Sílabo Gestão · Guia de estudo
Capital Humano – Temas para uma boa gestão das organizações
Edições Sílabo · 3.ª edição, revista e atualizada · Lisboa, 2022
Resumo
Os nove temas essenciais para gerir pessoas numa organização, sempre com uma abordagem contingencial. Parte do quadro português das relações laborais e da função de recursos humanos; passa pela motivação, a liderança, o poder, o conflito e a negociação; e acaba na prática: estratégia, análise de funções, recrutamento, seleção, acolhimento e remuneração.
Apresentação do livro
O livro reúne a reflexão de dois autores sobre as organizações enquanto realidades sociais. Destina-se a docentes, gestores, formadores e estudantes do ensino superior. Não pretende esgotar o tema: seleciona nove temas que considera essenciais para compreender a gestão do capital humano. Um fio atravessa todo o livro: a GRH acontece dentro de um quadro institucional que ultrapassa cada organização, e tem características e história próprias. Os autores defendem sempre uma abordagem contingencial e são críticos da importação acrítica de modelos.
| Parte | Capítulo | Autoria | Pág. |
|---|---|---|---|
| 1. Enquadramento | 1. O sistema de relações laborais português | V. P. G. Silva | 25 |
| 2. A função RH e a gestão dos RH | V. P. G. Silva | 49 | |
| 2. Aspetos psicossociológicos | 3. Motivação | F. L. Reis | 77 |
| 4. Liderança e inteligência emocional | F. L. Reis | 101 | |
| 5. Poder, conflito e negociação | F. L. Reis | 137 | |
| 3. Estratégia, processos e técnicas | 6. A estratégia para os RH | V. P. G. Silva | 153 |
| 7. Análise e descrição de funções | V. P. G. Silva | 181 | |
| 8. Recrutamento, seleção, acolhimento e socialização | F. L. Reis | 201 | |
| 9. Remuneração e benefícios complementares | V. P. G. Silva | 245 |
- Parte 1: Enquadramento
- O quadro institucional português (Estado, sindicatos, patrões, comissões de trabalhadores, lei e IRCT) e a função RH: o que é, o que faz o DRH, o que a condiciona e como evoluiu na Europa ocidental.
- Parte 2: Aspetos psicossociológicos
- Motivação (teorias de conteúdo, processo e reforço; equipas), liderança (traços, estilos, abordagens comportamental e situacional, carisma e transformação) e inteligência emocional, e ainda poder, conflito e negociação.
- Parte 3: Estratégia, processos e técnicas
- Estratégia e planeamento de RH, análise e descrição de funções, recrutamento, seleção, acolhimento e socialização, e remuneração (avaliação de funções, avaliação do desempenho, prémios, flexibilidade de pagamento, benefícios).
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- O guia é um apoio ao estudo e não substitui a leitura da obra.
O sistema de relações laborais português
No fim do capítulo deve conseguir
- definir força de trabalho, trabalho, contrato de trabalho e Direito do Trabalho;
- explicar o que distingue o trabalho numa economia capitalista;
- distinguir as três formas de intervenção do Estado (legislativa, administrativa, judicial);
- caracterizar sindicatos, associações patronais e comissões de trabalhadores, bem como as estruturas em que se agrupam;
- distinguir legislação laboral de IRCT e conhecer os vários tipos de IRCT.
O capítulo apresenta o quadro institucional dentro do qual cada organização gere as suas pessoas: quem cria as regras do trabalho em Portugal e que tipos de regras existem. Divide-se em três blocos: conceitos de base, intervenientes no sistema e fontes de regulação (lei e IRCT).
1.Força de trabalho e contrato de trabalho
Conceitos-chave
Força de trabalho: capacidade de uma pessoa para executar tarefas físicas e intelectuais que transformam a Natureza e a sociedade. Assenta nos seus conhecimentos (teóricos e práticos) e nos seus hábitos de trabalho.
Trabalhador: o titular dessa capacidade. Trabalho: a atividade que a põe em prática.
Produtividade: quantidade de bens ou serviços úteis produzidos por unidade de tempo. Em termos individuais, é a produção horária por trabalhador (retomada no capítulo 9).
Para os autores, o trabalho cria produtos úteis (bens ou serviços que satisfazem necessidades do corpo ou do espírito) e desenvolve o próprio trabalhador. Exige também uma relação social: lavar os dentes é útil, mas não é trabalho. Seguindo Friedmann (1962), pode ser analisado de cinco pontos de vista:
- técnico: a profissão (contabilista, serralheiro, farmacêutico…);
- fisiológico: o esforço físico e as suas consequências;
- psicológico: as exigências mentais e o impacto no bem-estar psíquico;
- sociológico: a vida do coletivo de trabalho.
- económico: a remuneração, a produtividade, etc.
O trabalho na sociedade capitalista
No capitalismo, o trabalhador coloca a sua força de trabalho sob a direção de quem detém os meios de produção, por um certo tempo (ou para um certo resultado, como no salário à peça), em troca de uma remuneração, através de um ato de compra e venda: o contrato de trabalho. Fá-lo porque, sem matérias-primas, máquinas ou instalações próprias, vender a força de trabalho é a sua única forma de subsistência.
Os quatro traços do capitalismo, segundo os autores
- Trabalho assalariado: o trabalhador é juridicamente livre e vende as suas capacidades a quem detém os meios de produção.
- Apropriação do sobreproduto pelo capitalista, ou seja, da diferença entre o tempo de trabalho contratado e o tempo socialmente necessário para reproduzir a força de trabalho.
- Produção de mercadorias, destinadas a terceiros e trocadas por compra e venda.
- Lógica de acumulação privada: reinvestir o sobreproduto para aumentar a produção por trabalhador e vencer a concorrência.
O capitalismo impôs-se entre o final do séc. XVIII e o início do séc. XIX, sobretudo em Inglaterra, através da indústria.
Daqui resulta que o trabalho assalariado, embora formalmente livre (ao contrário da escravatura ou da servidão), vive em dupla subordinação:
- jurídica: está sujeito à autoridade e direção da entidade patronal;
- económica: a sua subsistência depende da remuneração paga pela entidade patronal.
A importância social do trabalho por conta de outrem justificou um ramo próprio do Direito, o Direito do Trabalho. Este regula as relações jurídico-privadas, individuais e coletivas, de trabalho livre, remunerado e subordinado. Supiot (1996) considera-o, a par da segurança social, a grande inovação jurídica do século XX. O emprego público fica de fora: rege-se pelo Direito Administrativo (Lei n.º 35/2014).
Situações próximas do trabalho assalariado
- Falso trabalho independente: na substância, a subordinação é igual à do assalariado. O verdadeiro independente define as condições da sua atividade e reparte a dependência económica por vários clientes. O "falso" é apenas um expediente jurídico para o empresário fugir a responsabilidades.
- Trabalho no domicílio: há apenas subordinação económica. O trabalhador organiza a sua atividade, mas entrega os resultados ao empresário e é pago como os trabalhadores do estabelecimento.
Para efeitos de análise social, ambas as situações se aproximam muito do trabalho assalariado. O livro centra-se na empresa capitalista, mas muito do que diz vale também para outros setores (público, serviço doméstico, trabalho rural).
2.Os intervenientes no sistema de relações laborais
Quatro atores determinam as regras do trabalho em Portugal: o Estado, os sindicatos, as associações patronais e as comissões de trabalhadores.
2.1.Estado
O Estado intervém a três níveis:
| Nível | Quem / como | Exemplos |
|---|---|---|
| Legislativo | Assembleia da República, Governo e Assembleias Legislativas Regionais (Açores e Madeira), através de leis, decretos-lei e decretos legislativos regionais | Fixa os direitos dos trabalhadores, a começar pelos da Constituição, e as condições gerais das relações laborais |
| Administrativo | Governo e serviços do Estado, através de decretos regulamentares, portarias, despachos normativos e resoluções do Conselho de Ministros | Fiscaliza o cumprimento (sobretudo pela ACT, a Autoridade para as Condições do Trabalho); apoia e completa a negociação coletiva (portarias de extensão e de condições de trabalho); concilia conflitos; regista e publica os IRCT |
| Judicial | Tribunais | Juízos do trabalho, que são juízos de competência especializada dos tribunais de comarca (Lei n.º 62/2013) |
A Constituição (CRP) e os trabalhadores
Direitos, liberdades e garantias (arts. 53.º a 57.º)
- Segurança no emprego: são proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos (art. 53.º).
- Criação de comissões de trabalhadores (art. 54.º).
- Liberdade sindical (art. 55.º): constituir sindicatos, inscrever-se neles (e não pagar quotas sem estar inscrito), organizá-los internamente, exercer atividade sindical na empresa e o direito de tendência.
- Direitos das associações sindicais, com destaque para a contratação coletiva (art. 56.º).
- Direito à greve e proibição do lock-out (art. 57.º). O Tribunal Constitucional aceitou, porém, o "lock-out defensivo", usado para proteger pessoas e bens.
Direitos económicos (art. 59.º): salário igual para trabalho igual; organização do trabalho em condições dignas; higiene e segurança; repouso, limite da jornada, descanso semanal e férias pagas; assistência no desemprego involuntário; assistência e indemnização em caso de acidente de trabalho ou doença profissional.
Para os concretizar, o Estado deve fixar e atualizar o salário mínimo, limitar a duração do trabalho, proteger trabalhadores em situação desfavorecida (grávidas, menores, pessoas com deficiência, trabalhos perigosos, emigrantes, trabalhadores-estudantes) e criar condições para o repouso e as férias.
O art. 8.º da CRP acrescenta que as normas da UE e o direito internacional também moldam o sistema português.
2.2.Sindicatos, uniões, federações e confederações
A função dos sindicatos é defender e promover os interesses socioprofissionais dos trabalhadores. A Constituição garante duas liberdades, e cada uma tem uma consequência prática:
- Liberdade de constituição: permite que existam sindicatos paralelos para a mesma profissão ou setor.
- Liberdade de adesão: proíbe o closed-shop (só contratar sindicalizados) e a cobrança de quotas a quem não é sócio.
Três episódios históricos (Quadros 1.1 a 1.3)
Unicidade vs. pluralismo. Em 1975 (DL 215-B/75) proibiram-se sindicatos paralelos, porque a unicidade era vista como condição da coesão operária. Depois da CRP de 1976, o DL 773/76 voltou a permiti-los. Militares e forças policiais podem ter este direito restringido (art. 270.º CRP).
Quotas obrigatórias? A resposta mudou com o regime: obrigatórias em 1939 (corporativismo do Estado Novo), facultativas em fevereiro de 1974, de novo obrigatórias em julho de 1974 (para fortalecer os sindicatos) e facultativas em 1975, o que a CRP confirmou.
