumbar e reprovar, etc.

Há quem defenda que os sinónimos perfeitos não existem numa língua. Sinónimos perfeitos são palavras que têm exactamente o mesmo significado e que podem comutar em todos os contextos sem que haja qualquer alteração (por mínima que seja) ao nível do significado veiculado. Na verdade, de que serviria a existência de muitas palavras diferentes na forma mas exactamente iguais no significado? A sinonímia perfeita parece um luxo inútil da linguagem verbal.

Todavia, há palavras que designam exactamente a mesma realidade extralinguística e são comutáveis em qualquer contexto. Malária e paludismo, 184 assim como surda e áfona (quando caracterizam uma consoante), são pares de palavras que parecem contrariar a ideia segundo a qual não há sinónimos perfeitos, já que estas duas formas distintas possuem exactamente o mesmo significado e são substituíveis em todos os contextos.

Antonímia

A antonímia consiste numa relação semântica de contraste, de oposição entre o significado de duas palavras. Antónimos são palavras que contrastam em algum dos seus traços semânticos. As palavras quente e frio, por exemplo, são antónimos mas designam ambos um estado ou uma qualidade que releva da temperatura.

Há vários tipos de antonímia:

a) Antonímia binária (ou antonímia complementar)

Trata-se daqueles casos em que os pares de palavras designam duas situações alternativas: vivo/morto, presente/ausente, aberto/fechado.

Há três modos de identificar os casos de antonímia binária:

– Da afirmação de um dos termos resulta a negação do outro e vice-versa

A frase Hitler está morto implica Hitler não está vivo. A frase Hitler não está morto implica Hitler está vivo. Do mesmo modo, a frase A Carolina está ausente implica A Carolina não está presente. E a frase A Carolina não está ausente implica A Carolina está presente.

– Estes antónimos não admitem comparações

As frases Hitler está mais morto do que Estaline e A Carolina está mais presente do que a Marta não são aceitáveis.

– Em relação a este tipo de antónimos não podemos utilizar uma construção do tipo da que se segue:

(104) ? A porta não está aberta nem fechada.

b) Antonímia graduável (ou antonímia polar ou antonímia escalar)

Estes antónimos constituem os extremos, os pólos de uma escala contínua de valores:

quente / morno / frio
Texto da figura
  • quente
  • morno
  • frio

Alto/baixo, gordo/magro são outros exemplos de antonímia graduável.

Há também três modos de identificação destes casos:

– Da afirmação de um dos termos resulta a negação do outro

A frase O leite está quente implica O leite não está frio.

Mas da negação de um deles não resulta a afirmação do outro. A frase O leite não está quente não implica O leite está frio: o leite pode estar simplesmente morno.

– Estes antónimos admitem a comparação, uma vez que incluem uma gradação:

(105) Este café está mais quente do que o que tomei há meia hora.

– Relativamente a este tipo de antónimos já podemos utilizar uma construção do tipo:

(106) O café não está quente nem frio.

O café pode estar simplesmente morno.

c) Antonímia conversa (ou reciprocidade)

Consiste este tipo de antonímia no facto de um par de palavras designar o mesmo conteúdo a partir de dois pontos de vista diferentes. Com as duas frases que se seguem exprime-se a mesma relação entre duas pessoas, mas perspectivada de pontos de vista distintos:

(107) O Henrique é o pai do João.

(108) O João é o filho do Henrique.

Outros exemplos são os seguintes pares de palavras: avô/neto, marido/esposa, professor/aluno e médico/paciente.

d) Antonímia direccional

A antonímia direccional é a relação semântica entre duas palavras que designam direcções ou movimentos opostos, como subir/descer, entrar/sair, chegar/partir, ir/vir, norte/sul e este/oeste.

Hiperonímia / Hiponímia

Esta é uma relação semântica de inclusão entre o significado de duas palavras.

Flor / Rosa Margarida Cravo
Texto da figura
  • Flor
  • Rosa Margarida Cravo

Flor é hiperónimo (ou superordenado) de rosa, de margarida e de cravo, uma vez que possui um significado mais geral. Rosa, margarida e cravo são hipónimos de flor: têm um significado mais específico.

Por outras palavras, o significado da palavra flor está contido nos significados de rosa, de margarida e de cravo. Na definição do significado de margarida temos de recorrer ao significado de flor. O inverso, porém, não se verifica: podemos dizer que uma margarida é um tipo de flor; mas seria incorrecto dizer que uma flor é um tipo de margarida.

Há, portanto, uma relação hierárquica entre o significado destas palavras. Os seguintes pares de palavras são exemplos de hiperónimos/hipónimos: felino/tigre, ave/águia e fruto/laranja.

Trata-se de uma relação assimétrica: se ave é hiperónimo de águia, águia é hipónimo de ave75.

A substituição de palavras propiciada pela hiponímia revela-se muito útil quando, num texto, pretendemos não repetir a mesma palavra:

(109) Um cão entrou na cozinha. O animal farejava biscoitos à distância.

Holonímia / Meronímia (ou Relação parte / todo)

A relação parte/todo é também uma relação de inclusão ao nível dos significados de duas palavras. Exemplos deste tipo de relação semântica são os seguintes: casa/sala, livro/página, automóvel/pneu e cara/boca.

Todavia, distingue-se da hiponímia pelo seguinte:

– o significado de rosa inclui o significado de flor: pode dizer-se que uma rosa é uma flor;

– o significado de boca não inclui o significado de cara: não é correcto dizer que uma boca é uma cara; o que é correcto dizer é que a boca localiza-se na cara, faz parte da cara.

8.3. Semântica Frásica

No âmbito da Semântica Frásica, procura-se descrever o significado das frases de uma língua natural e as relações, ao nível do significado, que se podem estabelecer entre frases.

É possível fazer um paralelismo entre as relações semânticas existentes entre as palavras e as relações semânticas existentes entre as frases:

Semântica Lexical Semântica Frásica / Sinonímia Paráfrase / Antonímia Contradição / Hiperonímia / Hiponímia / Implicação / Holonímia / Meronímia
Texto da figura
  • Semântica Lexical Semântica Frásica
  • Sinonímia Paráfrase
  • Antonímia Contradição
  • Hiperonímia / Hiponímia
  • Implicação
  • Holonímia / Meronímia
Paráfrase

A paráfrase é uma relação de significado que está para as frases como a sinonímia está para as palavras: diz-se que uma frase é a paráfrase de outra quando os significados de ambas são equivalentes. Trata-se de uma relação de equivalência semântica ao nível frásico. Exemplos que constituem paráfrases são as seguintes frases:

(110) O cão mordeu o jornalista.

(111) O jornalista foi mordido pelo cão.

(112) Foi o cão que mordeu o jornalista.

Estas frases também constituem paráfrases:

(113) A Ana é mais alta do que a Catarina.

(114) A Catarina é menos alta do que a Ana.

Vejamos ainda mais dois exemplos:

(115) O João comprou um carro à Sofia.

(116) A Sofia vendeu um carro ao João.

Se uma das frases apresentadas (em cada um dos três grupos) é verdadeira, a(s) outra(s) também é (são).

Contradição

Existe contradição quando há uma oposição dos significados de duas frases de tal modo que não podem ser ambas verdadeiras. Trata-se, portanto, de uma relação de incompatibilidade semântica.

(117) Hitler está vivo.

(118) Hitler está morto.

Há incompatibilidade ao nível do significado entre estas frases. No seu sentido literal, não podem ser ambas verdadeiras76.

A contradição pode verificar-se numa mesma frase:

(119) ? A Ana é casada mas é solteira.

(120) ? O meu irmão é filho único.

No seu sentido literal, estas frases não podem ser verdadeiras.

Implicação

A implicação verifica-se quando entre duas frases há uma relação de significado de tal modo que se a primeira frase é verdadeira, a segunda também é.

(121) O caçador matou o elefante.

(122) O elefante está morto.

(123) Ele ofereceu uma margarida à namorada.

(124) Ele ofereceu uma flor à namorada.

(125) O Gil levou um murro no olho esquerdo.

(126) O Gil levou um murro na cara.

Trata-se de uma relação assimétrica. As frases (121), (123) e (125) implicam respectivamente, as frases (122), (124) e (126) mas o inverso não se verifica: Ele ofereceu uma flor à namorada não implica Ele ofereceu uma margarida à namorada; pode ter oferecido uma rosa.

Actividades

1. Proponha uma análise sémica das seguintes palavras de modo a dar conta das diferenças de significados que existem entre elas:

- bicicleta

- mota

- automóvel

2. Considere os seguintes pares de palavras:

a) subir/descer

b) electrodoméstico/frigorífico

c) livro/capa

d) matar/assassinar

e) leve/pesado

Identifique e defina as relações semânticas que existem entre os pares de palavras dados.

Referências bibliográficas

a) Leitura complementar

LOPES, Ana Cristina Macário, e Graça RIO-TORTO (2007), Semântica, Lisboa, Caminho (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), pp. 13-45, 67-69.

Notas

  1. No que se distingue da sinonímia; a sinonímia constitui uma relação simétrica entre o significado de duas palavras: se calvo é sinónimo de careca, então careca é também sinónimo de calvo.
    ↩
  2. Num sentido não literal, as duas podem ser verdadeiras; por exemplo, se se pretender dizer que “Hitler está fisicamente morto mas vivo na memória de muitas pessoas”.
    ↩
193
Capítulo 9

Pragmática

Objectivos

No final deste Capítulo, o estudante deverá estar apto a

• explicitar o objecto de estudo da Pragmática;

• distinguir os conceitos de contexto e de situação;

• diferenciar o que é dito e o que é comunicado;

• identificar três ramos da Pragmática (Pragmática Indexical, Pragmática Ilocutória e Pragmática Conversacional);

• delimitar os campos de análise de cada um dos três ramos da Pragmática;

• reconhecer diferentes tipos de deícticos;

• distinguir enunciados constativos de enunciados performativos;

• definir os conceitos de acto locutório, acto ilocutório e efeito perlocutório;

• identificar diferentes tipos de actos ilocutórios;

• explicitar o Princípio da Cooperação;

• definir as diferentes máximas conversacionais.

9.1. Objecto de estudo da Pragmática e conceitos operatórios básicos

A Semântica e a Pragmática constituem dois níveis de análise linguística que procuram descrever o significado. A diferença entre estas disciplinas pode ser estabelecida do seguinte modo: a Semântica estuda o significado das formas linguísticas independentemente da situação em que elas ocorrem (preocupa-se com o significado que permanece constante); a Pragmática estuda o significado das formas linguísticas em situação, salientando o papel fundamental que este desempenha na construção do sentido.

9.1.1. Contexto (linguístico) e situação (extralinguística)

O conceito de situação (ou contexto situacional) engloba todos os elementos de natureza extralinguística que condicionam a produção de um enunciado: falante e ouvinte (e respectivos estatutos e papéis sociais), tempo e lugar, canal de comunicação, crenças e conhecimentos (partilhados ou não) pelos falantes no momento em que falam, etc. A situação é, então, constituída por factores exteriores ao texto, mas que são projectados neste e que o condicionam.

Opõe-se situação a contexto (ou contexto verbal ou co-texto), conceito que integra por todas as produções verbais anteriores e posteriores a um determinado enunciado.

Pode dizer-se que o objecto de estudo da Pragmática é constituído pelos princípios que presidem ao uso comunicativamente adequado da linguagem verbal. A Pragmática difere da Semântica na medida em que toma em consideração todos os elementos que constituem a situação de enunciação, e não apenas as mensagens linguísticas propriamente ditas. Na verdade, o conhecimento de tudo o que de extralinguístico rodeia os interlocutores no acto de fala contribui para o sentido global de um determinado enunciado.

Para entender convenientemente esta definição é relevante introduzir as noções de competência linguística e de competência comunicativa.

A competência linguística consiste no conhecimento implícito dos signos e das regras de uma dada língua que qualquer falante possui. A competência comunicativa designa o conhecimento de regras sociais, culturais e psicológicas que condicionam a produção/recepção de enunciados. Constitui um saber interiorizado que permite ao falante comunicar eficazmente, ou seja, produzir e reconhecer discursos adequados às circunstâncias em que se insere.

Uma boa competência linguística consiste, grosso modo, em saber falar uma determinada língua, segundo as suas regras fonético-fonológicas, morfológicas, sintácticas e semânticas. Corresponde à produção de enunciados gramaticalmente correctos.

Uma boa competência comunicativa consiste em saber adequar o discurso às situações concretas, segundo regras de carácter pragmático. Para que conduza a um comportamento falante com êxito, a competência comunicativa inclui uma série de capacidades, desde um conjunto de saberes linguísticos (competência linguística) até aos saberes pragmáticos (por exemplo, um falante deverá saber quando falar, sobre o que falar, com quem falar, onde e de que modo), que implicam o conhecimento de atitudes, valores e motivações do(s) outro(s). Imaginemos o seguinte diálogo:

(127) – Que horas são?

– Tripas à moda do Porto.

A resposta à pergunta formulada em (127) é gramaticalmente correcta mas comunicativamente inadequada. Pode dizer-se que o falante que responde daquele modo àquela pergunta revela, aparentemente, uma boa competência linguística mas uma deficiente competência comunicativa.

9.1.2. O que é dito e o que é comunicado

Outro modo de distinguir estas duas disciplinas é dizer que a Semântica descreve o que é dito, enquanto a Pragmática descreve o que é comunicado. Neste sentido, pode dizer-se que a Semântica procura responder à pergunta seguinte:

O que significa aquele enunciado?

Já a Pragmática procura responder à seguinte pergunta:

O que é que o falante quer dizer com aquele enunciado?

Frequentemente, o que se comunica não corresponde ao que literalmente se diz: muitas vezes, comunica-se mais do que o que se diz; e, por vezes, comunica-se o inverso daquilo que explicitamente se diz.

Vejamos alguns exemplos:

(128) É capaz de me passar o sal?

O que é dito pode ser parafraseado do seguinte modo: o locutor pergunta ao seu interlocutor se este possui a capacidade de lhe passar o sal. Mas o que é comunicado é mais do que isso: trata-se de um pedido por parte do locutor para que o seu ouvinte lhe passe o sal.

Imaginemos que (129) constitui a resposta à pergunta formulada em (128):

(129) Sim, sou capaz.

Se o interlocutor responder desta maneira, então revela que não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o que o locutor lhe queria comunicar, uma vez que aquela pergunta, durante um jantar, não constitui um mero pedido de informação.

A ironia, quando se concretiza em comunicar exactamente o oposto do que literalmente se diz, constitui o caso extremo a nível da diferença entre o que dizemos e o que comunicamos. Imagine-se o seguinte enunciado proferido pela mãe que encontra o quarto do filho completamente desarrumado:

(130) Que lindo serviço fizeste no teu quarto!

Em casos como este, a ironia traduz-se em dizer o oposto daquilo que se pretende comunicar. Se tivermos em conta apenas o que é literalmente dito (isto é, se se abordar o enunciado numa perspectiva semântica), concluiremos que a mãe está a fazer um grande elogio ao seu filho, e, nesse caso, não teremos entendido devidamente a intenção comunicativa do falante que produz este enunciado. Mas se não esquecermos a situação de comunicação em que este enunciado ocorreu (ou seja, se nos situarmos numa perspectiva pragmática), então verificamos que a mãe está a censurar o seu filho. Na verdade, os casos de ironia só podem ser devidamente compreendidos se se tiver em conta a situação em que ocorrem77.

Aquilo que temos vindo a designar por dito (ou linguistic meaning) constitui o significado literal da frase. O comunicado (ou speaker meaning) é o significado que depende da intenção do falante. A Pragmática procura explicitar o modo como um falante consegue estabelecer a ponte sobre o fosso que, muitas vezes, separa o que é dito do que é comunicado.

É comum distinguir três ramos no âmbito da Pragmática:

– Pragmática Indexical;

– Pragmática Ilocutória;

– Pragmática Conversacional.

Explicitaremos, a seguir, o objecto de estudo de cada um destes ramos da Pragmática, assim como os principais conceitos a eles associados.

9.2. Pragmática Ilocutória

A Pragmática Ilocutória, tendo como base no princípio de que a linguagem serve para realizar determinados actos, procede ao estudo e descrição da dimensão accional da linguagem verbal. A comunicação linguística é, portanto, perspectivada como uma actividade social.

9.2.1. Enunciados constativos e enunciados performativos

Atente-se nas seguintes frases:

(131) Mário Soares foi presidente da república portuguesa.

(132) Eu fui presidente da república portuguesa.

Os enunciados (131) e (132) são verdadeiros se existir um indivíduo chamado Mário Soares e ele tiver sido presidente da república portuguesa (no caso de (131)) e se o indivíduo que produz o enunciado tiver sido presidente de Portugal (no caso de (132)). Estes enunciados constatam estados de coisas e podem ser analisados segundo o seu valor de verdade (ou seja, podem ser considerados verdadeiros ou falsos). Designam-se, por isso, enunciados constativos.

Mas o mesmo não se pode dizer dos enunciados seguintes:

(133) Eu vos declaro marido e mulher.

(134) Prometo não faltar à tua festa de aniversário.

Estes enunciados não se limitam a constatar estados de coisas. Eles executam uma acção: declarar marido e mulher (isto é, casar), em (133), e prometer, em (134). Além disso, não é adequado aplicar-se-lhes uma análise tendo como objectivo determinar o seu valor de verdade; estes enunciados não 200 são nem verdadeiros, nem falsos, porque este tipo de classificação não lhes é aplicável.

Tais enunciados designam-se, por isso, enunciados performativos. Trata-se de enunciados em que o acto de dizer configura o acto de executar a acção correspondente ao sentido lexical do próprio enunciado. Incluem geralmente um verbo performativo.

Verbos performativos são os que, em certas situações e desde que flexionados na 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo na voz activa, executam o próprio acto que designam. Em alguns casos, todavia, os verbos performativos podem ser flexionados na 2.ª ou na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo na voz passiva (de estado): Estás despedido e Está aberta a sessão são dois enunciados possíveis que exemplificam essa possibilidade.

Os enunciados performativos não servem para dizer algo (isto é, para descrever um determinado estado de coisas); servem para fazer algo, para realizar acções pela linguagem.

Note-se que há aspectos socioculturais que condicionam a concretização do acto realizado por este tipo de enunciados. Um padre, numa igreja e no decorrer de uma cerimónia apropriada a esse fim, tem autoridade para dizer Eu vos declaro marido e mulher e efectivamente casar duas pessoas. Mas um médico ou um técnico de informática não têm essa autoridade.

Foi John Austin, um filósofo inglês do século passado, quem pela primeira vez procedeu a esta distinção entre enunciados constativos e enunciados performativos. Aliás, o título de uma das suas obras (How to do things with words) é particularmente revelador do seu interesse pela dimensão accional da linguagem verbal.

9.2.2. Acto locutório, acto ilocutório e efeito perlocutório

Mas este autor verificou que afinal todos os enunciados (mesmo os constativos) servem para realizar actos. Consequentemente, em lugar da oposição constativo/performativo, considerou mais pertinente a oposição performativo primário/performativo explícito, uma vez que os enunciados constativos (depois designados performativos primários) são, na verdade, 201 enunciados performativos aos quais falta a explicitação da acção que realizam ou ajudam a realizar.

Propôs, por isso, a distinção entre acto locutório, acto ilocutório e efeito perlocutório. Daí esta teoria ser designada por Teoria dos actos de fala. Subjaz-lhe a ideia de que os enunciados permitem a realização de determinadas acções. Algumas delas apenas se realizam através da linguagem (casar, baptizar, declarar aberta ou encerrada uma reunião, etc.).

Na verdade, todos os enunciados concretizam dois actos de natureza diferente: um acto locutório e um acto ilocutório.

O acto locutório consiste na produção de enunciados através da combinação e articulação de sons, em conformidade com as regras gramaticais e com o auxílio de um léxico. É o acto de dizer.

O acto ilocutório é a acção realizada por um falante quando profere um determinado enunciado. Consiste num acto de fazer que é simultâneo ao acto de dizer.

O efeito perlocutório é o resultado provocado pelo acto ilocutório (sendo, portanto, posterior aos actos locutório e ilocutório) e pode ou não corresponder ao que era desejado pelo falante. Ao contrário daqueles dois actos, pode não ser susceptível de uma análise linguística.

Vejamos um exemplo:

(135) Feche a janela, por favor.

Ao produzir este enunciado, um falante realiza dois actos simultâneos:

– numa perspectiva meramente linguística, realiza um acto locutório: produz um enunciado segundo as regras da língua portuguesa;

– numa perspectiva que releva do comportamento social, do relacionamento interpessoal, realiza um acto ilocutório: faz um pedido.

O resultado do seu pedido é o efeito perlocutório. Algumas reacções possíveis do seu interlocutor são as seguintes:

– ficar quieto e fazer de conta de que não é nada com ele;

– levantar-se e, sem dizer uma palavra, fechar a janela;

– dizer está bem, levantar-se e fechar a janela.

No primeiro caso, o efeito perlocutório não corresponde ao que era desejado pelo falante. E tanto no primeiro como no segundo caso, o efeito perlocutório não é linguisticamente analisável, pelo simples facto de que não houve qualquer produção verbal. De facto, o efeito perlocutório pode concretizar-se em acções, não sendo, portanto, analisável de um ponto de vista estritamente linguístico.

O teste seguinte ajuda a distinguir o acto locutório do acto ilocutório: o acto locutório pode traduzir-se, em termos de discurso indirecto, por verbos como dizer e perguntar; o acto ilocutório por verbos como ordenar, pedir, prometer, asserir, etc.;

A propósito do exemplo (135):

– Ele disse-lhe para fechar a janela descreve o acto locutório;

– Ele pediu-lhe para fechar a janela descreve o acto ilocutório.

O filósofo americano John Searle aprofundou as propostas de Austin e propôs uma tipologia de actos ilocutórios, que passamos a explicitar.

Acto ilocutório representativo

Quando o sujeito enunciador descreve estados de coisas ou acontecimentos, realiza um acto ilocutório representativo:

(136) Hoje está sol.

(137) O António foi almoçar àquele restaurante.

Asserir (isto é, afirmar ou negar) constitui o exemplo de acto ilocutório representativo.

O locutor, porque assere algo, compromete-se com o valor de verdade daquilo que diz. Afirmar O Francisco é um homem honesto equivale, em termos ilocutórios, a dizer Acredito que o Francisco é um homem honesto.

Acto ilocutório directivo

Quando o sujeito enunciador tenta levar o seu interlocutor a fazer algo, realiza um acto ilocutório directivo:

(138) Empresta-me esse livro.

(139) Que horas são?

Exemplos de actos ilocutórios directivos são ordenar, perguntar, pedir, suplicar e aconselhar. Em todos estes casos, o falante tenta fazer com que o seu interlocutor se sinta na obrigação de realizar uma acção futura (acção essa que pode ser de natureza verbal ou não-verbal).

Acto ilocutório comissivo (ou compromissivo)

Quando o sujeito enunciador se compromete a fazer algo num tempo futuro, realiza um acto ilocutório comissivo:

(140) Prometo que desta vez vou estudar mais para o exame.

(141) Se não te calas, vou-me embora.

Prometer e ameaçar são exemplos de actos ilocutórios comissivos.

Este tipo de acto constitui, num certo sentido, o inverso do acto ilocutório directivo: o locutor, em vez de tentar levar o(s) interlocutor(es) a agir, compromete-se ele próprio a fazer algo, como se desse uma ordem a si mesmo.

Acto ilocutório expressivo

Quando o sujeito enunciador expressa o seu estado psicológico relativamente a um estado de coisas descrito no seu enunciado, realiza um acto ilocutório expressivo:

(142) Lamento que o seu avô tenha falecido.

(143) Felicito-te pelo sucesso que o teu livro obteve.

Agradecer, lamentar, pedir desculpa, saudar e congratular-se são exemplos de actos ilocutórios expressivos.

Podemos dividir um enunciado que configure um acto ilocutório expressivo do seguinte modo: uma parte em que o locutor revela o seu estado de espírito (no caso de Sinto muito que o seu avô tenha falecido, esta parte corresponde a sinto muito) e outra parte em que o locutor o justifica (no mesmo exemplo, corresponde a que o seu avô tenha falecido).

Acto ilocutório declarativo

Quando o sujeito enunciador faz coincidir a realidade com o estado de coisas expresso pelo seu enunciado (criando, portanto, um novo estado de coisas), realiza um acto ilocutório declarativo:

(144) Declaro encerrada a audiência.

(145) Eu te baptizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Estes actos ilocutórios alteram os estados de coisas existentes, isto é, modificam a realidade extralinguística: em (144), uma audiência deixou de estar aberta e passou a estar encerrada; em (145), uma criança passou de um estado de não-baptizada a um estado de baptizada.

Declarar aberta/encerrada uma audiência, casar, baptizar, declarar guerra, excomungar, nomear e despedir são exemplos de actos ilocutórios declarativos.

Há uma dimensão institucional subjacente à efectiva realização destes actos ilocutórios: só um chefe de estado tem autoridade para declarar guerra; só um padre ou um funcionário credenciado do registo civil pode proceder à celebração de matrimónios; etc.

9.3. Pragmática Indexical

A Pragmática Indexical é o ramo da Pragmática que se dedica ao estudo dos processos de ancoragem dos enunciados à situação em que ocorrem.

Suponhamos que dava à costa uma garrafa contendo um bilhete com a seguinte mensagem:

(146) Volto cá amanhã.

Através deste enunciado, sabemos que uma pessoa disse que voltaria a um dado local no dia seguinte. Mas não sabemos:

– quem é essa pessoa;

– onde fica exactamente esse local;

– quando (em que dia) é que voltará.

Aquelas três palavras constituem deícticos78, isto é, expressões linguísticas cujo referente varia em função da situação em que ocorrem. O fenómeno em que se inserem é a deixis (palavra de origem grega com o significado etimológico de “apontar, mostrar”). A deixis é o exemplo paradigmático da influência que a situação exerce na produção e na interpretação dos discursos.

Há uma diferença importante entre o significado dos deícticos e o de todas as outras palavras de uma língua: mesa, por exemplo, possui um significado que pode ser traduzido por “tampo suportado por um ou mais sustentáculos”; gato significa “felino doméstico”. Mas eu significa “aquele que diz eu”. Aqui significa “local onde se encontra o falante que diz aqui”. Agora significa “momento em que o falante diz agora”.

Por conseguinte, os deícticos são sui-referenciais: o significado que eles possuem aponta para a sua própria enunciação, para os elementos que integram a situação de comunicação em que são utilizados. Na definição do significado de um deíctico, há necessariamente a referência à situação em que 206 ele se produziu: ao próprio falante no caso de eu; ao local onde o falante está, no caso de aqui; ao momento em que o falante produz o enunciado, no caso de agora. O que equivale a dizer que o seu referente só pode ser conhecido recorrendo à situação em que se inserem os interlocutores no momento da enunciação.

Estas reflexões validam a definição de deícticos como as expressões linguísticas que possuem um significado invariável e uma referência que varia em função da situação. Isto é, o significado de eu é precisamente “aquele que diz eu”, e o referente de eu é “Rita” (quando a Rita diz eu), “Manuel” (quando o Manuel diz eu), etc. Por outras palavras, este pronome tem tantos referentes quantos os indivíduos que o usarem.

Há três coordenadas subjacentes à produção de um enunciado. Estas três coordenadas dão origem a três tipos de deícticos:

Coordenadas da enunciação Deícticos / quem fala (e quem ouve) pessoais (eu, tu) / onde fala espaciais (aqui) / quando fala temporais (agora)
Texto da figura
  • Coordenadas da enunciação Deícticos
  • quem fala (e quem ouve) pessoais (eu, tu)
  • onde fala espaciais (aqui)
  • quando fala temporais (agora)

Exemplos de deícticos pessoais são os pronomes pessoais (eu, tu, ele, etc.), os pronomes possessivos (meu, teu, seu, etc.) e a flexão verbal em pessoa (cheguei, chegaste, chegou, etc.).

Verifica-se uma tripartição dos pronomes pessoais, em função da participação (ou não) e do tipo de participação de cada uma das pessoas (1.ª, 2.ª e 3.ª) no acto de enunciação:

eu 1.ª pessoa a pessoa que fala / tu 2.ª pessoa a pessoa que ouve / ele / ela 3.ª pessoa a pessoa que não está presente
Texto da figura
  • eu 1.ª pessoa a pessoa que fala
  • tu 2.ª pessoa a pessoa que ouve
  • ele / ela 3.ª pessoa a pessoa que não está presente

Esta tripartição aponta para a presença (eu e tu) ou ausência (ele/ela) de cada uma das pessoas no acto de enunciação, e para a tomada da palavra (eu) ou não (tu) nesse mesmo acto.

Dado que qualquer acto de enunciação se inscreve no sistema de coordenadas Eu–Aqui–Agora, podemos basicamente distinguir a deixis pessoal, a deixis espacial e a deixis temporal, ligadas a cada um dos pólos daquela tríade.

Deícticos espaciais são, por exemplo, os advérbios e locuções adverbiais de espaço (aqui, aí, ali, naquele sítio) e os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele).

Também nos advérbios de lugar e nos pronomes demonstrativos, encontramos uma tripartição que releva da que foi referida a propósito dos pronomes pessoais:

aqui / este proximidade relativamente a quem fala: eu / aí / esse proximidade relativamente a quem ouve: tu / ali / aquele proximidade relativamente a quem está ausente: ele/ela
Texto da figura
  • aqui / este proximidade relativamente a quem fala: eu
  • aí / esse proximidade relativamente a quem ouve: tu
  • ali / aquele proximidade relativamente a quem está ausente: ele/ela

Exemplos de deícticos temporais são os advérbios e expressões adverbiais de tempo (ontem, no dia seguinte) e a flexão verbal em tempo (cheguei, chego, chegarei).

9.4. Pragmática Conversacional

Todas as conversas são regidas por normas que os sujeitos falantes geralmente respeitam. Dito de outro modo, subjacente a qualquer diálogo ou conversa, há um conjunto de procedimentos e de comportamentos que cada falante segue, ainda que, na maior parte dos casos, de modo inconsciente. Por exemplo, quando falamos com alguém, esperamos que essa pessoa não minta, e que fale de uma forma clara (até em termos do volume de voz e da dicção), de modo a que possamos compreender o que ela tem para nos dizer.

Quando os falantes não seguem essas regras ou a comunicação não é tão eficaz, podendo mesmo falhar (isto é, o locutor não consegue fazer com que o seu interlocutor interprete adequadamente o que pretendia partilhar com ele), ou então fazem-no com uma dada intenção comunicativa (esperando que o interlocutor consiga inferir que essa derrogação das regras tem um objectivo comunicativo específico). Por outras palavras, às vezes acontece que o locutor desrespeita voluntariamente uma determinada máxima seja, e, mesmo assim, contribui de modo colaborativo para o desenrolar da conversa.

Paul Grice sugeriu, por isso, que há um Princípio da Cooperação que rege a comunicação verbal. Esse Princípio da Cooperação consiste no seguinte:

«faz com que a tua contribuição para a conversação em que participas esteja de acordo, no momento em que ocorre, com o que é requerido pelo objectivo ou direcção dessa conversação»79.

O Princípio da Cooperação é susceptível de ser explicitado nos seus diversos pontos constituintes – as Máximas Conversacionais de Grice: máxima da quantidade, máxima da qualidade, máxima da relação e máxima da maneira. As quatro máximas geralmente regulam o desenvolvimento de 209 qualquer interacção verbal. Propomo-nos, a seguir, apresentá-las e ilustrá-las com exemplos.

Máxima da Quantidade

A máxima da quantidade pode ser explicitada nos seguintes aspectos:

– faz com que a tua intervenção seja tão informativa quanto o que é esperado (dada a orientação e o objectivo da conversação);

– faz com que tua intervenção não seja mais informativa do que o que é esperado.

Trata-se de uma máxima de informatividade, ou seja, de uma norma que diz respeito à quantidade de informação se espera que uma intervenção tenha para ser considerada adequada ao diálogo que está a decorrer.

Ilustremos com vários exemplos.

(147) A - Quantos filhos tem a Ana?

B - Dois.

Se a Ana tem apenas dois filhos, então a contribuição de B é adequadamente informativa, porque é tão informativa quanto se espera que seja e não mais do que o que é requerido por A.

Imaginemos, contudo, que a Ana tem três filhos e que B sabe disso. Nesse caso, a intervenção de B é menos informativa do que é solicitado. Repare-se que B não está a mentir, porquanto é verdade que a Ana tem dois filhos (logo, não é a máxima da qualidade que está a ser derrogada). Todavia, em rigor, a Ana tem mais do que dois filhos. Por isso, este falante está a dar uma quantidade de informação menor do que a que é requerida pela pergunta de A.

Precisamente porque a máxima da quantidade geralmente subjaz às nossas conversas, se um sujeito falante pergunta a outro quantos filhos tem uma determinada pessoa, espera que a resposta explicite o número de todos os filhos que essa pessoa tem (ou seja, nem mais nem menos do que os que efectivamente tem).

Atente-se, agora num outro exemplo.

(148) A – Quanto tempo demoraste a fazer a viagem de carro entre Lisboa e Porto?

B – Demorei duas horas e meia.

Numa banal conversa quotidiana, a resposta de B é adequadamente informativa (não dá mais nem menos informação do que, à partida, é requerido), mesmo que ele tenha demorado apenas duas horas e vinte e sete minutos ou que a viagem, em rigor, tenha excedido as duas horas e meia em três minutos e quarenta e cinco segundos. De facto, uma resposta como a seguinte

(149) B – Demorei duas horas, trinta e três minutos e quarenta e cinco segundos

poderia ser considerada inadequada, de um preciosismo exagerado em termos de rigor, justamente porque B excedeu o grau de informatividade requerido.

Já no diálogo seguinte, a referência ao número de segundos parece ser justificada.

(150) A – Quanto tempo demorou o vencedor da prova de ciclismo Lisboa-Porto a fazer o percurso?

B – Sete horas, quinze minutos e trinta e sete segundos.

Noutras situações, a referência aos décimos de segundo (e até aos centésimos e aos milésimos) pode ser pertinente, isto é, adequadamente informativa. Pense-se, por exemplo, em corridas de atletismo (de cem ou duzentos metros) e de automobilismo (provas de fórmula 1 ou de rally).

Retomemos o primeiro exemplo, agora com uma resposta em que B dá mais informações do que as que são solicitadas por A:

(151) A – Quantos filhos tem a Ana?

B – Dois. O mais velho tem dez anos, é loiro de olhos azuis, estuda no 6.º ano e tem óptimas notas a Português, Matemática, História e Inglês. A 211 mais nova tem cinco anos, é morena, tem olhos castanhos, anda na pré-primária e adora a sua professora.