Quem cobra as quotas? Hoje, a entidade patronal cobra-as e entrega-as ao sindicato quando isso consta de IRCT e o trabalhador autoriza, ou quando o trabalhador o pede (art. 458.º do Código do Trabalho).
Estruturas de agrupamento
| Estrutura | Critério | Exemplo |
|---|---|---|
| União | regional | União de Sindicatos de Santarém |
| Federação | ramo de atividade ou profissão | FIEQUIMETAL (ramo); FENPROF (profissão) |
| Confederação | nacional | CGTP-IN; UGT |
Direitos sindicais: negociação coletiva; organização dentro da empresa (delegados sindicais, comissões sindicais e intersindicais); participação em organismos nacionais e europeus (Comité Económico e Social Europeu, CES, CITE, IEFP, INATEL…); greve.
| CGTP-IN | UGT | |
|---|---|---|
| Origem | Informalmente em 1 de outubro de 1970; em 1975 foi reconhecida como a única confederação | Outubro de 1978, após dissidência na Intersindical (movimento Carta Aberta) |
| Dimensão | De longe a maior | Bastante mais pequena |
| Modelo | Sindicatos distritais, pluridistritais ou nacionais, agrupados em federações (estrutura vertical, que negoceia) e em uniões (estrutura horizontal) | Sindicatos nacionais ou pluridistritais (ex.: sindicatos da banca) |
Ambas integram a Comissão Permanente de Concertação Social. Há também sindicatos independentes.
2.3.Associações patronais (de empregadores)
- Não se confundem com as associações de empresários (ex.: AIP), que tratam da atividade económica e não das relações laborais. Uma associação pode, porém, ter os dois estatutos (art. 447.º CT).
- A CRP não as refere, mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante-lhes a mesma liberdade de associação que aos sindicatos. A primeira lei após o 25 de Abril foi o DL 215-C/75, anterior à própria CRP.
- Têm liberdade de inscrição, participam nos mesmos organismos que os sindicatos e têm direito à negociação coletiva. Não têm direito ao lock-out.
- Agrupam-se em associações, uniões, federações e confederações. Na Concertação Social estão a CAP (agricultura, 1975), a CIP (Confederação Empresarial de Portugal, que junta a antiga CIP de 1974, a AEP e a AIP), a CCP (comércio e serviços, 1976) e a CTP (turismo, 1995).
2.4.Comissões de trabalhadores (CT)
As CT estão previstas na CRP, tal como os sindicatos. Os seus direitos mais relevantes são:
- exercer controlo de gestão;
- intervir na reestruturação da atividade produtiva;
- participar na elaboração da legislação laboral do seu setor;
- promover a eleição de representantes dos trabalhadores para os órgãos sociais das empresas públicas.
Só pode existir uma CT por empresa, a par dos sindicatos, e os seus membros têm a mesma proteção que os delegados sindicais. Podem formar comissões coordenadoras e, em empresas com estabelecimentos dispersos, subcomissões. Surgiram com força depois do 25 de Abril, quando houve fuga de patrões, autogestão e a chamada "batalha da produção". A CRP de 1976 reconheceu-as, e a primeira lei específica é a Lei n.º 46/79.
3.Legislação laboral e IRCT
Legislação laboral
- normas legislativas, regulamentares e decisórias do Estado (da CRP aos despachos normativos);
- normas comunitárias em matéria laboral;
- direito internacional do trabalho;
- assentos do Supremo Tribunal de Justiça e acórdãos dos tribunais.
IRCT (instrumentos de regulamentação coletiva)
- Negociais: convenções coletivas, acordos de adesão, decisões arbitrais.
- Não negociais (do Estado): portarias de extensão, portarias de condições de trabalho.
Relação entre lei, IRCT e contrato
- Os IRCT não podem contrariar normas imperativas.
- Em regra, as normas do Código do Trabalho podem ser afastadas por IRCT, exceto por portaria de condições de trabalho, salvo quando a própria norma o impede. Desde o Código de 2003, isto permite IRCT menos favoráveis ao trabalhador do que a lei, e também substituir um IRCT por outro globalmente menos favorável. Foi uma rutura com a lógica de "só se pode melhorar" que vigorava desde 1969 (DL 49 212).
- O contrato individual só pode afastar um IRCT se for mais favorável ao trabalhador.
Tipos de convenção coletiva
| Tipo | Partes |
|---|---|
| Contrato coletivo | associações sindicais + associações patronais |
| Acordo coletivo | associações sindicais + vários empregadores, para diferentes empresas |
| Acordo de empresa | associações sindicais + um só empregador, para uma empresa ou estabelecimento |
As convenções vinculam quem as assina e os respetivos filiados, diretos ou através de associações membro (é o princípio da filiação). Em Portugal são sobretudo verticais (por setor de atividade) e, mais raramente, horizontais (por profissão).
Os outros IRCT
- Acordo de adesão
- Alargamento voluntário de uma convenção a outros empregadores ou sindicatos.
- Decisão arbitral
- Serve para resolver um conflito na celebração, aplicação ou revisão de uma convenção. Cada parte nomeia um árbitro e estes escolhem o terceiro. A decisão vincula como uma convenção. A arbitragem pode ser voluntária, obrigatória (primeira convenção com negociações frustradas por má-fé; revisão recomendada pela Concertação Social; serviços essenciais, por iniciativa do ministro) ou necessária (se, 12 meses após a caducidade, não houver nova convenção nem outra que cubra pelo menos 50% dos trabalhadores).
- Portaria de extensão
- O Estado alarga uma convenção ou decisão arbitral a trabalhadores e empregadores do mesmo setor e profissão que não estavam abrangidos. Fundamenta-se no princípio "salário igual para trabalho igual".
- Portaria de condições de trabalho
- Intervenção do Estado em último recurso: quando as circunstâncias o justificam, não existem associações sindicais ou patronais e não é possível uma portaria de extensão.
- Comissões paritárias
- Interpretam e aplicam uma convenção existente. As suas deliberações unânimes são vinculativas.
- Usos laborais
- Também contam, desde que não contrariem a boa-fé.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em cinco linhas
- O trabalho assalariado vende força de trabalho em regime de dupla subordinação, jurídica e económica. O Direito do Trabalho nasce para o regular.
- O Estado intervém a três níveis. A CRP é particularmente generosa em direitos dos trabalhadores (arts. 53.º–59.º).
- Sindicatos (defesa dos trabalhadores, greve, negociação), associações patronais (negociação, sem lock-out) e CT (controlo de gestão, uma por empresa) são os parceiros não estatais.
- As regras do trabalho vêm da legislação laboral e dos IRCT, negociais ou do Estado.
- Desde 2003, os IRCT podem ser menos favoráveis do que a lei. O contrato individual só pode melhorar o IRCT.
força de trabalhotrabalhocontrato de trabalhoassociação sindicalassociação patronalcomissão de trabalhadoreslegislação laboralIRCT
Exercícios propostos no livro: localizar na CRP os artigos citados; visitar os sítios de associações sindicais e patronais; consultar uma convenção coletiva e uma portaria de condições de trabalho.
Caso de estudo: o acordo coletivo do setor
Durante mais de 20 anos, o acordo coletivo limitou o trabalho suplementar a 120 h/ano, abaixo do limite legal. Em 2005 os empregadores conseguiram subi-lo para o limite legal de 150 h. Os trabalhadores aceitaram, sobretudo para compensar anos de aumentos salariais abaixo da inflação.
Agora os empregadores propõem um banco de horas: até +4 h por dia, até 60 h por semana e até 200 h por ano. Metade do tempo a mais seria compensada com folga em seis meses; a outra metade seria paga com um acréscimo de 20%. Os trabalhadores rejeitam, porque isto equivale a trabalho suplementar com metade das horas não pagas e a outra metade mal paga.
O sindicato contrapõe: manter as 150 h, rejeitar o banco de horas, aumento salarial de inflação + 1% e contratar pessoal onde o trabalho suplementar cobre necessidades permanentes. Os empregadores respondem que, sem banco de horas, proporão a cada trabalhador, individualmente, o regime de adaptabilidade, que é ainda pior para o rendimento.
Questão
Quais os desfechos mais credíveis desta negociação, e porquê?
Pistas para a resposta
- Pondere a correlação de forças: perda de poder de compra, ameaça de individualizar a relação laboral e margem que o CT dá aos IRCT para ficarem abaixo da lei (subcap. 3).
- A ameaça da adaptabilidade individual contorna o sindicato. Liga-se à tendência da 4.ª etapa da GRH para individualizar a relação laboral (cap. 2, 4.5).
- Cenários plausíveis: um compromisso (banco de horas com limites mais baixos ou compensação melhor, trocado por um aumento salarial); impasse com recurso a conciliação ou arbitragem; ou vitória patronal por adesões individuais.
Teste-se
O que distingue a subordinação jurídica da económica?
A jurídica é a sujeição à autoridade e direção da entidade patronal. A económica é a dependência da remuneração para viver. O trabalhador no domicílio tem só a segunda.
Porque é proibido o closed-shop em Portugal?
Porque decorre da liberdade de adesão sindical garantida pela CRP: ninguém pode ser obrigado a sindicalizar-se para ser contratado, nem a pagar quotas a um sindicato de que não é sócio.
Qual a diferença entre acordo coletivo e acordo de empresa?
Ambos são assinados por sindicatos com empregadores (e não com associações patronais). O acordo coletivo envolve vários empregadores de diferentes empresas; o acordo de empresa, um único empregador.
Quando pode o Estado emitir uma portaria de condições de trabalho?
Quando as circunstâncias económicas e sociais o justificam, não existem associações sindicais ou patronais e não é possível recorrer a uma portaria de extensão. As três condições têm de se verificar em conjunto.
Um contrato individual pode fixar condições piores do que as da convenção coletiva aplicável?
Não. O contrato só pode afastar o IRCT se estabelecer condições mais favoráveis ao trabalhador (art. 476.º CT).
A função recursos humanos e a gestão dos recursos humanos
No fim do capítulo deve conseguir
- definir a função Recursos Humanos e perceber que todos os gestores gerem pessoas;
- identificar os saberes que a GRH mobiliza e as tarefas típicas do DRH numa grande organização;
- compreender o caráter delicado da relação entre o DRH e os outros gestores;
- identificar os fatores internos e externos que condicionam a GRH;
- caracterizar as quatro etapas da evolução da GRH na Europa ocidental.
1.O que é a função recursos humanos?
É uma função organizacional típica e, segundo os autores, a que mais divide os especialistas.
Definições do livro (Quadro 2.1)
Função Recursos Humanos: obter as pessoas de que a organização precisa, integrá-las e desenvolvê-las, para que a organização atinja os objetivos estratégicos definidos pelos seus dirigentes.
Gestão de Recursos Humanos (GRH): otimizar o contributo humano para esses objetivos, tendo em conta os condicionantes internos e externos à organização.
Consequência importante: todos os gestores, de todos os níveis, são gestores de recursos humanos, e não apenas o Diretor de RH. O Diretor Financeiro gere recursos financeiros, mas também dirige um departamento de pessoas, e é muitas vezes isso que lhe dá mais "dores de cabeça". É errado pensar que a GRH cabe só a um departamento.
As quatro vertentes de saber da GRH (Quadro 2.2)
- O corpo de conhecimentos dos manuais de GRH: estratégia, análise e descrição de funções, recrutamento e seleção, acolhimento, formação…
- A vertente jurídica, ou seja, a legislação laboral (férias, horas extraordinárias, turnos, despedimento, negociação coletiva).
- A vertente psicológica e sociológica: motivação, comunicação, liderança, cultura e mudança, conflitos.
- A vertente organizacional em sentido estrito, a O&M (Organização e Métodos): estrutura, organigrama, postos de trabalho, circuitos.
Não é realista exigir a cada gestor que domine tudo isto e ainda faça o seu trabalho. Daí o apoio do DRH. Por razões de eficácia, a formação, a comunicação interna e a O&M ficam muitas vezes em órgãos de staff ligados à direção-geral.
2.O Departamento de Recursos Humanos (DRH)
Nas grandes e médias organizações (na UE, média empresa significa 50 a 249 trabalhadores) existe um departamento com três tipos de competência:
| Tipo de competência | Exemplo |
|---|---|
| Exclusiva | processamento salarial |
| Repartida com os outros gestores | seleção de candidatos (o chefe do departamento que acolhe também avalia) |
| Aconselhamento (assessoria) | um psicólogo do DRH aconselha num problema relacional de um departamento |
A dimensão do DRH depende do tamanho da organização. Numa média empresa, um jurista contratado como prestador de serviços chega, e as tarefas de RH ficam muitas vezes com um Diretor Administrativo e Financeiro. Numa pequena empresa, o responsável pela GRH é o próprio patrão, e as rotinas administrativas vão para o "gabinete de contabilidade".
As 10 tarefas potenciais do DRH numa grande organização (Quadro 2.3)
- Colaborar na estratégia de RH e no planeamento de RH, compatibilizando a procura e a oferta de mão de obra a médio/longo prazo (cap. 6).
- Elaborar as descrições de funções e colaborar na sua avaliação (caps. 7 e 9).
- Recrutar, selecionar, integrar e acompanhar o desenvolvimento da carreira (cap. 8).
- Levantar necessidades de formação e elaborar programas, incluindo a formação dos outros gestores em psicossociologia.
- Implementar a avaliação do desempenho (cap. 9).
- Colaborar na política de recompensas, extrínsecas e intrínsecas, e elaborar o orçamento de RH (cap. 9).
- Tratar dos aspetos jurídico-laborais e administrativos: base de dados do pessoal, férias e faltas, salários e prémios, benefícios, informação para o Estado (Segurança Social, fisco, estatística)…
- Aconselhar os gestores em psicossociologia das organizações (caps. 3–5).
- Colaborar em matérias de O&M.
- Gerir a comunicação interna.
Esta diversidade explica por que razão os diretores de RH têm formações tão diferentes (Gestão, Psicologia, Sociologia, Direito, Ciências Militares…), ao contrário de outros departamentos, como a Produção, quase sempre dirigida por engenheiros.
A relação delicada com os outros gestores
Como o DRH se pronuncia sobre quase tudo, arrisca-se a ser visto como "metediço". Por isso, deve intervir com cautela:
- A cautela pode ser menor quando a intervenção está institucionalizada (recrutamento e seleção) ou tem a chancela da direção-geral (um plano de formação já aprovado).
- Deve ser maior no aconselhamento não pedido. O ideal é o DRH saber fazer-se solicitado. Às vezes compensa esperar que o chefe peça ajuda, em vez de ferir suscetibilidades.
3.Os fatores condicionantes da GRH
Internos
- tamanho (n.º de trabalhadores)
- estratégia organizacional
- cultura organizacional
- sistema técnico
Externos
- cultura nacional
- complexidade do meio ambiente
- a) Tamanho
- Mais trabalhadores trazem mais complexidade (mais pessoas, funções e níveis hierárquicos no DRH; delegações se houver dispersão geográfica) e mais formalização (o escrito substitui a oralidade: ordens e instruções de serviço, requerimentos).
- b) Estratégia
- Exemplo: uma indústria de mão de obra intensiva que aposta em custos baixos terá de apertar o controlo dos tempos e movimentos para aumentar a eficiência.
- c) Cultura organizacional
- É o conjunto de valores coletivos fundamentais que guiam a organização, a sua "personalidade". Exemplo: uma empresa fundada por académicos, que cresceu graças à atualização técnica, tende a fazer da formação um valor, e esse valor mantém-se mesmo que o serviço se banalize, porque a cultura não muda de um dia para o outro.
- d) Sistema técnico
- Todos os meios usados para produzir um bem ou serviço (hardware e "software", como os conhecimentos de uma sociedade de advogados). Joan Woodward estudou três tipos de sistema: produção unitária (por encomenda), em massa (automóvel) e em fluxo contínuo (refinação). Empresas com o mesmo sistema tendem a organizar-se de forma semelhante. As de produção em massa têm mais níveis hierárquicos e mais formalização. A eficácia é maior quando a organização se ajusta ao seu sistema técnico. Um sistema estável favorece normas, formalização e descrições de funções detalhadas.
- e) Cultura nacional
- São os valores coletivos de um grupo humano num espaço geográfico, com expressão institucional. O estudo clássico é o de Geert Hofstede, que comparou cerca de 50 países. Críticas dos autores: Hofstede assume que cultura e fronteira do Estado coincidem (a Bélgica, por exemplo, tem três nações) e a amostra vem de uma única multinacional.
- f) Complexidade do meio
- Mercados com mudanças técnicas frequentes pedem mais formação e uma avaliação do desempenho que valorize a adaptabilidade e a criatividade. Numa conjuntura turbulenta, os gestores reduzem os pagamentos fixos: mais contratos a termo, mais prestação de serviços e prémios indexados aos resultados.
| Dimensão | Portugal |
|---|---|
| Individualismo vs. coletivismo | Coletivista: laços fortes entre as pessoas |
| Distância hierárquica | Elevada: aceitação de grandes diferenças sociais |
| Controlo da incerteza | Forte: procura constante de evitar riscos |
| Masculinidade vs. feminilidade | Feminina: valoriza relações, qualidade de vida, entreajuda |
Implicação prática: prémios de desempenho individuais são mais bem aceites numa cultura individualista, como a italiana, do que em Portugal. Daí a defesa de uma abordagem contingencial da GRH. Os autores criticam a importação acrítica de modelos estrangeiros, outrora franceses e hoje norte-americanos.
4.A evolução da GRH na Europa ocidental
O foco são os dois últimos séculos de capitalismo e as grandes empresas da Europa ocidental. O capitalismo tornou-se dominante no início do séc. XIX (Inglaterra, Bélgica), associado à máquina. A diferença para a ferramenta: a máquina usa ferramentas de forma automática, sem intervenção humana imediata. Há diferenças culturais e estruturais entre países (Portugal e Espanha, sob ditadura, só chegaram nos anos 70 ao que era comum no pós-guerra). Por isso, o livro descreve traços comuns, desfasados no tempo.
- Último quartel do séc. XIX1.ª etapa: melhorar as condições de trabalho e de vida dos operários
Fábricas maiores e concentradas nas cidades trouxeram condições degradantes, no trabalho e fora dele. Na Alemanha de Bismarck, com medo do socialismo, o Estado interveio. Em Inglaterra e França, com o liberalismo, a melhoria ficou a cargo de patrões filantropos, como Joseph Rowntree, quaker e dono de uma fábrica de chocolates em York. É aqui que nascem os serviços de higiene e segurança e de assistência social. O resto da GRH era o de sempre: recrutar, controlar o trabalho, punir e pagar. O "DRH" era o próprio patrão, alguém do escritório e, para a assistência social, a esposa ou um familiar.
- Pós-19182.ª etapa: formalização do "DRH"
A contestação ao Estado liberal e a ascensão comunista (depois de 1917) levaram à ideia de Estado social, democrático ou autoritário (como o fascismo italiano). A Constituição de Weimar (1919) foi a primeira a reconhecê-lo: o Estado entra na empresa e o capital passa a ter deveres sociais. Com empresas maiores e com a difusão dos tempos e movimentos e dos prémios, surgem departamentos com tarefas administrativas e de O&M. As suas chefias ainda não estavam presentes quando se tomavam as grandes decisões.
- Pós-1945 (em Portugal, meados dos anos 70)3.ª etapa: GRH e Estado do bem-estar
O Direito do Trabalho desenvolve-se para proteger a parte mais fraca. O Chefe ou Diretor de Pessoal torna-se guardião de um "bem público" (a proteção jurídica do trabalhador) sem deixar de ser assalariado, uma contradição que continua por resolver. Intensificam-se a negociação coletiva, a formação (por causa do progresso técnico) e as tarefas administrativas (por causa da dimensão). É o período em que mais DRH surgem, autonomizados no organigrama, mas ainda com pouca base teórica e fora do topo. Em Portugal, aparecem nos anos 60 (empresas de capital estrangeiro) e ganham força nos anos 80.
- Anos 70 até hoje4.ª etapa: GRH "para combater a crise económica"
A rendibilidade caiu, e o desemprego e a precariedade enfraqueceram os trabalhadores. A etapa tem quatro características:
- Ataque ao Estado social e à negociação coletiva. A relação laboral é segmentada e individualizada ("projeto profissional pessoal"). A avaliação de funções perde peso e a avaliação do desempenho ganha, com as perversidades que o cap. 9 discute.
- Promoção de uma mentalidade corporativa, que identifica o projeto pessoal com o da empresa. Dá força à vertente psicossociológica (motivação, liderança, inteligência emocional…) e impõe o nome "Recursos Humanos": a força de trabalho passa a ser vista também como ativo e não só como custo. Os sindicatos acusam-na de manipulação, e ela abrange apenas os trabalhadores estáveis, não os precários.
- Flexibilidade laboral (tempo, mobilidade funcional, remuneração) como tema central. Por isso a descrição de funções perde valor, o que também facilita a pressão para aceitar novas tarefas.
- Acesso do Diretor de RH à estratégia. Precisa de uma visão global e de longo prazo e de atenção ao meio externo. Multiplicam-se as consultoras de RH. Portugal aproxima-se do resto da Europa.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em cinco linhas
- A função RH obtém, integra e desenvolve pessoas ao serviço da estratégia. Todos os gestores fazem GRH.