Possivelmente, A até poderia estar interessado em ter conhecimento de todas as informações que B lhe fornece. Mas a resposta de B à pergunta de A inclui uma quantidade de informação que claramente excede a que é solicitada na questão que, naquele momento, coloca. Esta é uma situação comum nas conversas do quotidiano, podendo desembocar na falta de interesse de A relativamente ao que B lhe está a dizer, precisamente porque comunica um excesso de informações que A não solicitou.

Exemplificámos esta máxima quer com enunciados adequadamente informativos, quer com enunciados que contêm ou menos ou mais informação do que a que é requerida. Vejamos agora um caso em que a quantidade de informação é menor do que a que é solicitada, mas em que essa atitude de derrogação da máxima da quantidade reflecte um determinado objectivo comunicativo.

(152) A – Morreram milhares de soldados portugueses na Guerra de África.

B – Guerra é guerra.

A intervenção de B constitui uma tautologia, ou seja, um enunciado em que, literalmente, não se acrescenta qualquer informação à que já se sabe (um homem é um homem constitui outro exemplo de enunciado tautológico). Deste modo trata-se, aparentemente, de um enunciado que não respeita a máxima da quantidade.

Todavia, a contribuição de B não é, neste contexto, despropositada do ponto de vista da quantidade de informação que acrescenta à conversa; dela, pode inferir-se um comentário informativo, do tipo de “numa guerra é normal haver muitos mortos”. E este comentário é comunicativamente pertinente, acrescentando a opinião de um dos falantes relativamente ao que o outro acabou de dizer.

Mas como é que A interpreta o enunciado de B desta maneira? Recorrendo a um raciocínio de tipo inferencial. Primeiro, A tem de reconhecer 212 que B continua a respeitar o princípio da cooperação, isto é, que se mantém empenhado em colaborar no acto comunicativo, contribuindo para o seu desenvolvimento e evolução em termos de nova informação que é acrescentada. A seguir, baseado na assunção de que B pretendeu comunicar algo mais do que o que literalmente disse, coloca e testa hipóteses sobre o que B quis comunicar, acabando por seleccionar uma que lhe pareça ser a mais plausível.

E assim, um enunciado tautológico pode, em determinadas circunstâncias, constituir uma intervenção adequadamente informativa para a conversa. Ou seja, o acto de derrogar uma máxima conversacional tem subjacente, por vezes, uma dada intenção comunicativa, que o interlocutor terá de procurar, mediante um raciocínio de tipo inferencial.

Máxima da Qualidade

A máxima da qualidade (faz com que a tua intervenção seja verdadeira) pode ser explicitada nos dois pontos seguintes:

– não afirmes aquilo que pensas ser falso;

– não afirmes uma coisa para a qual não tenhas provas.

Trata-se de uma máxima de sinceridade, enquanto atitude que esperamos da parte dos nossos interlocutores.

A mentira constitui, por isso, um exemplo de desrespeito pela máxima da qualidade, porquanto o locutor assere algo que sabe ser falso ou não corresponder à realidade objectiva e factual. Também o boato ou o rumor são exemplos de desobediência a esta máxima, na medida em que o locutor afirma algo cuja veracidade ou conformidade com a realidade dos factos não pode comprovar.

Tal como observámos a propósito da máxima da quantidade, também a desobediência à máxima da qualidade pode ter motivações comunicativas, isto é, pode ter subjacente uma determinada intenção do locutor que torne pertinente o desrespeito por essa máxima. Vejamos um exemplo.

(153) A – Só vou estudar uma tarde para o exame de Matemática.

B – Fazes bem!

Numa situação em que A e B sabem que o exame de Matemática é de elevada complexidade e de difícil resolução, o enunciado de B é irónico, na medida em que o que comunica não só não corresponde literalmente ao que é dito, como B pretende comunicar precisamente o inverso do que o seu enunciado exprime (isto é, que A “não faz bem” em dedicar tão pouco tempo ao estudo daquela disciplina). B desrespeita, portanto, a máxima da qualidade, pois assere algo em que não acredita.

Porque é que A conclui que B está a ser irónico? Porque ambos partilham alguns conhecimentos de base: que aquela disciplina de Matemática se caracteriza por um elevado grau de dificuldade e de complexidade, e que, em princípio, para um exame se deve estudar mais tempo do que uma única tarde (tratando-se de uma disciplina com grau de dificuldade acrescido, mais força ganha esta ideia). Dados estes conhecimentos que os interlocutores partilham, A infere que B não pode estar a ser sincero no que literalmente diz, mas, por acreditar que ele continua a respeitar o princípio da cooperação, coloca outras hipóteses de interpretação daquele enunciado.

A única possibilidade interpretativa que parece ser consentânea com os conhecimentos de base de ambos os interlocutores é aquela em que o enunciado de B é perspectivado como irónico. E, com essa ironia, B pretende instar A a dedicar mais tempo ao estudo. É essa a intenção comunicativa de B subjacente ao desrespeito que manifesta pela máxima da qualidade.

A ironia (em particular, quando se traduz em comunicar o inverso do que literalmente se diz) constitui um caso de desrespeito pela máxima da qualidade, geralmente com uma dada intenção comunicativa subjacente.

Máxima da Relação

A máxima da relação é a seguinte:

– sê relevante.

Trata-se de uma máxima de pertinência, isto é, que diz respeito à adequação das informações veiculadas ao tema da conversa.

Nas conversas que desenvolvemos no dia-a-dia, geralmente procuramos fazer com que as nossas contribuições sejam relevantes. Os interlocutores, alternadamente, acrescentam mais informações sobre o tema que está a ser motivo de conversa (e não sobre outro tema qualquer); na resposta a uma 214 pergunta, o interlocutor tem como objectivo fornecer a informação que foi solicitada (e não uma outra que nada tem a ver com a pergunta que foi colocada), etc. Caso isso não aconteça sistematicamente, um dos locutores poderá acabar por se desinteressar pelo que o outro lhe diz.

Todavia, à semelhança do que vimos a propósito das máximas da quantidade e da qualidade, há casos em que o desrespeito pela máxima da relação tem uma determinada intenção comunicativa que o locutor espera que o seu interlocutor acabe por inferir.

Vejamos o seguinte diálogo, inserido numa situação em que A e B conversam, e em que o Francisco se aproxima por trás de A (sem que este se aperceba, portanto):

(154) A – A mulher do Francisco é uma víbora!

B – Viste o jogo da selecção ontem? Os nossos jogaram muito bem!

Os enunciados de B não constituem uma sequência que venha a propósito do tema que está a ser tratado. Logo, a máxima da relação foi, neste caso, desrespeitada. Mas B fá-lo intencionalmente.

O falante A, desde que assuma que B continua a respeitar o princípio da cooperação, pode inferir do que B disse que, por qualquer motivo, B pretendeu mudar de assunto (precisamente para que o Francisco não ouvisse o que A estava a dizer sobre a sua mulher, e não se criasse entre os dois uma situação desagradável). É esse o objectivo comunicativo que subjaz à derrogação desta máxima por parte de B.

Vejamos um outro caso, em que o enunciado de A constitui a avaliação de um candidato feita por um membro do júri encarregado de contratar um novo director-comercial para uma editora:

(155) A – O Luís tem bom gosto para gravatas e percebe imenso de futebol.

Numa situação destas, o enunciado de A desobedece à máxima da relação, uma vez que parece não acrescentar nada de importante para o caso em questão; é, por isso, um enunciado não relevante. Mas o desrespeito por 215 esta máxima pode ter uma intenção subjacente. As qualidades que este membro do júri encontra no Luís são apenas o seu bom gosto para gravatas e saber discutir futebol. Ora, é ponto assente que essas características não são as mais importantes para se ser um bom director-comercial (este é um conhecimento de base supostamente partilhado). Então A deve querer que os seus interlocutores infiram que ele pensa que o Luís não é um bom candidato a ocupar aquele lugar.

E assim, com base num raciocínio inferencial deste tipo, fica comprovado que o enunciado de A tem relevância, na medida em que, através dele, A dá a sua opinião (fundamentada pela explicitação de características que não são importantes para o cargo em questão), opinião que pode ser traduzida por “o Luís não tem perfil para ocupar o cargo de director-comercial”.

Máxima do Modo (ou Máxima da Maneira)

A máxima do modo (sê claro) diz respeito à maneira como o locutor deve enunciar o que pretende comunicar, e pode ser dividida nos seguintes pontos:

– evita a falta de clareza na expressão

– evita ser ambíguo;

– sê breve (evitando ser prolixo);

– sê ordenado.

Trata-se de uma máxima de clareza, de boas maneiras, de deferência para com o interlocutor; boas maneiras e deferência no sentido em que quanto mais claro, ordenado, breve e não ambíguo for a contribuição de um locutor, mais fácil será para o interlocutor interpretá-la.

Uma situação comum consiste no facto de um locutor ser muito prolixo, apresentar contribuições de grande extensão, não conseguindo ser conciso e dizendo pouco por muitas palavras. Como consequência, pode acontecer que o interlocutor se desinteresse da conversa.

O sketch humorístico “O homem a quem parece que aconteceu não sei quê”, do grupo Gato Fedorento, parodia uma situação em que o locutor fala muito e comunica pouco, desobedecendo às máximas da relação (porque o que diz não é relevante) e do modo (porque é muito prolixo); veja-se este sketch, por exemplo, em www.youtube.com.

Já quando um locutor produz um discurso desordenado, incoerente, em que não é perceptível a relação entre o que diz antes e o que diz a seguir, dificulta a tarefa de o interlocutor interpretar adequadamente o que pretende comunicar. Também os enunciados ambíguos, que permitem duas ou mais interpretações, são susceptíveis de causar dificuldades de interpretação ao interlocutor.

Em certas situações, a falta de clareza na expressão pode ter uma determinada motivação. Veja-se o seguinte diálogo, em que B torna o seu enunciado pouco claro para que os filhos, presentes na situação de comunicação, não entendam o que está a dizer a A:

(156) A – Paramos na próxima área de serviço para lancharmos?

B – Sim, mas já sabes: c-h-o-c-o-l-a-t-e não! (a palavra chocolate é soletrada)

O enunciado pouco claro de B é determinado pela intenção de comunicar apenas a A que as crianças não deverão comer chocolate ao lanche. Soletrar a palavra (dizê-la de forma menos clara) dificulta a sua compreensão por parte dos filhos. Desobedecer à máxima do modo foi, também neste caso, um acto voluntário justificado por uma intenção comunicativa específica.

Dar as informações requeridas na quantidade certa (nem mais, nem menos); dar informações que não sejam falsas; dar informações que se adequem ao que está a ser dito e de uma forma que seja clara e compreensível para o interlocutor: eis, no essencial, algumas regras de comunicação que inconscientemente seguimos na maioria das nossas conversas e que Grice explicitou sob a forma de máximas conversacionais. Estas máximas constituem princípios gerais da comunicação que, geralmente, presidem a qualquer interacção verbal.

Actividades

1.1. Identifique os deícticos que encontra nos enunciados seguintes:

a) Tu gostas muito dos fados da Amália Rodrigues.

b) Aqui todos adoram uma boa sardinhada.

1.2. Classifique os deícticos que encontrou tendo em conta a classificação que estudou.

2. Indique e defina os actos ilocutórios que os enunciados apresentados configuram:

a) Parabéns pela óptima classificação que tiveste no exame.

b) Devolvo-te ainda hoje os livros que me emprestaste.

c) Portugal faz parte da União Europeia desde 1986.

d) Estás despedido!

e) Dê-me um café, se faz favor.

Referências bibliográficas

a) Leitura obrigatória

GOUVEIA, Carlos A. M. (1996), “Pragmática”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, pp. 383-414.

b) Leituras complementares

FONSECA, Fernanda Irene (1996), “Deixis e pragmática linguística”, in FARIA, Isabel Hub, et alli (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, pp.437-445.

LIMA, José Pinto de (2006), Pragmática linguística, Lisboa, Caminho (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), pp. 13-15, 19-37, 85-94.

c) Obras citadas ou referidas

CUNHA, Celso, e Lindley CINTRA (1988), Nova gramática do português contemporâneo (5.ª ed.), Lisboa, Edições João Sá da Costa.

Notas

  1. Sublinhe-se que a entoação é outro factor que deve ser tomado em consideração.
    ↩
  2. Também designados dêicticos, embrayeurs, shifters ou indexical signs.
    ↩
  3. Lima (2007: 59).
    ↩
219
3.ª Parte

Mudança Linguística e Variação Linguística

Introdução

A mudança linguística e a variação linguística estão relacionadas com os conceitos saussureanos de diacronia e sincronia. Variação diacrónica e variação sincrónica são designações equivalentes a mudança linguística e a variação linguística, respectivamente.

A mudança linguística (ou variação diacrónica) decorre das modificações que as línguas naturais sofrem ao longo dos tempos. O conceito de mudança linguística aplica-se unicamente às línguas vivas; as línguas mortas, porque já não são utilizadas no dia-a-dia por sujeitos falantes que as tenham como línguas maternas, não estão sujeitas à mudança.

As alterações linguísticas processam-se em diferentes níveis: fonético, fonológico, morfológico, sintáctico, semântico e lexical. As mais numerosas e as mais perceptíveis para o sujeito falante situam-se nos domínios da fonética e do léxico.

A variação linguística (ou variação sincrónica) diz respeito ao facto de, no âmbito de uma dada língua encarada num dado momento, os indivíduos de uma comunidade linguística não falarem a sua língua materna exactamente da mesma maneira. Tal como não há dois indivíduos com a mesma impressão digital, também não há dois falantes que actualizem uma dada língua do mesmo modo (isto é, utilizando, em todas as situações de comunicação, precisamente as mesmas palavras, as mesmas construções sintácticas, etc.). A variação linguística decorre de factores de natureza geográfica, social e situacional. Os sujeitos falam de modo diferente consoante a região onde vivem, o grupo socioprofissional em que estão inseridos e a situação de comunicação em que se encontram num dado momento. Distingue-se, assim, variação diatópica, variação diastrática e variação diafásica.

De que modo se relacionam as questões da mudança linguística e da variação linguística? Por um lado, a variação linguística pode decorrer de mudanças linguísticas prévias não generalizadas a toda a comunidade que fala uma dada língua. Por outro lado, a variação linguística pode evidenciar fenómenos de mudança linguística em curso, ou seja, pode ser uma 221 manifestação de alterações que se estão a dar nos usos linguísticos dos sujeitos falantes, alterações essas que poderão vir a integrar a norma ou não.

São estes os principais temas que nos propomos desenvolver ao longo dos capítulos que constituem esta terceira parte.

222
Capítulo 10

Mudança Linguística

Objectivos

No final deste capítulo, o estudante deverá estar apto a

• compreender o conceito de mudança linguística;

• conceber a mudança linguística como uma propriedade inerente às línguas vivas;

• indicar fenómenos de mudança linguística em diferentes níveis (fonético, fonológico, morfológico, sintáctico, lexical e semântico);

• definir os conceitos de arcaísmo, neologismo e estrangeirismo;

• relacionar mudança linguística e variação linguística.

10.1. O conceito de mudança linguística

A mudança linguística (ou variação diacrónica ou variação histórica) é inerente às línguas naturais: todas se modificam ao longo dos tempos. Até ao advento da Linguística moderna, essa mudança foi encarada como um fenómeno negativo, como uma espécie de degradação, de corrupção das línguas. Tal perspectiva parece reflectir uma concepção segundo a qual as palavras originalmente constituiriam símbolos, isto é, que se assemelhariam, de algum modo, às entidades que nomeiam.

No seu diálogo Crátilo, Platão apresenta do seguinte modo essa concepção:

«Hermógenes - Este nosso Crátilo, Sócrates, opina que existe, naturalmente, uma designação justa para cada um dos seres; e que o seu nome não é aquele por que alguns convencionalmente os designam, servindo-se de uma parcela de sua linguagem; ao contrário, segundo ele, existe naturalmente, tanto para Gregos como para Bárbaros, uma justeza de designação idêntica para todos»80.

Esta concepção parece implicar que conhecer a palavra que designa uma dada entidade equivale a conhecer essa mesma entidade, ou seja, equivale a conhecer o referente dessa palavra. Tal ideia é manifestada na citação seguinte.

«Sócrates - Certamente pretendes dizer, ó Crátilo, que, quando se conhece a natureza do nome - e ele é tal qual o objecto - conhecer-se-á também o objecto, visto este ser justamente semelhante ao nome […]. Aquele que primeiro estabeleceu os nomes estabeleceu-os segundo julgava serem os objectos»81.

Ora, se as palavras fossem etimologicamente símbolos, à medida que os seus significantes sofressem modificações fonéticas, elas afastar-se-iam gradualmente dos seus referentes, acabando por perder a relação de semelhança que, numa hipotética sincronia inicial, teriam mantido com os seus referentes. Compreende-se, assim, que uma tal concepção estivesse subjacente à ideia de que a mudança linguística constituiria uma degradação da adequação, da justeza e da transparência originais das línguas naturais.

Actualmente, todavia, a mudança linguística é encarada como um fenómeno intrínseco às línguas naturais. Todas as línguas naturais mudam com o tempo. Só as línguas mortas já não sofrem alterações.

10.2. A mudança linguística em diferentes níveis de análise

Apesar de restarem apenas registos escritos de fases pretéritas de línguas como o português (os primeiros meios tecnológicos que permitem gravar e reproduzir registos orais - o fonógrafo de Edison e o gramofone de Berliner - surgiram no final do século XIX), pela comparação desses registos escritos com os usos actuais é possível reconstituir a gramática do português em sincronias anteriores à actual, e observar inúmeras diferenças entre a língua portuguesa utilizada, por exemplo, no tempo de D. Dinis ou no tempo de Camões e a que usamos actualmente. Não nos referimos apenas às previsíveis diferenças a nível da ortografia, ou seja, ao modo como as palavras são graficamente representadas. Referimo-nos, sobretudo, a questões de natureza fonética, morfológica, sintáctica e lexical.

De facto, as línguas alteram-se em diferentes níveis. As mudanças mais facilmente perceptíveis são as que se dão nos níveis fonético e lexical. Mas também há alterações atestadas nos níveis fonológico, morfológico, sintáctico e semântico. Ilustremos com exemplos do português.

10.2.1. A mudança linguística a nível fonético

As alterações que se dão a nível fonético dizem respeito às modificações operadas no significante das palavras. Por exemplo, na evolução do latim para o português, deu-se a queda sistemática das consoantes -d-, -l- e -n- quando ocupavam uma posição intervocálica na palavra. Consequentemente, no século XIV, existiam em português muitas formas com hiato82, como irmã-a e vĩ-u83, que evoluíram a partir dos étimos latinos GERMANA e VINUM. Deu-se, posteriormente, a eliminação desses encontros vocálicos com recurso a 227 soluções diferentes. No caso de irmã-a, as duas vogais contraíram-se num vogal única: irmã. No caso de vĩ-u, desenvolveu-se uma consoante nasal entre as duas vogais: vinho. Todas estas alterações que se deram no significante das palavras que, hoje em dia, ortograficamente representamos por irmã (GERMANA ⟩ irmã-a ⟩ irmã) e por vinho (VINU ⟩ vĩ-u ⟩ vinho) constituem exemplos de modificações fonéticas84.

10.2.2. A mudança linguística a nível fonológico

A nível fonológico, sublinhamos a evolução do sistema de quatro consoantes sibilantes, que caracterizava o galego-português, para um sistema de apenas duas consoantes sibilantes, que corresponde ao sistema actual da norma do português europeu. Em galego-português, eram distintos os fones iniciais das palavras cen e sen (respectivamente, /ts/ e /s/). Do mesmo modo, eram diferentes os sons consonânticos em posição intervocálica das palavras cozer e coser (respectivamente, /dz/ e /z/). Segundo Paul Teyssier (1993: 49-51),

«por volta de 1550, as duas [consoantes] africadas /ts/ e /dz/ tinham perdido o seu elemento oclusivo inicial […]. Em fins do século XVI o português comum reduziu a dois os quatro fonemas».

Por outras palavras, desapareceu a oposição que existia entre os sons consonânticos iniciais das palavras cem e sem e os sons consonânticos intervocálicos das palavras coser e cozer. Era justamente a diferença entre esses quatro fones que permitia distinguir, a nível do significante oral, os pares de palavras indicados. Como consequência, actualmente, cem e sem (assim como cozer e coser) são palavras homófonas, isto é, são iguais na oralidade, escrevem-se de modo diferente e têm significados diferentes.

10.2.3. A mudança linguística a nível morfológico

As alterações linguísticas que se observam a nível morfológico correspondem às modificações que afectam os elementos constituintes das palavras. No período anterior ao século XVI, há registo de as formas de particípio passado dos verbos da 2.ª conjugação terem terminação em -udo (como perdudo). Até ao final do século XVI, os particípios passados em -udo tinham sido substituídos por formas em -ido (como perdido). São estas formas que subsistem na norma do português actual85.

Sublinhe-se que esta modificação, em rigor, consistiu numa alteração de natureza fonética que se deu num sufixo verbal. Os sufixos -ado e -ido constituem, na sincronia actual, os únicos sufixos regulares de particípio passado. Os radicais am- (de amar), com- (de comer) e ilud- (de iludir), formam, com aqueles sufixos, os particípios passados amado, comido e iludido. Na época do galego-português, havia ainda o sufixo -udo, próprio das formas verbais da 2.ª conjugação. Daí dizermos que se trata de uma evolução morfológica, embora também seja, naturalmente, fonética.

10.2.4. A mudança linguística a nível sintáctico

As modificações atestadas a nível sintáctico referem-se ao modo como as combinatórias de unidades para formar frases sofreram alterações. Entre os séculos XVIII e XX, salientamos duas alterações relevantes86:

a) o uso cada vez mais frequente de artigo definido anteposto ao pronome possessivo com função de determinante (como em meu filho ⟩ o meu filho);

b) a utilização cada vez mais rara, na norma do português europeu, da forma de tratamento vós, bem como das formas verbais de segunda pessoa do plural (vós ides ao cinema? ⟩ vocês vão ao cinema?)87.

10.2.5. A mudança linguística a nível semântico

As alterações que se dão a nível semântico dizem respeito à evolução do significado das palavras, que se pode alargar, restringir ou modificar. Os fenómenos de extensão semântica consistem no alargamento do significado das palavras: a um dado significante são associadas novas acepções. Vejamos os exemplos (157) e (158).

(157) Contei ao meu patrão uma grande história para justificar a minha falta e ele engoliu-a toda!

(158) A água do mar engoliu várias casas.

Nestes enunciados, o verbo engolir é utilizado em duas acepções distintas: “acreditar”, em (157), e “destruir, fazer desaparecer”, em (158). A partir de um significado inicial de “deglutir, ingerir alimentos”, o verbo engolir ganhou, portanto, novas acepções, alargando a sua face conceptual.

O fenómeno inverso, designado estreitamento semântico, observa-se em usos como os seguintes.

(159) O meu filho tem temperatura. (= O meu filho tem febre)

(160) No ano passado, as exportações tiveram um crescimento negativo. (= No ano passado, as exportações decresceram)

Em (159), a palavra temperatura é usada com o significado de “febre, temperatura acima dos 37º C”. Neste uso particular, o significado inicial de “grau de calor ou frio” da palavra temperatura foi restringido ao significado de “grau de calor acima dos 37º C”. A face conceptual da palavra temperatura sofre, em enunciados como este, um processo de redução.

Quanto ao exemplo (160), a palavra crescimento é usada, neste contexto específico da área da economia, na acepção de “evolução” (e não na acepção, mais comum, de “aumento, desenvolvimento”): de um ano para o outro, as exportações evoluíram negativamente, isto é, registaram um volume menor, 230 decresceram. O significado inicial da palavra crescimento (“aumento”) pode ser decomposto nas ideias de “evolução” + “crescimento”. No enunciado (141), apenas encontramos a acepção de “evolução” da palavra crescimento, porquanto a associação desta palavra com o adjectivo negativo é incompatível com a acepção de “aumento”. Assim, a palavra crescimento sofreu, neste enunciado, um processo de redução do seu significado, na medida em que foi usada com uma acepção mais restrita.

10.2.6. A mudança linguística a nível lexical

No nível lexical, integram-se todas as alterações que decorrem do aparecimento de novas palavras (quer para designar novas entidades, quer para substituir palavras usadas anteriormente) e do desaparecimento de outras. Os arcaísmos, os neologismos e os estrangeirismos são, por definição, palavras que evidenciam fenómenos de mudança linguística a nível lexical.

Arcaísmos são palavras que caíram em desuso, palavras que em sincronias anteriores eram utilizadas pelos sujeitos falantes de uma dada língua mas que já não são usadas. A título de exemplo, nas obras de Gil Vicente, ainda se usa a palavra samicas com o significado equivalente ao que actualmente possui a palavra talvez. Dado que já não é uma palavra utilizada pelos falantes que, no início do século XXI, têm o português como língua materna, samicas constitui um arcaísmo.

Os neologismos resultam de novas combinações de constituintes de palavras já existentes numa dada língua. Recentemente, generalizou-se no português europeu a forma verbal deslocalizar para designar um processo de encerramento de empresas num determinado país e a sua subsequente reabertura num outro país, geralmente devido a motivos de redução de gastos de produção. Deslocalizar refere, portanto, uma nova realidade, mais específica do que o processo denotado pelo verbo deslocar (cuja acepção mais corrente é a de “mudar de local”). Existiam já, em português, as formas deslocar e localizar (esta última com o significado de “identificar o local onde se encontra algo ou alguém”), mas não a forma deslocalizar, que surgiu pela agregação do prefixo des- ao verbo localizar. Sublinhe-se, todavia, que o significado de deslocalizar não consiste na negação do significado de localizar.

Os estrangeirismos são palavras importadas de uma dada língua para uma outra língua (designada língua-alvo), através do processo designado por empréstimo. Andebol (de handball), stresse (de stress), batom (de bâton) e tablete (de tablette), por exemplo, são palavras que actualmente utilizamos em português, mas que foram importadas do inglês e do francês. Inúmeros outros exemplos, destas e de outras línguas (como o espanhol e o italiano), poderiam ser indicados: aficionado, bandarilha (esp.), pizza, prima-dona (it.), gel, iogurte (ingl.), mousse, croissant (fr.), etc.

O desaparecimento e o surgimento de palavras reflectem, frequentemente, mudanças culturais e tecnológicas, assim como o contacto com povos que falam outras línguas. As constantes inovações da ciência e da tecnologia desencadeiam processos de neologia e de empréstimo, uma vez que se torna necessário nomear novos objectos e noções. Do mesmo modo, outros objectos e outras noções, anteriormente relevantes, vão perdendo importância e as palavras que os designam caem gradualmente em desuso. Fromkin e Rodman (1993: 321) sublinharam que

«a chegada de uma nova palavra desperta sempre atenção mas uma palavra perde-se por um acto de desatenção».

10.3. Mudança linguística e variação linguística

Pelo que foi dito, parece legítimo concluir que a mudança que se processa no interior de uma língua muitas vezes decorre da adaptação das necessidades comunicativas dos sujeitos falantes a novas realidades históricas, culturais, sociais, etc. Se os contextos sócio-culturais se modificam ao longo dos tempos, também as necessidades comunicativas dos sujeitos falantes se alteram. Consequentemente, é expectável que as línguas com que comunicamos também se modifiquem.

Todas as línguas vivas estão, portanto, em permanente mudança, a qual se dá em diferentes níveis. No entanto, as alterações não se dão de modo brusco, de um momento para o outro. Uma modificação consiste, na maior parte dos casos, na substituição de um determinado uso por outro. Mas há sempre um período durante o qual o uso mais antigo e o uso mais recente coexistem. Durante esse período de tempo (de extensão muito variável) ambas as formas são usadas pelos falantes no seio da comunidade em que se regista a alteração linguística: uns utilizam a forma nova (por exemplo, o particípio passado com terminação em -ido); outros, a forma mais antiga (o particípio passado com terminação em -udo). A modificação consuma-se quando a forma nova se generaliza entre a maior parte dos falantes da comunidade e é sentida como pertencendo à norma dessa língua.

A questão é, todavia, muito mais complexa. Imaginemos que nem todos os falantes desta língua adoptam a nova forma, que nem todos passam a usar o uso mais recente que substituiu, na norma dessa comunidade, o uso mais antigo; pensemos, por exemplo, no caso do pronome e das formas verbais da 2.ª pessoa do plural (como vós ides) e num outro pronome de 2.ª pessoa do plural (vocês) sistematicamente associado a formas verbais de 3.ª pessoa do plural (vão). O que acontece em casos destes?

Continua a observar-se a coexistência dos dois usos: a maior parte dos falantes da comunidade utiliza agora as novas formas, mais prestigiadas do ponto de vista social porque pertencentes à norma. Mas um determinado grupo de falantes (possivelmente, mais restrito) utiliza ainda as formas mais antigas, 233 porque esse uso se encontra muito enraizado nos seus hábitos de comunicação verbal quotidiana. Em casos como este, observa-se variação linguística numa dada sincronia, num determinado estado de língua, porquanto, no seio de uma comunidade linguística, são atestados simultaneamente dois usos distintos. E esses usos distintos podem consistir na actualização fonética de um significante, na utilização preferencial de uma dada palavra para designar uma entidade, etc.

Deste modo, a mudança linguística e a variação linguística são duas questões intimamente relacionadas. A variação linguística num estado de língua pode ser reveladora de, entre outros, dois fenómenos: por um lado, da mudança linguística em curso; por outro lado, das consequências de mudanças linguísticas que se consumaram anteriormente, mas que não chegaram a generalizar-se, ou seja, que não foram adoptadas por todos os falantes dessa língua.

A variação linguística revela um fenómeno de mudança linguística em curso se dois (ou mais) usos distintos se devem a uma “competição” que está a decorrer numa dada sincronia e cujo resultado ainda não é possível prever. Dessa “competição” pode resultar que a nova forma seja, a pouco e pouco, adoptada e acabe por se generalizar, propiciando a mudança linguística. Ou pode acontecer que essa nova forma não se propague nem seja adoptada no âmbito da norma, mantendo-se o uso mais ou menos generalizado da forma mais antiga.

Pode ainda acontecer um terceiro caso: que as duas formas sejam utilizadas concorrencialmente por diferentes sujeitos falantes da comunidade em questão. Este último caso evidencia que a variação linguística atestada numa dada sincronia pode ficar a dever-se a mudanças linguísticas prévias que nunca se generalizaram. Uma alteração pode não ter sido adoptada por toda a comunidade que fala uma dada língua, mas apenas por alguns dos seus falantes; por exemplo, as populações que habitam as maiores cidades (que são, geralmente, mais inovadoras) podem ter adoptado a forma nova, ao contrário das populações que habitam zonas mais isoladas e menos populosas (que são, geralmente, mais conservadoras).

Por conseguinte, os fenómenos de mudança linguística consumada podem deixar vestígios susceptíveis de serem atestados a nível da variação 234 linguística observável numa dada sincronia. Por outro lado, alguns fenómenos de variação linguística sincrónica podem reflectir mudanças linguísticas em curso, ainda não totalmente consumadas.

Ou, perspectivando a mesma questão pelo reverso da medalha, a variação linguística sincrónica pode revelar, a dois níveis, os fenómenos de mudança linguística: quer os que estão em curso, quer os que já se consumaram, embora não se tenham generalizado a todos os sujeitos falantes da comunidade linguística.

Embora tendo apresentado de um modo relativamente simples fenómenos que são assaz complexos, estas reflexões comprovam que a mudança linguística e a variação linguística são questões que se relacionam entre si. Em termos das metodologias de análise, a consequência que advém desta relação entre mudança linguística e variação linguística é que não se deve considerar que os conceitos de diacronia e de sincronia formam uma oposição absoluta e irreconciliável. Ao contrário do que postulou Saussure, as perspectivas de análise diacrónica e sincrónica devem ser encaradas como complementares e não como radicalmente distintas.

Sublinhe-se, a concluir esta secção, que, sendo a mudança linguística inerente a qualquer língua viva,

«felizmente para nós que, apesar de as línguas mudarem, o fazem bastante devagar relativamente à duração da vida humana. Seria incómodo se tivéssemos de aprender a nossa língua materna de vinte em vinte anos»88.

Actividades

1. Explique porque é que as duas citações seguintes reflectem uma perspectiva diacrónica de análise linguística. Indique também o nível de análise a que se referem os exemplos apresentados em cada uma delas.

a) «O léxico do Português Moderno, acompanhando a evolução científica e técnica, tem-se enriquecido com empréstimos do Francês (táxi, chofer, hotel, boné), do Italiano (piano, sonata), ou do Inglês (líder, pudim, repórter, stresse), não deixando, embora, de continuar a recorrer ao Grego e ao Latim (automóvel, televisão, vídeo)», Cardeira (2006: 78).

b) «A consoante nasal [n], [em posição intervocálica], começa por nasalar a vogal que a precede e depois deixa de ser articulada: assim, a palavra LANA passa sucessivamente a lãna, lãa e lã», Castro (2006: 75).

2. Elabore um comentário a esta quadra de um célebre soneto camoniano, no qual reflicta sobre a questão da mudança linguística.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o mundo é composto de mudança

tomando sempre novas qualidades.

Luís de Camões

Referências bibliográficas

a) Leituras complementares

CARDEIRA, Esperança (2006), O essencial sobre a história do português, Lisboa, Caminho (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), pp. 13-15, 57-96.

CASTRO, Ivo (2006), Introdução à história do português (2.ª edição revista e muito ampliada), Lisboa, Edições Colibri, pp. 7-22, 73-78.

b) Obras citadas ou referidas

FROMKIN, Victoria, e Robert RODMAN (1993), Introdução à linguagem (trad.), Coimbra, Livraria Almedina.

PLATÃO, Crátilo (trad.) (2.ª ed.), Lisboa, Livraria Sá da Costa.

TEYSSIER, Paul (1993), História da língua portuguesa (trad.), Lisboa, Livraria Sá da Costa.

Notas

  1. Platão, Crátilo (trad.), 2.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1994, p. 5.
    ↩
  2. Platão, Crátilo (trad.), 2.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1994, pp. 147-149.
    ↩
  3. Um hiato consiste na sucessão de dois sons vocálicos que pertencem a sílabas diferentes.
    ↩
  4. Este modo de representar as palavras (com um hífen a separar os encontros vocálicos) pretende simplesmente realçar o facto de se tratar hiatos e não de ditongos. O til sobre a letra ⟨i⟩ em vĩ-u representa a nasalidade que caracterizava a pronúncia desta vogal.
    ↩
  5. Ver Teyssier (1993: 40-66).
    ↩
  6. Ver Teyssier (1993: 66-68).
    ↩
  7. Ver Teyssier (1993: 73).
    ↩
  8. O uso de formas verbais e da forma de tratamento da 2.ª pessoa do plural ainda é atestado com grande vitalidade em zonas do norte e do interior de Portugal.
    ↩
  9. Fromkin e Rodman (1993: 303).
    ↩
237
Capítulo 11

Variação Linguística

Objectivos

No final deste capítulo, o estudante deverá estar apto a

• identificar os diferentes factores (geográficos, sociais e individuais/situacionais) subjacentes à diversidade própria de uma língua natural;

• enumerar usos linguísticos que ilustrem casos de variação diatópica, diastrática e diafásica na língua portuguesa;

• indicar o objecto de estudo da Dialectologia e da Sociolinguística;

• definir os conceitos de língua, dialecto, norma, regionalismo, sociolecto e estilo (ou registo de língua);

• explicitar os conceitos de linguagem técnica, gíria e calão;

• identificar diferentes tipos de registo de língua com base em critérios de natureza diversa (como o grau de formalidade e o modo de comunicação oral ou escrito);

• distinguir os conceitos de competência linguística e competência comunicativa.