- A GRH junta quatro saberes: manuais de GRH, Direito, psicossociologia e O&M.
- O DRH tem tarefas exclusivas, repartidas e de aconselhamento, e deve intervir com tato.
- Condicionam a GRH o tamanho, a estratégia, a cultura organizacional e o sistema técnico (internos), e a cultura nacional e a complexidade do meio (externos).
- Quatro etapas: condições operárias → formalização → Estado do bem-estar → crise (ataque ao Estado social, corporativismo, flexibilidade, papel estratégico).
Gestão de Recursos HumanosDepartamento de Recursos Humanosfatores condicionantes da GRHEuropa ocidentalEstado socialpsicossociologia das organizaçõesflexibilidade laboralestratégia
Exercícios propostos no livro: analisar organigramas para ver a posição e o nome do DRH; investigar a formação de diretores de RH; encontrar mais exemplos da influência da cultura na GRH; visitar sítios de consultoras de RH.
Caso de estudo: TERMINUS
Uma multinacional explora um terminal de contentores desde os anos 80. Antes: estivadores com carteira profissional, contrato sem termo, 8 h por dia e 5 dias por semana, salário mensal fixo, e contratados a termo nos picos. Depois de duas décadas de flexibilização, aproveitando o desemprego e as alterações à lei, a maioria entra por empresas de trabalho temporário e sem carteira. O horário pode chegar a 10 h por dia sem pagamento extra (com média de 8 h em três meses). Para lá disso há trabalho suplementar decidido unilateralmente, com um dia de aviso, e são frequentes os dias de 16 h. O salário passou a ser à hora, ao dia ou à semana e, sem as horas extra, fica pouco acima do salário mínimo.
Questão
Que consequências têm estas mudanças na vida pessoal dos trabalhadores e na segurança no trabalho?
Pistas para a resposta
- Vida pessoal: imprevisibilidade (aviso de um dia), dificuldade em conciliar trabalho e família, rendimento instável e dependente das horas extra, insegurança no emprego.
- Segurança: fadiga em turnos de 16 h num trabalho perigoso (manuseamento de contentores), menos qualificação (sem carteira) e rotação de pessoal temporário com menos formação e menos conhecimento do local.
- Relacione com as características da 4.ª etapa (flexibilidade, precariedade) e com o art. 59.º da CRP (limite da jornada, higiene e segurança).
Teste-se
Porque dizem os autores que o Diretor Financeiro também é gestor de RH?
Porque dirige um departamento com pessoas e tem de otimizar o seu contributo para os objetivos estratégicos. É isso, por definição, a GRH.
Que tipos de sistema técnico distinguiu Joan Woodward, e o que concluiu?
Produção unitária, em massa e em fluxo contínuo. Empresas com o mesmo sistema organizam-se de forma parecida, e a eficácia é maior quando a estrutura se ajusta ao sistema técnico. Na produção em massa, isso significa mais níveis hierárquicos e mais formalização.
Porque é que prémios individuais podem funcionar pior em Portugal do que em Itália?
Porque, segundo Hofstede, Portugal é coletivista e a Itália individualista. Recompensas que destacam o indivíduo encaixam melhor numa cultura individualista. É um argumento a favor da abordagem contingencial.
Que contradição afeta o Diretor de Pessoal na 3.ª etapa?
Zela por um bem público (a proteção jurídica do trabalhador), mas é ele próprio um assalariado, subordinado à entidade patronal.
Porque perdeu importância a descrição de funções na 4.ª etapa?
Com a mobilidade funcional, o conteúdo das funções muda muito, e descrevê-las para milhares de trabalhadores deixa de compensar. Além disso, descrições vagas ou inexistentes facilitam a pressão para aceitar novas tarefas.
Motivação
No fim do capítulo deve conseguir
- definir motivação e explicar a sua importância nas organizações;
- descrever o sistema (ciclo) motivacional;
- descrever e comparar as teorias de conteúdo, de processo e de reforço;
- discutir a motivação de equipas.
1.Motivação e sistema motivacional
De forma geral, a motivação é aquilo que leva uma pessoa a agir de determinada maneira. Pode vir de um estímulo externo ou de processos mentais internos. O capítulo cruza três definições clássicas:
| Autor | Ideia central |
|---|---|
| Luthans (2006) | Processo que começa numa carência ou necessidade, fisiológica ou psicológica, e ativa um comportamento dirigido a um objetivo ou incentivo. |
| Campbell (1970) | Três perspetivas: direção do comportamento, força da resposta depois de escolhido o curso de ação e persistência. |
| Mitchell (1997) | Processo que explica a intensidade, a direção e a persistência do esforço de uma pessoa para atingir uma meta. |
Síntese do livro
Motivação é a vontade de fazer um esforço elevado em direção a objetivos. Tem três componentes: objetivo (direção), esforço (intensidade) e necessidade (persistência). A motivação apoia-se sempre numa necessidade.
O ciclo motivacional (Figura 3.1, a partir de Chiavenato)
- Necessidade insatisfeita
- Procura de formas de a satisfazer
- Escolha dos comportamentos para atingir o objetivo
- Adoção desses comportamentos
- Resultado: recompensa (intrínseca ou extrínseca) ou punição
- Reavaliação das necessidades, e o ciclo recomeça
Motivação intrínseca
Nasce dentro da pessoa, do que ela quer da vida. O prazer está na própria atividade.
Motivação extrínseca
Vem de incentivos externos (recompensas e punições). O prazer está nas consequências da atividade.
Nas organizações, a motivação de cada pessoa resulta da interação de três fatores:
- diferenças individuais: necessidades, valores, atitudes, interesses e aptidões. O mesmo estímulo não funciona igual para todos, porque cada um tem a sua história;
- características do trabalho: competências exigidas, autonomia, tipo de tarefa, feedback do superior;
- práticas de gestão: sobretudo as políticas de RH, com objetivos e incentivos que respondam às necessidades profissionais.
Regra geral, quanto maior a motivação, melhor o desempenho.
2.Teorias da motivação
Os antecedentes
- Taylor (gestão científica, início do séc. XX): o dinheiro é o único motivador do trabalhador comum. A receita era treinar bem para a tarefa e pagar à produtividade.
- Elton Mayo (Harvard, anos 20–30, fábrica de Hawthorne da Western Electric): a produtividade subia fosse qual fosse a alteração do ambiente físico. O fator decisivo era a atenção dada pelos superiores e as relações no grupo. É o efeito Hawthorne. O desempenho depende mais da dinâmica social do que dos métodos, o que contradiz Taylor. Nasce a escola das relações humanas e, com ela, as teorias da motivação.
| Grupo | O que estudam | Teorias |
|---|---|---|
| Conteúdo (ou satisfação) | O quê motiva: necessidades e fatores intrínsecos | Maslow · Herzberg · McGregor (X e Y) · Alderfer (ERG) · McClelland |
| Processo | Como se ativa, dirige, mantém ou para o comportamento: processos mentais de escolha | Adams (equidade) · Locke (objetivos) · Vroom (expectativa) |
| Reforço | As consequências do comportamento | Skinner |
2.1.Teorias de conteúdo
Maslow: hierarquia das necessidades
- Fisiológicas: alimento, repouso, abrigo, sexo. Segurança: proteção contra ameaças e privações, incluindo a segurança no emprego. São as necessidades primárias.
- Sociais (associação, amizade, amor), estima (autoconfiança, aprovação, respeito, estatuto) e autorrealização (desenvolver o próprio potencial) são as secundárias.
- Ideia-chave: só se sente uma necessidade quando a do nível inferior está razoavelmente satisfeita. Satisfeito um nível, o seguinte passa a motivar.
McGregor: Teoria X e Teoria Y
| Teoria X | Teoria Y |
|---|---|
| O ser humano tem aversão ao trabalho | O esforço é tão natural como o jogo e o repouso |
| É incapaz de se autodirigir e autocontrolar | Dirige-se e controla-se quando está empenhado nos objetivos |
| Só quer satisfazer necessidades primárias | A maior recompensa é a autorrealização |
| Foge à responsabilidade e é fonte de problemas | Aprende a aceitar e a procurar responsabilidades; muitos são capazes de criatividade |
| Incapaz de se desenvolver | O seu potencial está hoje subaproveitado |
| Gestão: incentivos económicos e controlo rigoroso ("pau e cenoura") | Gestão: enriquecimento de tarefas e participação |
Herzberg: teoria dos dois fatores
Fatores higiénicos (extrínsecos, de ambiente)
Condições que rodeiam o trabalho. Presentes: evitam a insatisfação, ficando em "não-insatisfação", mas não motivam de forma duradoura. Ausentes: causam insatisfação.
Fatores motivadores (intrínsecos)
Ligados ao conteúdo da função. Presentes: geram satisfação. Ausentes: geram "não-satisfação", mas não insatisfação.
O essencial é que satisfação e insatisfação não são opostos no mesmo eixo. Na linguagem de Maslow, os higiénicos correspondem às necessidades primárias e às sociais mais básicas; os motivadores, às restantes necessidades secundárias.
Alderfer: teoria ERG
| Alderfer | Corresponde em Maslow a |
|---|---|
| Existência | fisiológicas + segurança (comida, abrigo, condições de trabalho) |
| Relacionamento | sociais + estima |
| Growth / crescimento | autorrealização (contribuir, desenvolver-se) |
Três diferenças face a Maslow: (1) só três níveis; (2) várias necessidades podem motivar ao mesmo tempo; (3) princípio de frustração-regressão: quem não consegue satisfazer um nível volta a dar prioridade ao nível inferior, mesmo que já estivesse satisfeito. No exemplo do livro, trabalhadores sem a autonomia que esperavam passam a valorizar acima de tudo os amigos do trabalho.
McClelland: necessidades adquiridas
Nos anos 60, McClelland (Harvard) mostrou que as necessidades se aprendem na interação com o meio. Por isso, cada pessoa tem um perfil próprio. Três necessidades destacam-se:
- Realização
- Vontade de atingir algo difícil. Assume responsabilidades e riscos calculados, precisa de feedback frequente, valoriza o reconhecimento do grupo mais do que dinheiro ou promoções e gosta de fazer o que ainda ninguém fez.
- Afiliação
- Procura relações próximas, evita conflitos. Como chefia, tem dificuldade em avaliar os subordinados com objetividade e põe as pessoas acima da produção.
- Poder
- Quer influenciar e controlar os outros, ocupar posições de liderança, prestígio e competição.
Todos temos as três, com uma dominante. Para McClelland, os melhores executivos combinam muita necessidade de poder e pouca de afiliação.
2.2.Teorias de processo
Em vez de perguntarem o que motiva, analisam os processos mentais pelos quais a pessoa escolhe uma ação entre várias.