11.1. Variação diatópica

Numa dada sincronia (por exemplo, na primeira década do século XXI), a língua portuguesa não é falada exactamente da mesma maneira por todos os indivíduos que a têm como língua materna. Esta variação decorre de factores diversos. A variação diatópica (ou variação geográfica ou variação regional) diz respeito aos diferentes modos de os sujeitos falantes actualizarem uma dada língua natural em função das zonas geográficas onde habitam.

A variação diatópica que existe no âmbito de uma língua natural reflecte o facto de os sujeitos falantes dessa língua diferirem no modo de a utilizarem, por razões que decorrem da região que habitam ou em que nasceram e cresceram (tendo, portanto, adquirido a variedade de língua própria dessa região geográfica). Em rigor, não é a geografia, em si mesma, que determina os diferentes modos de falar uma língua natural; mas a dispersão espacial dos falantes de uma língua contribui para que as comunidades que falam essa língua tenham comportamentos linguísticos distintos.

O estudo e a descrição dos fenómenos de variação linguística regional é realizado no âmbito da disciplina linguística designada por Dialectologia (ou Geografia Linguística).

Dois sujeitos falantes de português que habitam (ou que são originários de) diferentes regiões, tendem a falar a sua língua materna de modos distintos em diferentes níveis. Os níveis fonético e lexical, como já referimos, são aqueles em que mais facilmente identificamos diferenças. A articulação de um significante com pronúncias distintas e a utilização de palavras diferentes para designar a mesma entidade configuram os casos mais evidentes de diferenças regionais de usos linguísticos. Contudo, elas também existem nos níveis fonológico, morfológico, sintáctico e semântico, embora sejam menos perceptíveis e, seguramente, em menor número.

No caso do português, a variação diatópica é facilmente detectável se compararmos os usos linguísticos de falantes de diferentes nacionalidades que têm o português como língua materna: portugueses, brasileiros, angolanos, 240 moçambicanos, guineenses, cabo-verdianos, são-tomenses e timorenses, para citar os casos mais proeminentes (sublinhe-se, todavia, que não estamos a dizer que todos os brasileiros, todos os angolanos ou todos os timorenses, por exemplo, têm o português como língua materna).

Procuraremos, a seguir, listar algumas diferenças nos usos linguísticos dos falantes de português e que constituem exemplos de variação diatópica na sincronia actual. Naturalmente, não pretendemos ser exaustivos nesta apresentação.

A nível fonético, há diferenças relevantes entre a norma do português europeu (PE) e a norma do português do Brasil (PB). Enumeremos três das características que mais afastam o PE do PB, conferindo aos falantes de cada uma das variedades um sotaque facilmente reconhecível:

– em palavras como ele, posse e toque, a vogal átona em posição final (grafada ⟨e⟩) é pronunciada [ɨ] em PE, e [i] em PB; aquelas três palavras são, nas respectivas normas, articuladas do seguinte modo: [’elɨ], [’pɔsɨ] e [’tɔkɨ], em PE, contrastando com [’eli], [’pɔsi] e [’tɔki], em PB89;

– em palavras como agradável e mil, a consoante final (grafada ⟨l⟩) é pronunciada como consoante lateral velarizada [ɫ] em PE, e como semivogal posterior [w] em PB; aquelas palavras são, nas respectivas normas, tipicamente articuladas do seguinte modo: [ɐgɾɐ’davɛɫ] e [’miɫ] em PE, e [agɾa’davɛw] e [’miw] em PB;

– em palavras que integram sequências de sons representadas na escrita por ⟨ti⟩, ⟨te⟩, ⟨di⟩ e ⟨de⟩, as consoantes são pronunciadas de modo diferente: em PE, são articuladas como oclusivas apicodentais [t] e [d]; em PB, são muitas vezes actualizadas como oclusivas palatalizadas [tʃ] e [dʒ]; os 241 significantes de palavras como mentir e disse têm as seguintes actualizações em PE e em PB, respectivamente: [mẽ’tiɾ] e [’disɨ]; [mẽ’tʃiɾ] e [’dʒisi]90.

Mas não se pense que o português europeu constitui uma variedade totalmente homogénea em termos geográficos, sem quaisquer diferenças assinaláveis a nível fonético. Pelo contrário, há propriedades fonéticas típicas dos falantes de várias regiões de Portugal (continental e insular), o que torna possível identificar a região de origem de um falante. Entre essas características, contam-se as seguintes91:

a) articulação do fone que, na escrita, é representado pela consoante ⟨v⟩, como consoante bilabial [b]; palavras como vez e avó são articuladas do seguinte modo: [’beʃ] e [ɐ’bɔ], respectivamente; esta é uma característica que permite identificar falantes oriundos da região norte de Portugal ou que nela habitam;

b) pronúncia [o] do ditongo que, na escrita, é representado por ⟨ou⟩; os falantes que assimilaram a monotongação deste ditongo articulam do mesmo modo os significantes das palavras ouço e osso (em ambos os casos, [’osu]), assim como de posar e pousar (em ambos os casos, [po’zar]); pelo contrário, os falantes que mantêm a articulação do ditongo distinguem claramente os significantes destes pares de duas palavras: [’owsu] e [’osu]; [pow’zar] e [po’zar]; a monotongação do ditongo ⟨ou⟩ é típica dos falantes do centro e sul de Portugal, enquanto a manutenção da articulação desse ditongo é característica dos falantes do norte;

c) monotongação do ditongo representado na escrita por ⟨ei⟩; palavras como feira e maneira são articuladas de modo diferente: [mɐ’nɐjrɐ] e [’fɐjrɐ], na norma do PE; [mɐ’nerɐ] e [’ferɐ], em regiões do sul de Portugal92.

Todos os exemplos listados evidenciam fenómenos de variação diatópica a nível fonético entre falantes de língua portuguesa: quer os que dizem respeito a diferenças entre o PE e o PB, quer os que remetem para diferenças entre falantes que habitam o território de Portugal continental.

Também a nível lexical se observam inúmeras diferenças entre os sujeitos falantes que têm o português como língua materna. Listemos, a título de exemplo, alguns pares de palavras que designam a mesma entidade:

– hospedeira (em PE) e aeromoça (em PB);

– comboio (em PE) e trem (em PB);

– betão (em PE) e concreto (em PB);

– soro (em regiões do norte de Portugal) e almece (em regiões do sul de Portugal);

– amendoins (em regiões do norte de Portugal) e alcagoitas (em regiões do sul de Portugal);

– cimbalino (na região do Porto) e bica (na região de Lisboa).

No âmbito da língua portuguesa, uma mesma entidade pode ser designada por palavras diferentes, dependendo da região geográfica de onde os sujeitos falantes são originários. Estes exemplos testemunham, portanto, fenómenos de variação diatópica a nível lexical.

Juntamente com as diferenças a nível fonético, as diferenças a nível lexical são as que mais frequentemente condicionam o sucesso da comunicação entre dois falantes de português oriundos de regiões geográficas diversas. O uso de designações distintas para referir uma mesma entidade pode, em situação de comunicação, exigir o recurso a sinónimos ou a descrições pormenorizadas da entidade denotada, de modo a que a intercompreensão se mantenha.

As diferenças a outros níveis são menores em número, e seguramente não condicionam tanto a compreensão entre os interlocutores. Segundo Peres e Móia (1995: 37),

«enquanto a variação dialectal entre o português europeu, o português do Brasil e as variantes africanas envolve os vários planos do sistema linguístico, pode-se dizer que a variação adentro do espaço português é fraca no plano sintáctico - já que, segundo cremos, as diferenças são despiciendas - e forte 243 nos planos lexical e fonético, onde a diversidade é acentuada - pense-se, por exemplo, nas pronúncias e nos vocabulários típicos de regiões do país como o Alentejo, o Minho, as Beiras interiores ou os Açores».

Além dos exemplos já listados que reflectem variação diatópica a nível fonético e lexical, propomo-nos ainda abordar, embora de modo mais sucinto, usos geograficamente distintos a nível morfológico e a nível sintáctico.

A nível morfológico, assinale-se a diferença que se regista, entre falantes que habitam o território de Portugal continental, no uso de diminutivo em palavras como cão e maçã:

– cão: cãozito (na norma do PE) e canito (em regiões do sul de Portugal);

– maçã: maçãzita (na norma do PE) e maçanita (em regiões do sul de Portugal).

No caso de palavras que integram sons vocálicos nasais na última sílaba (o ditongo nasal [ɐ̃w], em cão, e a vogal nasal [ɐ̃], em maçã), o diminutivo que prevalece nos usos de falantes do sul de Portugal é -nito/-nita, enquanto na norma do PE é -zito/-zita.

A nível sintáctico, registamos diferenças quer na ordem normal das palavras na frase, quer na construção progressiva tipicamente mais usada.

Em PB, os pronomes pessoais átonos (como me, te, o, lhe, e se93) são antepostos à forma verbal em frases como (161) e (162):

(161) A Rita me convidou para a sua festa de aniversário.

(162) A Ana se levantou cedo hoje.

Em PE, o pronome pessoal átono ocorre, geralmente, posposto à forma verbal:

(163) A Rita convidou-me para a sua festa de aniversário.

(164) A Ana levantou-se cedo hoje.

Em certas construções, todavia, também se observa anteposição do pronome pessoal átono relativamente à forma verbal em PE:

(165) Não me lembro de me teres emprestado esse livro do António Lobo Antunes.

(166) Já te disse isso há uma semana.

Outro exemplo de variação diatópica a nível sintáctico é a que diz respeito à construção sintáctica conhecida como construção progressiva. O enunciado (167) integra a construção atestada na norma do PE (estar a + infinitivo), e o enunciado (168) inclui a construção típica da norma do PB (estar + gerúndio).

(167) Estou a ler um livro de Eça de Queirós.

(168) Estou lendo um livro de Eça de Queirós.

Sublinhe-se que a construção estar + gerúndio é também usada nas regiões do sul de Portugal (em particular, no Alentejo e no Algarve). Ou seja, este traço de variação diatópica observa-se mesmo entre os falantes de português que habitam o território de Portugal continental.

No âmbito de uma dada língua natural, um uso linguístico que caracteriza, de modo sistemático e generalizado, os sujeitos falantes de uma determinada região geográfica designa-se regionalismo. Um regionalismo permite, por isso, identificar a região de origem do sujeito falante que o utiliza na sua produção verbal.

Por exemplo, o falante de português que actualiza como [ɐ’bɔ] o significante da palavra avó pode ser, de modo quase inequívoco, identificado como um indivíduo oriundo do norte de Portugal, porque é sabido que esse traço fonético é típico dos falantes dessa região. A propriedade de não estabelecer oposição entre os sons [v] e [b] (em palavras como vejo e beijo) 245 constitui, então, um regionalismo, uma característica linguística própria dos falantes de uma determinada zona geográfica.

Outros exemplos de regionalismos foram anteriormente apontados: a monotongação do ditongo representado na escrita por ⟨ei⟩, a manutenção do ditongo [ow] em palavras como touro, o diminutivo atestado em palavras como canito e maçanita, o uso da palavra alcagoitas para referir os frutos secos que, no âmbito da norma do PE, são referidos pela palavra amendoins, e a construção sintáctica estar + gerúndio. Qualquer uma destas propriedades linguísticas permite, com maior ou menor rigor, indicar a região de origem dos sujeitos falantes de português que as integram nas suas produções verbais quotidianas.

O conceito de regionalismo está associado a um outro, igualmente importante para os linguistas que se dedicam ao estudo da variação diatópica: o conceito de dialecto. Se definimos regionalismo como um uso linguístico inerente aos falantes de uma dada região geográfica, então um dialecto constitui um modo de falar próprio dos falantes de uma região, o qual se caracteriza por integrar um conjunto de regionalismos.

Nesta acepção, os conceitos de dialecto e de regionalismo são interdependentes, de tal modo que a definição de um não prescinde do recurso ao outro. Por um lado, qualquer regionalismo integra-se num determinado dialecto, isto é, numa variedade de língua que constitui o modo de falar próprio dos falantes de uma dada região. Por outro lado, é a ocorrência de um conjunto de regionalismos - generalizada entre os falantes de um dialecto - que permite identificar e individualizar esse dialecto relativamente a outros dialectos que são próprios de outras regiões onde se fala essa mesma língua.

Segundo esta concepção, em cada língua há vários dialectos, caracterizados por um conjunto de regionalismos e distribuídos pelas diversas regiões geográficas em que essa língua é falada. Mas esta definição de dialecto coloca novas questões relativas aos conceitos de norma e de língua. Repare-se que indicámos como exemplos de regionalismos apenas aqueles traços linguísticos que são típicos de regiões geográficas de Portugal continental que não coincidem com a região onde, consensualmente, vivem os falantes que actualizam a norma do PE (a faixa litoral entre Coimbra e Lisboa).

Deste modo, pode colocar-se a seguinte questão: a norma corresponde a um dialecto? Ou, reformulando a pergunta, a norma constitui, tal como qualquer dialecto, um modo de actualizar a língua próprio dos falantes de uma dada região?

E a resposta é sim, a norma do PE corresponde a um dialecto. Mais especificamente, a norma do PE equivale ao dialecto falado pelos indivíduos que habitam a faixa litoral do território entre Coimbra e Lisboa. Aliás, em qualquer língua, a norma constitui um dialecto. Debrucemo-nos, então, um pouco mais sobre o conceito de norma.

Segundo Mateus e Villalva (2006: 99), a norma é a

«variedade dialectal e sociolinguística utilizada no uso da língua em contexto escolar e nos meios de comunicação […] (em Portugal considera-se como norma-padrão a variedade utilizada na região de Lisboa-Coimbra)».

Como é que um determinado dialecto ascende a norma da língua de que constitui uma variedade? Há geralmente razões de natureza política, histórica e sociocultural que determinam a variedade de uma língua que é considerada a norma. No caso da norma do PE, são conhecidas razões histórico-políticas e socioculturais que ditaram que o dialecto falado na faixa litoral entre Lisboa e Coimbra fosse elevado a esse estatuto: por um lado, a cidade de Lisboa constitui, desde há vários séculos, a capital política de Portugal, tendo, por esse motivo, congregado em seu redor a corte e grande parte das elites sociais. Por outro lado, até ao início do século XX, esteve sediada na cidade de Coimbra a única universidade portuguesa - se exceptuarmos o período de tempo, entre os séculos XVI e XVIII, em que funcionou a universidade de Évora. O prestígio social e cultural associado aos falantes que habitam aqueles dois centros (político e cultural) revelou-se decisivo.

Sublinhe-se que são geralmente razões de natureza extralinguística que estão na base da ascensão de um dialecto ao estatuto de norma. Em termos linguísticos, o dialecto que constitui a norma não é “melhor” nem “pior” do que os outros dialectos que são reconhecíveis numa dada língua. Nas palavras de Peres e Móia (1995: 35-36),

«de um ponto de vista estritamente linguístico, todas as variantes têm idêntico interesse e dignidade enquanto objectos de estudo, uma vez que todas elas são sistemas organizados por uma gramática. […] A questão da opção por uma variante linguística pode colocar-se […] quando se têm em consideração certos objectivos específicos. Entre estes, contam-se, por exemplo, o ensino da língua […], a redacção de textos oficiais, a difusão de informação através de meios de comunicação social».

A norma do PE constitui, então, o dialecto que, por razões de natureza extralinguística, é utilizado quotidianamente como referência para os usos linguísticos do ensino, da documentação oficial e da comunicação social. A valorização deste dialecto não resulta do facto de ele ser, de alguma forma, “melhor” ou “superior” a outros dialectos; decorre de motivos que residem nos papéis (culturais, institucionais, políticos, etc.) que ele desempenha na sociedade em que é utilizado, e que fazem dele uma variedade socialmente mais prestigiada. A afirmação segundo a qual em Coimbra e em Lisboa se fala melhor o PE do que noutras regiões do país configura mais uma atitude de valorização (sociocultural) dos falantes desse dialecto do que uma atitude de valorização (estritamente linguística) do dialecto em si mesmo.

Segundo Duarte (2000: 27), o reconhecimento da existência de uma norma é acompanhado pela

«produção de instrumentos de normalização linguística, cuja função é descrever a estrutura e o léxico dessa variedade, bem como fixar as regras do seu registo escrito: contam-se entre os mais importantes gramáticas, dicionários, tratados de ortografia e prontuários ortográficos».

Apesar de não ser polémico argumentar que o português, o espanhol, o francês e o italiano constituem línguas diferentes (e não diferentes dialectos de uma mesma língua), outros casos há em que não é linear decidir se se está em presença de dois dialectos de uma mesma língua ou em presença de duas línguas diferentes. Justifica-se, por isso, concluir estas reflexões retomando o conceito de língua.

Dissemos que, no seio de uma língua, podemos distinguir vários dialectos (em maior ou em menor número, normalmente em função do número de falantes dessa língua e da sua distribuição por grandes áreas geográficas ou por uma área mais restrita) e que um dos dialectos se constitui como a norma dessa língua. Mas a questão é um pouco mais complexa, porque uma língua pode ter mais do que uma norma.

Segundo Ivo Castro (2006: 12),

«o sistema linguístico do português dispõe, no início do século XXI, de duas variantes nacionais plenas».

As duas variedades nacionais da língua portuguesa são o português europeu e o português do Brasil, cada uma delas com a respectiva norma. Esta é mais uma razão para defendermos a ideia segundo a qual uma língua não configura um sistema homogéneo.

O que é, então, uma língua? Que critérios estão na base da definição de uma língua? Por exemplo, quando se pode dizer que dois dialectos que partilham muitas características são variantes de uma mesma língua ou, pelo contrário, pertencem a línguas distintas?

Segundo um critério baseado na intercompreensão, duas variantes pertencem à mesma língua se os falantes que utilizam cada uma dessas variantes se conseguem entender mutuamente. Os falantes de PE e de PB conseguem geralmente entender-se, mas o mesmo não se poderá dizer de um falante de português e de um falante de espanhol, uma vez que as diferenças entre os modos de falar destes falantes impossibilitam, frequentemente, a intercompreensão. Este critério, todavia, não é, por si só, suficiente para identificar uma dada língua, delimitando-a relativamente a outra(s). Um falante de dinamarquês e um falante de norueguês conseguem compreender-se e, no entanto, dizemos que falam duas línguas diferentes. Neste caso, um outro critério, de natureza política, sobrepôs-se ao da intercompreensão.

Com base nesse critério político-institucional, uma língua corresponde a um sistema verbal de comunicação utilizado pelos falantes que vivem dentro das fronteiras de um estado. Mas este critério também esconde uma realidade frequentemente mais complexa. Em países como a Espanha, a Bélgica, o 249 Canadá e a Suíça fala-se mais do que uma língua. Além disso, tanto na Alemanha como na Itália, países onde se diz que há uma única língua (o alemão e o italiano, respectivamente), o critério da intercompreensão nem sempre se aplica, porquanto um falante de uma região do norte poderá ter grandes dificuldades em compreender um falante de uma região do sul e vice-versa.

Uma língua parece, então, definir-se ou delimitar-se conjugando estes critérios com um terceiro: a consciência dos sujeitos falantes. Segundo este critério, dois falantes acreditam que falam a mesma língua se as diferenças entre os dialectos que ambos actualizam não se sobrepõem à consciência de pertencerem a uma mesma comunidade, uma vez que os aproximam razões de natureza histórica, política e sociocultural.

Em suma, dois indivíduos falam uma dada língua quando, cumulativamente, acreditam i) que utilizam a mesma língua, e ii) que a utilizam devido a, pelo menos, uma de duas razões: ou porque se entendem mutuamente, ou porque partilham o mesmo espaço político, sociocultural, etc.

Com estas reflexões (que pecam pela brevidade com que tratámos de uma questão tão complexa), não tencionamos encerrar de modo definitivo o tema da delimitação de uma língua relativamente a outras que lhe são próximas. Naturalmente, muito mais haveria a acrescentar – pensemos, por exemplo, no caso do português e do galego. Julgamos, todavia, que, a propósito dos usos linguísticos que evidenciam variação diatópica, sublinhámos devidamente o facto de as línguas naturais constituírem sistemas muito complexos e heterogéneos.

Da articulação dos conceitos sobre os quais temos vindo a reflectir (língua, dialecto, norma, regionalismo) e da sua aplicação ao português, podemos concluir o seguinte: a língua portuguesa tem actualmente duas variantes nacionais plenas - o português europeu e o português do Brasil. Em cada uma dessas variantes, há uma norma e vários dialectos com características próprias. Mas a própria norma constitui um dialecto que, por razões de ordem política, histórica e sociocultural, tem mais prestígio no âmbito da comunidade, tendo sido, justamente por isso, erigido como norma. Deste modo, a norma do PE corresponde ao dialecto falado na faixa litoral entre 250 Coimbra e Lisboa, e a norma do PB corresponde ao dialecto falado pelas classes cultas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Noutras regiões em que o português constitui a língua materna dos sujeitos falantes (África, Ásia e Oceânia), também se observam propriedades linguísticas que caracterizam os modos de actualizar a língua portuguesa, ou seja, regionalismos; por outras palavras, também nessas regiões se pode dizer que há dialectos do português.

Donde se conclui que nenhuma língua viva (que seja falada por um número significativo de falantes) constitui um sistema perfeitamente homogéneo. A variação sincrónica não constitui um “defeito” das línguas naturais; ela apenas reflecte a variação sociocultural inerente aos sujeitos falantes que as utilizam.

Além disso, a realidade linguística é geralmente mais complexa do que a linearidade das fronteiras políticas dos diferentes países. O que equivale a dizer que as fronteiras linguísticas nem sempre coincidem com as fronteiras políticas.

11.2. Variação diastrática

Na secção anterior, reflectimos sobre a variação diatópica que se observa nas línguas vivas. A variação diatópica resulta, como vimos, de os falantes de uma língua actualizarem-na de modo diferente em função da região geográfica que habitam ou de onde são originários.

Mas mesmo os falantes que vivem numa dada região não falam todos exactamente da mesma maneira. Não se pode dizer que actualizam a língua portuguesa do mesmo modo todos os falantes que residem ou que são oriundos da região norte de Portugal, por exemplo.

Os seres humanos vivem em sociedades que atingiram um elevado grau de complexidade em termos de organizações profissionais e de grupos sociais que as integram. Muitas diferenças no uso da língua decorrem da profissão que um indivíduo exerce ou dos contactos preferenciais que mantém com pessoas de um determinado grupo socioprofissional. Cada grupo socioprofissional possui características próprias, por exemplo, quanto ao seu grau de escolarização típico, quanto às realidades com que lida diariamente no âmbito da sua actividade, etc. A variação linguística decorrente destas propriedades de carácter sociocultural designa-se variação diastrática.

De um modo simplista, a variação diastrática identifica-se pelo facto de um advogado não falar da mesma maneira que um engenheiro informático ou que um mecânico ou que uma cantora de ópera ou que um médico oftalmologista ou que um jornalista desportivo. Cada um destes indivíduos integra no seu vocabulário palavras que utiliza no âmbito da profissão que exerce. Caso se dedicassem a outra actividade, possivelmente nunca utilizariam expressões típicas dos indivíduos que operam em cada uma daquelas áreas.

Estas diferenças no modo de actualizar uma língua são estudadas no âmbito da Sociolinguística. Como a própria designação sugere, a Sociolinguística recorre a conceitos e a metodologias quer da Sociologia, quer da Linguística para dar conta do seu objecto de estudo. Trata-se, portanto, de uma disciplina que se situa na fronteira entre duas áreas de estudo e que tem como objectivo analisar a influência dos contextos sociais nos usos linguísticos. 252 Tal como a Sociologia, serve-se de variáveis (como a idade, o sexo, a actividade socioprofissional e o grau de escolarização) para delimitar subcomunidades no âmbito da comunidade linguística que usa uma dada língua materna. De um modo muito genérico, pode dizer-se que, entre os principais objectivos da Sociolinguística, se conta o seguinte: procurar determinar que usos linguísticos sistematicamente se associam a certos grupos sociais.

A variação diastrática concretiza-se, sobretudo, no nível lexical, embora também se possam observar diferenças a outros níveis. Duarte (2000: 24) apresenta os seguintes exemplos de variação diastrática, tendo em consideração a variável “nível de escolarização”:

«formas de tratamento como miga (corruptela de amiga) ou vizinha, o uso de certos vocábulos (vou fazer o comer/o comer está pronto? vs vou fazer a comida/a comida está pronta?) e expressões (derivado a vs. devido a), a actuação de processos que alteram quer a qualidade dos sons quer a estrutura silábica das palavras (sarralheiro vs serralheiro; rabuçado vs rebuçado; carapinteiro vs carpinteiro; gasoilo vs gasóleo), a regularização de padrões flexionais ([tu] ouvistes, [tu] dissestes vs [tu] ouviste, [tu] disseste), a preferência por uma concordância verbal de natureza semântica e não sintáctica (a gente vamos sair vs a gente vai sair, uma dúzia de ovos custam para cima de mil réis vs uma dúzia de ovos custa para cima de mil réis) são algumas características da variedade do português europeu utilizada por falantes com baixo nível de escolaridade».

Vejamos outros exemplos de variação diastrática. No âmbito da sua actividade, regra geral, qualquer profissional necessita de recorrer a muitos termos ou expressões que dizem respeito à sua área, mas que não são usados na linguagem corrente dos que não exercem essa actividade.

Para um médico oftalmologista, não é suficiente dividir o olho em pupila e íris, por exemplo. Ele tem necessidade de nomear, de modo rigoroso e não vago, todas as partes constitutivas do olho. Daí que se sirva de palavras e expressões que são tipicamente usadas no âmbito da sua área de actividade, mas que não fazem parte do vocabulário comum dos outros falantes. Entre 253 essas palavras e expressões contam-se as seguintes: córnea, retina, disco óptico, nervo óptico e humor vítreo.

Do mesmo modo, um profissional da área da informática usa todos os dias de palavras e expressões inerentes à sua actividade, palavras essas que até podem ser desconhecidas da maior parte dos falantes de português. Placa de rede, CPU, memória RAM, sistema operativo e disco rígido constituem apenas alguns exemplos.

Quando nos referimos ao léxico da linguagem corrente, nele integramos aquelas palavras que, em princípio, qualquer falante nativo de português conhece, independentemente da sua actividade profissional: cão, faca, sapato, casa, braço, televisão, livro e árvore são exemplos de palavras que se inserem na linguagem corrente. Ora, o mesmo não se pode dizer de palavras e expressões como humor vítreo e memória RAM.

O exemplo seguinte remete não para o uso de palavras no âmbito restrito de uma dada actividade, mas para a distinção rigorosa que, num sector profissional, se estabelece entre o significado de palavras usadas na linguagem corrente. Para um jurista, é essencial distinguir entre os conceitos denotados pelas palavras roubo e furto. No âmbito da sua actividade, estas palavras referem realidades distintas, que é necessário nomear de modo igualmente distinto. Roubo e furto designam o acto de subtrair ou de se apropriar indevidamente de um determinado bem que não lhe pertence; todavia, o roubo implica violência ou ameaça, e o furto não. Na linguagem corrente, estes termos ou são usados indiferentemente com o significado de “apropriação ilegal de um bem”, ou a palavra roubo subsume os significados de ambas e é a única a ser utilizada (ou seja, em nenhum caso se estabelece a oposição entre roubo e furto, que é essencial para um jurista).

Encontramos outros exemplos que revelam semelhanças com este nos seguintes pares de palavras: separação e divórcio; alugar e arrendar.

A utilização quotidiana de determinadas palavras ou expressões, por força da profissão dos sujeitos falantes, traduz-se em variação linguística; porque se trata de variação enraizada em factores de natureza socioprofissional, os exemplos que apresentámos ilustram fenómenos de variação diastrática. A todos os casos apresentados subjazem razões que decorrem da necessidade 254 de designar a realidade com um grau de rigor exigível no âmbito de diferentes subcomunidades delimitadas pelo factor socioprofissional.

Designamos por linguagem técnica (ou tecnolecto) o conjunto de vocábulos que, não integrando a linguagem corrente, são próprios de um grupo socioprofissional que se dedica a um determinado sector de actividade. Os vocábulos de uma linguagem técnica são utilizados quotidianamente devido às necessidades comunicativas que decorrem da actividade socioprofissional dos falantes que os utilizam. Inerente ao recurso a estes vocábulos está, geralmente, a necessidade de nomear de modo rigoroso e não ambíguo as realidades específicas da actividade em causa. Muitos dos vocábulos utilizados pelo médico oftalmologista, pelo engenheiro informático, pelo mecânico, pelo marinheiro, pelo advogado, ou pelo canalizador não fazem parte da linguagem corrente, confinando-se à actividade que cada um deles exerce. Mas todos os exemplos que apresentámos (quer os que dizem respeito à utilização de vocábulos não incluídos na linguagem corrente, quer os que evidenciam o uso de palavras cujo significado é delimitado de forma mais rigorosa do que nos usos comuns - como furto e roubo) incluem-se no âmbito das linguagens técnicas.

Além das linguagens técnicas, também as gírias se integram no tema da variação diastrática. Nem sempre é fácil delimitar as linguagens técnicas das gírias. Há, todavia, alguns critérios que podem ser tidos em conta para proceder à distinção entre umas e outras.

Dissemos que as linguagens técnicas têm como objectivo conferir mais rigor às realidades designadas e que a variação por que são responsáveis se concretiza fundamentalmente no nível lexical. As gírias, por seu turno, surgem tipicamente devido a motivações de natureza lúdica, expressiva e identitária, e para manter um certo grau de secretismo; a variação por que são responsáveis é susceptível de atingir, além do nível lexical, também o nível sintáctico. Concretizemos estas ideias.

Algumas gírias (como a dos contrabandistas) podem ser usadas com o objectivo de tornar incompreensível, para quem não faz parte do grupo, o significado dos enunciados que remetem, por exemplo, para actividades ilegais. Os grupos socioprofissionais que se servem de gírias com essa finalidade usam-nas, portanto, para que a comunicação se processe apenas 255 entre os membros do grupo, sem que outras pessoas presentes possam identificar o significado do que está a ser dito. Em Ferreira et alii (1996: 481), é apresentada

«a seguinte frase da gíria dos antigos vendedores ambulantes de Castanheira de Pêra, o laínte: Aroga os êtres leios que astram aquimes jordam enroba significa Agora os três homens que estão aqui vão embora».

A gíria serve, neste caso, para manter um certo secretismo entre os falantes de uma subcomunidade unida por uma actividade socioprofissional.

Além disso, a gíria reforça o espírito de pertença a um grupo, tendo, portanto, uma função identitária: só os que conhecem e usam a gíria são reconhecidos como membros efectivos da subcomunidade socioprofissional em causa. O uso de palavras que pertencem a uma dada gíria funciona, portanto, como marcador da coesão de grupo.

Também as funções lúdica e expressiva podem estar na origem das gírias. Se recorrermos à gíria futebolística ou às alcunhas que, entre amigos e colegas de trabalho, mutas vezes se associam a pessoas com quem lidamos diariamente, encontraremos exemplos que evidenciam que, na criação de novas palavras e expressões, se combinam necessidades expressivas com motivações lúdicas. A gíria futebolística, por exemplo, não constitui propriamente um código secreto (como a gíria dos contrabandistas), mas serve i) para designar algumas realidades com maior dose de expressividade, e ii) para demarcar, no seio da comunidade linguística, os que a usam dos que não a usam.

As palavras e expressões usadas e criadas no âmbito das gírias muitas vezes apoiam-se em imagens e em metáforas sugestivas que conferem mais expressividade ao que se pretende comunicar. Vejamos os dois exemplos seguintes, muito comuns na gíria futebolística: pontapé de bicicleta e fazer um chapéu ao guarda-redes.

O pontapé de bicicleta designa o movimento em que um jogador dá um pontapé na bola girando verticalmente sobre si mesmo, de tal modo que acaba por cair no chão com as costas em primeiro lugar e com as pernas a seguir. Este tipo de lance permite-lhe rematar na direcção contrária àquela para onde 256 está virado: por exemplo, se o jogador está de costas voltadas para a baliza da equipa adversária, pode rematar e tentar marcar um golo utilizando o pontapé de bicicleta.

A imagem seguinte mostra Pelé a executar um pontapé de bicicleta.

Pelé a executar um pontapé de bicicleta

Como se explica a designação escolhida para nomear este tipo de lance? Possivelmente, devido ao acto de girar sobre si mesmo, por analogia com o movimento de pedalar que é necessário fazer para movimentar uma bicicleta.

Fazer um chapéu ao guarda-redes refere o lance em que um jogador remata e marca golo, fazendo passar a bola por cima do guarda-redes, de tal modo que este não tem possibilidades de lhe tocar com as mãos. Neste caso, parece haver algum tipo de analogia entre o facto de a bola passar por cima do guarda-redes e o chapéu ser um objecto de vestuário que é usado na cabeça, isto é, no extremo vertical do ser humano. Em ambos os casos se nota que, a estes modos de designar a realidade, subjazem necessidades de tipo expressivo, eventualmente associadas a uma função lúdica.

O calão é igualmente um modo de utilizar a língua estudado no âmbito da Sociolinguística, enquanto disciplina que analisa e descreve variação linguística 257 a nível diastrático. Do ponto de vista estritamente linguístico, não são reconhecidas diferenças entre a gíria e o calão; por outras palavras, não se pode distinguir a gíria do calão com base em critérios linguísticos. Ao calão, todavia, está associada uma conotação pejorativa, negativa. Essa conotação decorre de razões de natureza extralinguística, porquanto, ao uso do calão, se associa frequentemente falantes que revelam um baixo grau de escolarização, que desempenham profissões socialmente menos valorizadas, e que pertencem a grupos sociais materialmente carenciados.

O calão consiste, em grande parte, num conjunto de vocábulos utilizados no acto de praguejar (vocábulos esses que, regra geral, designamos por asneiras). Ora, os usos linguísticos podem também ser perspectivados como formas de comportamento social. Sendo o acto de praguejar um comportamento linguístico (logo, também social), ele é, em inúmeras situações, socialmente criticável. Em determinadas situações de comunicação (num casamento, num discurso de tomada de posse, etc.), ou em determinados locais (numa igreja, no plenário da Assembleia da República, etc.), ou perante determinadas pessoas (o juiz numa sala de audiências, o professor numa sala de aula, etc.), o acto de praguejar é considerado inaceitável. Servem estas reflexões para sublinhar que não são os vocábulos do calão, em si mesmos, negativos ou piores do que outros vocábulos da língua portuguesa; os actos (e, eventualmente, as pessoas) que associamos ao uso dessas palavras é que são socialmente desvalorizados.