Adams: teoria da equidade (1962)
A pessoa compara a relação entre o que dá (inputs) e o que recebe (outputs) com a mesma relação noutras pessoas em situação semelhante.
Equidade ≠ igualdade
Há igualdade quando dois colaboradores recebem o mesmo. Há equidade quando cada um é recompensado de acordo com o seu mérito.
- Referentes da comparação: o próprio (noutra altura), colegas da mesma organização (equidade interna) ou pessoas com funções semelhantes noutras organizações (equidade externa).
- Estados possíveis (Figura 3.2): equidade (rácios iguais); iniquidade positiva (recompensa excessiva); iniquidade negativa (recompensa insuficiente).
- A iniquidade pode ser sentida em promoções ou transferências, mas o terreno mais sensível é o salário.
Locke (e Latham): definição de objetivos
O comportamento é regulado por valores e objetivos, e fixar objetivos é a maior fonte de motivação. Objetivo é o que a pessoa tenta conscientemente alcançar. Valor é uma crença fortemente interiorizada, como a honestidade ou a dignidade do trabalho. Conclusões:
- Participar na definição dos objetivos aumenta a sua aceitação, a motivação e o desempenho. Objetivos impostos geram frustração.
- Quanto mais difícil for um objetivo aceite, melhor o desempenho, desde que seja alcançável.
- Objetivos específicos resultam melhor do que genéricos e devem ter feedback e recompensa associados.
- Os objetivos de grupo e individuais devem ser compatíveis. Uma equipa com um objetivo específico é mais produtiva.
- Os objetivos e os resultados alcançados dão uma base sólida à avaliação do desempenho.
Vroom: teoria da expectativa
É uma abordagem cognitiva: o comportamento resulta de uma escolha consciente, e a pessoa escolhe o que vê como mais vantajoso. Há três forças em cadeia:
- Esforço → Expectativa: acredito que o esforço leva ao desempenho (se tiver meios: formação, equipamento, tempo)?
- Desempenho → Instrumentalidade: o desempenho traz recompensa? Se não houver ligação, é zero.
- Recompensa → Valência: quanto vale essa recompensa para mim? É subjetivo, porque o mesmo prémio vale muito para uns e pouco para outros.
Em termos práticos
O gestor deve (1) saber o que o trabalhador valoriza (dinheiro, trabalho com sentido, menos horas…), (2) prometer-lho em troca de um desempenho definido e (3) criar as condições para que esse desempenho seja possível.
2.3.Teoria do reforço, de Skinner
Skinner, o pai do comportamentalismo, parte de uma ideia simples: o comportamento recompensado tende a repetir-se, e o castigado tende a desaparecer. As pessoas fazem o que acham mais gratificante, por isso gerir as consequências é gerir o comportamento. O feedback é, por si só, um fator de motivação.
| Comportamento | Ação do gestor | Estratégia | Efeito |
|---|---|---|---|
| Atinge objetivos, mas com defeitos | Adverte o trabalhador | Punição | desencoraja (usar com cautela) |
| Atinge objetivos, mas com defeitos | Não encoraja nem recompensa | Extinção | desencoraja |
| Atinge objetivos sem defeitos | Deixa de reclamar ou exigir | Reforço negativo | encoraja (remove algo desagradável) |
| Atinge objetivos sem defeitos | Elogia e recomenda um prémio | Reforço positivo | encoraja |
Atenção: o reforço negativo não é um castigo. É retirar algo desagradável quando surge o comportamento desejado.
3.Motivação de equipas
| Grupo | Equipa | |
|---|---|---|
| Desempenho | soma do que cada um faz individualmente | resultados individuais e coletivos |
| Papéis | — | definidos entre os membros; há interdependência |
| Liderança e responsabilidade | — | liderança partilhada; responsabilidade individual e coletiva |
| Funcionamento | — | propósito específico, confiança mútua, reuniões abertas para resolver problemas |
As equipas geram sinergias e, por isso, as organizações preferem-nas aos grupos. Motivar equipas implica liderar: conhecer as pessoas e o que as motiva, acompanhar as fases por que a equipa passa até à maturidade, regular a comunicação, adaptar-se ao contexto e ter visão de futuro para mobilizar a equipa na mudança.
Exemplo do livro: José Mourinho (Lourenço, 2009; Goleman, 2012)
O livro apresenta Mourinho como líder que junta razão e emoção. É centralizador e frontal, procura lealdade e disciplina com justiça, mas ouve os jogadores, analisa o desempenho em grupo, explica as decisões e gere bem conflitos e indisciplina. É um comunicador eficaz e assertivo. Goleman acrescenta que a empatia e a comunicação são competências de inteligência emocional, mas que o estilo relacional, sozinho, não melhora diretamente o desempenho: deve ser combinado com um estilo visionário.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Mapa rápido das teorias
| Teoria | Palavra-chave |
|---|---|
| Maslow | pirâmide de 5 níveis, satisfação sequencial |
| McGregor | X (controlo) vs. Y (participação) |
| Herzberg | higiénicos evitam a insatisfação; motivadores satisfazem |
| Alderfer | ERG, necessidades simultâneas, frustração-regressão |
| McClelland | realização, afiliação, poder (aprendidas) |
| Adams | comparação social inputs/outputs; equidade ≠ igualdade |
| Locke | objetivos difíceis, específicos, aceites, com feedback |
| Vroom | expectativa × instrumentalidade × valência |
| Skinner | reforço +/−, extinção, punição |
motivaçãosistema motivacionalteorias de conteúdoteorias de processoteoria do reforçoequipacomportamentoperceção
Questões de revisão do livro: significado de motivação; sistema motivacional; diferenças entre teorias de conteúdo, processo e reforço; níveis de Alderfer; conclusões de McClelland; equidade de Adams com um exemplo; conclusões de Locke; fatores de Vroom; pontos-chave e estratégias de Skinner.
Caso de estudo: Empresa RS
Uma multinacional europeia de recrutamento e seleção quer continuar a crescer apesar da crise. Cria em cada país uma equipa para estudar os clientes e lança um programa de motivação com cinco medidas:
- passar a maioria das decisões para o nível operacional, eliminando gestores intermédios;
- gestão interativa: participação, decisões por consenso e comunicação verbal entre todos os níveis;
- prémios anuais por produtividade individual, com reuniões mensais sobre objetivos cumpridos e falhados;
- forte investimento em formação;
- creches para os filhos dos colaboradores, pensando na conciliação entre família e trabalho.
O resultado: colaboradores confiantes e gestores que agem "como empresários".
Questão
Comente o caso à luz das teorias do capítulo.
Pistas para a resposta
- Medidas 1 e 2: Teoria Y (autonomia, participação), fatores motivadores de Herzberg (responsabilidade) e necessidades de estima/autorrealização (Maslow) ou de crescimento (Alderfer).
- Medida 3: Locke (objetivos com feedback), Vroom (instrumentalidade do prémio) e Skinner (reforço positivo). Discuta também a equidade (Adams) e o risco de prémios individuais numa cultura coletivista (Hofstede, cap. 2).
- Medida 4: expectativa (dar meios para o desempenho) e crescimento.
- Medida 5: fatores higiénicos e necessidades de segurança. Evita insatisfação mais do que motiva.
- A criação de equipas por país liga-se à secção 3 (grupo vs. equipa e sinergias).
Teste-se
Qual a diferença essencial entre teorias de conteúdo e de processo?
As de conteúdo identificam o que motiva (necessidades). As de processo explicam como a pessoa escolhe e mantém um comportamento (comparação, objetivos, expectativas).
Segundo Herzberg, um bom salário motiva?
Não de forma duradoura. O salário é um fator higiénico: a sua falta causa insatisfação, mas a sua presença apenas a evita. Motivam os fatores ligados ao conteúdo do trabalho.
Explique o princípio de frustração-regressão.
Na teoria ERG, quando a pessoa não consegue satisfazer uma necessidade de nível superior (por exemplo, crescimento), volta a valorizar intensamente a de nível inferior (por exemplo, relacionamento), mesmo que já estivesse satisfeita.
Se um trabalhador acha que o prémio não depende do seu desempenho, que força de Vroom falha?
A instrumentalidade, ou seja, a ligação entre desempenho e recompensa. Se for nula, a motivação cai, por muito que o prémio valha.
Reforço negativo é o mesmo que punição?
Não. O reforço negativo encoraja um comportamento retirando algo desagradável (o chefe deixa de reclamar). A punição desencoraja um comportamento aplicando algo desagradável (uma advertência).
Liderança e inteligência emocional
No fim do capítulo deve conseguir
- definir liderança e inteligência emocional;
- identificar as qualidades e os traços de um líder;
- explicar os estilos de liderança e os fatores que influenciam a sua escolha;
- caracterizar as abordagens comportamental e situacional;
- distinguir líderes carismáticos, transacionais e transformacionais;
- discutir as competências da inteligência emocional.
1.A liderança
Há muitas definições, mas quase todas partilham cinco elementos: grupo, influência, comunicação, situação e objetivos. A liderança é uma influência interpessoal exercida num contexto, através da comunicação, para alcançar resultados. Sem grupo não há liderança.
A liderança é também um agente de mudança, porque transforma conhecimento em ação e eleva o desempenho. Por isso, a estratégia da organização deve apoiar-se nos seus líderes. Tem de ser dinâmica e atenta à maturidade e à experiência dos colaboradores.
O que um líder faz
Organiza a equipa · analisa e planeia as tarefas · motiva · acompanha o desempenho e recompensa a eficiência · foca-se nos objetivos · inspira confiança · relaciona-se bem · é criativo e flexível. Goleman acrescenta as competências emocionais, cada vez mais necessárias, porque grande parte do trabalho é feito em equipa.
1.1.Qualidades do líder
Não é preciso ter todas. O peso de cada uma depende do líder e da situação. O livro enumera:
atitude positivaautodisciplinacarismacompetênciacompromisso e empenhocomunicaçãoconfiançaempatiacriatividadediscernimentoaprendizagem contínuahonestidadeassertividadehumildadeproatividadebons relacionamentosrespeitovisão e consistênciacapacidade de delegarjustiçainteligência emocional
Alguns pormenores úteis para exame: na comunicação, repreender em privado e elogiar em público; assertividade é dizer o que se sente com honestidade e sem agressividade, respeitando os direitos das partes; justiça é tratar de forma igual situações iguais, isto é, equidade; a inteligência emocional pede equilíbrio entre razão e emoção (exteriorizar as emoções positivas e ponderar as negativas).