As linguagens técnicas, as gírias e o calão evidenciam casos de variação diastrática. Dizemos, por isso, que são três tipos de sociolectos. Um sociolecto pode ser definido como a variedade linguística que é utilizada pelos membros de um grupo socioprofissional (isto é, pelos falantes de uma subcomunidade delimitada por factores de natureza social e profissional, no seio de uma comunidade linguística mais alargada).

Vimos que há diferentes tipos de variedades linguísticas susceptíveis de serem identificadas com base em critérios socioprofissionais: as linguagens técnicas, as gírias e o calão. Assim, estes três tipos de variedades diastráticas configuram três subtipos de sociolectos, como se sistematiza no quadro seguinte.

Médicos / Linguagens técnicas Informáticos / Advogados / Etc. / Estudantes / SOCIOLECTOS Gírias Jornalistas desportivos / Marinheiros / Etc. / Calão
Texto da figura
  • Médicos
  • Linguagens técnicas Informáticos
  • Advogados
  • Etc.
  • Estudantes
  • SOCIOLECTOS Gírias Jornalistas desportivos
  • Marinheiros
  • Etc.
  • Calão

Nesta secção e na secção anterior, reflectimos sobre variação linguística sincrónica motivada pela distribuição geográfica das populações que utilizam uma determinada língua (variação diatópica) e pelas actividades socioprofissionais dos falantes (variação diastrática). Vimos que os sujeitos falantes não só actualizam uma língua de modo diferente em função da região que habitam (ou de onde são originários), mas também que utilizam a língua de modo diverso em função das redes socioprofissionais em que estão inseridos.

Deste modo, os dois tipos de variação linguística sincrónica entrecruzam-se, sobrepõem-se: à variação que se deve a factores geográficos, acresce a variação decorrente de factores socioprofissionais. A coexistência de diferentes dialectos e de diferentes sociolectos numa mesma comunidade linguística (por exemplo, a que utiliza o português europeu para comunicar) potencia uma grande diversidade nos modos de actualizar uma língua como o português.

11.3. Variação diafásica

Um outro tipo de variação linguística sincrónica decorre de dois factores, de natureza situacional e individual: a situação de comunicação concreta em que um falante está inserido e o modo individualizado de cada falante utilizar a língua. Este tipo de variação manifesta-se, sobretudo, nos níveis lexical e sintáctico, na medida em que diz respeito quer às escolhas lexicais do falante, quer às construções sintácticas que ele usa de modo mais recorrente. Por vezes, todavia, também é susceptível de ser reconhecida a nível fonético, designadamente na articulação dos sons da língua. Em todos estes casos, estamos em presença de variação diafásica (ou individual ou situacional).

Indicaremos, a seguir, alguns exemplos que evidenciam fenómenos de variação diafásica. Uma situação de comunicação pode ser perspectivada com base num conjunto de factores que interferem com a produção verbal dos sujeitos falantes que nela estão inseridos. O grau de formalidade ou de informalidade da situação, o tema da conversa, o local onde ela decorre, a idade dos interlocutores, o seu estatuto social e o tipo de relacionamento que mantêm entre si (mais distante ou mais familiar) são exemplos de factores que condicionam o que dizemos.

Uma conversa entre amigos num café sobre futebol caracteriza-se por um grau de informalidade que contrasta com a formalidade inerente a um discurso do presidente da república sobre o estado da nação, na assembleia, perante os deputados e os membros do governo. O cuidado com a selecção das palavras e com a sua pronúncia, com a construção sintáctica e com a articulação dos conteúdos, que tipicamente se observa no discurso do político, opõe-se à atitude mais descontraída dos amigos na conversa informal sobre um tema do quotidiano. Uma palavra mal seleccionada, ou uma pronúncia menos correcta, ou uma construção sintáctica deficiente não constituem, geralmente, motivo de grande embaraço quando se está entre amigos numa situação de comunicação informal. O mesmo talvez já não se possa dizer se tal acontecer numa situação de elevado grau de formalidade e solenidade.

Deste modo, podemos opor, num continuum, os pólos correspondentes aos graus de (in)formalidade que caracterizam as situações de comunicação.

+ formal - formal

Num extremo, incluem-se as situações de comunicação de grande formalidade, frequentemente ritualizadas, em que os papéis sociais que os interlocutores desempenham são de natureza institucional (política, religiosa, empresarial, académica, etc.94), o que impõe, muitas vezes, comportamentos rígidos e com elevado grau de previsibilidade (incluindo o comportamento verbal). Estas situações decorrem, geralmente, em locais com considerável peso institucional, e os temas abordados na produção verbal dos sujeitos falantes são sérios e solenes.

No outro extremo, integram-se as situações de comunicação em que existe uma relação de grande familiaridade entre os sujeitos falantes (investidos de papéis sociais como pai, amigo, colega, namorado, irmão, etc.), e em que são abordados temas do quotidiano desprovidos de solenidade. Estas situações decorrem em locais onde não é requerida grande rigidez de comportamentos (em casa, na esplanada do café, na discoteca, etc.), caracterizando-se, portanto, pela descontracção e pela informalidade, quer no relacionamento entre os interlocutores, quer na sua produção verbal.

Entre os dois extremos, há um conjunto variável de graus de formalidade em que se integram inúmeras outras situações, mais próximas ou mais afastadas de cada um dos pólos. Por outras palavras, há uma escala contínua de valores entre os pólos [+ formal] e [- formal].

O grau de formalidade que caracteriza as situações de comunicação é, deste modo, responsável por uma grande variedade estilos. Um estilo (ou um registo de língua) consiste num modo de utilizar a língua que depende da situação de comunicação em que os falantes estão inseridos.

Numa situação informal, não é adequado, por exemplo, os falantes utilizarem formas de tratamento como vossa excelência, tal como numa situação formal não é adequado usar formas de tratamento como tu. Formas de saudação e de despedida como olá e chauzinho são comuns entre pessoas amigas ou conhecidas, mas manifestamente inadequadas para um primeiro-ministro usar numa comunicação ao país transmitida pela televisão. Numa conversa de amigos ou de colegas é aceitável que se diga, a propósito de alguém que faleceu, um enunciado como o Francisco esticou o pernil. Já numa missa de corpo presente, o uso de tal forma de expressão (esticar o pernil com o significado de “morrer, falecer”) seria particularmente infeliz e despropositado. Estes exemplos evidenciam casos de selecção lexical típica quer de um registo formal (vossa excelência, falecer), quer de um registo informal (tu, olá, chauzinho, esticar o pernil).

Um exemplo cómico do uso de expressões típicas do registo informal, numa situação em que um locutor pretendia impressionar o seu alocutário, servindo-se de um vocabulário rebuscado, é dado no seguinte excerto de A correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós.

«Gastei a noite preparando frases, cheias de profundidade e beleza, para lançar a Fradique Mendes. Tendiam todas à glorificação das “Lapidárias” [poema escrito por Fradique Mendes]. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado e repolido esta: “A forma de Vossa Excelência é um mármore divino com estremecimentos humanos!”

[…]

Pela escada, o poeta das “Lapidárias” aludiu ao tórrido calor de Agosto. E eu que nesse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa – deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

– Sim, está de escachar!

E ainda o torpe som não morrera, já uma aflição me lacerava, por esta chulice de esquina de tabacaria, assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista da “Lapidárias”, o homem que conversara com [Victor] Hugo à beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra 262 frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: - “é de rachar”!, “está de ananases”! “derrete os untos”!... Atravessei ali uma dessas angústias atrozes e grotescas que, aos vinte anos, quando se começa a vida e a literatura, vincam a alma – e jamais esquecem»95.

O narrador deste excerto não tem muita familiaridade com Fradique Mendes, e pretende projectar uma boa imagem de si mesmo, utilizando uma linguagem cuidada, rebuscada, quer a nível do vocabulário, quer a nível das combinatórias semânticas («mármore divino com estremecimentos humanos»). Acaba por ficar decepcionado consigo mesmo, porque diz algo acerca do calor num estilo muito pouco rebuscado, próprio de um registo informal. Pior ainda, para tentar emendar o que disse, apenas lhe ocorrem formas de expressão típicas do calão da época (finais do século XIX). Teme, por isso, que Fradique Mendes fique com má impressão acerca dele, apenas porque revela um uso pouco elegante e nada refinado da língua portuguesa. Por outras palavras, teme que o seu comportamento linguístico seja interpretado por Fradique Mendes como um reflexo fidedigno da sua personalidade ou, pelo menos, do seu normal comportamento social.

Este excerto apresenta, portanto, um caso de inadequação do registo de língua à situação de comunicação em que o falante se encontra (segundo o ponto de vista do próprio falante, que é o narrador da história): a utilização de palavras e expressões típicas de um registo informal, numa situação em que, pelo contrário, ele desejava servir-se de um vocabulário que revelasse elevação (também na perspectiva do narrador).

«[A variação diafásica] está relacionada com estes factores pragmáticos e discursivos e […] implica o conhecimento por parte do falante de um código socialmente estabelecido para cada situação»96.

Ora, o narrador deste excerto tem consciência de que não cumpriu uma regra de comportamento social importante: em termos de registo utilizado, não adequou o que disse à situação de comunicação em que estava inserido, nomeadamente quanto ao estatuto social do seu interlocutor que, na perspectiva do narrador, exigiria um uso mais rebuscado e burilado da língua.

Porque o comportamento linguístico é uma forma de comportamento social, os sujeitos falantes tentam adequar as suas práticas discursivas à situação de comunicação em que, a cada momento, estão inseridos. E fazem-no, por exemplo, seleccionando vocabulário admissível para cada situação, ajustando o tom e o volume de voz, construindo as suas frases com uma sintaxe mais ou menos rebuscada, etc. Cada falante altera o seu registo consoante a situação de comunicação em que se encontra, procurando adequá-lo a essa situação.

É também no âmbito da variação diafásica que se integram as modalidades escrita e oral. Tradicionalmente, os registos escrito e oral são contrastados tendo em conta as seguintes propriedades sistematizadas no quadro que a seguir apresentamos.

Registo escrito Registo oral / Modo de produção: gráfico Modo de produção: sonoro (vocal) / Modo de recepção: visual Modo de recepção: auditivo / (táctil, no caso dos invisuais) / Modo de comunicação: distante e Modo de comunicação: próximo e / diferida instantâneo / Sintaxe elaborada Sintaxe pouco estruturada / Ausência de repetições Ocorrência de repetições (bordões / linguísticos) / Pontuação como substituto (não tão Utilização de meios paralinguísticos / rico) dos meios paralinguísticos97 (gestos, entoação, expressões faciais, / etc.) / Estilo mais reflectido Estilo menos reflectido / ↓ ↓ / Estilo mais cuidado Estilo menos cuidado
Texto da figura
  • Registo escrito Registo oral
  • Modo de produção: gráfico Modo de produção: sonoro (vocal)
  • Modo de recepção: visual Modo de recepção: auditivo
  • (táctil, no caso dos invisuais)
  • Modo de comunicação: distante e Modo de comunicação: próximo e
  • diferida instantâneo
  • Sintaxe elaborada Sintaxe pouco estruturada
  • Ausência de repetições Ocorrência de repetições (bordões
  • linguísticos)
  • Pontuação como substituto (não tão Utilização de meios paralinguísticos
  • rico) dos meios paralinguísticos97 (gestos, entoação, expressões faciais,
  • etc.)
  • Estilo mais reflectido Estilo menos reflectido
  • ↓ ↓
  • Estilo mais cuidado Estilo menos cuidado

Com o advento de novas tecnologias, algumas destas oposições já não são tão pertinentes. Por exemplo, o telefone possibilita a comunicação oral instantânea entre dois falantes distanciados no espaço. Também as gravações (em registo digital ou analógico) propiciam a comunicação oral diferida no tempo. Além disso, os chats na internet permitem que a comunicação no registo escrito se desenvolva de modo (quase) síncrono (ou seja, praticamente em tempo real, instantaneamente).

O registo escrito é, geralmente, mais cuidado do que o registo oral, porque é tendencialmente mais reflectido, o que se traduz numa selecção mais criteriosa dos vocábulos, numa sintaxe mais rebuscada, na ausência de repetições e na articulação mais evidente e adequada entre os conteúdos comunicados.

Enquanto sujeitos falantes, adequamos e variamos os nossos modos de usar a língua em função das situações de comunicação em que estamos inseridos. Deste modo, utilizamos diferentes registos ou estilos, numa tentativa de adaptar o nosso comportamento linguístico à situação de comunicação. Exemplos de registos que contrastam são os seguintes: escrito e oral, formal e informal, polido e não polido, improvisado e preparado, pessoal e impessoal.

Além dos condicionalismos que advêm da situação de comunicação em que os interlocutores se inserem, observa-se igualmente variação diafásica porque cada sujeito falante utiliza preferencialmente certas palavras, expressões, construções sintácticas, pronúncias e entoações.

O uso recorrente e sistemático de certas palavras ou expressões constitui um dos casos mais comuns para individualizar a produção verbal de um sujeito falante. Todos conhecemos pessoas que, nas suas práticas discursivas, repetem insistentemente palavras e expressões como portanto, tás a ver?, pá, é assim, a questão que se coloca é…, na realidade, efectivamente, pronto, etc.

Aliás, de modo mais ou menos consciente e com ocorrências mais ou menos frequentes, todos nós utilizamos mais umas palavras do que outras, todos nós usamos mais umas construções sintácticas do que outras. Em certos sujeitos falantes, todavia, tais repetições ocorrem de modo continuado, funcionando como muletas linguísticas, nas quais se apoia o discurso produzido.

Dizer que cada falante dispõe de um reportório próprio de palavras, de expressões, de estruturas sintácticas, de entoações e de pronúncias que lhe são inerentes, equivale a dizer que cada indivíduo possui o seu próprio idiolecto. Assim, um idiolecto define-se como o modo de usar a língua inerente a cada sujeito falante.

Como se conciliam, sem se confundirem, os conceitos de registo de língua e de idiolecto? O idiolecto consiste num conjunto de usos linguísticos que são típicos de um determinado sujeito falante. O registo de língua resulta da adaptação dos usos linguísticos de um sujeito falante a uma situação de comunicação concreta. Cada falante de português tem o seu próprio idiolecto, que não é exactamente igual a nenhum outro, porquanto integra um conjunto único de palavras e de expressões, de sons e de construções sintácticas que ele usa. Na verdade, as palavras que cada um de nós utiliza são comuns a 266 inúmeros outros falantes de português, caso contrário dificilmente nos entenderíamos usando esta língua; mas o mais provável é que nenhum outro falante use precisamente as mesmas palavras que eu uso (isto é, todas as palavras que eu uso e só essas).

Do idiolecto de cada falante fazem parte palavras e expressões que são sistematicamente associadas a um registo mais informal, e outras que são geralmente apropriadas a um registo mais formal, e outras ainda que são mais frequentemente utilizadas em registos intermédios quanto ao grau de formalidade que caracteriza a situação de comunicação (a título de exemplo, pense-se em formas de tratamento como tu, vossa excelência, você, o senhor/a senhora, dona, etc.)98. Com base no seu próprio idiolecto (ou seja, a partir do conjunto de unidades, assim como de regras de combinação dessas unidades, que um falante tem disponíveis para usar), cada locutor selecciona as palavras, as construções sintácticas, etc., que julga serem mais convenientes para a situação de comunicação em que está inserido; isto é, cada locutor adequa o seu registo à situação presente99.

Compreende-se, portanto, a importância de que se reveste a aquisição, por parte de cada falante (sobretudo, em idade escolar), de formas de expressão adequadas a cada registo. O esforço de adaptação do discurso às situações depende, pelo menos em parte, do conjunto de unidades associáveis a diferentes registos que o sujeito falante conhece. Para que um falante adquira essa capacidade de adequar devidamente o seu discurso à situação de comunicação, é importante contactar, desde a infância, com diferentes tipos de situações nas quais é (socialmente) desejável empregar palavras e expressões distintas. Se um determinado falante se dirige ao juiz no tribunal ou ao director da empresa onde trabalha usando a mesma forma de tratamento que utiliza para se dirigir a um amigo (tu, por exemplo), é provável que seja “socialmente penalizado”, sendo o seu comportamento linguístico apontado como um exemplo a não seguir.

É pertinente, nesta altura, retomar e estabelecer uma ponte com o conceito de parole (em português, fala), proposto por Saussure, em oposição ao conceito de langue (língua). O esforço de adequação do discurso à situação de comunicação que é desenvolvido pelos sujeitos falantes é um fenómeno do âmbito da fala, ou seja, diz respeito à actualização individual do sistema abstracto que é a língua.

Por outro lado, deve ser sublinhado que esta capacidade de o locutor adequar o seu discurso em função da situação de comunicação em que se encontra evidencia o conceito de competência comunicativa que caracteriza os sujeitos falantes. Retomemos, agora, este conceito que foi introduzido no capítulo sobre Pragmática.

A competência comunicativa traduz-se na capacidade de os locutores adaptarem a sua produção verbal (o que dizem ou escrevem) tendo em conta, entre outros factores, os seus interlocutores (idade, sexo, papéis sociais, grau de formalidade da relação que mantêm, etc.), o tema abordado, o local e o momento em que se localiza a situação de comunicação. O conceito de competência comunicativa foi proposto por Dell Hymes e contrasta com o de competência linguística.

Noam Chomsky, seguramente o mais influente teorizador da Linguística na segunda metade do século XX, opôs competence (competência) a performance (desempenho), numa dicotomia idêntica à oposição língua-fala proposta por Saussure. Para Chomsky, competência designa o conhecimento linguístico, interiorizado na mente, que cada sujeito falante possui; o desempenho consiste na actividade de produção verbal de cada falante.

A competência a que Chomsky se refere diz respeito unicamente ao conhecimento de tipo linguístico que os sujeitos falantes adquirem: o conhecimento dos sons utilizados em português, das regras sintácticas, das palavras e expressões próprias da nossa língua, etc. Trata-se, portanto, de uma competência linguistica.

A competência comunicativa a que Hymes se refere é mais abrangente, pois inclui, não só os conhecimentos linguísticos que um indivíduo tem de possuir para comunicar verbalmente (isto é, a competência linguística de Chomsky), mas também outros conhecimentos, de natureza social, cultural e 268 pragmática, que possibilitam que um falante adapte e adeque o que diz em função dos seus interlocutores, do momento e do local em que está, etc.

Para concluir, ao longo desta secção, vimos que o modo de um sujeito falante utilizar a língua varia tendo em consideração quer a situação de comunicação em que se encontra, quer as características inerentes ao seu modo, sempre individual e único, de usar a língua. Variação diafásica é o tipo de variação linguística que decorre destes dois factores.

Actividades

Atente na seguinte citação.

«Cada falante nativo de uma língua normalmente domina diferentes / estilos de linguagem (por vezes chamados registos) que variam de acordo com / as circunstâncias, o meio usado (fala ou escrita) e o tópico em discussão. A / mesma pessoa pode proferir uma das três frases seguintes, dependendo das / circunstâncias: / - Agradecia que fizesse menos barulho. / - Está calado, por favor. / - Cala-te! / Neste exemplo, os enunciados variam de um estilo formal até um estilo / informal.» / Jean Aitchison, Introdução aos Estudos Linguísticos (trad.), / Lisboa, Europa-América, 1993, p. 123
Texto da figura
  • «Cada falante nativo de uma língua normalmente domina diferentes
  • estilos de linguagem (por vezes chamados registos) que variam de acordo com
  • as circunstâncias, o meio usado (fala ou escrita) e o tópico em discussão. A
  • mesma pessoa pode proferir uma das três frases seguintes, dependendo das
  • circunstâncias:
  • - Agradecia que fizesse menos barulho.
  • - Está calado, por favor.
  • - Cala-te!
  • Neste exemplo, os enunciados variam de um estilo formal até um estilo
  • informal.»
  • Jean Aitchison, Introdução aos Estudos Linguísticos (trad.),
  • Lisboa, Europa-América, 1993, p. 123

Elabore um comentário ao texto citado no qual caracterize brevemente os diferentes tipos registo nele indicados (deverá definir o conceito de registo).

Referências bibliográficas

a) Leitura obrigatória

FERREIRA, Manuela Barros, et alii (1996), “Variação linguística: perspectiva dialectológica”, in FARIA, Isabel Hub, et alii (Org.), Introdução à linguística geral e portuguesa, Lisboa, Caminho, pp. 479-484, 491-502.

b) Leitura complementar

MATEUS, Maria Helena Mira, et alii (2003), Gramática da língua portuguesa (5.ª ed. revista e aumentada), Lisboa, Caminho, cap. 3 (pp. 39-51).

c) Obras citadas ou referidas

CASTRO, Ivo (2006), Introdução à história do português (2.ª edição revista e muito ampliada), Lisboa, Edições Colibri.

CUNHA, Celso, e Lindley CINTRA (1988), Nova gramática do português contemporâneo (5.ª ed.), Lisboa, Edições João Sá da Costa.

DUARTE, Inês (2000), Língua portuguesa. Instrumentos de análise, Lisboa, Universidade Aberta.

MATEUS, Maria Helena Mira, e Alina VILLALVA (2006), O essencial sobre linguística (Colecção O essencial sobre língua portuguesa), Lisboa, Caminho.

PERES, João Andrade, e Telmo MÓIA (1995), Áreas críticas da língua portuguesa, Lisboa, Caminho.

Notas

  1. As vogais em posição átona constituem diferenças fonéticas particularmente relevantes entre as normas do PE e do PB estão. Compare-se a articulação típica dos significantes das palavras Mariana, menino, pegar e morar nas normas do PE e do PB (atente-se, sobretudo, nos sons vocálicos em posição átona, representados pelas letras sublinhadas).
    ↩
  2. Para uma explicitação sistematizada destas e de outras diferenças fonéticas entre as normas do português europeu e do português do Brasil, cf. Mateus et alii (2003: 45-47).
    ↩
  3. Estes exemplos baseiam-se em traços diferenciadores apontados por Lindley Cintra para distinguir os dialectos galego-portugueses. A sistematização das suas conclusões encontra-se em Cunha e Cintra (1988: 9-19).
    ↩
  4. Os mapas dialectais propostos por Lindley Cintra - reproduzidos em Cunha e Cintra (1988: 12-17) e em Ferreira et alii (1996: 501-502) - estabelecem, naturalmente, uma delimitação mais rigorosa do que aquela que estamos a propor quando indicamos, de modo vago, as regiões norte, centro e sul de Portugal.
    ↩
  5. Cf. Cunha e Cintra (1988: 279).
    ↩
  6. Alguns exemplos destes papéis institucionais são os seguintes: primeiro-ministro, presidente da assembleia da república, cardeal, bispo, director, reitor e professor catedrático.
    ↩
  7. Eça de Queirós, A correspondência de Fradique Mendes, Lisboa, Livros do Brasil, pp. 21, 26-27.
    ↩
  8. Ferreira et alii (1996: 481).
    ↩
  9. Designamos por meios de comunicação paralinguísticos os gestos, as expressões faciais, a entoação, o tom e o volume de voz, ou seja, aquilo que acompanha e reforça os conteúdos veiculados na comunicação linguística.
  10. «Cada ser humano, [...] no conjunto de todos os seus actos de fala, tem hábitos discursivos próprios, usa preferencialmente determinadas construções gramaticais, determinadas palavras que, de alguma forma, o individualizam. Cada falante tem a sua maneira própria de usar a língua», Ferreira et alii (1996: 481).
    ↩
  11. «Consoante a situação mais ou menos formal em que se encontra ou o tipo de situação discursiva (oralidade, escrita…), cada falante pode usar diversos estilos ou registos linguísticos», Ferreira et alii (1996: 481).
    ↩
271

Propostas de resolução das actividades

Capítulo 1 – Linguística e Semiótica

1.

a) Verdadeira.

b) Falsa. Há línguas naturais que caíram em desuso e que, por isso, são hoje consideradas línguas mortas, pois nenhum falante as tem como língua materna (por exemplo, o latim).

c) Verdadeira.

d) Verdadeira.

e) Falsa. As palavras de uma língua natural são sinais artificiais.

f) Verdadeira.

g) Falsa. A cruz verde que assinala a existência de uma farmácia constitui um signo, uma vez que não há qualquer relação de analogia entre esse sinal artificial e o que ele designa.

h) Falsa. Só os indícios são sinais naturais; os símbolos são sinais artificiais. i) Verdadeira.

j) Verdadeira.

k) Falsa. Só os sinais artificiais são sinais convencionais.

l) Verdadeira.

2.

a) O sinal de proibição de fumar é composto por dois elementos: um signo e um símbolo. O círculo vermelho com um risco na diagonal, elemento que tem o significado de “proibição”, constitui um signo, pois não existe analogia entre este elemento do sinal e o que ele representa. A imagem que está desenhada dentro do círculo vermelho e que representa um cigarro e o fumo que expele constitui um símbolo, uma vez que essa imagem se assemelha ao objecto que pretende representar: um cigarro aceso.

b) O sinal que informa sobre a existência de um lugar de estacionamento apropriado para pessoas portadoras de deficiência constitui um símbolo, na medida em que é composto por uma imagem que tem semelhanças com a da entidade que representa: uma pessoa com deficiência física que se desloca numa cadeira de rodas.

Capítulo 2 – Saussure e a emergência da Linguística como disciplina científica

1.

a) Esta citação reflecte a perspectiva diacrónica de análise linguística, uma vez que enumera algumas palavras que, ao longo de um dado período de tempo, foram importadas de outras línguas e incorporadas no português. Na medida em que assinala alterações que se observaram na língua portuguesa (a nível do enriquecimento do léxico), a citação tem subjacente uma abordagem diacrónica de análise da língua.

b) A citação em causa revela uma abordagem sincrónica na análise linguística que propõe. Trata-se de uma reflexão sobre a construção dos tempos compostos em português numa dada sincronia: o momento actual. Diz respeito, portanto, ao funcionamento da nossa língua num dado período, sem ter em consideração as alterações que ela sofreu ao longo dos tempos.

c) Esta citação também reflecte a perspectiva sincrónica de análise linguística. Os autores indicam alguns contextos de uso de duas vogais em português na sincronia actual, sem tomar em consideração eventuais alterações que se deram antes deste estado de língua. Por outras palavras, os autores estão interessados em descrever o funcionamento do português numa dada sincronia, e não em enumerar alterações fonéticas que o português sofreu ao longo dos tempos.

d) A esta citação subjaz uma perspectiva diacrónica de análise linguística, porque o autor explicita a evolução fonética que o significante de uma dada palavra sofreu ao longo dos tempos.

2. O signo linguístico tem carácter biface, ou seja, é composto por um significante (a sua face fisicamente manifesta) e por um significado (a sua face 274 conceptual). O significante remete para o significado que, por sua vez, aponta para um dado referente (entidade do domínio da realidade extralinguística).

O significante do signo linguístico possui carácter sonoro, mais especificamente carácter vocal, uma vez que é constituído por sons produzidos pelo aparelho fonador dos seres humanos.

Quanto à relação entre significante e significado, ela é arbitrária, imotivada, na medida em que não se observa qualquer semelhança entre uma dada sequência de sons (por exemplo, o significante da palavra mãe) e o seu significado (“mulher que deu à luz e que cria ou criou pelo menos um filho”). Esta arbitrariedade é evidenciada pelo facto de, noutras línguas naturais, o mesmo significado estar associado a significantes diferentes (atente-se no significante das palavras madre, mère e mother, por exemplo).

Em suma, o signo linguístico tem carácter vocal, carácter biface e carácter arbitrário.

3. Abrindo um paradigma de consoantes com base na consoante da palavra cão, é possível listar as seguintes palavras do português: chão, Dão, Fão, mão, não, pão, são, tão, vão. Os significantes destas palavras distinguem-se uns dos outros devido à substituição de um único fone na mesma posição relativa: a consoante inicial. A palavra chão contém mais uma letra do que as restantes, mas o grupo consonântico ⟨ch⟩ representa na grafia um único fone.

4.

a)

Comprei dois livros / postais / lenços / porta-chaves / lápis / candeeiros
Texto da figura
  • Comprei dois livros
  • postais
  • lenços
  • porta-chaves
  • lápis
  • candeeiros

O paradigma que foi obtido é formado pelas seguintes unidades: livros, postais, lenços, porta-chaves, lápis, candeeiros.

b) Trata-se de um paradigma aberto, uma vez que outras palavras poderiam ocorrer naquela posição relativa sem provocar agramaticalidade e formando frases aceitáveis. Eis outros exemplos de palavras que poderiam ocorrer naquela frase na mesma posição: robalos, computadores, pneus, guarda-chuvas, etc.

Capítulo 3 – Chomsky e a gramática formal e sintagmática

1.

a) O enunciado a maior parte das pessoas vieram a pé é agramatical, uma vez que a forma verbal não concorda em número com o sujeito. De facto trata-se de um sujeito de 3.ª pessoa do singular (a maior parte das pessoas), com o qual se combinou uma forma verbal de 3.ª pessoa do plural (vieram). Para haver concordância, deveria ocorrer a forma verbal de 3.ª pessoa do singular veio.

Sendo um enunciado agramatical, pode considerar-se também um enunciado inaceitável. Todavia, entre sujeitos falantes que geralmente não estabelecem correctamente a concordância entre sujeito e predicado em contextos como o da frase em questão, este é um enunciado perfeitamente aceitável.

b) O enunciado tu és um gajo baril é gramatical, uma vez que respeita as regras de concatenação das unidades na frase. Entre sujeitos falantes que mantêm uma relação de proximidade e que incluem no seu vocabulário palavras da gíria estudantil-juvenil – como baril (por exemplo, entre amigos adolescentes) – é também um enunciado aceitável.

Todavia, numa situação caracterizada por um elevado grau de formalidade (por exemplo, numa recepção oferecida pelo presidente da república) e entre sujeitos falantes cuja relação é menos próxima, mais formal e que não usam regularmente palavras que associamos à gíria estudantil-juvenil, este é um enunciado inaceitável.

2. O conceito de gramaticalidade está associado ao facto de, numa frase, os seus elementos constituintes (palavras e sintagmas) se combinarem de acordo com as regras inerentes à língua em questão. Se não forem respeitadas essas regras, o enunciado é agramatical.

O conceito de aceitabilidade decorre de outro tipo de critérios, não sintácticos mas de natureza semântico-pragmática. O facto de um enunciado ser considerado aceitável ou inaceitável depende da situação em que é produzido, tendo em conta quem fala e com quem fala (e respectivos papéis sociais: médico – paciente, empregado de balcão – cliente, mãe – filha, professor – estudante, amigos, etc.), onde fala (no café, no teatro, na sala de aula, num escritório, etc.), acerca de que tema (literatura, futebol, etc.).

Mas pode estar dependente, também, das combinatórias semânticas que se estabelecem no interior do enunciado. Imagens ou comparações incluídas em enunciados como um elefante saltitar levemente de nenúfar em nenúfar ou «são como um cristal, / as palavras»100 tornam-se aceitáveis em função do género textual em que se integram – anedota e texto literário, respectivamente.

Capítulo 4 – Fonética

1.

a) profissão: [ pɾufi´sɐ̃w ] (ou [ pɾufisɐ̃́w ] )

b) requintado: [ Rɨkĩ’tadu ] (ou [ Rɨkĩtádu ] )

c) antigamente: [ ɐ̃tigɐ´mẽtɨ ] (ou [ ɐ̃tigɐmẽ́tɨ ] )

d) ginásio: [ ʒi’naziu ] (ou [ ʒináziu ] )

e) inflexível: [ ĩflɛ’ksivɛl ] (ou [ ĩflɛksívɛl ] )

f) jasmim: [ ʒɐʒ’mĩ ] (ou [ ʒɐʒmĩ́ ] )

2.

a) importante - vogal anterior fechada nasal

b) chegar - consoante fricativa palatal surda

c) dente - consoante oclusiva apicodental sonora

d) entrada - vogal anterior semifechada nasal

e) cinco - consoante fricativa alveolar surda

f) alto - vogal central aberta

Capítulo 5 – Fonologia e Prosódia

1. Os pares de palavras que constituem pares mínimos são os seguintes: amo ano, casar/caçar, hera/ela, ato/alho e mão/mãe. Em todos estes casos se verifica que, a nível fónico, as palavras se distinguem apenas num único fone localizado no mesmo ponto, e que essa diferença fónica comporta uma diferença ao nível do significado. O facto de, em certas palavras, a uma letra não corresponder qualquer som (como em hera) ou de duas letras representarem um único som (como em alho) constitui uma mera questão ortográfica, o que é irrelevante para o conceito de par mínimo.

Por fim, as palavras acento e assento não constituem um par mínimo já que são palavras homófonas: são exactamente iguais em termos fónicos, diferindo na grafia e, naturalmente, no significado.

2. Os seguintes pares de palavras constituem três pares mínimos: livro/livre, mala/mapa e cama/cana.

O par livro/livre permite identificar a oposição entre o fonema vocálico posterior fechado e o fonema vocálico central semifechado: /u/ ~ /ɨ/.

O par mala/mapa permite identificar a oposição entre o fonema consonântico lateral apicoalveolar e o fonema consonântico oclusivo bilabial surdo: /l/ ~ /p/. Por fim, o par cama/cana permite a identificação do fonema consonântico nasal bilabial e do fonema consonântico nasal apicoalveolar: /m/ ~ /n/.

Capítulo 6 – Morfologia

1.

a)

# mãe # # don – o # # honest – o #

# mãe – s # # don – a – s # # des – onest – a #

b) Palavras constituídas por

– um morfema: mãe

– dois morfemas: mães, dono, honesto

– mais do que dois morfemas: donas, desonesta

2.

a) Na formação da palavra enriquecer, verificou-se o processo de derivação por circunfixação (ou derivação parassintética). Agregou-se simultânea e obrigatoriamente um prefixo (en-) e os sufixos (-ecer)101 ao radical da palavra primitiva (ric-, grafado riqu- na palavra derivada).

b) Babá formou-se pelo processo de reduplicação, processo que consiste na repetição de parte da palavra primitiva, nomeadamente na repetição dos dois primeiros sons dessa palavra (Bárbara).

c) AAC é uma sigla (formou-se, portanto, pelo processo de siglação), uma vez que se juntaram as iniciais das palavras Associação Académica de Coimbra (preposição de excluída) e essas iniciais soletram-se (no que se distingue a sigla do acrónimo, pois este lê-se silabicamente).