1.2.Teoria dos traços
É a abordagem mais antiga. Procura os traços comuns aos grandes líderes, vistos como indicadores da probabilidade de alguém vir a liderar. Os três mais estudados:
- Personalidade: as qualidades de 1.1;
- Motivação: sobretudo a necessidade de poder, que deve ser construtivo e gerar harmonia (recorde McClelland, cap. 3);
- Capacidade: competências interpessoais e também técnicas, para apoiar os colaboradores nas tarefas.
1.3.Estilos de liderança (Kurt Lewin, anos 30)
A liderança é uma relação funcional: só existe se o grupo reconhecer no líder as características de que precisa.
| Autocrático | Democrático | Laissez-faire (liberal) | |
|---|---|---|---|
| Decisão | Centraliza e decide sozinho; ignora ideias alheias | Delega e incentiva a participação; usa muito o feedback | Deixa toda a liberdade; na prática, não há líder |
| Reação do grupo | Tensão, frustração, falta de iniciativa, desconfiança | Relações próximas e comunicação franca; trabalha na ausência do líder; compromisso | Falta de coesão; tempo perdido em questões pessoais; sensação de abandono |
| Desempenho | Mau clima; para as autoras, nem chega a ser verdadeira liderança | Responsabilidade e empenho | Tende a ser medíocre |
| Exemplo do livro | Ex-eletricista que abre uma loja e proíbe os empregados de aconselhar clientes. Perde clientes e acumula dívidas. | Rui Nabeiro, fundador da Delta Cafés, que valoriza as pessoas e a transparência | Herdeiro de uma PME de móveis que se ausenta. Sem inovação e com conflitos, a empresa acaba por falir. |
1.4.Teorias comportamentais e situacionais
Abordagem comportamental
Procura o estilo mais eficaz, para o poder ensinar e formar líderes.
Abordagem situacional (contingencial)
Procura os fatores do contexto que tornam um estilo eficaz ou ineficaz. Não há um estilo universalmente melhor.
Abordagem comportamental
- Universidade de Ohio
- Duas dimensões: estrutura de tarefa (objetivos, prazos, organização do trabalho) e consideração (estima, confiança, respeito pelas ideias e sentimentos). Combinadas, dão quatro tipos. O líder "alta/alta" (muita tarefa e muita consideração) é o de excelência.
- Universidade de Michigan (Rensis Likert)
- Chegou a conclusões semelhantes: líderes centrados na tarefa (as pessoas são um meio) vs. líderes centrados nas relações (bem-estar, aceitação das diferenças).
- Os quatro sistemas de Likert (Quadro 4.1)
- Likert defendia a gestão participativa. Os quatro sistemas estão na tabela abaixo.
- Grelha de Gestão de Blake e Mouton (anos 60)
- Matriz de 9×9 (81 posições): preocupação com a produção/tarefa × preocupação com as pessoas. O estilo 9.9 teve os melhores resultados: menos rotação de pessoal, menos absentismo, mais satisfação.
| Autocrático-coercivo | Autocrático-benevolente | Consultivo | Participativo | |
|---|---|---|---|---|
| Decisão | totalmente no topo | no topo, com alguma consulta e delegação | todos os níveis são consultados; há delegação | todos participam; o topo só controla resultados |
| Comunicação | rara, só descendente | deficiente, sobretudo descendente | já existe ascendente | em todos os sentidos |
| Relações | desconfiança; grupos informais bloqueados | contacto aceite; organização informal vista como ameaça | algum incentivo ao trabalho de grupo e às relações informais | trabalho em equipa; grupos informais ativos |
| Recompensas | ênfase nas punições; poucas recompensas (salariais) | punições, com menos autoritarismo; mais recompensas salariais | recompensas salariais mais do que sociais; punições raras | recompensas sociais, materiais e salariais |
| Posição | Nome | Descrição |
|---|---|---|
| 1.1 | Empobrecido | Passivo; pouca preocupação com tarefa e pessoas |
| 1.9 | "Clube de campo" (o livro chama-lhe laissez-faire) | Foco nas pessoas e na harmonia; produção mínima |
| 9.1 | Orientado para a tarefa | Produção máxima, pessoas mínimas |
| 5.5 | Tipo mediano | Equilíbrio entre fazer o trabalho e manter o moral |
| 9.9 | Em equipa | Preocupação máxima com produção e pessoas. É o ideal. |
Abordagem situacional (contingencial)
Cruza traços e estilos com as contingências do meio: o líder, os liderados, a tarefa e os objetivos. Cinco modelos:
1. House: teoria "caminho-objetivo". O líder esclarece o caminho para que os colaboradores alinhem as recompensas que desejam com os objetivos da organização. Para isso, define bem a tarefa, forma, dá confiança e reconhecimento e liga as recompensas ao desempenho.
| Comportamento | Em que consiste |
|---|---|
| Diretivo | diz o que fazer e como |
| Apoiante | cuida das necessidades e do bem-estar e melhora o clima |
| Participativo | consulta e tem em conta as sugestões |
| Orientado para resultados | fixa objetivos desafiantes e espera muito |
Há dois grupos de contingências: o ambiente (estrutura da tarefa, autoridade formal, grupo de trabalho) e os colaboradores (necessidade de controlo, experiência, perceção das próprias capacidades). Os resultados esperados são motivação, satisfação e desempenho. Por exemplo, com uma tarefa ambígua e colaboradores que se sentem pouco capazes, convém a liderança diretiva.
2. Tannenbaum e Schmidt: continuum de liderança. Há uma gama contínua de estilos. À medida que o uso da autoridade do líder diminui, a liberdade dos colaboradores aumenta:
- decide e comunica
- decide e "vende" a decisão
- apresenta ideias e pede opiniões
- apresenta um projeto de decisão, sujeito a alterações
- apresenta o problema, recolhe sugestões e decide
- define limites e o grupo decide
- deixa o grupo decidir dentro de limites
A escolha depende das características do líder, dos colaboradores e da situação (dimensão, complexidade, estrutura, clima, tecnologia). Convém um estilo mais participativo se os colaboradores querem autonomia, têm experiência, são responsáveis, esperam participar e estão comprometidos com os objetivos.
3. Fiedler: modelo da contingência. Três fatores tornam a situação favorável ou desfavorável ao líder: relação líder/liderados (boa ou fraca), estrutura da tarefa (elevada ou baixa) e poder de posição (forte ou fraco). As combinações dão 8 graus: o grau 1 (tudo favorável) dá influência máxima e o grau 8 (tudo desfavorável) influência mínima.
Conclusão de Fiedler
A liderança orientada para a tarefa resulta melhor em situações muito favoráveis ou muito desfavoráveis. A liderança orientada para as pessoas resulta melhor em situações moderadas.
4. Vroom-Yetton-Jago. Qual o nível de participação ideal na tomada de decisão? É preciso equilibrar os benefícios da participação com a eficiência. Os fatores a considerar: quem tem a informação, o tempo disponível, o custo de envolver as pessoas e a aceitação de uma decisão autocrática.
| Estilo | Processo | Descrição |
|---|---|---|
| Autocrático | A1 | decide sozinho |
| A2 | pede informação, sem explicar o problema, e decide | |
| Consultivo | C1 | consulta individualmente, explicando o problema, e decide |
| C2 | consulta o grupo em conjunto e decide | |
| Colaborativo | G2 | discute com o grupo; a decisão é conjunta |
Por exemplo, pouco tempo para decidir favorece A1 ou A2.
p. 1225. Hersey e Blanchard: liderança situacional. Parte da Grelha de Gestão e acrescenta a variável maturidade dos colaboradores para a tarefa concreta (capacidade de fixar objetivos, aceitar responsabilidade, formação e experiência), e não a maturidade da personalidade.
| Maturidade | Estilo adequado |
|---|---|
| M1: não quer nem sabe | E1 Determinar/comandar: tarefa alta, relação baixa; instruções específicas |
| M2: quer, mas não sabe | E2 Persuadir/vender: tarefa alta, relação alta; diretivo, mas reforça o entusiasmo |
| M3: sabe, mas não quer | E3 Partilhar/participar: tarefa baixa, relação alta; decisões partilhadas, o líder facilita |
| M4: quer e sabe | E4 Delegar: tarefa baixa, relação baixa |
À medida que a maturidade cresce (M1 → M4, de forma gradual), o líder reduz o controlo e, a partir de certo ponto, também o apoio relacional. Ponto forte: reconhece a competência e a motivação como centrais. Ponto fraco: controlar os imaturos pode não os desenvolver e até agravar a imaturidade.
1.5.Líderes carismáticos, transacionais e transformacionais
É um regresso recente aos traços, motivado pelas insuficiências das abordagens comportamental e situacional.
| Carismático | Transacional | Transformacional |
|---|---|---|
| Efeito excecional nos seguidores, que vem da autoconfiança, da autoestima e da convicção. Insatisfeito com o statu quo, promove a mudança. Tem visão estratégica e global e comunica com forte carga emocional e empatia, sobretudo com grandes grupos. | Para muitos é mais gestão do que liderança. Foca-se no curto prazo e numa troca: obediência e esforço em troca de recompensa, e punição se o trabalho falhar. Muito usado, mas limitado. | Parecido com o carismático (visão, motivação, mudança), mas assente em objetivos comuns e no incentivo mútuo. Desenvolve os liderados para que também sejam líderes. É corajoso, acredita nas pessoas, aprende sempre e lida bem com a ambiguidade. Comunica muito e delega, apoiando-se em quem trata dos pormenores. |
2.A inteligência emocional
O conceito popularizou-se nos anos 90 com o livro de Daniel Goleman, psicólogo formado em Harvard. Em resumo, é a capacidade de reconhecer as próprias emoções e as dos outros, de se automotivar e de gerir bem as emoções, em si e nas relações. As emoções são uma fonte de domínio pessoal que pode valer mais do que o poder do cargo.
| Competências pessoais (autogestão) | Competências sociais (gestão das relações) | ||
|---|---|---|---|
| Autoconsciência | Autogestão | Consciência social | Gestão das relações |
| autoconsciência emocional; autoconfiança; autoavaliação (forças e limites) | adaptabilidade; autocontrolo; capacidade de realização; iniciativa | empatia; consciência organizacional; espírito de serviço (clientes) | liderança inspiradora; influência; desenvolver os outros; catalisar a mudança; gestão de conflitos; espírito de equipa e cooperação |
A liderança funciona melhor com líderes emocionalmente inteligentes, sobretudo sob stress. Uma organização é tanto mais "emocionalmente inteligente" quanto mais desenvolve estas competências nos seus membros. A autoconsciência é a base das restantes.
Aplicação: Mourinho à luz dos quatro domínios (Lourenço, 2009)
- Autoconsciência: conhece-se enquanto ser emocional e confia nas suas capacidades, o que o ajuda a ler as emoções dos outros.
- Autogestão: o estado de espírito do líder contagia o grupo. Mourinho transmite a confiança que tem em si.