Capítulo 7 – Sintaxe

1. Os dois sentidos da frase Gosto de conversar com homens e mulheres inteligentes são os seguintes:

– “Gosto de conversar com homens (inteligentes ou não) e com mulheres (desde que sejam inteligentes)”;

– “Gosto de conversar com homens e mulheres (desde que, em ambos os casos, sejam pessoas inteligentes)”.

2. a)

F / SN SV / Det N V SN SP / Det N SP Prep SN / Prep SN Det N / N / A Catarina deu uma caixa de bombons a o irmão
Texto da figura
  • F
  • SN SV
  • Det N V SN SP
  • Det N SP Prep SN
  • Prep SN Det N
  • N
  • A Catarina deu uma caixa de bombons a o irmão

2. b) O sujeito desta frase é a Catarina; o complemento directo é uma caixa de bombons e o complemento indirecto é ao irmão.

2. c) O sujeito da frase é a Catarina porque é o SN constituinte imediato de frase, ocorre em posição pré-verbal (à esquerda do verbo), é o controlador da concordância verbal (deu concorda em número e em pessoa com o sujeito), é substituível pela forma nominativa do pronome pessoal de 3.ª pessoa do singular (Ela deu uma caixa de bombons ao irmão), na voz passiva é 282 introduzido pela preposição por (Uma caixa de bombons foi dada pela Catarina ao irmão) e, por fim, constitui a resposta à pergunta quem + SV (Quem deu uma caixa de bombons ao irmão?).

O complemento directo é uma caixa de bombons já que é o SN constituinte imediato de SV, ocorre à direita do verbo, é substituível pela forma acusativa do pronome pessoal de 3.ª pessoa do singular (A Catarina deu-a ao irmão), na voz passiva desempenha a função de sujeito (Uma caixa de bombons foi dada pela Catarina ao irmão) e constitui a resposta à pergunta o que deu a Catarina ao irmão?

Por fim, o complemento indirecto é o SP ao irmão, já que é introduzido pela preposição a, trata-se de um SP constituinte imediato de SV, pode ser substituído pela forma dativa do pronome pessoal de 3.ª pessoa (A Catarina deu-lhe uma caixa de bombons) e responde à pergunta a quem é que a Catarina deu uma caixa de bombons?

Capítulo 8 – Semântica

1. Análise componencial do significado das palavras bicicleta, mota e automóvel102

bicicleta mota automóvel / [+ meio de transporte] [+ meio de transporte] [+ meio de transporte] / [– com 4 rodas] [– com 4 rodas] [+ com 4 rodas] / [– com motor] [+ com motor] [+ com motor] / [+ para 1 ou 2 pessoas] [+ para 1 ou 2 pessoas] [– para 1 ou 2 pessoas]
Texto da figura
  • bicicleta mota automóvel
  • [+ meio de transporte] [+ meio de transporte] [+ meio de transporte]
  • [– com 4 rodas] [– com 4 rodas] [+ com 4 rodas]
  • [– com motor] [+ com motor] [+ com motor]
  • [+ para 1 ou 2 pessoas] [+ para 1 ou 2 pessoas] [– para 1 ou 2 pessoas]

2. Relações semânticas existentes entre pares de palavras

a) Existe uma relação de antonímia direccional entre subir e descer, na medida em que estas palavras contrastam no seu significado, designando movimentos que se dão em sentidos opostos.

b) Frigorífico é um hipónimo de electrodoméstico. Trata-se, por isso, de uma relação de hiponímia (ou hiperonímia), ou seja, uma relação de inclusão entre os significados das duas palavras: o significado (mais geral) de electrodoméstico está incluído no significado (mais restrito) de frigorífico. Dito de outro modo, um frigorífico é um electrodoméstico, mas o inverso não é verdade, uma vez que há inúmeros tipos de electrodomésticos (fogão, micro-ondas, torradeira, etc.).

c) Entre as palavras livro e capa existe uma relação semântica de holonímia (ou meronímia ou ainda de parte/todo), já que uma capa constitui uma parte do todo que é um livro.

d) Matar e assassinar são palavras sinónimas, isto é, são palavras da mesma categoria sintáctica (verbos) com significados equivalentes.

e) Observa-se uma relação de antonímia graduável entre as palavras leve e pesado. Da afirmação de um dos termos resulta a negação do outro (A caixa é leve implica que a caixa não é pesada), mas da negação de um dos termos não resulta a afirmação do outro (A caixa não é leve não implica que a caixa seja pesada: pode ter um peso intermédio). Além disso, estas palavras admitem comparações (Esta cómoda é mais leve do que a do teu quarto). Por fim, é possível afirmar que A mesa não é leve nem pesada (pode ter um peso intermédio entre os conceitos referidos por leve e pesada).

Capítulo 9 – Pragmática

1.1. Identificação de deícticos

a) Os deícticos presentes neste enunciado são os seguintes: tu e gostas.

b) Os deícticos presentes neste enunciado são os seguintes: aqui e adoram.

1.2. Classificação de deícticos

O advérbio aqui é um deíctico espacial, uma vez que o local que designa só pode ser conhecido se soubermos onde se encontra o falante no momento em que o enuncia.

O pronome tu é um deíctico pessoal, pois refere uma pessoa (o interlocutor do falante) e só poderemos saber de quem se trata se tivermos conhecimento das coordenadas da enunciação (concretamente, se soubermos com quem o falante está a falar no momento em que o enuncia).

Nos dois enunciados, as formas verbais flexionadas em tempo e em pessoa (gostas e adoram) constituem também deícticos. Gostas é um deíctico temporal, pois refere-se a um tempo que é identificado em função do momento da enunciação (esta forma verbal remete para um tempo concomitante ao tempo da enunciação), e um deíctico pessoal, uma vez que remete para uma das pessoas que participam na enunciação (neste caso, a 2.ª pessoa). A forma verbal adoram remete para um tempo concomitante ao tempo da enunciação e para alguém que não participa naquela situação de enunciação (3.ª pessoa do plural).

2. Indicação e definição de actos ilocutórios

a) Este enunciado configura um acto ilocutório expressivo, uma vez que o locutor expressa o seu estado de espírito (congratula o seu interlocutor) em relação a uma proposição contida no seu enunciado (a classificação obtida pelo interlocutor num dado exame).

b) Num acto ilocutório comissivo, o locutor compromete-se a fazer algo num tempo futuro relativamente ao momento da enunciação. É o que se verifica neste enunciado, no qual o sujeito falante garante ao seu interlocutor que devolverá naquele mesmo dia os livros que este lhe emprestara.

c) Neste enunciado apenas se constata um determinado estado de coisas (um dado país ter aderido a uma organização de estados no ano de 1986), pelo que se trata de um acto ilocutório representativo.

d) Estamos em presença de um acto ilocutório declarativo, uma vez que aquele enunciado traz à existência um novo estado de coisas: a partir do momento em que é proferido, o interlocutor não exerce mais as funções que exercia, isto é, perdeu o seu emprego. Para que o enunciado concretize este novo estado de coisas no mundo real, é necessário que o locutor tenha autoridade para proceder ao despedimento do interlocutor.

e) Trata-se de um acto ilocutório directivo, na medida em que o locutor pretende que o seu interlocutor faça algo, neste caso, que lhe traga um café.

Capítulo 10 – Mudança linguística

1.

a) Esta citação reflecte a perspectiva diacrónica de análise linguística, uma vez que enumera algumas palavras que, ao longo de um dado período de tempo, foram importadas de outras línguas e incorporadas no português. Evidencia, portanto, casos de mudança linguística na nossa língua, sendo assinaladas alterações que se deram a nível lexical.

b) A esta citação subjaz uma perspectiva diacrónica de análise linguística, porque o autor explicita a evolução fonética que o significante de uma dada palavra sofreu ao longo dos tempos. O exemplo apresentado insere-se, por isso, no nível de análise fonético.

2.

Mudam-se os tempos, muda-se o ser. Com o passar do tempo, o Homem vai alterando os seus comportamentos e, como forma de comportamento que é, o seu modo de falar. A mudança é inerente ao ser humano, às sociedades que ele constitui; como tal, é também inerente às línguas naturais que os indivíduos utilizam para comunicar.

Há palavras que caem em desuso: no tempo de Gil Vicente, usava-se a palavra samicas com o significado que actualmente atribuímos a talvez.

Há outras cuja face significante se altera: nas peças de Gil Vicente, encontramos repetidamente a palavra giolhos, o significante desta palavra evoluiu para joelhos103. Noutras ainda, é a face significada que sofre modificações: a palavra ministru- significava em latim “o que serve, o que ajuda”; hoje, ministro designa alguém que desempenha uma elevada função do estado: “membro de governo que dirige um ministério”.

E, evidentemente, há novas palavras criadas para designar objectos ou conceitos que não existiam nos períodos anteriores aos nossos dias, como televisão e computador, palavras criadas ao longo do século XX.

De facto, também a propósito das línguas naturais se pode dizer que todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades.

Capítulo 11 – Variação linguística

É verdade que cada indivíduo tende a falar de modo diferente em função da situação de comunicação em que está inserido. Quer dizer, cada sujeito falante adapta e adequa as palavras e as construções sintácticas que utiliza, por exemplo, ao seu interlocutor (tendo em consideração os papéis sociais de ambos), ao local e ao tempo em que decorre a interacção verbal, ao tema da conversa, etc.

Os três exemplos apresentados na citação revelam graus variáveis de formalidade: é mais formal o primeiro (Agradecia que fizesse menos barulho) e mais informal o último (Cala-te!). Por outras palavras, o terceiro exemplo evidencia que o locutor mantém uma relação mais próxima com o interlocutor e que, em termos de papéis sociais que assumem na situação em que estão, é adequado o locutor dar uma ordem ao seu interlocutor. Já no primeiro exemplo, a relação entre os dois sujeitos falantes não é tão familiar, pelo que o locutor faz um pedido de forma polida. O tratamento por você no primeiro caso e por tu no segundo revelam isso mesmo.

Os três enunciados constituem, por isso, exemplos de diferentes tipos de registo. Um registo de língua decorre da adaptação e adequação da linguagem utilizada pelo locutor à situação de comunicação em que se insere. Essa adaptação reflecte-se sobretudo nos níveis lexical (escolha das palavras utilizadas), sintáctico (construção das frases) e fonético (em particular, no que diz respeito à dicção, à entoação e ao volume da voz).

Um registo formal caracteriza-se, então, por evidenciar um maior cuidado na selecção lexical e uma maior elaboração na construção das frases do que um enunciado que se insere num registo informal, como ficou demonstrado pelos enunciados apresentados na citação.

Notas

  1. Eugénio de Andrade, “As palavras”, Antologia breve (7.ª ed.), Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1999, p. 35.
    ↩
  2. Na verdade, -ecer pode ser decomposto em três sufixos distintos: o morfema derivacional -ec- e dois morfemas flexionais: a vogal temática -e- e o morfema de infinitivo -r.
    ↩
  3. Não é, evidentemente, a única possível, uma vez que outros traços semânticos poderiam ser aceites.
    ↩
  4. O que importa realçar neste exemplo não é o facto de a grafia registar com ⟨g⟩ ou ⟨j⟩ o som consonântico inicial (esse som não se alterou), mas o facto de ter havido uma alteração na ordem das vogais e a modificação de uma dessa vogais.
    ↩
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Leituras

Além do manual, esta unidade inclui três leituras, apresentadas por ordem cronológica de publicação.

Leitura 1 · 1916

Curso de Linguística Geral

Ferdinand de Saussure · Tradução portuguesa, 4.ª edição (1978)

Saussure, F. (1916). Curso de Linguística Geral (trad. 4.ª ed., 1978) (pp. 32-46; 121-128; 141-158; 207-213). Publicações Dom Quixote. Texto lido do PDF digitalizado (páginas 32-46, 121-128, 141-158 e 207-213).

Este texto foi obtido por reconhecimento óptico de caracteres (OCR) a partir do PDF digitalizado e conferido com o scan nas páginas 32-46 e 121-124 (com os esquemas recortados do scan). Nas restantes páginas foram corrigidas as gralhas mais evidentes, mas podem subsistir erros: os marcadores numerados no texto indicam a página do original para conferência.

Capítulo III · Objecto da linguística

§ 1. A língua e a sua definição

Qual é o objecto integral e preciso da linguística? A questão é particularmente difícil; veremos mais tarde porquê: limitemo-nos aqui a apontar esta dificuldade.

Há ciências que operam sobre objectos antecipadamente determinados e considerados em seguida de diferentes pontos de vista; nada de semelhante no nosso caso. Ouvimos a palavra portuguesa nu: um observador superficial será tentado a considerá-la um objecto linguístico concreto; mas um exame mais atento descobrirá sucessivamente três ou quatro coisas distintas, de acordo com o modo como a consideramos: como som, como expressão duma ideia, como correspondente ao latim nūdum, etc. Se é certo que o objecto precede o ponto de vista, diríamos antes que aqui é o ponto de vista que cria o objecto, e nada nos diz a priori que uma destas formas de considerar o facto em questão seja anterior ou superior às outras.

Além disso, seja qual for a perspectiva adoptada, o fenómeno linguístico apresenta sempre duas faces que se correspondem, uma das quais só é válida por causa da outra. Por exemplo:

1.º As sílabas que se articulam são impressões acústicas percebidas pelo ouvido, mas os sons não existiriam sem os órgãos vocais; um n só existe, pois, pela correspondência destes dois aspectos. Não podemos reduzir a língua ao som, nem separar o som da articulação bucal; reciprocamente, não podemos definir os movimentos dos órgãos vocais abstraindo da impressão acústica (ver p. 78).

2.º Mas admitamos que o som é algo de simples: será ele que faz a linguagem? Não, a linguagem serve o pensamento e só por ele existe. Surge então uma nova e temível correspondência: o som, unidade complexa acústico-vocal, forma por seu turno com a ideia uma unidade complexa, fisiológica e mental. Mas ainda não é tudo:

3.º A linguagem tem uma face individual e uma face social, e não podemos conceber uma sem a outra. Além disso:

4.º Em cada momento, ela implica simultâneamente um sistema estabelecido e uma evolução; a cada passo, ela é uma instituição actual e um produto do passado. À primeira vista parece muito simples distinguir entre este sistema e a sua história, entre o que ele é e o que foi; na realidade, a relação que une estes dois aspectos é tão íntima que não é fácil separá-los. Tornaria o problema mais simples considerar o fenómeno linguístico nas suas origens, ou estudar em primeiro lugar a linguagem das crianças? Não, porque é uma ideia falsa acreditar 34 que em matéria de linguagem o problema das origens difere do das condições permanentes; cairíamos em ciclo vicioso.

Deste modo, qualquer que seja a perspectiva de abordagem, nunca se nos depara o objecto integral da linguística; encontramos sempre o mesmo dilema: ou nos debruçamos sobre uma só face de cada problema, e nos arriscamos a perder de vista as dualidades que acima assinalámos: ou então, se estudamos a linguagem em várias perspectivas simultâneas, o objecto da linguística surge-nos como uma amálgama confusa de coisas heteróclitas, sem ligação entre si. Se assim procedermos, abriremos a porta a várias ciências — psicologia, antropologia, gramática normativa, filologia, etc. —, que em rigor distinguimos da linguística, mas que, a partir dum método incorrecto, poderão reivindicar a linguagem como um dos seus objectos.

Em nosso parecer, só há uma solução para todas estas dificuldades: é preciso colocarmo-nos em primeiro lugar no terreno da língua e tomá-la como norma para todas as outras manifestações da linguagem. Com efeito, no meio de tantas dualidades só a língua parece ser susceptível de uma definição autónoma, só ela fornece um ponto de apoio satisfatório para o espírito.

Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é antes uma parte determinada, essencial, da linguagem. É ao mesmo tempo um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir aos indivíduos o exercício desta faculdade. Tomada no seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; estende-se sobre vários domínios, físicos, fisiológicos e psiquicos, 35 individuais e sociais; não é classificável em nenhuma categoria de factos humanos, pois não sabemos onde está a sua unidade.

A língua, pelo contrário, é um todo em si e um princípio de classificação. Dando-lhe o primeiro lugar entre os factos de linguagem, introduzimos uma ordem natural num conjunto que não se presta a qualquer outra classificação.

A este princípio de classificação poder-se-ia objectar que o exercício da linguagem repousa sobre uma faculdade que recebemos da natureza, enquanto a língua é uma coisa adquirida e convencional, que deveria ser subordinada ao instinto natural em vez de o dominar.

Eis o que se pode responder:

Em primeiro lugar, não está provado que a função da linguagem, tal como se manifesta quando falamos, seja inteiramente natural, isto é, que o nosso aparelho vocal seja feito para falar, como as pernas foram feitas para andar. Os linguistas estão longe de chegar a acordo sobre esse ponto. Para Whitney, por exemplo, que assimila a língua a uma instituição social ao mesmo nível de todas as outras, é por acaso, por simples razões de comodidade, que nos servimos do aparelho fonador como instrumento da língua: os homens poderiam igualmente ter escolhido os gestos ou empregar imagens visuais em vez de imagens acústicas. É evidente que esta tese é demasiado extremista; a língua não é uma instituição social semelhante às outras ponto por ponto (ver pp. 132 e 136); aliás, Whitney vai demasiado longe ao dizer que a escolha recaiu por acaso sobre os órgãos vocais; há uma certa imposição natural. Mas no seu ponto essencial, o linguista americano parece ter razão: a língua 36 é uma convenção e a natureza do signo que se convenciona é indiferente. A questão do aparelho fonador é portanto secundária no problema da linguagem.

Uma certa definição do que chamamos linguagem articulada poderia confirmar esta ideia. Em latim, articulus significa «membro, parte, subdivisão de uma série de coisas»; em matéria de linguagem, a articulação pode designar tanto a subdivisão da cadeia falada em sílabas como a subdivisão da cadeia de significações em unidades significativas; é neste sentido que se diz em alemão gegliederte Sprache 1. Tomando esta segunda definição, poder-se-ia dizer que não é a linguagem falada que é natural ao homem, mas a faculdade de constituir uma língua, isto é, um sistema de sinais distintos correspondendo a ideias distintas.

Broca descobriu que a faculdade de falar está localizada na terceira circunvolução frontal esquerda; baseando-se nisso atribuiu à linguagem um carácter natural. Mas sabe-se que esta localização foi verificada para tudo o que diz respeito à linguagem, inclusive a escrita, e este facto, frente às observações feitas sobre as diversas formas de afasia por lesão deste centro de localização, parece indicar: 1.º, que as diversas perturbações da linguagem oral estão continuamente encadeadas com as da linguagem escrita; 2.º, que, em todos os casos de afasia ou de agrafia, o que é atingido não é a faculdade de proferir tais ou tais sons ou de traçar um ou outro signo, mas, sim, a capacidade de evocar por meio de um instrumento, seja ele qual for, os signos de 37 uma linguagem regular. Tudo isso leva a crer que, acima do funcionamento dos diferentes órgãos, existe uma faculdade mais geral que se exerce sobre os signos e que seria a faculdade linguística por excelência. Por esta via, somos conduzidos à conclusão a que chegámos há pouco.

Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem, podemos finalmente fazer valer como argumento que a faculdade — natural ou não — de articular palavras só se exerce com a ajuda do instrumento criado e fornecido pela colectividade; não é, pois, quimérico dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem.

§ 2. Lugar da língua entre os factos da linguagem

Para encontrar no conjunto da linguagem a esfera que corresponde à língua, temos de nos colocar perante o acto individual que permite reconstituir o circuito da fala. Este acto supõe pelo menos dois indivíduos; é o mínimo exigível para que o circuito seja completo. Tomemos portanto duas pessoas, A e B, que falem uma com a outra:

Duas pessoas, A e B, em comunicação: circuito da fala

O ponto de partida do circuito está no cérebro de uma, por exemplo A, onde os factos de consciência, a que chamaremos conceitos, se encontram associados às representações dos signos linguísticos ou às imagens acústicas que os exprimem. Suponhamos que determinado conceito desencadeia no cérebro uma imagem acústica correspondente: é um fenómeno inteiramente psíquico, seguido por sua vez de um processo fisiológico: o cérebro transmite aos órgãos de fonação um impulso correlativo à imagem; em seguida, as ondas sonoras propagam-se da boca de A ao ouvido de B: processo puramente físico. O circuito prolonga-se então em B numa ordem inversa: do ouvido ao cérebro, transmissão fisiológica da imagem acústica; no cérebro, associação psíquica desta imagem ao conceito correspondente. Se B por sua vez fala, o novo acto seguirá — do seu cérebro ao de A — exactamente o mesmo caminho que o primeiro e passará pelas mesmas fases sucessivas, que figuraremos do seguinte modo:

Circuito da fala: c = conceito, i = imagem acústica; fonação e audição em A e em B

Esta análise não pretende ser completa; poder-se-ia distinguir ainda: a sensação acústica pura, a identificação 39 desta sensação com a imagem acústica latente, a imagem muscular da fonação, etc. Apenas focámos os elementos que julgámos essenciais; mas a nossa figura permite distinguir imediatamente os elementos físicos (ondas sonoras) dos fisiológicos (fonação e audição) e psíquicos (imagens verbais e conceitos). É importante notar que a imagem verbal não se confunde com o próprio som e que ela é psíquica como o é o conceito que lhe está associado.

O circuito, tal como o representámos, pode dividir-se ainda:

a) Numa parte exterior (vibração dos sons no seu trajecto da boca ao ouvido) e numa parte interior, compreendendo tudo o resto;

b) Numa parte psíquica e numa parte não psíquica, compreendendo a segunda tanto os factos fisiológicos com sede nos órgãos como os factos físicos exteriores ao indivíduo.

c) Numa parte activa e numa parte passiva; é activo tudo o que vai do centro de associação de um dos sujeitos ao ouvido do outro sujeito, e passivo tudo o que vai do ouvido deste ao seu centro de associação;

Finalmente, na parte psíquica localizada no cérebro podemos chamar executivo a tudo o que é activo (c → i) e receptivo a tudo o que é passivo (i → c).

Não podemos esquecer uma faculdade de associação e de coordenação que se manifesta a partir do momento em que deixamos de lidar com signos isolados; é esta faculdade que desempenha o papel mais importante na organização da língua enquanto sistema (ver p. 207 e segs.).

Mas para bem compreendermos este papel é preciso sair do acto individual, que é apenas o embrião da linguagem, e encarar o facto social.

Entre todos os indivíduos assim ligados por meio da linguagem, estabelecer-se-á uma espécie de média: todos reproduzirão — não exacta, mas aproximadamente — os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos.

Qual é a origem desta cristalização social? Qual das partes do circuito pode estar aqui em causa? Pois é muito provável que nem todas participem de igual modo.

A parte física pode ser imediatamente afastada. Quando ouvimos falar uma língua que ignoramos, percebemos bem os sons, mas, pela nossa incompreensão, ficamos fora do facto social.

A parte psíquica também não está integralmente em jogo: o plano executivo mantém-se fora de causa, pois a execução nunca é feita pela massa; ela é sempre individual e o indivíduo é sempre o agente executivo; chamar-lhe-emos fala.

É pelo funcionamento das faculdades receptora e coordenadora que se formam, nos sujeitos falantes, marcas que conseguem ser sensivelmente as mesmas em todos. Como deveremos representar este produto social para que a língua surja perfeitamente purificada de tudo o resto? Se pudéssemos reunir a soma das imagens verbais armazenadas em todos os indivíduos, teríamos na mão o laço social que constitui a língua. É um tesouro que a prática da fala depositou nos sujeitos que pertencem à mesma comunidade, é um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro, ou mais exactamente nos cérebros de um conjunto de indivíduos; porque 41 a língua não está completa em nenhum, não existe perfeitamente senão na massa.

Separando a língua da fala, separamos duma só vez: 1.º, o que é social do que é individual; 2.º, o que é essencial do que é acessório e mais ou menos acidental.

A língua não é uma função do sujeito falante, é o produto que o indivíduo regista passivamente; ela nunca supõe premeditação, e a reflexão só intervém para a actividade de classificação de que falaremos na p. 207 e segs.

A fala é, pelo contrário, um acto individual da vontade e da inteligência, no qual convém distinguir: 1.º, as combinações pelas quais o sujeito falante utiliza o código da língua em ordem a exprimir o seu pensamento pessoal; 2.º, o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações.

É de notar que definimos coisas, e não palavras; as distinções estabelecidas nada têm a recear de certos termos ambíguos que não coincidem numa ou noutra língua. Assim, em alemão, Sprache quer dizer «língua» e «linguagem»: Rede corresponde mais ou menos ao francês parole, mas acrescenta-lhe o sentido especial de «discurso». Em português, fala também não coincide com o termo francês. Por outro lado, em latim, sermo significa de preferência «linguagem» e parole, enquanto língua designa a língua. E assim sucessivamente. Nenhuma palavra corresponde exactamente a qualquer das noções que acima precisámos; por isso, toda a definição que se faça a propósito de uma palavra é vã; é um mau método partir das palavras para definir as coisas.

Recapitulemos os caracteres da língua:

1.º Ela é um objecto bem definido no conjunto heteróclito dos factos de linguagem. Podemos localizá-la no 42 momento determinado do circuito em que uma imagem auditiva se vem associar a um conceito. É a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, e este, por si só, não pode criá-la nem modificá-la; ela só existe em virtude de um contrato firmado entre os membros da comunidade. Por outro lado, o indivíduo tem necessidade de uma aprendizagem para lhe conhecer as regras; a criança só pouco a pouco a assimila. Ela é de tal modo uma coisa distinta que um homem privado do uso da fala conserva a língua, desde que compreenda os signos vocais que ouve.

2.º A língua, distinta da fala, é um objecto que se pode estudar separadamente. Já não falamos as línguas mortas, mas podemos muito bem assimilar o seu organismo linguístico. A ciência da língua não só pode passar sem os outros elementos da linguagem como exige, para poder funcionar, que eles não entrem nos seus domínios.

3.º Ao passo que a linguagem é heterogénea, a língua assim delimitada é de natureza homogénea: é um sistema de sinais onde o essencial é apenas a união do sentido e da imagem acústica e onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas.

4.º A língua é, tal como a fala, um objecto de natureza concreta, e isto é muito vantajoso para o seu estudo. Os signos linguísticos, apesar de serem essencialmente psíquicos, não são abstracções; as associações ratificadas pelo consentimento colectivo, e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm a sua sede no cérebro. Além disso, os signos da língua são por assim dizer tangíveis; a escrita pode fixá-los em imagens convencionais, mas seria impossível fotografar em todos os 43 seus pormenores os actos da fala; a fonação de uma palavra, por pequena que seja, consiste numa infinidade de movimentos musculares, extremamente difíceis de conhecer e de representar. Pelo contrário, na língua há apenas a imagem acústica que se pode traduzir numa imagem visual constante. Porque a imagem acústica exige, quando a realizamos na fala, uma quantidade de movimentos. Mas, se abstrairmos disto, ela não é mais do que a soma de um número limitado de elementos ou fonemas, correspondentes aos signos utilizados na escrita. É esta possibilidade de fixar os factos relativos à língua que permite que um dicionário e uma gramática a representem fielmente, uma vez que a língua é a depositária das imagens acústicas e a escrita a forma tangível dessas imagens.

§ 3. Lugar da língua entre os factos humanos. A semiologia

Estas características mostram-nos uma outra mais importante. A língua, assim delimitada no conjunto dos factos de linguagem, é classificável como facto humano. Ao passo que a linguagem o não é.

Acabamos de ver que a língua é uma instituição social; mas vários são os traços que a distinguem das outras instituições — políticas, jurídicas, etc. Para compreendermos a sua natureza especial, temos de fazer intervir uma nova ordem de factos.

A língua é um sistema de sinais para exprimir ideias e, portanto, comparável à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbólicos, às fórmulas de cortesia, 44 às saudações militares, etc. Só que ela é o mais importante de todos estes sistemas.

Podemos portanto conceber uma ciência que estude a vida dos sinais no seio da vida social; ela formaria uma parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral. Chamar-lhe-emos semiologia 1 (do grego semeion, «sinal»). Estudaria em que consistem os sinais, que leis os regem. Uma vez que ainda não existe, não podemos dizer o que será; mas tem direito à existência e o seu lugar está desde já determinado. A linguística não é mais do que uma parte dessa ciência geral, as leis que a semiologia descobrir serão aplicáveis à linguística, e esta achar-se-á assim ligada a um campo bem definido no conjunto dos factos humanos.

Compete ao psicólogo determinar o lugar exacto da semiologia 2; a tarefa é definir os elementos que fazem da língua um sistema especial no conjunto dos factos semiológicos. Retomaremos adiante esta questão; neste momento só insistiremos num ponto: se agora, pela primeira vez, pudemos conceder à linguística um lugar entre as ciências, é porque a ligámos à semiologia.

Por que razão esta não é ainda reconhecida como ciência autónoma, com objecto próprio como qualquer outra? É que caímos num ciclo vicioso: por um lado, nada é mais próprio que a língua para fazer compreender a natureza do problema semiológico; mas, para a colocarmos 45 convenientemente, seria preciso estudarmos a língua em si mesma; ora, até agora sempre a abordámos em função de outra realidade, a partir de outros pontos de vista.

Em primeiro lugar, há a concepção superficial do grande público: a língua não é mais que uma nomenclatura (ver p. 121), o que impede qualquer investigação sobre a sua verdadeira natureza.

Em seguida, há o ponto de vista do psicólogo, que estuda o mecanismo do signo em cada indivíduo; é o método mais fácil, mas não conduz além da execução individual e não atinge o signo, que é social por natureza.

Ou então, quando um estudioso descobre que o signo deve ser encarado socialmente, só se interessa pelos traços da língua que a aproximem das outras instituições, das que dependem mais ou menos da nossa vontade; e desta forma se esquece o verdadeiro objectivo e se desprezam as características privativas dos sistemas semiológicos em geral e da língua em particular. Com efeito, o signo escapa sempre numa certa medida à vontade individual ou social: é esse o seu carácter essencial; mas é também o menos evidente.

Assim, esta característica só aparece claramente na língua, mas manifesta-se nos pormenores que menos se estudam, e, por isso, não se vê bem a necessidade ou a utilidade duma ciência semiológica. Para nós, pelo contrário, o problema linguístico é acima de tudo semiológico, e o desenvolvimento da nossa teoria vai sempre buscar a sua significação a este facto importante. Se quisermos descobrir a verdadeira natureza da língua, temos de a encarar no que ela tem de comum com todos os outros sistemas do mesmo tipo; e alguns factores linguísticos 46 que nos parecem muito importantes à primeira vista (por exemplo, o mecanismo do aparelho fonador), só devem ser considerados em segundo plano, se servirem apenas para distinguir a língua dos outros sistemas. Assim, além de fazer luz sobre o problema linguístico, pensamos que, tomando como signos os ritos, os costumes, etc., todos estes factos aparecerão numa outra perspectiva, e sentiremos a necessidade de agrupá-los na semiologia e de explicá-los pelas leis desta ciência.

Primeira parte · Princípios gerais

Capítulo I · Natureza do signo linguístico

§ 1. Signo, significado, significante

Para certas pessoas, a língua, reduzida ao seu princípio essencial, é uma nomenclatura, isto é, uma lista de termos correspondentes a série de coisas. Por exemplo:

Uma árvore e um cavalo ligados às palavras ARBOR e EQUUS

Esta concepção é criticável sob muitos aspectos. Em primeiro lugar, ela supõe que as ideias são anteriores às palavras (sobre este ponto, ver p. 190); em seguida, não nos diz se o nome é de natureza vocal ou psíquica, uma vez que arbor pode ser considerado sob um aspecto ou outro; por fim, ela deixa supor que o laço que une um nome a uma coisa é uma operação simples, o que está longe de ser verdade. Contudo, esta visão simplista pode aproximar-nos 122 da realidade, pois sugere-nos que a unidade linguística é um fenómeno duplo, resultante da aproximação de dois termos.

Vimos na página 38, a propósito do circuito da fala, que ambos os termos implicados no signo linguístico são psíquicos e unidos no nosso cérebro por meio da associação. Insistamos sobre este ponto.

O signo linguístico une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica (1). Esta última não é o som material, puramente físico, mas a marca psíquica desse som, a sua representação fornecida pelo testemunho dos sentidos; é sensorial e se, por vezes, lhe chamamos «material» é neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstracto.

O carácter psíquico das nossas imagens acústicas surge bem claro quando observamos a nossa própria linguagem. Sem mover os lábios nem a língua, podemos falar connosco ou recitar mentalmente um poema. É porque as palavras da língua são para nós imagens acústicas que não devemos falar dos «fonemas» que as compõem. Este termo, que implica uma ideia de acção vocal, só

(1) Este termo «imagem acústica» parecerá talvez limitado em demasia, atendendo a que, ao lado da representação dos sons de uma palavra, há também a da sua articulação, a imagem muscular do acto fónico. Mas para F. de Saussure a língua é essencialmente um depósito, um sistema vindo do exterior (ver p. 40). A imagem acústica é, por excelência, a representação natural da palavra, como facto virtual da língua, distinto de qualquer realização ao nível da fala. O aspecto motor pode ser subentendido ou simplesmente reduzido a um estado de subordinação perante a imagem acústica. (N. do ed. francês)

convém à palavra pronunciada, à realização na fala da imagem interior. Falando dos sons e das sílabas de uma palavra, evitamos esse mal-entendido, desde que nos lembremos de que se trata da imagem acústica. O signo linguístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces, que pode ser representado pela figura:

O signo linguístico: conceito e imagem acústica, unidos num círculo

Estes dois elementos estão intimamente unidos e postulam-se um ao outro. Quer procuremos o sentido da palavra latina arbor, quer investiguemos qual a palavra com que o latim designa o conceito «árvore», é evidente que só as aproximações consagradas pela língua

Os dois termos do signo: «árvore» / arbor, e a imagem de uma árvore / arbor

nos aparecem conformes à realidade e, por isso, afastamos qualquer outra que se pudesse imaginar.

Esta definição levanta um importante problema de terminologia. Chamamos signo à combinação do conceito e da imagem acústica; mas no uso corrente este termo designa geralmente só a imagem acústica, por exemplo uma palavra (arbor, etc.). Esquecemo-nos de que se chamamos signo a arbor é porque encerra o 124 conceito «árvore» de tal forma que a ideia da parte sensorial implica uma noção da totalidade.

A ambiguidade desapareceria se designássemos as três noções a que nos referimos por meio de nomes relacionados uns com os outros mas que estabelecessem oposição. Propomos manter a palavra signo para designar o total e substituir conceito e imagem acústica respectivamente por significado e significante; estes dois termos têm a vantagem de marcar a oposição que os separa entre si e que os distingue do total de que fazem parte. Quanto a signo, se o aceitamos é porque não sabemos como o substituir, uma vez que a língua comum não sugere nenhum outro.

O signo linguístico assim definido possui duas características primordiais. Ao enunciá-las assentaremos os princípios de qualquer estudo deste nível.