- Consciência social: empatia muito individualizada, caso a caso e jogador a jogador.
- Gestão das relações: dá muita importância à língua comum no balneário, é frontal e honesto e está disponível para ouvir.
Goleman sublinha ainda a confiança e a integridade. Constroem-se com comportamentos coerentes ao longo do tempo (sinceridade, abertura, previsibilidade), dão segurança ao grupo, levam as pessoas a esforçar-se mais e exigem um líder emocionalmente equilibrado.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Esquema geral
- Traços: personalidade, motivação, capacidade.
- Estilos (Lewin): autocrático, democrático, laissez-faire.
- Comportamentais: Ohio (tarefa × consideração), Michigan (tarefa × relações), Likert (4 sistemas), Blake e Mouton (grelha 9×9).
- Situacionais: House (caminho-objetivo), Tannenbaum e Schmidt (continuum), Fiedler (3 fatores, 8 graus), Vroom-Yetton-Jago (A1–G2), Hersey e Blanchard (M1–M4 / E1–E4).
- Novas abordagens: carismática, transacional, transformacional.
- Inteligência emocional: 4 domínios (Goleman).
liderançalíderinteligência emocionaltraços do líderqualidades do líderestilos de liderançateoria comportamentalteoria situacionalcompetências
Questões de revisão do livro: definição de liderança; qualidades do líder; estilos; comportamental vs. situacional; tipos de Likert; tipos de House; carismático vs. transacional vs. transformacional; importância da inteligência emocional na liderança de equipas.
Caso de estudo: José Mourinho
O caso traça o percurso de Mourinho (a partir de Lourenço e Ilharco, 2009). Começou como observador dos jogos do pai, licenciou-se no ISEF, foi preparador físico, depois adjunto de Bobby Robson (Sporting, FC Porto, Barcelona) e de Louis van Gaal, e treinador principal a partir de 2000. Seguiu-se uma década com muitos títulos. Os traços destacados são a ambição, o trabalho e o rigor. Estuda os adversários ao pormenor, usa a comunicação social e a provocação para motivar os seus jogadores e desestabilizar os adversários, acompanha cada jogador a nível pessoal e recupera jogadores subaproveitados (Drogba). É frontal e visto por alguns como arrogante, e desafia os jornalistas. O caso termina com as características transferíveis para outras organizações: empenho, aprendizagem contínua, competência técnica, foco na equipa como um todo, adaptabilidade e comunicação empática.
Questão
Em que medida o perfil de Mourinho foi decisivo para as vitórias das equipas que treinou?
Pistas para a resposta
- Qualidades (1.1): competência, visão, confiança, comunicação, compromisso, proatividade.
- Estilo: centralizador, mas ouve e explica. Discuta onde se situa no continuum de Tannenbaum e Schmidt e na grelha de Blake e Mouton (próximo de 9.9?).
- Situacional: adapta a abordagem a cada jogador e momento (Hersey e Blanchard) e esclarece o caminho para o objetivo (House).
- Carismático e transformacional: visão de futuro e mudança, elevar jogadores "de segunda linha".
- Inteligência emocional: os quatro domínios (secção 2) e o contágio emocional.
- Não esqueça os limites: a frontalidade e a provocação podem gerar conflito (cap. 5).
Teste-se
Qual a diferença de fundo entre abordagem comportamental e situacional?
A comportamental procura o estilo ótimo, ensinável a qualquer líder. A situacional defende que a eficácia de um estilo depende do contexto (tarefa, liderados, poder, tempo…).
Numa situação moderadamente favorável, que estilo recomenda Fiedler?
O orientado para as pessoas (relacional). O orientado para a tarefa é melhor nos extremos, com situações muito favoráveis ou muito desfavoráveis.
Um colaborador experiente mas desmotivado: que estilo de Hersey e Blanchard?
É M3 (sabe, mas não quer). Pede E3, participar ou partilhar: pouca direção na tarefa e muito apoio relacional.
O que distingue o líder transformacional do transacional?
O transacional troca recompensas por obediência, a curto prazo. O transformacional partilha uma visão e objetivos comuns e desenvolve os liderados para que se tornem também líderes.
Quais os quatro domínios da inteligência emocional?
Autoconsciência e autogestão (competências pessoais); consciência social e gestão das relações (competências sociais).
Poder, conflito e negociação
No fim do capítulo deve conseguir
- definir poder, conflito e negociação;
- descrever as fontes de poder e de conflito e os níveis de conflito;
- compreender as consequências dos conflitos e as formas de os gerir;
- caracterizar as estratégias e táticas de negociação e evitar os erros típicos.
1.O poder
Definição
Poder é a capacidade de uma pessoa influenciar o comportamento de outra ou de um grupo. É um conceito relacional e revela-se na mudança de comportamento do outro. Quanto maior a dependência de A em relação a B, maior o poder de B sobre A.
| Fonte | De onde vem |
|---|---|
| Recompensa | capacidade de recompensar (boas avaliações, promoções, aumentos) |
| Coercivo | capacidade de aplicar sanções (o oposto do anterior) |
| Legítimo | ocupar uma posição hierárquica superior |
| Referência | ser visto como "modelo", alguém com quem os outros se querem identificar |
| Expertise (competência técnica) | conhecimentos profundos numa área |
| Acesso a recursos | capacidade de obter matérias-primas, dinheiro, pessoas |
| Acesso à informação | "informação é poder" |
2.O conflito
2.1.Definição e fontes
Não há uma definição simples, mas a maioria partilha três elementos:
- interação entre duas ou mais partes, com recursos escassos;
- incompatibilidade: divergência sobre o melhor caminho para os objetivos;
- perceção: se não for percebido pelas partes, o conflito não existe.
Conflito organizacional é, portanto, um desacordo percebido entre duas ou mais partes da organização. As fontes típicas são:
- interdependência no trabalho: uma equipa atrasa-se sempre e prejudica a seguinte;
- competição por recursos: todos os diretores querem mais pessoal e o orçamento não chega;
- diferenças de perceção: chefe e subordinado avaliam de forma diferente o mesmo desempenho, ou Produção e Comercial divergem sobre o produto ideal.
| Tipo | Incide sobre |
|---|---|
| de tarefa | conteúdo e objetivos do trabalho |
| de relacionamento | relações interpessoais |
| de processo | a forma de fazer o trabalho |
2.2.Níveis de conflito
Intrapessoal: dentro da pessoa, que tem dificuldade em escolher entre alternativas.
| Subtipo | Situação | Exemplo do livro |
|---|---|---|
| Atração–atração | várias alternativas agradáveis | gelado ou chocolate? |
| Repulsão–repulsão | várias alternativas desagradáveis; costuma ser o mais difícil, e não decidir deixa uma delas acontecer | perder a casa ou o rendimento |
| Atração–repulsão | a mesma opção tem vantagens e riscos | gosta de andar de barco, mas não sabe nadar |
Interativo: envolve duas ou mais pessoas com valores, interesses ou objetivos diferentes. Pode dar-se entre indivíduos (do mesmo grupo ou de grupos diferentes), entre indivíduos e grupos, entre departamentos (competição por recursos, objetivos discrepantes, como Produção vs. Comercial) ou entre organizações (disputa de recursos e clientes).
2.3.Consequências dos conflitos
Funcional
Confronto construtivo que melhora as decisões, o desempenho e a coesão.
Disfuncional
Processo e resultados opostos.
O que diz a investigação
- Conflito de tarefa em nível moderado: funcional (leva a expor ideias, melhorar e inovar).
- Conflito de relacionamento: geralmente disfuncional (bloqueia tarefas e objetivos).
- Conflito de processo: só é funcional se for baixo; acima disso atrasa o trabalho.
| Resultado | Descrição |
|---|---|
| Ganho–perda | uma parte ganha à custa da outra. O vencedor pode ficar com má imagem e obcecado com o sucesso; os perdedores culpam-se entre si. |
| Perda–perda | todos ficam longe dos objetivos iniciais, por exemplo quando um terceiro com mais poder impõe uma solução que não serve ninguém. |
| Ganho–ganho | todos atingem os objetivos por consenso, o que reduz conflitos futuros. |
| Disfuncionais | Funcionais |
|---|---|
|
|
2.4.Formas de gestão dos conflitos (Robbins, 2010)
Para resolver conflitos disfuncionais
- Conciliação: reduzir diferenças e valorizar interesses comuns.
- Metas superordenadas: uma meta que só se atinge cooperando.
- Expansão de recursos: dar acesso aos recursos a todas as partes.
- Não-enfrentamento: evitar que o conflito se manifeste ("varrer para debaixo do tapete").
- Concessão: cada parte cede algo relevante; não há vencedor.
- Comando autoritário: usar o poder formal.
- Alterar variáveis humanas: técnicas de mudança de comportamento.
- Alterar variáveis estruturais: reestruturar funções ou departamentos, transferir pessoas.
Para estimular conflitos funcionais
- Comunicações: mensagens que aumentam o nível de conflito.
- Inclusão de estranhos: pessoas com valores e comportamentos contrastantes.
- Reestruturação: mudar regras e aumentar a interdependência entre grupos.
- "Advogado do diabo": alguém que defende posições não convencionais.
3.A negociação
3.1.Introdução
Negociação é o processo em que duas ou mais partes com interesses em conflito apresentam e discutem propostas para chegar a um acordo que satisfaça cada uma, ainda que muitas vezes de forma desequilibrada. Características:
- é um processo;
- é bilateral ou multilateral;
- as partes têm interesses, objetivos ou meios diferentes;
- todas querem um acordo favorável;
- envolve lógica e factos, mas também atitudes, emoções e personalidade.
3.2.Estratégias e táticas
Estratégia
A orientação geral, o trajeto para os objetivos.
Tática
Manobras concretas, de curto prazo, ao serviço da estratégia.
Fatores que moldam a estratégia: poder e dependência (o poder de uma parte depende da dependência da outra), informação (para avaliar a realidade e decidir) e tempo (mais tempo aumenta as hipóteses de um bom acordo; pouco tempo limita).
| Distributiva | Integrativa | |
|---|---|---|
| Recursos | quantidade fixa a dividir | quantidade variável, que pode crescer |
| Motivação | eu ganho, tu perdes | eu ganho, tu ganhas |
| Interesses | opostos | convergentes |
| Relação | curto prazo | longo prazo |
Na distributiva, cada parte tenta impor o seu ponto de vista, e o que um ganha o outro perde. Na integrativa, cada parte preocupa-se também com as vantagens da outra e procura uma solução ganho–ganho, com comunicação franca e troca de ideias.