§ 2. Primeiro princípio: a arbitrariedade do signo

O laço que une o significante ao significado é arbitrário, ou melhor, uma vez que entendemos por signo o total resultante da associação dum significante a um significado: o signo linguístico é arbitrário.

Assim, a ideia de «pé» não está ligada por nenhuma relação à cadeia de sons [p] + [ɛ] que lhe serve de significante; podia ser tão bem representada por qualquer outra: provam-no as diferenças entre as línguas e a própria existência de línguas diferentes: o significado «rua» tem como significante [ruɐ] dum lado da fronteira e [kaʎe] do outro.

O princípio da arbitrariedade do signo não é contestado por ninguém; mas é muitas vezes mais fácil descobrir uma verdade do que conceder-lhe o lugar que lhe compete. O princípio enunciado acima domina toda a linguística da língua; as suas consequências são inesgotáveis. É certo que nem todas aparecem com igual evidência a uma primeira abordagem: só as descobrimos depois de várias tentativas e só então alcançamos a importância primordial do princípio.

Aproveitemos para afirmar que, quando a semiologia estiver organizada, ela terá de decidir se o seu campo abarca também os modos de expressão que assentam em signos naturais — como a pantomima. Ainda que os acolha, o seu principal objecto continuará a ser o conjunto dos sistemas baseados na arbitrariedade do signo. Com efeito, qualquer meio de expressão recebido numa sociedade assenta, em princípio, num hábito colectivo ou, o que resulta no mesmo, numa convenção. As formas de cortesia, por exemplo, dotadas muitas vezes de uma certa expressividade natural (pensemos nos Chineses, que saudavam o imperador inclinando-se nove vezes até ao chão), são igualmente fixadas por uma regra; é essa regra que as torna obrigatórias, e não o valor intrínseco que elas possam ter. Podemos, portanto, dizer que os sinais puramente arbitrários realizam melhor do que os outros o ideal do processo semiológico; é por isso que a língua, o mais complexo e o mais difundido dos sistemas de expressão, é também o mais característico de todos; neste sentido, a linguística pode tornar-se o padrão geral de toda a semiologia, ainda que a língua seja apenas um sistema particular.

Há quem se sirva da palavra símbolo para designar o signo linguístico, ou mais exactamente aquilo a que chamamos significante. Não podemos esquecer os inconvenientes de tal designação, sobretudo por causa do nosso primeiro princípio. O símbolo nunca é completamente arbitrário; ele não é vazio; há sempre um rudimento de ligação natural entre o significante e o significado. O símbolo da justiça, a balança, não podia ser substituído por qualquer outro, por um carro, por exemplo.

A palavra arbitrário exige também uma precisão. Ela não deve dar a ideia de que o significante depende da livre escolha do sujeito falante (veremos mais à frente que não está em poder do indivíduo alterar o signo desde que ele tenha sido aceite por um grupo linguístico); queremos dizer que ele é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem, na realidade, qualquer ligação natural.

Assinalemos, antes de terminar, duas objecções que poderiam ser feitas a este primeiro princípio:

1.º Poder-se-ia partir das onomatopeias para dizer que a escolha do significante não é sempre arbitrária. Mas elas nunca são elementos orgânicos num sistema linguístico. O seu número é, aliás, bem menor do que se julga. Palavras como fr. fouet e port. gemer podem impressionar certos ouvidos com uma sonoridade sugestiva; mas para vermos que não têm essa característica desde a sua origem basta recuarmos até às formas latinas (fouet deriva de fágus, «faia», gemer vem de gemere — com oclusiva inicial); a qualidade dos seus sons actuais, ou antes a que lhes é atribuída, é um resultado casual da evolução fonética.

Quanto às onomatopeias autênticas (como glu-glu, tic-tac, etc.), não só são pouco numerosas como a sua escolha é de certo modo arbitrária, pois são a imitação aproximada e já meio convencional de certos ruídos (compare-se o português ão-ão, o francês ouaoua e o alemão wauwau). Além disso, uma vez introduzidas na língua, elas são mais ou menos arrasadas na evolução fonética, morfológica, etc., que sofrem as outras palavras (cf. franc. pigeon, port. cegonha, derivados de pípio, ciconia, palavras onomatopaicas em latim): prova evidente de que perderam qualquer coisa do seu carácter original para aceitarem o do signo linguístico em geral, que é imotivado.

2.º As exclamações, muito próximas das onomatopeias, dão lugar a observações análogas e não são igualmente perigosas para a nossa tese. Tentaram ver nelas expressões espontâneas da realidade, ditadas, por assim dizer, pela natureza. Mas para a maior parte delas pode-se afirmar que não há uma ligação necessária entre o significante e o significado. Basta comparar duas línguas para ver como estas expressões variam de uma para outra (por exemplo, ao português ai! corresponde o alemão au!). Sabemos ainda que muitas exclamações começaram por ser palavras com sentido determinado (cf. credo!, homessa!, etc.).

Em resumo, as onomatopeias e as exclamações são de importância secundária e a sua origem simbólica é em parte contestável.

§ 3. Segundo princípio: linearidade do significante

O significante, porque é de natureza auditiva, desenvolve-se no tempo e ao tempo vai buscar as suas características: a) representa uma extensão, e b) essa extensão é mensurável numa só dimensão; é uma linha.

Este princípio é evidente, mas parece que durante muito tempo não foi tomado em conta, talvez porque o achassem muito simples; contudo ele é fundamental e as suas consequências são incalculáveis; a sua importância é igual à da primeira lei. Todo o mecanismo da língua depende dele (ver p. 207). Por oposição aos significantes visuais (sinais marítimos, etc.), que podem oferecer complicações simultâneas em várias dimensões, os significantes acústicos só dispõem da linha do tempo; os seus elementos apresentam-se uns após outros; formam uma cadeia. Esta característica aparece mais nítida quando os representamos na escrita: a linha espacial dos sinais gráficos substitui a sucessão no tempo.

Em certos casos, a linearidade não surge com evidência. Se, por exemplo, acentuamos uma sílaba, parece que acumulamos sobre o mesmo ponto elementos significativos diferentes. Mas é uma ilusão; a sílaba e o seu acento constituem um só acto fónico; não há dualidade no interior deste acto, mas apenas oposições diversas com os que estão antes e depois (ver p. 219).

Capítulo III · A linguística estática e a linguística evolutiva

§ 1. Dualidade interna de todas as ciências que operam sobre valores

Quase todos os linguistas defendem que a intervenção do tempo cria na linguística dificuldades particulares e situa esta ciência perante dois caminhos absolutamente divergentes.

A maior parte das outras ciências ignora esta dualidade radical; o tempo não produz nelas efeitos particulares. À astronomia verificou que os astros sofrem notáveis alterações; isto não a obrigou a dividir-se em duas disciplinas. A geologia desenvolve-se quase constantemente sobre sucessividades; mas quando se quer ocupar dos estados fixos da terra, não faz deles um objecto de estudos radicalmente distintos. Há uma ciência descritiva do direito e um história do direito; ninguém as opõe uma à outra. A história política dos Estados move-se 142 totalmente no tempo; contudo, se um historiador fizer o quadro de uma época, isso não nos dá a impressão de que saímos da história. Inversamente, a ciência das instituições políticas é essencialmente descritiva, mas pode muito bem, se vier a propósito, tratar uma questão histórica sem que a sua unidade seja alterada.

Pelo contrário, a dualidade de que falamos impõe-se imperiosamente nas ciências económicas. Nestas, a economia política e a história económica constituem duas disciplinas nitidamente separadas no seio de uma mesma ciência; as obras que últimamente têm aparecido sobre estas matérias acentuam tal distinção. Procedendo assim obedece-se, sem disso se ter muita consciência, a uma necessidade interior: ora, é uma necessidade deste tipo que nos obriga a dividir a linguística em duas partes, cada uma com o seu princípio próprio. Aqui, como na economia política, estamos em face da noção de valor; nas duas ciências, trata-se de um sistema de equivalência entre coisas de ordens diferentes: numa, um trabalho e um salário; noutra, um significado e um significante.

Eixos: A—B, das simultaneidades; C—D, das sucessividades

É certo que todas as ciências teriam interesse em marcar com maior nitidez os eixos sobre os quais se situam os factos de que se ocupam; para todas, conviria distinguir, conforme a figura seguinte: 1.º, o eixo das simultaneidades (AB), respeitante 143 às relações entre fenómenos coexistentes, excluída qualquer intervenção do tempo; e 2.º, o eixo das sucessividades (CD), sobre o qual só podemos considerar um fenómeno de cada vez, mas onde estão situados todos os factos do primeiro eixo com as suas alterações.

Para as ciências que operam sobre valores, esta distinção torna-se uma necessidade prática, e em certos casos uma necessidade absoluta. Não acreditamos, e isto é um desafio que lançamos aos sábios, que seja possível, neste domínio, investigar com rigor sem ter em conta os dois eixos, sem distinguir o sistema dos valores considerados em si desses mesmos valores considerados em função do tempo.

É ao linguista que esta distinção se impõe mais imperiosamente; porque a língua é um sistema de puros valores em que nada de exterior determina o estado momentâneo dos seus termos. Há valores que têm a sua raiz nas realidades e nas suas relações naturais (como na ciência económica — por exemplo, uma propriedade vale em proporção ao que produz), mas que, até certo ponto, se podem seguir no tempo, recordando a cada momento que dependem de um sistema de valores coexistente. A sua ligação à realidade dá-lhes, apésar de tudo, uma base natural, e, por isso, as apreciações que deles se fazem nunca são completamente arbitrárias; a sua variabilidade é limitada. Mas acabamos de ver que, em linguística, os dados naturais não têm a menor importância.

Acrescentemos que, quanto mais complexo e rigorosamente organizado for um sistema de valores, mais necessário se torna, por causa da sua própria complexidade, estudá-lo sucessivamente segundo os dois eixos. Ora, nenhum sistema é mais complexo nem mais organizado 144 do que a língua; em nenhum outro verificamos uma semelhante precisão dos valores em jogo, um tão grande número e uma tal diversidade de termos, numa dependência recíproca tão estrita. A multiplicidade dos signos, já invocada para explicar a continuidade da língua, impede-nos absolutamente de estudar ao mesmo tempo as relações temporais e as relações horizontais.

Esta é a razão por que distinguimos duas linguísticas. Como as designaremos? Os termos que se oferecem não são todos igualmente próprios para marcar esta distinção. Assim, história e «linguística histórica» não são utilizáveis porque comunicam ideias muito vagas; assim como a história política compreende simultâneamente a descrição das épocas e a narração dos acontecimentos, poder-se-ia imaginar que, descrevendo os estados sucessivos duma língua, se estudava a língua segundo o eixo do tempo; para tal seria preciso encarar separadamente os fenómenos que fazem passar a língua de um estado a outro. Os termos evolução e linguística evolutiva são mais precisos, e empregá-los-emos com frequência; por oposição, podemos falar da ciência dos estados da língua ou linguística estática.

Mas, para melhor marcarmos esta oposição e este cruzamento de duas ordens de fenómenos relativos ao mesmo objecto, preferimos falar de linguística sincrónica e de linguística diacrónica. É sincrónico tudo o que se refere ao aspecto estático da nossa ciência, diacrónico tudo o que diz respeito às evoluções. De igual modo, sincronia e diacronia designarão, respectivamente, um estado da língua e uma fase da evolução.

§ 2. A dualidade interna e a história da linguística

A primeira coisa que verificamos quando se estudam os factos da língua é que para o sujeito falante a sucessão no tempo é inexistente: ele está perante um estado. Por isso, o linguista que quiser compreender este estado deve fazer tábua rasa de tudo o que o produziu e ignorar a diacronia. Só suprimindo o passado se pode entrar na consciência dos sujeitos falantes. A intervenção história não faz mais do que falsificar qualquer juízo. Seria absurdo desenhar um panorama dos Alpes vistos simultâneamente de vários picos do Jura; um panorama deve ser tomado de um só ponto. Assim é para a língua: só podemos descrevê-la e fixar normas para o seu uso se nos situarmos num certo estado. Quando o linguista segue a evolução da língua, assemelha-se ao observador em movimento que vai de uma extremidade do Jura até à outra para apreciar a deslocação da perspectiva. Desde que existe a linguística moderna, podemos dizer que tem sido totalmente absorvida pela diacronia. A gramática comparada do indo-europeu utiliza os dados que pode para reconstruir hipotéticamente um tipo de língua anterior; a comparação é só um meio de reconstituir o passado. O método é o mesmo no estudo particular dos subgrupos (línguas românicas, línguas germânicas, etc.); os estados da língua só intervêm fragmentados e de modo muito imperfeito. Tal é a tendência inaugurada por Bopp; por isso, a sua concepção de língua é híbrida e hesitante. Por outro lado, como procederam os que estudaram a língua antes da fundação dos estudos linguísticos, isto é, os «gramáticos» inspirados nos métodos tradicionais?

É curioso verificar que o seu ponto de vista, sobre a questão que nos ocupa, é absolutamente inatacável. Os seus trabalhos mostram-nos claramente que eles querem descrever estados da língua; o seu programa é estritamente sincrónico. A gramática de Port-Royal, por exemplo, tenta descrever o estado do francês no tempo de Luís XIV e de lhe determinar os valores. Para atingir os seus objectivos não foi preciso recorrer à língua da Idade Média ('); segue fielmente o eixo horizontal (ver p. 142) sem nunca se afastar dele; é o método justo, mas não quer dizer que a sua aplicação seja perfeita. A gramática tradicional ignora partes inteiras da língua, tais como a formação das palavras; é normativa e julga que deve ditar regras em vez de verificar factos; falta-lhe uma visão de conjunto; muitas vezes não sabe mesmo distinguir a palavra escrita da falada, etc.

Acusaram a gramática clássica de não ser científica; contudo, a sua base é menos criticável e o seu objecto melhor definido que na linguística inaugurada por Bopp. Esta, situando-se em terreno mal definido, não sabe exactamente para que objectivo tende. Pretendendo ocupar-se de dois domínios, não se dedica profundamente a nenhum, porque não soube distinguir entre os estados da língua e as sucessividades.

Depois de ter concedido um lugar demasiado importante à história, a linguística voltará à perspectiva estática da gramática tradicional, mas com um espírito novo e segundo outros processos, e o método histórico terá dado não pequena contribuição para esse rejuvenesci-

(1) O mesmo se pode dizer da Gramática da Língua Portuguesa, de João de Barros. (N. do T.)

mento; será ele que fará compreender melhor os estados da língua. A antiga gramática só via o facto sincrónico; a linguística revelou-nos uma nova ordem de fenómenos; mas isso não basta; é preciso que faça sentir a oposição entre as duas ordens para que daí se tirem todas as consequências que encerra.

§ 3. A dualidade interna ilustrada com exemplos

A oposição entre os dois pontos de vista — sincrónico e diacrónico — é absoluta e não aceita compromissos. Alguns factos nos mostrarão em que consiste essa diferença e por que razão ela é irredutível.

O latim fauces forneceu ao português o radical foc-, donde derivam focinho e foçar (remexer com o focinho). Por outro lado, o adjectivo verbal latino fossum está na origem das formas portuguesas fosso, fossa, fossado. A comunidade relacionou o verbo foçar com o substantivo fossa, e hoje todos os dicionários atestam a forma fossar. É um facto estático, pois trata-se de uma relação entre duas formas coexistentes na língua. 1 Para que se tenha produzido foi necessário o concurso de certos fenómenos de evolução; foi sobretudo importante que o latim fauc- tivesse evoluído para foc-: estes factos diacrónicos — vemo-lo claramente — não têm qualquer relação com o facto estático que produziram; são de ordem diferente.

Vejamos outro exemplo, de alcance geral. Em velho alto alemão, o plural de gast, «hóspede», foi gasti, o de hant, «mão», hanti, etc. Mais tarde, este -i produziu um

14?

«umlaut», isto é, teve por efeito mudar a em e na sílaba precedente: gasti — gesti, hanti — henti. Finalmente, o -i perdeu o seu timbre e gesti — geste, etc. Como consequência temos hoje Gast — Gäste, Hand — Hände, e toda uma classe de palavras apresenta a mesma diferença entre singular e plural. Um caso semelhante se produziu em anglo-saxão: inicialmente fōt, «pé», fazia no plural fōti, tōþ — tōþi, gōs — gōsi, etc.; depois, numa primeira alteração, a do «umlaut», fōti transformou-se em fēti e, numa segunda, a queda do -i, fēti evoluiu para fēt; a partir de então, o plural de fōt é fēt o de tōþ é tēþ, o de gōs é gēs (ingl. mod.: foot — feet, tooth — — teeth, goose — geese).

No primeiro momento, quando se dizia gast — gasti, fōt — fōti, o plural era marcado pela simples adjunção de um i; Gast — Gäste e foot — feet apresentam um novo mecanismo de formação de plural. Este mecanismo não é o mesmo nos dois casos: em inglês há apenas oposição de vogais; em alemão há, além disso, a presença ou a ausência da final -e; mas esta diferença não nos interessa aqui.

A relação entre um singular e o seu plural, sejam quais forem as formas, pode representar-se, em cada momento, por um eixo horizontal, do tipo:

Eixo horizontal: a relação singular/plural na época A e na época B

Os factos, de qualquer espécie, que tenham provocado a passagem de uma forma a outra serão, pelo contrário, 149 colocados sobre um eixo vertical, o que cria a figura

Eixos horizontais (época A e época B) ligados por eixos verticais

O nosso exemplo-tipo sugere algumas reflexões que vêm muito a propósito do tema que estamos a tratar:

1.º Estes factos diacrónicos não podem ter como finalidade marcar um valor com outro signo: o facto de que gasti tenha dado gesti, geste (Gäste) não influi na regra do plural dos substantivos; em tragit — trägt, o mesmo «umlaut» refere-se à flexão verbal, e assim sucessivamente. Portanto, um facto sincrónico é um acontecimento que tem em si mesmo a sua razão de ser; as consequências sincrónicas particulares que dele possam advir são-lhe totalmente estranhas.

2.º Os factos diacrónicos não conduzem a uma alteração do sistema. Não se passou de um sistema de relações a outro; a modificação não atinge o ajustamento, mas sim os elementos ajustados.

Reencontramos aqui um princípio já enunciado: o sistema nunca se modificou directamente; em si mesmo, ele é imutável; só certos elementos são alterados sem consideração pela solidariedade que os liga ao conjunto. É como se um dos planetas que gravitam à volta do Sol mudasse de dimensões e de peso: esse facto isolado implicaria consequências gerais e deslocaria o equilíbrio de todo o sistema solar. Para exprimir o plural é necessária a oposição de dois termos: ou fōt — *fōti, ou fōt — fēt; são dois processos igualmente possíveis, mas passou-se de um a outro quase sem ruptura; não foi um conjunto 150 que se deslocou, nem um sistema que gerou outro, mas um elemento do primeiro alterou-se e isso bastou para fazer nascer um outro sistema.

3.º Esta observação faz-nos compreender melhor o carácter sempre fortuito dum estado da língua. Por oposição à ideia falsa que dela somos levados a ter, a língua não é um mecanismo criado e ajustado em vista aos conceitos que deve exprimir. Vemos, pelo contrário, que o resultado de cada alteração não estava destinado a receber as significações de que fica impregnado. Surge um estado fortuito (fōt — fēt) e aproveitamo-lo para marcar a distinção entre singular e plural; fōt — fēt não é mais apto para essa função do que era fōt — fōti. Em cada estado da língua, o espírito penetra numa dada matéria e vivifica-a. Esta visão, que nos é inspirada pela linguística histórica, é desconhecida da gramática tradicional, que nunca teria podido adquiri-la pelos seus próprios métodos. A maior parte dos filósofos da língua igualmente a ignoram — e, contudo, nada é mais importante numa perspectiva filosófica.

4.º Os factos que pertencem à série diacrónica são, ao menos, da mesma ordem que os da série sincrónica? De modo nenhum, porque estabelecemos que as alterações se produzem sem qualquer intenção. Pelo contrário, um facto de sincronia é sempre significativo; faz sempre apelo a dois termos simultâneos; não é Gäste que exprime o plural, mas a oposição Gast — Gäste. Num facto diacrónico, é precisamente o contrário: só um termo interessa e, para que uma nova forma (Gäste) apareça, é preciso que a antiga (gasti) lhe ceda o lugar.

Querer reunir numa mesma disciplina factos tão diferentes seria, pois, uma tarefa quimérica. Na perspectiva 151 diacrónica, trabalha-se com fenómenos que não têm qualquer relação com os sistemas, embora os condicionem.

Eis outros exemplos que confirmarão e completarão as conclusões que tirámos dos primeiros.

Em francês, o acento recai sempre sobre a última sílaba, excepto se ela tiver um e mudo (ə). É um facto sincrónico, uma relação entre o conjunto das palavras francesas e o acento. Donde deriva? De um estado anterior. O latim tinha um sistema acentual diferente e mais complicado: o acento recaía sobre a penúltima sílaba quando esta era longa; se era breve, passava para a antepenúltima sílaba (cf. amīcus, ánĭma). Esta lei evoca relações que não têm a mínima analogia com a norma francesa. É certo que é o mesmo acento, na medida em que ficou nas mesmas sílabas; na palavra francesa ele está sempre na sílaba em que recaía em latim: amī́cum — ami, ánĭmam — âme. Contudo, as duas fórmulas são diferentes nos dois momentos, porque a forma das palavras mudou. Sabemos que tudo o que estava depois do acento desapareceu, ou foi reduzido a e mudo. Depois desta alteração das palavras francesas, a posição do acento deixou de ser a que era, em relação ao conjunto; a partir de então os sujeitos falantes, conscientes desta nova relação, puseram instintivamente o acento na última sílaba, mesmo nas palavras importantes ou transmitidas pela escrita (facile, consul, ticket, burgrave, etc.). É evidente que, na evolução do francês, não se quis mudar de sistema ou aplicar uma nova fórmula, uma vez que numa palavra como amícum — ami, o acento manteve-se sempre sobre a mesma sílaba; mas interpôs-se um facto diacrónico: a posição do acento achou-se alterada sem que nele se tivesse tocado. Uma lei de acentuação, como tudo 152 o que se refere ao sistema linguístico, é uma disposição de termos, um resultado fortuito e involuntário da evolução.

Eis um caso ainda mais flagrante. Em paleoeslavo, slovo, «palavra», faz no instr. sing. slovemъ, no nom. pl. slova, no gen. pl. slovъ, etc.; nesta declinação cada caso tem a sua desinência. Mas hoje as vogais «fracas» ь e ъ, representantes eslavas do ĭ e ŭ indo-europeus, desapareceram; por isso, em checo, por exemplo, a declinação é slovo, slovem, slova, slov; de igual modo žena, «mulher», tem o ac. sing. ženu, nom. pl. ženy, gen. pl. žen. O genitivo plural (slov, žen) tem desinência zero. Vemos, pois, que não é necessário um sinal material para exprimir uma ideia; a língua pode contentar-se com a oposição entre qualquer coisa e o nada; neste caso, por exemplo, reconhecemos o gen. pl. žen apenas porque não é žena, nem ženu, nem qualquer outra forma. Parece estranho, à primeira vista, que uma ideia tão particular como a do genitivo plural tenha desinência zero; mas é justamente a prova de que tudo acontece por um mero acidente. A língua é um mecanismo que continua a funcionar apesar das deteriorações que sofre.

Tudo isto confirma os princípios já formulados e que resumimos como segue:

A língua é um sistema em que todas as partes podem e devem ser consideradas na sua solidariedade sincrónica.

As alterações incidem sobre um ou outro elemento, e nunca sobre o sistema em bloco: só fora deste podem ser estudadas. É evidente que cada alteração deixa a sua marca no sistema; mas o facto inicial recaiu sobre um só ponto; não há qualquer relação interna entre ele e 153 as consequências que possam advir para o conjunto. Esta diferente natureza dos termos sucessivos e dos termos coexistentes, dos factos parciais e dos factos que envolvem todo o sistema, impede que se faça de uns e de outros matéria para uma só ciência.

§ 4. A diferença entre as duas ordens de factos ilustrada por meio de comparações

Para mostrar, ao mesmo tempo, a autonomia e a interdependência da sincronia e da diacronia, podemos comparar a primeira à projecção dum corpo num plano. Com efeito, qualquer projecção depende directamente do corpo projectado e, contudo, diferencia-se dele, é uma coisa à parte. Sem isso não haveria toda uma ciência das projecções; bastaria considerar os corpos em si mesmos. Em linguística, temos a mesma relação entre a realidade histórica e cada estado da língua, que é como a projecção num dado momento. Não é estudando os corpos, isto é, os acontecimentos diacrónicos, que se conhecerão os estados sincrónicos, tal como não temos uma noção exacta das projecções geométricas só por termos estudado, mesmo de muito perto, as diversas espécies de corpos.

Do mesmo modo, se cortarmos transversalmente a haste de um vegetal notaremos na superfície de secção um desenho mais ou menos complicado; não é mais do que uma perspectiva das fibras longitudinais, e veremos estas se praticarmos uma secção perpendicular à primeira. Tal como no exemplo anterior, uma das perspectivas depende da outra: a secção longitudinal mostra-

-nos as próprias fibras constitutivas da planta, e a secção transversal o seu agrupamento num determinado plano; mas a segunda é distinta da primeira porque denuncia certas relações entre as fibras que nunca poderíamos surpreender num plano longitudinal.

Mas, de todas as comparações que se possam imaginar, a mais elucidativa é a que estabelecemos entre o mecanismo da língua e uma partida de xadrez. Num caso e noutro, estamos perante um sistema de valores e assistimos às suas modificações. Uma partida de xadrez é como que uma realização artificial do que a língua nos apresenta sob uma forma natural.

Aprofundemos esta comparação.

Em primeiro lugar, cada estado do jogo corresponde precisamente a um estado da língua. O valor respectivo das peças depende da sua posição sobre o tabuleiro, do mesmo modo que, na língua, cada termo tem o seu valor porque se opõe a todos os outros termos.

Em segundo lugar, o sistema é sempre momentâneo; ele varia de uma posição a outra. É certo que os valores dependem também e sobretudo de uma convenção imutável, a regra do jogo, que existe antes do começo da partida e que persiste após cada jogada. Esta regra, 155 aceite uma vez por todas, também existe ao nível da língua; são os princípios constantes da semiologia.

Por fim, para passar de um equilíbrio a outro, ou — segundo a nossa terminologia — de uma sincronia a outra, basta a deslocação de uma figura; não há alteração geral. Como equivalente, temos o facto diacrónico com todas as suas particularidades. Com efeito:

a) Cada jogada do xadrez põe em movimento uma só peça; também na língua as alterações só incidem sobre elementos isolados.

b) Apesar disso, a jogada tem ressonâncias em todo efeito exercido. As alterações de valores que daí resultarão podem ser, conforme os casos, ou nulos, ou muito graves, ou de importância média. Uma jogada pode mesmo revolucionar toda a partida e ter consequências até para as peças que nesse momento não estão em causa. Acabamos de ver que com a língua se passa exactamente o mesmo.

c) A deslocação de uma peça é um facto absoluta- mente distinto do equilíbrio precedente e do equilíbrio subsequente. A alteração operada não pertence a nenhum dos dois estados; ora, só os estados são importantes.

Numa partida de xadrez, cada uma das posições caracteriza-se por ser independente em relação às que a antecederam; é indiferente que se tenha chegado a ela por uma via ou por outra: uma pessoa que tenha acompanhado toda a partida não tem a menor vantagem sobre o curioso que vem presenciar o estado do jogo num momento crítico; para descrever uma posição é inútil recordar o que se passou dez segundos antes. Tudo isto se aplica igualmente à língua e consagra a distinção radical 156 entre a diacronia e a sincronia. A fala utiliza sempre um estado da língua, e as alterações entre os diferentes estados não têm qualquer relação com ela.

Há só um ponto em que a comparação falha; o jogador de xadrez provoca as deslocações e exerce, intencionalmente, uma acção sobre o sistema; a língua não premedita nada; é espontânea e fortuitamente que as suas peças se deslocam — ou antes, se modificam; o «umlaut» de Húnde, em vez de hanti, ou de Gäste, por gasti (ver p. 148), produziu uma nova formação de plural, mas fez também surgir uma forma verbal trägt (em vez de tragit), etc. Para que a partida de xadrez se assemelhasse ponto por ponto ao mecanismo da língua, seria preciso supor um jogador inconsciente e ininteligente. Aliás, esta única diferença torna a comparação ainda mais instrutiva, pondo em evidência a absoluta necessidade de distinguir na linguística as duas ordens de fenómenos. Porque, se os factos diacrónicos são irredutíveis ao sistema sincrónico que condicionam, mesmo quando a vontade preside a uma alteração deste tipo, com mais razão o devem ser quando responsabilizam uma força cega pela organização de um sistema de sinais.

§ 5. As duas linguísticas opostas nos seus métodos e nos seus princípios

A oposição entre diacronia e sincronia manifesta-se em todos os pontos.

Por exemplo — e para começarmos pelo facto evidente — elas não têm igual importância. É manifesto que o aspecto sincrónico prevalece sobre o outro, uma 157 vez que para a massa falante ele é a única e verdadeira realidade (ver p. 144). De igual forma para o linguista: se se coloca na perspectiva diacrónica, não é a língua que se lhe depara, mas uma série de acontecimentos que a modificam. Afirma-se muitas vezes que nada é mais importante do que conhecer a génese dum dado estado; é verdade num certo sentido: as condições que geraram esse estado esclarecem-nos sobre a sua verdadeira natureza e defendem-nos de certas ilusões (ver p. 149); mas isso prova justamente que a diacronia não é um fim. Podemos dizer dela o que foi dito do jornalismo: pode conduzir a tudo desde que dela se saia.

Os métodos de cada ordem diferem também, e de duas maneiras:

a) A sincronia só conhece uma perspectiva, a dos sujeitos falantes, e todo o método consiste em recolher o seu testemunho; para sabermos em que medida uma coisa é uma realidade, é necessário e suficiente investigar em que medida ela existe na consciência dos sujeitos. A linguística diacrónica, pelo contrário, deve distinguir duas perspectivas: uma, prospectiva, que segue o curso do tempo; outra, retrospectiva, que visa o passado. Há, por isso, um desdobramento do método, de que falaremos na quinta parte.

b) Uma segunda diferença provém dos limites do domínio de cada uma das disciplinas. O estudo sincrónico não tem por objecto tudo o que é simultâneo, mas apenas o conjunto dos factos que corresponde a cada língua; na medida em que tal for necessário, a separação irá até aos dialectos e aos subdialectos. No fundo, o termo sincronia não é suficientemente exacto; devia ser substituído por idiossincronia. Pelo contrário, a linguística 158 diacrónica não só não exige como rejeita semelhante especialização; os termos que analisa não pertencem, necessáriamente, a uma mesma língua (compare-se o indo-europeu *esti, o grego ésti, o alemão ist, o francês est, o português é). É justamente a sucessão dos factos diacrónicos e a sua multiplicação espacial que cria a diversidade dos idiomas. Para justificar a aproximação entre duas formas, basta que entre elas haja um laço histórico, ainda que indirecto.

Estas oposições não são as mais evidentes, nem as mais profundas: a antinomia radical entre um fenómeno evolutivo e um fenómeno estático tem como consequência que todas as noções relativas a um ou a outro são igualmente irredutíveis entre si. Qualquer destas noções pode servir para demonstrar esta afirmação. O «fenómeno» sincrónico não tem nada de comum com o diacrónico (ver p. 150); aquele é uma relação entre elementos simultâneos, este é a substituição de um elemento por outro no tempo, um acontecimento. Veremos também na página 184 que as identidades diacrónicas e sincrónicas são duas coisas muito diferentes: históricamente, o advérbio nada é idêntico ao substantivo nata e ao adjectivo nada (nascida), ao passo que, na língua de hoje, estes elementos são perfeitamente distintos. Estas verificações bastariam para nos fazer compreender a necessidade de não confundir os dois pontos de vista; mas em parte alguma ela se manifesta tão claramente como na distinção que vamos fazer no parágrafo seguinte.

Capítulo V · Relações sintagmáticas e relações associativas

§ 1. Definições

Como vimos, num estado da língua tudo se baseia nas relações. Resta saber como é que elas funcionam.

As relações e as diferenças entre termos linguísticos desenrolam-se em duas esferas distintas, cada uma das quais gera uma certa ordem de valores; a oposição entre estas duas ordens ajuda a compreender a natureza de cada uma. Correspondem a duas formas da nossa actividade mental, igualmente indispensável à vida da língua.

Por outro lado, no discurso, as palavras contraem entre si, em virtude do seu encadeamento, relações que assentam no carácter linear da língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo (ver p. 128). Eles dispõem-se, uns após outros, na cadeia fónica. Estas combinações que têm como suporte 208 a extensão podem ser chamados sintagmas ('). O sintagma compõe-se sempre de duas ou mais unidades consecutivas (por exemplo: re-ler, contra todos, a vida humana, Deus é bom, amanhã saímos, etc.). Num sintagma, o valor de um termo surge da oposição entre ele e o que o precede, ou que se lhe segue, ou ambos.

Por outro lado, fora do discurso, as palavras que têm qualquer coisa de comum associam-se na memória, e assim se formam grupos, no seio dos quais se exercem relações muito diversas. Por exemplo, a palavra ausente fará surgir diante do espírito uma série de outras palavras (ausência, ausentar, ou então presente, clemente, ou ainda distante, afastado, etc.); de uma forma ou doutra, todos têm qualquer coisa de comum entre si.

Vemos que estas coordenações são de espécie completamente diferente das primeiras. O seu suporte não é a extensão; a sua sede está no cérebro; fazem parte do tesouro interior que a língua representa para cada indivíduo. Chamar-lhe-emos relações associativas.

A relação sintagmática é in praesentia; refere-se a dois ou mais termos igualmente presentes numa série efectiva. Pelo contrário, a relação associativa une termos in absentia numa série mnemónica virtual.

Segundo este duplo ponto de vista, uma unidade linguística é comparável a uma determinada parte dum edifício, a uma coluna, por exemplo; esta encontra-se, por um lado, numa certa relação com a arquitrave que suporta: este ajustamento de duas unidades igualmente

(1) É quase inútil chamar a atenção para que o estudo dos sintagmas não se confunde com a sintaxe: esta, como veremos na p. 224 e segs. é só uma parte daquele. (N. do ed. francês.)

presentes no espaço lembra a relação sintagmática; por outro lado, se essa coluna é de ordem dórica, ela evoca a comparação mental com as outras ordens (jónica, coríntia, etc.), que são elementos não presentes no espaço: a relação é associativa.

Cada um destes dois tipos de coordenação exige algumas notas em particular.

8 2. As relações sintagmáticas

Os exemplos que demos na página 207 mostram já que a noção de sintagma se aplica não só às palavras mas também aos grupos de palavras, às unidades complexas de qualquer dimensão e de qualquer espécie (palavras compostas, derivadas, membros de frase, frases inteiras).

Não basta considerar a relação que une as diversas partes de um sintagma entre si (por exemplo, contra e todos em contra todos, contra e mestre em contramestre); é preciso tomar também em conta a que liga o todo às suas partes (por exemplo, contra todos opõe-se por um lado a contra, por outro a todos; contramestre relaciona-se com contra e com mestre).

Poder-se-ia fazer uma objecção. A frase é o tipo por excelência do sintagma. Mas ela pertence à fala, não à língua (ver p. 41); o sintagma pertencerá à fala? Julgamos que não. O que é próprio da fala é a liberdade das combinações; temos, por isso, que investigar se todos os sintagmas são igualmente livres.

Encontramos, em primeiro lugar, um grande número de expressões que pertencem à língua; são locuções estereotipadas que não podem ser alteradas, embora possamos 210 distinguir, pela reflexão, as suas partes significativas (cf. pois é, vá lá!, etc. O mesmo se passa, embora em menor grau, com expressões como perder a cabeça, dar a mão a alguém, pôr-se no olho da rua, ou ainda estar mal de..., à custa de..., por pouco não..., etc., cujo emprego habitual depende das particularidades da sua significação ou da sua sintaxe. Tais expressões não podem ser improvisadas, são-nos fornecidas pela tradição. Podemos citar também as palavras que, prestando-se perfeitamente a análise, são contudo caracterizadas por qualquer anomalia morfológica mantida só pelo uso (cf. dificuldade frente a facilidade, etc., farei frente a dormirei, etc.).

Mas não é tudo; temos que atribuir à língua, não à fala, todos os sintagmas construídos segundo formas regulares. Com efeito, como não há nada de abstracto na língua, essas possibilidades só existem se ela tiver registado um número suficientemente grande de especímenes. Quando uma palavra como indecorável surge na fala (ver p. 273), ela supõe um determinado tipo, e este, por sua vez, só é possível pela existência de um número suficiente de palavras semelhantes e pertencentes à língua (imperdoável, intolerável, infatigável, etc.). Passa-se precisamente o mesmo com as frases e com os grupos de palavras dentro de padrões regulares; combinações como a terra gira, ou que diz ele?, ou outras, correspondem a tipos gerais, que têm o seu suporte na língua em referência a outras formas concretas.

Mas é preciso reconhecer que, no domínio do sintagma, não há limite definido entre o facto da língua, resultado do uso colectivo, e o facto da fala, que depende da liberdade individual. Numa multidão de casos, é difícil 211 classificarmos uma combinação de unidades, porque um factor e outro concorreram para a sua produção e em preporções que não é possível determinar,

§ 3. As relações associativas

Os grupos formados por associação mental não se limitam a pôr lado a lado os termos que apresentam qualquer coisa de comum; a inteligência capta também a natureza das relações que os ligam em cada caso e cria tantas séries associativas quantas as diversas relações. Assim, em ausente, ausência, ausentar, etc., há um elemento comum a todos os termos, o radical; mas a palavra ausente pode-se encontrar implicada numa série com outro elemento, o sufixo (cf. ausente, presente, clemente, etc); a associação pode assentar também na simples analogia dos significados (ausente, distante, afastado, etc.) ou, pelo contrário, na semelhança das imagens acústicas (por exemplo, tangente, justamente) (1). Umas vezes há

(1) Este último caso é raro e pode ser considerado anormal, porque o espírito afasta naturalmente as associações capazes de perturbar a compreensão do discurso; mas a sua existência é provada por uma categoria inferior de jogos de palavras construídos sobre confusões absurdas que podem resultar da homonímia pura e simples, como quando se diz: «A água mata secura e o médico, se cura, não mata». Este caso deve ser distinguído daquele em que uma associação, se bem que fortuita, se pode apoiar numa aproximação de ideias (cf. vela — velar, fr. ergot — ergoter, al. blau — — durchbläuen); trata-se de uma interpretação nova para um dos dois termos; hã ainda os casos de etimologia popular (ver p. 285); o facto é interessante pela evolução semântica, mas, do ponto de vista sincrónico, passa muito simplesmente à categoria ausente —

— ausência, a que já nos referimos, (N. do ed. francês)

comunidade dupla de sentido e de forma, outras apenas de sentido ou de forma. Qualquer palavra pode sempre evocar tudo o que é susceptível de lhe ser associado duma maneira ou doutra.

Ao passo que um sintagma traz imediatamente à ideia uma ordem de sucessão e um número determinado de elementos, os termos de uma família associativa não se apresentam nem em número definido, nem numa ordem determinada. Se associarmos desej-oso, calor-oso, furi-oso, etc., não podemos dizer antecipadamente qual será o número das palavras sugeridas pela memória, nem em que ordem aparecerão. Um dado termo é como que o centro de uma constelação, o ponto para onde convergem os outros termos coordenados, cuja soma é indefinida.

ausente ausência; ausentar; etc. distante; afastado; etc. tangente; justamente; etc. presente; clemente; etc.

Contudo, destas duas características da série associativa, ordem indeterminada e número indefinido, só a primeira se verifica sempre; a segunda pode faltar. É o que acontece num tipo característico deste género de 213 agrupamentos, os paradigmas de flexão. Em latim, em dominus, dominī, dominō, etc., temos um grupo associativo formado por um elemento comum, o tema nominal domin-, mas a série não é indefinida como a de ausente, presente, clemente, etc.; o número dos casos é determinado; pelo contrário, a sua sucessão não é ordenada espacialmente e é por um acto puramente arbitrário que o gramático os agrupa de uma forma e não de outra; para a consciência dos sujeitos falantes o nominativo não é, de modo nenhum, o primeiro caso da declinação, e os termos podem surgir numa ou noutra ordem conforme as ocasiões. 1

Notas

  1. Discurso articulado. (N. do T.)
    ↩
  2. Devemos evitar confundir a semiologia com a semântica, que estuda as alterações de significação, e da qual F. de Saussure não fez uma explanação metódica; mas encontraremos o seu princípio fundamental formulado na página 135.
    ↩
  3. Cf. Ad. Naville — Classification des Sciences, 2.º ed., p. 104.
    ↩
  4. No original, Saussure examina a evolução em francês dos étimos crispus e decrepitus. (N. do T.)
    ↩
  5. No original, análise do sistema de relações associativas da palavra francesa enseignement. (N. do T.)
    ↩
Leitura 2 · 2006

O Essencial sobre Linguística

Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva

Mateus, M. H. M., & Villalva, A. (2006). O Essencial sobre Linguística (pp. 11-28, 39-51). Caminho. Transcrição revista à mão a partir do PDF fornecido.

Antes de mais…

A reflexão sobre as línguas vem de há muito tempo, mas a linguística é uma ciência recente, pouco divulgada e mal conhecida. Ainda menos conhecida é a actividade dos que trabalham em linguística – os linguistas. Serão pessoas que sabem muitas línguas? Ou serão aqueles cuja especialidade consiste apenas na decisão sobre o correcto uso da língua (escrita e oral), no conhecimento da origem das palavras ou na informação sobre se existe uma região onde se fale 'bem' uma determinada língua? É certo que o linguista tem conhecimentos em qualquer um destes domínios, mas a sua actividade ultrapassa muitíssimo este tipo de problemas.

Vejamos algumas perguntas a que a linguística procura dar resposta: Como aprendemos a falar? Quais as características comuns e as que diferenciam as línguas? Como se relaciona o uso da língua com a actividade do nosso cérebro? Por que variam as línguas, por que desaparecem umas e surgem outras? E mais, muitas mais são as questões com que se preocupam os que estudam a linguagem e as línguas. Dar a conhecer o que constitui a ciência da linguagem e a actividade dos linguistas é o objectivo da colecção que se inaugura com este livro e que, para tal, é constituído por uma apresentação geral do que se entende hoje como linguística. Comecemos, então, por indagar como se define este termo.

Quando procuramos uma definição de linguística em dicionários gerais ou especializados, em enciclopédias ou em obras dedicadas especificamente a esta área, encontramos, em síntese, uma frase do tipo: linguística é o estudo científico da linguagem 14 humana e das línguas naturais. Para quem nunca teve contacto com esta disciplina, a definição pode causar alguma perplexidade:

... línguas naturais... Mas haverá línguas 'não-naturais'? E porquê estudar só as naturais?

Comecemos por esta questão das línguas naturais. Este é o nome dado a línguas como o Português, o Francês, o Irlandês ou o Árabe, já que podem ser aprendidas como língua materna, mas que também é dado ao Latim1, que ainda hoje pode ser aprendido e falado, mas que já não está disponível como língua materna; ou ao Sânscrito, que perdura na Índia apenas como língua sagrada.

As línguas artificiais

Integrado na colecção Construir a Europa, Umberto Eco [08] publicou um ensaio, onde estabelece uma tipologia das «línguas construídas artificialmente» com base na identificação dos seus objectivos. Eco distingue assim:

– as línguas que buscam a perfeição estrutural ou funcional, como as línguas filosóficas criadas em Inglaterra nos séculos XVII e XVIII (que procuravam substituir o Latim por outra língua veicular), como o Lojban (uma língua oral criada com o propósito de eliminar a ambiguidade) ou como o Láadan (que é apresentada como uma língua mais adequada à expressão das mulheres);

– as chamadas línguas internacionais, como o Esperanto ou o Ido (que pretende ser um aperfeiçoamento do Esperanto);

– e as línguas secretas ou cifradas, como a Língua dos Pês, que tem algum prestígio entre as crianças, ou o Minderico dos cardadores e negociadores de lã de Minde, no início do século XVIII, que faz lembrar os sistemas de criptologia que os meios de comunicação actualmente disponíveis tornam cada vez mais necessários.

Fora desta tipologia ficam ainda várias línguas artificiais, como, por exemplo, o Klingon, uma língua inventada para os alienígenas do Star Trek.

Ainda que a questão da origem das línguas continue a fazer parte da lista dos temas em debate, o que se sabe é que as línguas naturais (e mais especificamente, as protolínguas de que não existem registos materiais) são manifestações espontâneas da capacidade de linguagem, ou seja, não foram construídas 'pelo' homem, foram construídas 'com' o homem. Pelo contrário, as línguas artificiais foram arquitectadas deliberadamente por uma pessoa ou por um pequeno grupo de pessoas, num tempo relativamente curto e, portanto, não se desenvolveram espontaneamente numa comunidade de falantes, nem nunca foram aprendidas como língua materna. Por outras palavras, as línguas artificiais são definidas à partida, enquanto as línguas naturais correspondem à activação de um potencial inscrito no código genético humano.

O interesse da linguística pelas línguas naturais e o complementar desinteresse pelas línguas artificiais (embora haja alguns trabalhos de descrição da forma como estas línguas se organizam) decorrem do entendimento da linguística como uma ciência cognitiva, o que nos conduz à segunda questão:

... linguagem humana... Mas haverá linguagem 'não-humana'? E porquê restringir?

Esta restrição põe fora do alcance da linguística outros sistemas de comunicação, como o das linguagens dos animais, que são igualmente naturais, mas se distinguem da linguagem humana (são clássicos os exemplos de comunicação entre abelhas ou entre golfinhos); ou o de formas de comunicação codificadas, como a linguagem das flores, a linguagem dos tambores ou ainda linguagens de programação.

Quando a 'linguagem' se acrescenta o adjectivo 'humana', o que se pretende é referir exclusivamente a actividade que decorre da existência geneticamente determinada da faculdade da linguagem. Ora, se este é um mecanismo universal, então a relação com a gramática das línguas também é universal, o que implica que todas as línguas possuem propriedades comuns. A estas propriedades dá-se o nome de universais linguísticos: por exemplo, o conjunto de sons que podem ser utilizados pelas línguas naturais é universal; tal como a presença de elementos 16 fundamentais na frase, como o sujeito e o predicado. A par dos universais linguísticos, comuns a todas as línguas, há características particulares que as diferenciam: por exemplo, nem todas as línguas têm uma flexão verbal tão rica como a do Português; nem todas as línguas têm acento fixo na última sílaba de cada palavra, como o Francês.

Compete, pois, à linguística contemporânea estudar a capacidade humana de falar e de compreender enunciados linguísticos e estabelecer a relação entre a faculdade da linguagem e as línguas que a actualizam.

A faculdade da linguagem

O conhecimento dos processos cognitivos ligados às formas de comportamento humano alcançou enormes progressos na segunda metade do século XX, o que tornou possível afirmar que esses processos decorrem de uma base genética universal. Sendo a linguagem uma forma de comportamento humano, já que todos os seres humanos falam, deve então também admitir-se a existência de uma capacidade do sistema cognitivo, inata e universal, que lhe está associada. É essa capacidade, a que se dá o nome de faculdade da linguagem, que permite a realização de actividade linguística, ou seja, que permite compreender e construir, com base numas poucas dezenas de sons e num conhecimento gramatical implícito, uma infinidade de expressões linguísticas.

A existência da faculdade da linguagem não é, porém, uma hipótese assente apenas na constatação da universalidade dos processos cognitivos e de que todos os homens falam. Esta hipótese é também sustentada pela forma como se processa a aquisição da língua. Trata-se de um processo comum a todas as crianças, qualquer que seja o estímulo linguístico a que são expostas, isto é, qualquer que seja a língua que ouvem falar à sua volta. Em tempo incrivelmente breve, e perante dados incompletos, a competência linguística é rapidamente adquirida. Essa aprendizagem não pode provir senão de um mecanismo cognitivo universal e genético especialmente preparado para esse fim.

A última das questões suscitadas pela definição apresentada no início diz respeito ao carácter científico dos estudos linguísticos:

... estudo científico... Mas porquê 'científico'? E 'científico' por oposição a quê?

Esta restrição serve, antes de mais, para garantir que a abordagem que a linguística faz ao seu objecto de conhecimento

(a linguagem humana e as línguas naturais) é uma abordagem objectiva, sistemática, rigorosa e teoricamente enquadrada. No entanto, a demonstração de que a linguística é uma ciência, como sucede com qualquer outro domínio do conhecimento, e em particular com as chamadas ciências humanas, é uma tarefa exigente. A afirmação serve, então, para já, como uma declaração de princípios e a demonstração virá um pouco mais adiante neste livro.

A natureza concisa das definições deixa entrever que muito fica de fora. Fecha-se então, aqui, a definição da enciclopédia e abre-se a porta a uma visita guiada pelas diversas dimensões deste domínio do conhecimento, que é a linguística.

Perguntas interessantes & respostas conhecidas

Como se sabe que uma língua é uma língua?

Se, entre outras competências, à linguística cabe o estudo das línguas, então justifica-se reflectir sobre o que é uma língua e conceitos relacionados, como dialecto, sociolecto, idiolecto e variedade.

O entendimento comum destes termos faz com que se aceite que dialecto identifica o sistema linguístico próprio de uma dada região (como o dialecto de Lisboa, por exemplo); que língua remete para o sistema linguístico que conjuga todos os dialectos falados num país (o Português é uma língua); e que variedade seja interpretada como a manifestação nacional que uma língua falada em países diversos assume em cada um deles (o Português Europeu é uma variedade do Português). Sociolecto fica fora desta hierarquia de conceitos, embora se possa definir como um conjunto de idiolectos que corresponde a um recorte social da língua (pode falar-se no sociolecto dos adolescentes, dos surfistas ou dos economistas). O termo sociolecto tende a ser substituído por dialecto (que ganha em generalidade), encontrando mesmo uma designação específica para algumas destas realidades, como nos casos de 'economês' ou de 'futebolês'. Idiolecto, que identifica o sistema linguístico de cada falante, individualmente considerado, é um conceito praticamente desconhecido.

O que o entendimento comum destes termos mostra é que a definição destes conceitos não assenta em critérios de natureza linguística. Deste ponto de vista, uma língua é um sistema de comunicação que faz uso da faculdade da linguagem activada pela exposição dos falantes a estímulos linguísticos, durante o chamado 22 período de aquisição da língua. Ora, do ponto de vista da linguística, o conceito de dialecto pode ser definido da mesma exacta maneira.

Tem, aliás, sido defendido por muitos linguistas que devem ser tratados no âmbito de uma política linguística. Os critérios objectivos (como a inteligibilidade mútua, o número de falantes, a coesão geográfica e política da comunidade de falantes) nem sempre permitem identificar com clareza o que é uma língua e o que é um dialecto.

Na verdade, são muitos os casos em que sistemas linguísticos diferentes são classificados ora como línguas diferentes, ora como uma língua e um dialecto dessa língua. Por exemplo, o facto de o Português e o Galego serem, por alguns, consideradas duas línguas, ainda que derivadas de um mesmo Galaico-Português saído da matriz latina, não pode deixar de ser relacionado com a soberania dos países onde essas línguas são originalmente faladas: o Galego, em Espanha; o Português, em Portugal. Em contrapartida, que o Português Europeu e o Português Brasileiro sejam considerados a mesma língua é o resultado, por vezes contestado, de um dado percurso histórico, quer por via da herança que Portugal partilha com o Brasil, quer pela vontade que o Brasil sentirá de manter a conexão com Portugal. A escolha do Português, língua falada nas sedes do poder político desde o início da colonização europeia, poderá servir esse fim.

A língua portuguesa

«A realidade da noção de língua portuguesa, aquilo que lhe dá uma dimensão qualitativa para além de um mero estatuto de repositório de variantes, pertence, mais do que ao domínio linguístico, ao domínio da história, da cultura e, em última instância, da política. Na medida em que a percepção destas realidades for variando com o decorrer dos tempos e das gerações, será certamente de esperar, concomitantemente, que a extensão da noção de língua portuguesa varie também.»

Eduardo Paiva Raposo (*) [15]

Por outro lado, em determinadas circunstâncias, o termo língua não chega para identificar o conceito, razão pela qual a linguística faz uso de distinções como língua materna, língua segunda, língua estrangeira, língua oficial, língua de trabalho, língua de comunicação, língua franca ou língua ágrafa, para referir apenas alguns exemplos.

O Português Brasileiro

Muitos intelectuais brasileiros, particularmente no início do século XX, procuraram atribuir ao Português Brasileiro o estatuto de língua e de língua distinta do Português Europeu. O carácter voluntarista desta tentativa condenou-a ao fracasso.

Em contrapartida, tem-se vindo a vulgarizar, em Portugal, a opinião (algo pejorativa) de que a língua falada pela crescente comunidade imigrante brasileira é o 'brasileiro'. Talvez os portugueses ainda não tenham compreendido as implicações desta posição: de um ponto de vista estratégico, a unidade linguística entre Portugal e o Brasil interessa ao Brasil e interessa também a Portugal.

Face a esta variedade terminológica, não é, pois, fácil determinar o número de línguas existentes no mundo: tudo depende do que se considera ser uma língua ou se classifica como dialecto. Encontram-se algumas referências a um número próximo dos 3000, mas o The Ethnologue [9], uma base de dados sobre as línguas do mundo, apresenta um total de 6809, sendo que a Europa contribui com apenas 3% (ou seja 230 línguas, muitas das quais estão quase extintas). É também interessante notar que 96% das línguas existentes no mundo são faladas por apenas 4% da população mundial; que cerca de 80% das línguas são faladas apenas em um país e que cerca de 20 línguas são faladas por vários milhões de pessoas em diversos países.

O interesse destes dados não é meramente estatístico. O volume de Abril de 2000 do The Courier [18] é dedicado aos conflitos e à coexistência das diferentes línguas do mundo. Aí se chama a atenção para o facto de metade da população mundial usar apenas oito línguas, enquanto um sexto das línguas do mundo são faladas apenas na Nova Guiné. O mesmo documento refere o alastramento do Inglês como meio de comunicação mundial (visto como resultado de um fenómeno de imperialismo cultural). E menciona ainda o facto de grande número das chamadas línguas minoritárias estarem a desaparecer a um ritmo cada vez mais 24 acelerado (sendo que comunidades linguísticas formadas por um número de indivíduos inferior a 100 000 não asseguram a sobrevivência da sua língua).

Repartição das línguas por continentes

Gráfico circular: Ásia 33% · África 30% · Pacífico 19% · Américas 15% · Europa 3%.

O nome das línguas é outra das questões que pode suscitar controvérsia. Parece ser um facto pacífico, esperável até, que em Portugal se fale Português, mas que esse seja o nome da língua falada no Brasil é um dado que só é compreensível à luz do contexto histórico de formação desse país. Por outro lado, que uma das línguas oficiais de Espanha seja o Espanhol, quando esse nome corresponde a uma renomeação do Castelhano, é um facto que muitos dos falantes nativos das restantes línguas oficiais de Espanha (como o Catalão ou o Basco) têm dificuldade em aceitar.

A caracterização linguística de Portugal mostra-nos que a comunidade de falantes é maioritariamente falante nativa do Português, o que significa que se trata de uma comunidade que não é afectada por muitas tensões linguísticas. Por um lado, as descrições da diversidade do Português no território de Portugal (cf. [06a] e [07]) mostram uma divisão mais ou menos estável entre os dialectos setentrionais (que incluem os dialectos transmontanos, minhotos e beirões), os dialectos centro-meridionais (que incluem os dialectos do Centro e do Sul) e os dialectos insulares (dos Açores e da Madeira)2. Sabe-se, no entanto, que a generalização 25 do uso de tecnologias multimédia, como a televisão, tende a esbater as diferenças dialectais.

Por outro lado, ainda que o Português não seja a única língua oficial de Portugal, é esta a língua falada por maior número de falantes e a que tem maiores possibilidades de crescimento. As outras línguas oficiais são a Língua Gestual Portuguesa e o Mirandês. A Língua Gestual Portuguesa é utilizada por boa parte da comunidade surda portuguesa como língua materna. Esta língua só foi oficialmente reconhecida em 2003, facto que veio a permitir, por exemplo, a escolarização dos seus falantes nesta língua. O Mirandês3, que é uma língua de origem asturo-leonesa e não galaico-portuguesa (como o Português), tem estatuto de língua oficial desde 1999, mas só é falado por um pequeno número de falantes, numa região do Nordeste transmontano, o que a caracteriza como língua minoritária e, a prazo, pode pôr em causa a sua sobrevivência. Para além das línguas oficiais há, em Portugal, comunidades falantes de línguas estrangeiras, como o Crioulo Caboverdiano, o Romeno ou o Ucraniano.

Variedades do Português

Português Falado. Documentos Autênticos [10] é um registo (com cerca de 9 horas de gravação e transcrição ortográfica alinhada com o som), quer de conversas informais quer de intervenções mais formais, exemplificativo do Português falado em todos os países de expressão oficial portuguesa.

Imagem: capa de «Português Falado. Documentos Autênticos — Gravações áudio com transcrição alinhada»: angola, brasil, cabo verde, goa, guiné-bissau, macau, moçambique, portugal, são tomé e príncipe, timor-leste.

Por último, a distribuição geográfica das comunidades falantes do Português assegura a presença desta língua na Europa (Portugal), em África (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique 26 e São Tomé e Príncipe), na América do Sul (Brasil) e na Ásia (Timor Lorosae e, residualmente, Macau). O reconhecimento do Português como língua de trabalho em organizações internacionais, como a União Europeia, o Mercosul ou a Organização de Unidade Africana, vem desta disseminação pelos diversos continentes. A comunidade internacional falante de Português já encontrou, mesmo, uma instituição sua representante, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A esta diversidade geográfica corresponde uma esperável diversidade linguística.

Os crioulos de base portuguesa

A propósito da diversidade do Português não pode deixar de referir-se o papel desta língua na formação de um grande número de crioulos:

«Os crioulos são línguas naturais, de formação rápida, criadas pela necessidade de expressão e comunicação plena entre indivíduos inseridos em comunidades multilingues relativamente estáveis. Chamam-se de base portuguesa os crioulos cujo léxico é, na sua maioria, de origem portuguesa. No entanto, do ponto de vista gramatical, os crioulos são línguas diferenciadas e autónomas. [...]

Em África formaram-se os Crioulos da Alta Guiné (em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Casamansa) e os do Golfo da Guiné (em São Tomé, Príncipe e Ano Bom). Classificam-se como Indo-portugueses os crioulos da Índia (de Diu, Damão, Bombaim, Korlai, Quilom, Cananor, Tellicherry, Cochim e Vaipim e da Costa de Coromandel e de Bengala) e os crioulos do Sri-Lanka, antigo Ceilão (Trincomalee e Batticaloa, Mannar e zona de Puttallam). Na Ásia surgiram ainda crioulos de base portuguesa na Malásia (Malaca, Kuala Lumpur e Singapura) e em algumas ilhas da Indonésia (Java, Flores, Ternate, Ambom, Macassar e Timor) conhecidos sob a designação de Malaio-portugueses. Os crioulos Sino-portugueses são os de Macau e Hong-Kong. Na América encontramos ainda um crioulo que se poderá considerar de base ibérica, já que o português partilha com o castelhano a origem de uma grande parte do léxico (o Papiamento de Curaçau, Aruba e Bonaire, nas Antilhas) e um outro crioulo no Suriname, o Saramacano, que, sendo de base inglesa, manifesta no seu léxico uma forte influência portuguesa.»

Dulce Pereira [06 b]

A situação do Português é, pois, complexa e merecedora de atenção linguística e política. No conjunto das línguas do mundo, o Português é uma das mais faladas: embora a ordenação das línguas varie de autor para autor, em função dos dados considerados e das fontes utilizadas, a graduação mostra com clareza que o Português ocupa uma das posições de topo. Vejamos o seguinte exemplo4:

     1. Chinês, Mandarim   885,000,000
     2. Espanhol           332,000,000
     3. Inglês             322,000,000
     4. Bengali            189,000,000
     5. Hindi/Urdu         182,000,000
     6. Português          170,000,000
     7. Russo              170,000,000
     8. Japonês            125,000,000
     9. Alemão              98,000,000
    10. Chinês, Wu          77,175,000

Esta descrição do 'valor' do Português numa hierarquização das línguas do mundo pode induzir no erro de que há línguas melhores ou mais importantes do que outras. Não é esse o sentido que deve ser dado ao que acaba de ser dito: não é por ser falada por mais pessoas, em mais países ou em mais instituições internacionais que uma língua ganha maior valor intrínseco. O que essas medidas asseguram é a vitalidade da língua e alguma garantia da sua preservação, com o que isso pode significar de vantagem para as comunidades que a falam. Do ponto de vista linguístico, o número de falantes de uma língua ou o prestígio internacional que ela possa ter são critérios de comparação absolutamente vazios de significado.

A presunção de que há línguas melhores ou mais importantes do que outras radica integralmente em raciocínios preconceituosos, semelhantes, aliás, aos que tomam a norma de uma língua como um dialecto mais 'correcto', 'respeitável' ou 'sofisticado' do que 28 outros ou aos que consideram que os crioulos não são línguas ou são línguas 'deficientes', ou ainda àqueles que afirmam que a gramática de uma dada língua é mais complexa ou difícil do que a de outra. Não existe qualquer fundamento linguístico para nenhum destes raciocínios – trata-se de manifestações de uma ideologia que reconhece aos detentores do poder direitos que não reconhece aos restantes indivíduos e que defende que o acesso ao poder passa pela imitação dos poderosos.

De onde vem a reflexão sobre a linguagem e as línguas?

As notícias conhecidas sobre a origem das línguas humanas situam-nos entre 100 000 e 20 000 a. C. Sabe-se que o tracto vocal evoluiu de uma forma não-humana, de modo a permitir o estabelecimento de um sistema de comunicação rápido e eficaz, ainda que à custa de uma perda de proficiência no sistema respiratório e na deglutição. Também se sabe que o tracto vocal de um Neandertal é semelhante ao de uma criança recém-nascida nossa contemporânea, o que permite pôr a hipótese de que a sua acuidade linguística seria idêntica. A origem das reflexões sobre as línguas tem, naturalmente, de ser posterior. O que se segue procura dar conta dos pontos de viragem na história deste domínio do conhecimento.

A invenção da escrita

Povos como os egípcios ou os sumérios, que inventaram formas de escrita numa época longínqua situada entre o IV e o II milénios a. C., tiveram necessariamente que tomar consciência da estrutura da sua língua para a escrever. A invenção da escrita teria que levar a uma reflexão sobre a natureza da língua, visto tratar-se de uma técnica que deveria dar conta dos elementos da língua falada separando, pelo menos, as frases umas das outras. Tanto os egípcios quanto os sumérios escreviam já frases constituídas por uma sucessão de símbolos que correspondiam às palavras.

Onde começa a linguística?

Pode dizer-se que a especulação acerca da origem das línguas é quase infrutífera: não há registos e não há como contornar a efemeridade da produção linguística. Os enunciados vivem enquanto são produzidos e recebidos, pelo que deles mais não pode restar do que a memória nos falantes envolvidos na situação de enunciação. Saber se a capacidade de linguagem nasceu com a espécie humana, ou se o desenvolvimento do homo loquens (expressão latina usada para referir a espécie humana dotada de capacidade de linguagem) é posterior, e se todas as línguas têm origem num único sistema linguístico ou se a diversidade é um dado de partida, são desígnios tão (in)alcançáveis, para já, quanto o do conhecimento da origem e evolução da própria humanidade.

A dificuldade de encontrar uma teoria satisfatoriamente explicativa acerca da origem de todas as línguas levou a Société de Linguistique de Paris a aprovar, em 1866, uma moção proibindo qualquer referência à origem da linguagem nas suas reuniões. Esta proibição não fez, contudo, desaparecer o interesse pela relação histórica e genealógica entre as línguas. Foi, aliás, esse interesse que motivou a enorme aceitação com que foi recebida uma conferência sobre o Sânscrito, apresentada por William Jones, um estudioso de línguas orientais, na Sociedade Asiática de Bengala, em 1786. Nessa conferência, Jones afirmou que o Sânscrito possuía uma estrutura maravilhosa, mais perfeita do que o Grego e mais abundante do que o Latim, mas que, simultaneamente, evidenciava um estreito parentesco não só com essas duas línguas mas também com o Céltico, o Gótico e o antigo Persa. A existência 40 de um tal parentesco poderia vir a mostrar que todas derivavam de uma fonte comum que talvez já não existisse, sendo portanto necessário proceder a uma comparação do Sânscrito com línguas europeias, para que se pudesse ir mais longe no conhecimento da sua origem e das suas características gramaticais. Se esse parentesco viesse a ser provado, então a língua falada na Índia antiga e as línguas que estavam na base das línguas europeias actuais teriam tido uma 'mãe' comum. A hipótese da existência dessa protolíngua desconhecida veio a ser aceite, tratando-se de uma recriação a partir dos aspectos comuns que era possível detectar entre as suas 'filhas' (as línguas antigas da Índia e da Europa), ou seja, entre as línguas a que se podia ter acesso, fosse directo, através de documentos escritos, ou indirecto, analisando as línguas contemporâneas. Essa protolíngua passou a ser denominada Indo-europeu.

Iniciou-se, então, a grande empresa dos linguistas da época que, seguindo o interesse contemporâneo pela descoberta das origens do pensamento e da religião, o estenderam ao estudo das línguas, tomando em mãos o trabalho de estabelecer sistematicamente a comparação entre elas. Dos estudiosos comparatistas cujas obras ainda hoje são merecedoras de atenção, destacam-se Rasmus Rask (1787-1832), filólogo dinamarquês, e Franz Bopp (1791-1867), filólogo alemão, que estabeleceram princípios e métodos para o estudo comparado das línguas a partir da análise filológica de textos. A estes nomes deve acrescentar-se o de Wilhelm von Humboldt (1767-1835), linguista e político alemão que se interessou pela relação entre o homem e a linguagem («a língua é o órgão que forma o pensamento») e associou a estas reflexões o conceito de que a superioridade de uma língua estaria relacionada com a superioridade do povo que a falava.

Assim, o final do século XVIII encontrou uma forma de contornar o problema do desconhecimento da origem das línguas, propondo que o caminho fosse percorrido em retrocesso, com base na observação directa dos dados linguísticos e numa rigorosa metodologia de trabalho. A pouco e pouco, a análise comparada das línguas foi abrindo caminho para o estabelecimento da sua genealogia, em sintonia, aliás, com os métodos científicos seus contemporâneos: o entendimento da língua como um organismo 41 vivo que nasce, cresce e morre aproximou o seu estudo das hipóteses formuladas por Darwin sobre a origem das espécies e a sua evolução por meio de uma selecção natural. No entanto, não foi por causa deste enfoque histórico que essa época foi entendida como a do nascimento da linguística como ciência. Foi sim em consequência da descrição sistemática, rigorosa e comparada das unidades fonéticas e morfológicas das línguas em análise. Não se tratava já de estudar aspectos históricos ou filosóficos através das línguas, mas, como dizia Franz Bopp [05], as línguas eram estudadas por si mesmas, como objecto e não como meio de conhecimento.

Este é o momento em que se considera que a linguística se constitui como um domínio do conhecimento. A marca visível aparece nos trabalhos de toda uma plêiade de investigadores alemães e nórdicos, maioritariamente redigidos em Alemão, que fixaram a relação entre as línguas indo-europeias, evidenciando as correspondências fonéticas e morfológicas detectadas na análise das línguas escandinavas e germânicas, do Grego e do Latim, do Lituano, do Arménio, do Sânscrito e do Iraniano.

A palavra 'linguística'

Cabe aqui abrir um parêntese sobre a utilização do termo linguística, já que alguma relação existe entre o seu uso e a consideração da linguística como um domínio científico. 'Sprachwissenschaft', 'linguistics', 'linguistique' e 'linguística' são termos de línguas diferentes (Alemão, Inglês, Francês e Português, respectivamente) que não começaram a ser usados simultaneamente. Com os linguistas alemães, o termo Sprachwissenschaft surgiu a partir da segunda metade do século XIX. O uso dos termos equivalentes nas outras línguas é bem posterior. Vale como curiosidade referir que, até há bem pouco tempo, a palavra inglesa 'linguist' significava, sobretudo, 'aquele que sabe línguas'. A Romània (designação que engloba o conjunto dos países românicos) também foi muito renitente na substituição da denominação tradicional de filologia (que estuda textos escritos) pela de 'linguística' quando se tratava do estudo das línguas. Note-se, por exemplo, que nos anos 50 do século XX as disciplinas que tratavam de língua na Faculdade de Letras de Lisboa – mesmo quando já se falava do trabalho de Saussure – se chamavam 'Filologia Portuguesa' e 'Gramática Comparativa'.

A Língua portuguesa

A Série Memória da Língua da Biblioteca Nacional Digital disponibiliza uma reprodução digitalizada da 1.ª edição de A Língua Portuguesa, em purl.pt/141 e uma outra da 2.ª edição, de 1887, emendada e aumentada pelo autor, em purl.pt/30.

Importa agora sublinhar duas importantes orientações que se manifestaram no estudo das línguas durante a segunda metade do século XIX. A primeira resulta de um crescente interesse pela descrição das línguas vivas, faladas pelas populações contemporâneas. É neste quadro que Adolfo Coelho publica A Língua Portuguesa: Fonologia, Etimologia, Morfologia e Sintaxe, sendo a data da sua publicação – 1868 – considerada por Leite de Vasconcelos (médico de formação de base, mas notável como etnólogo, arqueólogo e filólogo) o «limite a quo da filologia científica portuguesa»7.

A segunda orientação dominante está relacionada com o desenvolvimento da fonética. Assente em métodos experimentais, beneficiou do progresso da física e da anatomia que permitiu a construção de instrumentos adequados à análise do chamado contínuo sonoro e dos movimentos articulatórios ligados à produção dos sons da fala. Em simultâneo, com o progresso dos estudos fonéticos, o estudo histórico ou diacrónico, que relacionava estados de língua separados no tempo, era substituído por uma abordagem sincrónica, que prestava atenção aos diversos fenómenos linguísticos que caracterizam um único momento na existência de uma língua. É este o contexto que justifica que, na primeira metade do século XX, os estudos de dialectologia e de geografia linguística passassem a primeiro plano na atenção dada pelos linguistas à língua falada. Este interesse foi suscitado pelo trabalho de Jules Gilliéron, dialectólogo de origem suíça que, na última década do século XIX, preparou o Atlas Linguistique de la France, publicado entre 1902 e 1923. Em Portugal, a Esquisse d'une Dialectologie Portugaise, de Leite de Vasconcelos, deu a conhecer as particularidades dos dialectos portugueses que ainda 43 não tinham sido estudados sistematicamente.

A orientação que tomaram os estudos das línguas elaborados pelos sucessores dos linguistas da primeira metade do século XIX foi contestada pela geração seguinte, a geração dos neogramáticos (uma tradução desajeitada do termo original alemão – Junggrammatiker – que significava 'jovens gramáticos'), cujas perspectivas se desenvolveram durante o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Aceitando um ponto de vista eminentemente histórico, os neogramáticos introduziram a hipótese da existência de leis fonéticas de carácter absoluto, como as leis de Grimm, que estabeleceram correspondências fonéticas a partir da evolução de palavras cognatas em línguas irmãs. Por exemplo: as palavras começadas por [f], no Português, correspondem com muita frequência a palavras começadas por uma consoante aspirada, no Castelhano: farinha / harina, filho / hijo). Estas leis eram apresentadas como universais, ou seja, aplicar-se-iam cegamente sobre os sons e explicariam as mudanças linguísticas de uma forma idêntica para todas as línguas. A atestação de pares de palavras como fogo / fuego veio a mostrar que a realidade é um pouco mais complexa, dado que, neste caso, a evolução fonética não gerou o resultado previsto. Apesar de objecções deste tipo, esta foi uma época em que floresceram as gramáticas históricas das línguas europeias. As seguintes obras merecem especial relevo, pela indubitável importância que têm para o conhecimento da história do Português: a Sintaxe Histórica Portuguesa de Epifânio da Silva Dias foi publicada em 1918 e o Compêndio de Gramática Histórica Portuguesa de José Joaquim Nunes foi publicado em 1919.

A Esquisse de Leite de Vaconcelos

A Esquisse foi publicada em 1901. Em 1987, o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa patrocinou uma reimpressão da 2.ª edição, que inclui aditamentos e correcções do autor. A Série Memória da Língua da Biblioteca Nacional Digital disponibiliza uma reprodução digitalizada da 2.ª edição em purl.pt/160.

A Série Memória da Língua da Biblioteca Nacional Digital disponibiliza uma reprodução digitalizada da 1.ª edição da Sintaxe Histórica em purl.pt/190.

A linguística portuguesa fora de Portugal

O interesse pelo estudo do Português não tem fronteiras, como bem o demonstra o trabalho de Jules Cornu, autor da primeira gramática histórica do Português, publicada em 1888, em Alemão, com o título Grammatik der Portugiesischen Sprache; ou o livro Altportugiesisches: Elementarbuch, de Joseph Hüber, publicado em 1933 e traduzido em 1986 com o título Gramática do Português Antigo; e ainda From Latin to Portuguese, que Edwin Williams apresentou em 1938 e que só em 1975 foi traduzida com o título Do Latim ao Português.

Papel particularmente relevante neste domínio é o que cabe ao Brasil, com linguistas como Said Ali, autor de diversos textos de referência. A sua Gramática Histórica [da Língua Portuguêsa], de 1931 (que reúne dois volumes anteriormente publicados – a Lexeologia do Português Histórico, de 1921, e a Formação de Palavras e Sintaxe do Português Histórico, de 1923), foi, à data da sua publicação, um trabalho inovador e mantém-se, até hoje, como uma referência incontornável.

O século XX

Descobertas as relações genéticas entre as línguas e algumas das bases fonéticas da mudança linguística, chega-se ao século XX e ao início da pesquisa que olha para as línguas na sua especificidade, como expressão de uma faculdade humana. Por reacção ao positivismo dos neogramáticos, e admitindo uma dimensão psicológica para além da dimensão mecânica anteriormente reconhecida, surgiu na Europa, durante a primeira metade deste século, a corrente que iria ocupar durante largos anos o lugar mais importante no estudo da ciência da linguagem e das demais ciências humanas. Trata-se do estruturalismo, corrente de pensamento que se baseava na importância que a 'forma' vinha assumindo na recém-criada psicologia, e na perspectiva de que a linguagem era uma actividade com uma estrutura especial, ou seja, uma actividade que funcionava em sistema. Enquanto, na Europa, essa vertente das teorias psicológicas influenciou largamente a linguística, nos Estados Unidos da América foi a teoria do comportamento, que relacionava estímulo e resposta, o instrumento que os linguistas 45 norte-americanos usaram para explicar o funcionamento da linguagem.

A estas duas vertentes do estruturalismo estão ligados os nomes de dois grandes linguistas: Ferdinand de Saussure (1857-1913), na Europa [17], e Leonard Bloomfield (1887-1949), na América do Norte [04]. Para a história da linguística um dos mais relevantes movimentos da época foi a criação, em 1926, do Círculo Linguístico de Praga, que estabeleceu uma coordenação nos estudos da fonética e da fonologia das línguas e representou uma inovação nos métodos de análise estruturais. Os linguistas mais notáveis deste grupo foram o polaco Baudouin de Courtenay (1845-1929) e os russos Nicolai Trubetzkoi (1890-1938) e Roman Jakobson (1896-1982).

Para todos estes linguistas, 'estrutura' significa um conjunto de elementos que constituem um sistema pelas relações que estabelecem entre si. Assim, por exemplo, afirmar que as línguas têm uma estrutura fonológica significa que se servem de um conjunto de sons que funcionam nas palavras por contraste e na relação de uns com os outros. O conceito de estrutura é uma presença constante nos trabalhos dos linguistas da época, motivando a criação de métodos e técnicas de descrição e análise próprios. Os dados em que assentam as descrições das línguas constituem o corpus que, na perspectiva estrutural, deve ser recolhido junto dos falantes para atestar as particularidades e os elementos que pertencem, na realidade, à língua em estudo. Os bons resultados da investigação realizada no que diz respeito à descrição das línguas, com metodologias de trabalho claras e sistemáticas, e que se tornaram visíveis no efectivo progresso do conhecimento linguístico, convidaram outras ciências humanas, como a antropologia, a sociologia e a arqueologia, a adoptar os instrumentos de análise que a linguística desenvolveu.

Em Portugal, a perspectiva estruturalista está presente, pela primeira vez, na obra de Jorge de Morais Barbosa (cf. [03]), publicada em 1965. No Brasil, também nos anos 60, distinguiu-se Joaquim Mattoso da Câmara Jr., que, por oposição ao mecanicismo reinante na época na linguística norte-americana, tomou então como referência a visão mentalista desenvolvida por Sapir (cf. [16]).

A linguística formal

A linguística foi precursora na adopção da abordagem estruturalista, mas também recorreu a outros domínios do conhecimento, como a lógica, a estatística e a computação, para encontrar instrumentos de análise.

Foi durante o século XIX e o início do século XX que a lógica abandonou certos fundamentos que remontavam a Aristóteles (por exemplo, a noção filosófica abstracta de 'forma' por oposição à de 'matéria') e, tomando a matemática como modelo, construiu uma linguagem constituída por símbolos e regras para a expressão do conteúdo do pensamento lógico.

Na interacção da matemática com a lógica foram adoptados instrumentos teóricos como os sistemas formais ou a lógica de predicados, que influenciaram profundamente os estudos linguísticos a partir de meados do século XX. Os linguistas passaram, desde então, a recorrer a representações formais das unidades e dos processos linguísticos. De uma forma muito simplificada, pode dizer-se que os elementos concretos são substituídos por símbolos que permitem representar, de um modo abstracto, as relações entre os elementos dos sistemas linguísticos. A utilização destes instrumentos por linguistas norte-americanos desenvolveu, por exemplo, a análise das frases em constituintes imediatos, ou seja, em unidades menores do que a frase, como o sintagma nominal e o sintagma verbal (representados respectivamente por SN e SV), e a análise dos sintagmas em constituintes menores, até chegar às palavras.

Quando se representa a unidade 'frase' por F, a unidade que inclui o nome e os seus especificadores e modificadores por SN e o verbo e seus complementos por SV, podem apresentar-se as relações entre estas três unidades através de uma representação, que faz uso de parênteses rectos para mostrar os limites de cada constituinte e as suas relações hierárquicas. Por exemplo, em: [_{F} [SN] [SV]]_{F}:

• [SN] e [SV] são unidades do mesmo nível, linearmente dispostas pela ordem apresentada: [SN] precede [SV] e [SV] é precedido por [SN]; • [F] domina [SN] e [SV] ou, inversamente, [SN] e [SV] são dominados por [F].

Esta é uma representação formal extremamente elementar, mas que cobre todas as frases que integrem apenas um sintagma nominal e um sintagma verbal, como é o caso de:

O irmão do meu cunhado tem um carro descapotável. [_{F} [o irmão do meu cunhado]_{SN} [tem um carro descapotável]_{SV} ]_{F}

Ainda que seja equivalente à anterior, a representação formal das frases que mais se vulgarizou foi a dos chamados indicadores sintagmáticos, mais conhecidos como árvores. Os parênteses são substituídos por ramos que nascem no nó que domina e terminam no(s) nó(s) dominado(s). Os ramos que se unem na base, formando um triângulo, indicam que o constituinte que dominam não está plenamente analisado:

                        F
           _____________|_____________
           |                         |
          SN                         SV
         /  \                       /  \
        /    \                     /    \
       /______\                   /______\
o irmão do meu cunhado    tem um carro descapotável

A vantagem de um modelo de análise linguística que utilize este tipo de representação face aos modelos não-formalizados reside no acréscimo de capacidade explicativa e na melhoria da classificação das estruturas complexas. A linguística é um domínio em que o objecto do conhecimento é descrito por si próprio: é a língua que permite descrever a língua. Sendo a ambiguidade8 48 uma das propriedades das línguas naturais, só a utilização de um sistema formal permite descrever os fenómenos linguísticos de forma inequívoca.

As árvores do conhecimento

O uso da metáfora da árvore na representação das estruturas linguísticas não é original. No domínio dos estudos linguísticos, regista-se a árvore da gramática, uma elegante iluminura incluída nas Grammatices Rudimenta, um manual (incompleto) de ensino de verbos, datado de 1538, que João de Barros dedicou à Infanta D. Maria. A primeira utilização da árvore como instrumento para a representação do conhecimento é, contudo, bastante mais antiga: a árvore de Porfírio encontra-se na tradução para Latim que este filósofo fenício (século III a. C.) fez do tratado das categorias de Aristóteles [14]. Na tradição generativa, as árvores (invertidas) mostram a hierarquia dos constituintes: os ramos indicam relações de domínio entre nós (os pontos onde pode haver ramificação), que são identificados por etiquetas categoriais.

Imagem: iluminura da «árvore da gramática» das Grammatices Rudimenta, de João de Barros.

Será a linguística uma ciência?

Esta dúvida sobre o carácter científico da linguística é comum a todas as chamadas ciências sociais ou humanas. Tal como em relação à psicologia, à sociologia ou à antropologia, também no âmbito dos estudos da linguagem convivem diversas formas de conhecimento, que vão desde as abordagens filosóficas e históricas às construções teóricas e formalizadas, passando pelas descrições pré-científicas e pelas aplicações em domínios de grande diversidade, da sociologia à informática, às neurociências ou ao ensino. Esta multiplicidade de tratamentos decorre da própria natureza da linguagem, que é simultaneamente veículo de integração social (a língua é uma das formas de comunicação com os outros) e factor constituinte da construção do indivíduo: em boa medida, é através da língua que as pessoas vão integrando a experiência da sua vivência. Na verdade, a relação da actividade linguística com os factos históricos e sociais, com o universo psicológico e com a criação artística, coloca o estudo da linguagem e das línguas no centro de uma constelação formada por múltiplas interacções com outras formas de comportamento humano. Além disso, como já foi dito, a especificidade da linguagem humana leva a uma coincidência entre o objecto de análise e o meio com que se explicita e produz essa análise: é com palavras que se estudam as palavras. Estes aspectos particulares do estudo da linguagem permitem, estimulam e valorizam interpretações e análises subjectivas e não-científicas.

Por todas estas razões tem sido difícil o caminho de quem defende que a linguística é uma ciência. Para justificar esta afirmação 50 é, pois, necessário reflectir sobre as características essenciais do que se considera ser uma ciência e verificar se essas características também existem neste domínio do saber.

O conceito de ciência

Pode definir-se ciência como um conhecimento sistematizado do que vulgarmente se denomina 'o real'. Para que seja considerada científica, a forma de produzir esse conhecimento deve obedecer a um conjunto de requisitos que permitam, em idênticas circunstâncias, a sua verificação. Esses requisitos incluem, entre outros:

• uma clara delimitação do objecto de estudo: não é possível estudar tudo ao mesmo tempo, é preciso garantir que o estudo seja exequível; • a escolha de uma metodologia de trabalho: é necessário definir como se constitui um objecto de estudo e como se vai estudar o que se pretende conhecer; • uma descrição rigorosa dos dados, que permita uma representação formalizada das estruturas, das relações e das funções das unidades que constituem o objecto de estudo, de modo a garantir que os mesmos dados possam voltar a ser analisados; • a formulação de hipóteses que dêem a conhecer a porção de 'real' analisada, sabendo-se que as hipóteses validadas por um dado estudo científico poderão vir a ser rejeitadas pelas hipóteses colocadas por um estudo posterior e que essa rejeição não deve ser entendida como um retrocesso, mas sim como um progresso no desenvolvimento do conhecimento científico.

Resta dizer que todos estes requisitos têm de ser cumpridos no quadro de uma dada escolha teórica, que explicite um conjunto de hipóteses coerentemente formuladas que permitam descrever e analisar um dado domínio do conhecimento.

Estas são características das áreas habitualmente consideradas 'científicas', como a física, a biologia ou a matemática, mas há 51 outros domínios que procedem de modo idêntico – a linguística teórica é um deles.

A linguística teórica

Ainda que os anteriores paradigmas da análise linguística, como, por exemplo, o do estruturalismo, constituam quadros teóricos coerentes, é no início da segunda metade do século XX que a linguística teórica conhece um desenvolvimento de maior relevo. Trata-se da Teoria Generativa, indissociavelmente ligada à publicação, em 1957, do livro Aspects of the Theory of Syntax, de Noam Chomsky.

A relevância da Teoria Generativa é tributária de um conjunto de factores. Antes de mais, esta proposta teórica retoma e desenvolve a hipótese da existência de uma capacidade específica do homem, denominada faculdade da linguagem, que tem sido entendida como um dos factores principais, senão o mais importante, na distinção entre o homem e os animais.

Na sequência desta hipótese, a Teoria Generativa defende que todas as línguas do mundo compreendem um mesmo conjunto de princípios, a que dá o nome de Gramática Universal (GU). Por outras palavras, as línguas 'escolhem' o modo de aplicação dos princípios da Gramática Universal. E defende também que a diversidade linguística resulta da selecção de um dos possíveis modos de aplicação desses princípios, ou seja, da parametrização dos princípios da GU. Este desenvolvimento da Teoria Generativa é chamado Teoria dos Princípios e Parâmetros.

Chomsky em Português

1965 Aspects of the Theory of Syntax

1975 Aspectos da Teoria da Sintaxe

Coimbra: Arménio Amado

1975 Reflections on Language

1977 Reflexões sobre a Linguagem

Lisboa: Edições 70

1986 Knowledge of Language. Its Nature, Origin and Use

1994 O Conhecimento da Língua, sua Natureza, Origem e Uso

Lisboa: Caminho

1995 The Minimalist Program

1999 O Programa Minimalista

Lisboa: Caminho

Notas

  1. Latim é um termo que recobre sistemas linguísticos muito distintos, do Latim Clássico dos textos literários de autores consagrados, ao Latim Eclesiástico usado regularmente na liturgia católica até ao início do século XX, por exemplo. (*) Os números delimitados por parênteses rectos remetem para as referências bibliográficas que encontra no final.
    ↩
  2. Há registos sonoros dos dialectos portugueses em www.instituto-camoes.pt/cvc/hlp/geografia/mapa06.html
    ↩
  3. Sobre este assunto pode consultar-se mirandes.no.sapo.pt
    ↩
  4. Dados do Ethnologue Survey (1999), disponíveis em web.archive.org/web/19990422030645/www.sil.org/ethnologue/top100.html
    ↩
  5. A expressão latina a quo significa 'data a partir da qual se começa a contar um prazo'.
    ↩
  6. A ambiguidade é uma propriedade das línguas naturais. Neste sentido, ambiguidade não é sinónimo de imprecisão. O que esta propriedade quer dizer é que determinadas unidades linguísticas permitem mais do que uma interpretação. É o que sucede numa frase como o João trouxe um livro do colégio, em que do colégio tanto pode ser 'o local de onde o João trouxe o livro', como 'o possuidor do livro'. Por vezes, o contexto permite seleccionar a interpretação adequada, mas há circunstâncias em que tal não é possível.
    ↩
Leitura 3 · 2017

Introdução aos Estudos Linguísticos

Beatriz de Oliveira Salgado e Paula Marques · Seção 1.2 · A natureza da linguagem humana

Salgado, B. O., & Marques, P. (2017). Introdução aos Estudos Linguísticos (pp. 24-32). Editora e Distribuidora Educacional. Texto extraído do PDF fornecido.

Diálogo aberto

Você já deve ter parado para pensar por que existem livros sobre a linguagem dos bebês, das flores, dos animais etc., ou ainda por que o nome do livro que se usa na escola sempre gira em torno de algo como Gramática da Língua Portuguesa. Aliás, por que a matéria que se tem nas escolas é chamada Língua Portuguesa e não de Linguagens? Esses questionamentos motivaram muitos pesquisadores a se debruçarem sobre o tema, e não foi diferente com Henrique, nosso personagem do contexto de aprendizagem desta unidade.

Na seção anterior, você conheceu a história dele, um estudante do curso de Letras que tem se encantado com as pesquisas sobre a língua. No primeiro trabalho da disciplina, Henrique teve que construir um quadro comparativo que indicasse como a língua foi estudada desde a Antiguidade até o século XVIII. Agora, Henrique deverá fazer um novo trabalho, com um foco diferente. Vamos conhecê-lo?

No decorrer da disciplina, o professor começou a discutir a natureza da linguagem, questionando ideias que, à primeira vista, parecem óbvias, mas que, depois de analisadas, provocam certas dúvidas, como a diferença entre os conceitos de língua e linguagem. Para que os alunos possam desenvolver esse conhecimento, o professor solicitou que eles fizessem uma apresentação oral que aborde os seguintes tópicos: a diferença entre língua e linguagem e as características que fazem da linguagem humana uma linguagem em vez de um simples código de comunicação. Para isso, Henrique e seus colegas deverão se basear em algum autor estudado na disciplina e em elementos do cotidiano.

Para resolver essa situação-problema, estudaremos os seguintes conteúdos: os conceitos de língua e linguagem, as características da linguagem humana, as características da comunicação animal e as diferenças entre a linguagem humana e a comunicação animal.

Certamente, estudando esses conteúdos, muitas perguntas serão respondidas. Henrique e você darão início a esse estudo e sairão dele com outra visão de mundo, que é o objetivo da aprendizagem. Vamos começar?

Não pode faltar

Língua e linguagem são, para os estudos linguísticos, dois conceitos fundamentais que, muitas vezes, são tratados como uma coisa só, além de abarcarem diferentes ideias, especialmente no senso comum. Embora você, com certeza, conheça esses conceitos, para um estudante de Letras, como você, é essencial compreendê-los sob a ótica científica da Linguística. Para tratarmos desse assunto, vamos trabalhar com o autor que é considerado o pai da Linguística enquanto ciência, Ferdinand de Saussure.

Para Saussure, a dificuldade de se definir o objeto de estudo da linguagem (ou mesmo a distinção entre língua e linguagem) ocorre porque o fenômeno linguístico apresenta sempre duas faces, que constituem as famosas dicotomias saussurianas. Pense um pouco: quando falamos uma palavra, podemos dizer que há um som e uma ideia que estão associados a ela, certo? Ou seja, a palavra se caracteriza por ter uma dupla natureza: fônica e conceitual. Nesse sentido, a linguagem precisa ser entendida justamente a partir dessa natureza dividida, pois, de acordo com Saussure (2006), ela é, ao mesmo tempo, individual e social, pressupõe a associação de um som a uma ideia, e é um sistema estabelecido e uma evolução.

Para entendermos o que é linguagem e o que é língua, podemos tomar como exemplo o nome da área que agrupa algumas disciplinas do ensino básico no Brasil: Linguagens e seus códigos, que abarca disciplinas como Língua Portuguesa, Artes e Educação Física. Com base nesse exemplo, podemos perceber que não é possível estabelecer uma equivalência entre língua e linguagem, uma vez que não há línguas artísticas, mas sim linguagens artísticas. O que se pode perceber neste primeiro momento? Que linguagem é um conceito mais amplo que o conceito de língua, uma vez que abarca diferentes sistemas. Essa é uma primeira diferença, que fica clara na seguinte definição de Saussure (2006, p. 17):

Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos.

Essa diferenciação que faz Saussure foi essencial para que a Linguística se constituísse como uma ciência autônoma, na medida em que ela esclarece que a língua é um produto social; e a linguagem, a faculdade que possibilita a existência desse produto. Considerando, então, que a linguagem é uma faculdade, de acordo com Saussure, ela seria heterogênea, uma vez que envolveria aspectos de diferentes naturezas: físicos, fisiológicos e psíquicos. Nesse sentido, seria bastante difícil determinar uma unidade de estudo da linguagem, em razão dessa heterogeneidade, pois teríamos que mobilizar mais de uma área de estudo para conseguir explicar esse objeto.

Pesquise mais

Para saber mais sobre a constituição da Linguística como ciência a partir do trabalho de Saussure, leia o seguinte artigo:

RODRIGUES, R. S. V. Saussure e a definição da língua como objeto de estudos. ReVEL, edição especial n. 2, 2008. Disponível em: <http://www.revel.inf.br/files/artigos/revel_esp_2_saussure_e_a_definicao_de_lingua.pdf>. Acesso em: 29 nov. 2016.

A partir disso, Saussure demonstra que a língua, diferentemente da linguagem, é um todo em si mesma, um sistema que tem uma unidade própria de estudo, que é o signo linguístico. Embora esse seja um tópico que será abordado mais à frente, importa aqui que você entenda que, tendo a língua uma unidade própria, que é o signo, ela demanda também uma ciência que lhe seja própria, ou seja, que possa explicar os fenômenos que caracterizam as línguas ou uma língua específica.

Assimile

“F. de Saussure faz distinção entre símbolo e signo (tomado agora com o sentido de signo linguístico): ele pensa, com efeito, que existem inconvenientes em admitir que se possa utilizar a palavra símbolo para designar o signo linguístico. O símbolo, ao contrário do signo, tem por característica jamais ser arbitrário, isto é, existe um laço natural rudimentar entre significante e significado. O símbolo de justiça, por exemplo, não poderia jamais ser substituído por um carro. Com F. de Saussure, o signo linguístico foi instaurado como unidade de língua.” (DUBOIS et al., 2014, p. 507-508)

A partir disso, Saussure demonstra que a língua, diferentemente da linguagem, é um todo em si mesma, um sistema que tem uma unidade própria de estudo, que é o signo linguístico. Embora esse seja um tópico que será abordado mais à frente, importa aqui que você entenda que, tendo a língua uma unidade própria, que é o signo, ela demanda também uma ciência que lhe seja própria, ou seja, que possa explicar os fenômenos que caracterizam as línguas ou uma língua específica.

Reflita

Uma pessoa privada de qualquer convívio social seria capaz de aprender uma língua sozinha? Será que ela seria capaz de desenvolver algum tipo de linguagem?

Outro aspecto que aparece na definição e que é fundamental para entendermos o conceito de língua e linguagem é a dicotomia individual versus social, uma vez que Saussure (2006) afirma que a língua é o conjunto de convenções definidas socialmente que permite o exercício individual da faculdade de linguagem. Assim, a língua se destacaria em relação à linguagem por ser eminentemente social. Estar em sociedade é apreender a língua daquela sociedade. Por isso, somente mergulhados em uma cultura é que podemos nos apoderar, ter o poder de interagir com os outros e nos comunicar.

A língua, por sua vez, é um elemento individual e social também. Isso quer dizer que, na comunicação entre duas pessoas, por exemplo, há uma ideia na cabeça de uma delas que precisa ser transmitida para a outra. A primeira transforma os conceitos em representações linguísticas e os comunica por meio de um processo fisiológico: o cérebro envia aos órgãos de fonação um impulso relacionado à imagem que quer transmitir. Depois, em um processo físico, esse som é levado até o ouvido do ouvinte que recebe o som e o transforma em imagem novamente. A imagem acústica, no entanto, precisa encontrar uma associação entre a imagem e o conceito correspondente.

A capacidade de associar o que se ouviu ou leu a uma ideia só acontece porque a língua é um sistema social. Isso quer dizer que todos os cidadãos envolvidos pela linguagem saberão associar o som ao mesmo conceito. Mais uma vez, imagine-se conversando com uma pessoa que fala uma língua diferente da sua: os sons que ela reproduzir não encontrarão os conceitos que eles representam em seu cérebro, uma vez que você não conhece aquela língua. Certamente, vocês se comunicarão, mas por meio de outros acordos.

A exteriorização do conceito ocorre de forma individual, que é a fala. O falante até usa a língua do seu grupo social, mas a fala o particulariza. Os falantes vão construindo seus dizeres e deixando marcas nessa língua social, por exemplo: a língua portuguesa não será a mesma em todos os grupos por causa da fala de determinadas regiões. Essa particularidade entre língua e fala é que dá ao indivíduo certo poder sobre os fenômenos linguísticos, permitindo que eles realizem variações possíveis nas línguas que usam.

Saussure (2006, p. 21) afirma que a língua é um “tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade”. Lembre-se de que a língua é social e individual quando se realiza na fala. Todavia, é preciso atentar para o fato de que a língua é necessária para que a fala seja entendida e produzida. A fala, por sua vez, estabelece uma língua. Pense, por exemplo, no bebê que aprende uma língua ouvindo a fala de seus familiares.

É da natureza humana constituir uma língua, ou seja, um sistema de signos capaz de representar diferentes ideias. A língua é, em síntese, 29 a parte social da linguagem, um conjunto de signos estabelecidos por um grupo. Por isso, para conhecê-la, é preciso que o indivíduo passe por um processo de aprendizagem. Nenhum falante pode criar a sua própria língua, ao menos se quiser ser compreendido por seus interlocutores, e, para que ele possa aprender qualquer língua, é preciso que ele esteja inserido em uma sociedade e se aproprie do modo como esses signos se organizam.

Assim, se quisermos comunicar a alguém que estamos com fome, devemos usar as palavras e expressões da língua compartilhada por nosso interlocutor para que ele não só entenda que temos fome, mas também nos ajude a resolvê-la, seja oferecendo-nos algo para comer ou propondo a ida a algum restaurante. É importante, no entanto, compreender que, se não utilizarmos os signos adequados, talvez o outro não entenda que o que queremos comunicar é nossa fome. Isso ocorre porque a linguagem é social, os signos são definidos convencionalmente pelo grupo, e não pelo indivíduo, o que significa dizer que, se queremos interagir com o outro, não podemos inventar um signo, o qual deve ter sido criado e dividido no grupo social do qual fazemos parte.

Além de nos permitir o estabelecimento do diálogo e da comunicação com os outros, a linguagem tem um papel ainda mais essencial na nossa condição de seres humanos: é por meio dela que simbolizamos nossos pensamentos e desejos e compreendemos o mundo à nossa volta. Assim, podemos dizer que todo conhecimento é social e transmitido por meio da linguagem. Isso significa que, em situações diversas, o sujeito constrói um conjunto de representações variáveis dos usos que fará da língua e da linguagem.

Pesquise mais

Para se aprofundar na conceituação de língua e linguagem proposta por Saussure e conhecer outras perspectivas sobre o tema, leia o seguinte artigo:

MACEDO, W. K. L. Por Saussure e Bakhtin: concepções sobre língua/linguagem. In: CONGRESSO NACIONAL DE LINGUAGENS E REPRESENTAÇÕES: LINGUAGENS E LEITURAS, 1., Ilhéus, Anais... 2009.

Disponível em: <http://www.uesc.br/eventos/iconlireanais/iconlire_anais/anais-53.pdf>. Acesso em: 29 nov. 2016.

Depois de apresentarmos os conceitos de língua e de linguagem e entendermos em que medida eles se diferenciam, precisamos compreender o que faz da linguagem algo tipicamente humano, diferente da comunicação que percebemos entre os animais. Como vimos, se a linguagem se realiza na fala, a primeira característica é a sua realização vocal. Desta decorre uma segunda característica: ela não depende de um meio visual para se realizar. As abelhas, como veremos, conseguem uma comunicação rudimentar por meio de gestos, o que garante que elas se entendam apenas em um ambiente com luz, o que diferencia, portanto, a comunicação animal da linguagem humana.

Os animais, por sua vez, não apresentam uma linguagem como a que estamos estudando. Karl Von Frisch (LOPES, 1995) apresentou, por exemplo, resultados interessantes sobre como as abelhas se comunicam. Segundo sua pesquisa, as abelhas obreiras, quando encontram alimento, voltam à colmeia e fazem uma dança que apresenta às demais a quantos quilômetros e em que direção está o alimento. Foi descoberto que elas fazem uma dança circular se o alimento está próximo e, se este estiver longe, fazem uma dança cujo movimento tem a forma de um oito (8), passando pelo meio dos círculos a quantidade de vezes correspondente à distância em que se encontra o alimento. Se estiver a 100 metros de distância, a abelha corre cerca de 10 vezes a linha reta, e as demais saem em busca do alimento sabendo onde ele está. Entretanto, por mais curiosa que seja a comunicação entre esses animais, não podemos chamá-la de linguagem, uma vez que essas abelhas não transmitem às menores como se faz essa dança, nem ensinam que ela é a forma de avisar as colegas sobre o alimento.

Os animais usam a linguagem meramente para comunicar, enquanto nós a utilizamos para agir sobre os outros: nós podemos fazer o outro chorar, comprar, rir, falar, aquietar-se etc. Nossa linguagem provoca uma resposta e uma ação no ambiente. A

“linguagem” das abelhas, entretanto, provoca apenas uma resposta. Quando dialogamos, usamos a linguagem e somos afetados pela linguagem do outro. Construímos uma mensagem a partir da mensagem recebida. Nenhum animal é capaz de fazer isso. A capacidade de construir diálogos, portanto, é a diferença capital da nossa capacidade linguística.

Exemplificando

Nossa capacidade dialógica é uma das características que nos diferencia. Todas as vezes que ouvimos ou lemos um assunto que não nos agrada, nossa primeira atitude é a contestação. Por isso, são inúmeros os canais para que as pessoas comuniquem suas insatisfações, suas opiniões. Os jornais, por exemplo, têm uma seção de cartas dos leitores. Nela qualquer leitor pode escrever para expressar o que pensou de um outro texto. Essa capacidade de estabelecer diálogos, inclusive entre textos, é exclusivamente humana.

As línguas (manifestação da linguagem humana), por meio de signos menores, conseguem diferenciar duas palavras, por exemplo, ‘sorte’ de ‘morte’, em português, apenas pela distinção dos fonemas s e m, mostrando, assim, que as línguas podem ser decompostas em unidades menores, o que não ocorre com o código utilizado na comunicação animal. As abelhas, por exemplo, quando dançam, informam um sentido global, impossível de ser decomposto em partes menores significativas: uma asa virada, por exemplo, no universo geral da dança, não significa absolutamente nada. Eis aí uma diferença crucial da linguagem humana: a língua pode ser analisada em unidades menores. Cada enunciado pode ser decomposto em unidades menores, que se organizam e se relacionam a outras unidades, criando novos significados.

Dessa forma, podemos dizer que a comunicação animal não pode ser tratada como linguagem, tal como no sentido atribuído por Saussure (2006), mas apenas como um código de sinais. Como vimos, o que esses animais produzem não varia com o tempo, é indecomponível e sua transmissão é unilateral, diferenciando-se, assim, da linguagem.

Sem medo de errar

Na situação-problema desta seção, Henrique deve elaborar uma apresentação oral sobre a concepção científica de língua, abordando a diferença entre os conceitos de língua e linguagem. Para isso, Henrique e seus colegas deverão se basear em algum autor estudado na disciplina. Essa atividade precisa ser feita em linguagem formal, contemplando o seguinte contexto:

– Os interlocutores serão os alunos e os professores do curso.

– O trabalho deve ser baseado em algum autor estudado na disciplina e em elementos do cotidiano.

– Ainda que não seja necessário produzir um texto escrito, já que se trata de uma apresentação oral, Henrique deverá realizar um planejamento de sua fala por meio de tópicos organizados em uma sequência lógica. Vamos ver um exemplo de como Henrique poderia estruturar sua apresentação.

Língua e linguagem: conceituação

Introdução:

No senso comum, a palavra linguagem é utilizada de forma indiscriminada para designar qualquer código ou sistema de elementos que compartilham de uma mesma característica, porém, quando se trata dos estudos linguísticos, é importante conceituar esse termo corretamente.

Desenvolvimento:

Características da linguagem: faculdade humana que possibilita a constituição de uma língua; é física, fisiológica e psíquica; heterogênea; não tem uma unidade de estudo; tem uma face individual e social.

Características da língua: é um sistema de signos; é um objeto bem definido nos fatos da linguagem; é a face social da linguagem; é homogênea; tem natureza concreta; tem uma unidade de estudo (o signo).

Silva, P. N. (2010). Manual de Introdução aos Estudos Linguísticos. Edição privada. Disponível no Repositório Aberto da Universidade Aberta.

Documento oficial no Repositório Aberto ↗