Táticas referidas no livro (algumas são duras, outras colaborativas):
- demonstrações de poder e firmeza: encurtam o processo, mas podem estragar negociações futuras;
- fingir grande interesse num ponto secundário para depois o "trocar" pelo que realmente interessa;
- planear por escrito;
- procurar alternativas que beneficiem todos (integrativa);
- levar a outra parte a pôr-se no nosso lugar;
- ser convicto sem ser inflexível (integrativa);
- oferecer algo em troca no momento psicologicamente certo;
- negociar em território próprio (quem joga em casa domina) ou, para o evitar, em território neutro.
Intervenção de terceiros
Quando a negociação falha, pode intervir uma terceira parte aceite por ambas:
- Mediação: o mediador apenas sugere, para desbloquear.
- Arbitragem: o árbitro decide, depois de ouvir as partes.
Táticas do terceiro: verificar a motivação das partes para reduzir o conflito, evitar confrontos prematuros, criar condições para o diálogo e garantir uma comunicação que mantenha um nível de tensão adequado.
3.3.Erros comuns
- Falta de planeamento: um dos mais comuns e graves; desequilibra a negociação e gera conflito ou impasse.
- Erros de perceção: estereótipos, deixar uma característica ofuscar as outras (efeito de halo) e juízos à primeira vista.
- Ansiedade para fechar: precipitar o acordo e deixar escapar um melhor.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em cinco linhas
- Poder é influência baseada na dependência. Tem sete fontes: recompensa, coerção, legitimidade, referência, expertise, recursos e informação.
- Conflito exige interação com escassez, incompatibilidade e perceção. Pode ser de tarefa, de relacionamento ou de processo.
- Níveis: intrapessoal (atração/repulsão) e interativo (pessoas, grupos, departamentos, organizações).
- O conflito pode ser funcional ou disfuncional. Gere-se resolvendo o disfuncional e estimulando o funcional.
- A negociação pode ser distributiva ou integrativa, usa táticas, pode recorrer a mediação ou arbitragem e deve evitar três erros: não planear, perceção enviesada e pressa.
poderconflitofontes de conflitoníveis de conflitoconsequênciasgestão de conflitosnegociaçãoestratégias e táticaserros de negociação
Questões de revisão do livro: poder e conflito organizacional; níveis de conflito; consequências; formas de resolução; negociação; estratégias e táticas; erros comuns.
Caso de estudo: Eletrodomésticos Ómega
O presidente discutia os assuntos da empresa com cada diretor em separado, nunca em reunião conjunta. Isso alimentava a competição entre diretores e a tensão entre departamentos. Passou a reunir semanalmente todos os diretores, envolvendo-os nas decisões como equipa. Seis meses depois havia cooperação, decisões alinhadas com o interesse da empresa e menos conflito.
Questões
- Que níveis de conflito estão presentes?
- Qual o resultado do conflito (ganho–ganho, ganho–perda, perda–perda)?
- Que forma(s) de gestão foram usadas?
Pistas para a resposta
- Níveis: interativo, entre indivíduos (diretores) e entre departamentos. A fonte é a competição, agravada por um padrão de comunicação individualizado.
- Resultado: passou-se de uma lógica de ganho–perda (competição) para ganho–ganho (decisões consensuais no interesse comum).
- Gestão: alteração de variáveis estruturais (nova forma de reunir e decidir), metas superordenadas (interesse da empresa) e participação, que se aproxima da conciliação. Pode ligar ao sistema participativo de Likert (cap. 4).
Teste-se
Um técnico informático de quem toda a empresa depende tem que tipo de poder?
Poder de expertise, reforçado pela dependência dos outros. Pode também ter poder de acesso à informação.
Porque se diz que o conflito "tem de ser percebido"?
Porque, se as partes não tiverem consciência do desacordo, não há conflito em termos práticos, mesmo que existam divergências objetivas.
Que tipo de conflito pode ser benéfico, e em que dose?
O conflito de tarefa, em nível moderado. O de processo só em nível baixo. O de relacionamento é quase sempre prejudicial.
Qual a diferença entre mediação e arbitragem?
O mediador só faz sugestões para aproximar as partes. O árbitro toma a decisão final depois de as ouvir.
Numa negociação integrativa, o que acontece aos recursos?
São vistos como variáveis: as partes procuram "aumentar o bolo" e encontrar soluções que beneficiem todos, numa relação de longo prazo.
A estratégia para os recursos humanos
No fim do capítulo deve conseguir
- caracterizar a gestão estratégica e o modo de a avaliar;
- identificar as fases da elaboração da estratégia e compreender a sua implementação;
- ver os RH como fator de competitividade e ligar a estratégia geral à estratégia de RH;
- caracterizar o planeamento de RH;
- conhecer três estratégias típicas dos países de salários elevados e o seu impacto nos RH (automatização, outsourcing/offshoring, flexibilidade laboral).
1.Estratégia empresarial
O capítulo parte de duas definições clássicas: a do dicionário, em que estratégia é a arte militar de planear as grandes operações da guerra, e a de Clausewitz, que opõe a tática (o uso das forças no combate) à estratégia (o uso dos combates para ganhar a guerra).
A estratégia, nas suas grandes linhas (Quadro 6.1)
Visa atingir objetivos, com um sentido global (dimensão) e de médio-longo prazo (tempo). A gestão estratégica procura objetivos globais e sustentáveis a médio-longo prazo.
Na empresa capitalista, o fim último é uma "boa rendibilidade sustentada": um rendimento satisfatório para os sócios, tendo em conta as oportunidades e ameaças externas e os pontos fortes e fracos internos. O avaliador último é o rácio resultado líquido do período ÷ capital próprio, ou seja, a rendibilidade dos capitais próprios.
A sequência tendencial da gestão estratégica (Quadro 6.2)
- Rendibilidade: é o fim a atingir
- Objetivos potenciais: que produtos ou serviços, para que mercados?
- Análise estratégica: confronto com os fatores externos e internos (uma SWOT)
- Objetivo(s) a alcançar: os cenários viáveis escolhidos
- Estratégia: o caminho para os atingir (por exemplo, liderança pelos custos)
É uma sequência tendencial e não rígida. O cérebro humano não funciona por etapas estanques.
Fatores externos típicos (Quadro 6.3)
- mutações técnicas
- conjuntura económica
- características da procura final
- sistema legal
- concorrentes (atuais e potenciais), clientes, fornecedores, substitutos
- cultura nacional (Hofstede)
Fatores internos típicos (Quadro 6.4)
- capacidade de mudar (I&D)
- nível de custos e margem
- recursos financeiros disponíveis
- cultura organizacional (níveis hierárquicos, trabalho em equipa)
Exemplo condutor: a empresa ALFA
A ALFA é uma média empresa industrial portuguesa com cerca de 30 concorrentes nacionais. Depende do componente X, que só um fornecedor francês vende em Portugal. Para esse fornecedor, a ALFA pesa 0,7% das vendas, e o único substituto não é fiável.
- Ameaça (externa): o fornecedor é monopolista, não depende da ALFA e não teme substitutos, por isso pode subir o preço.
- Ponto fraco (interno): o produto que usa X representa 63% das vendas e 71% do resultado operacional.
- Respostas possíveis: criar contrapesos (reestruturar para cortar outros custos), atacar a ameaça ou o ponto fraco (reduzir o peso desse produto) ou combinar as duas.
Quando a empresa atinge uma boa rendibilidade sustentada, diz-se que é competitiva, daí a expressão "estratégia competitiva".
Escolas e tipologias
Há várias escolas de gestão estratégica, muitas de origem norte-americana. Para umas, a estratégia vem da visão de um líder quase omnisciente, o que agrada ao individualismo norte-americano. Para outras, nasce do coletivo da empresa (autores japoneses e franceses). Há quem a veja como "pronto-a-vestir" e quem a veja como aprendizagem interna. Os autores recusam a filiação cega numa só escola: todas têm o seu espaço de validade. Os gestores práticos tendem a integrá-las, mas arriscam-se a deixar o dia a dia apagar a estratégia.
| Âmbito | Estratégia | Lógica |
|---|---|---|
| Mercado global | Liderança pelos custos | boa margem unitária com grande quota de mercado |
| Diferenciação | o cliente vê o produto como diferente e aceita pagar mais | |
| Segmento | Focalização | num segmento, pelos custos ou pela diferenciação |
A cadeia de ação estratégica (Quadro 6.5)
Estratégia → atua sobre os fatores determinantes da competitividade (recursos humanos, comerciais, técnicos e financeiros) → para atingir os objetivos → que permitem uma boa rendibilidade sustentada.
A implementação faz-se por planos de ação, formais ou informais, que definem os objetivos intermédios, o que fazer e que recursos obter. Depois é preciso executá-los, controlar e avaliar (a prática é o critério da validade) e rever cedo, se necessário até a própria estratégia. Os gestores que "nunca se enganam" arriscam-se a destruir rendibilidade e a ser afastados pelos acionistas.
2.Estratégia para os recursos humanos
Definição
Os RH são um dos fatores determinantes da competitividade. A estratégia de RH serve para obter, manter e configurar os recursos humanos de modo a assegurar uma boa rendibilidade sustentada, isto é, para fornecer as competências de que a estratégia precisa. É contingente: uma estratégia de custos, por exemplo, preocupa-se mais com o custo salarial por produto do que com a criatividade.
| Fase / estratégia | Perfil procurado | Remuneração e estabilidade |
|---|---|---|
| Arranque (empresarial) | inovadores, competentes, prontos a arriscar, flexíveis (sobretudo no tempo de trabalho) | pagamento atrativo e estabilidade, para os reter |
| Crescimento dinâmico | competentes (acima de tudo) e flexíveis, para explorar a oportunidade | pagamento atrativo e estabilidade |
| Lucro (maturidade) | eficientes; inovação e risco ficam em segundo plano | remuneração indexada ao rendimento; menos estabilidade |
| Liquidação (declínio) | gerir bem os despedimentos | irrelevante; a formação interessa aos trabalhadores que saem, não à empresa |
| Retoma | novos trabalhadores com competências em falta; flexibilidade e persistência | no início, o negócio não consegue pagar o esforço exigido |
Selecionar as competências certas não basta. É preciso que elas se manifestem no dia a dia: saber fazer e saber estar não garantem que a pessoa faça e esteja. Isso exige atenção permanente aos aspetos psicossociais, à carreira, à avaliação, à formação e à remuneração.
Uma relação nos dois sentidos
A estratégia geral condiciona a de RH, mas os RH também condicionam a estratégia geral. O caso extremo é não conseguir fixar certos objetivos por falta de pessoas qualificadas. Por isso, o DRH deve ter assento permanente na elaboração da estratégia, em pé de igualdade com os outros departamentos.
Fatores externos de RH (Quadro 6.6)
- mobilidade geográfica dos trabalhadores
- competências disponíveis vs. procura
- sistema de formação profissional
- taxa de emprego/desemprego
- nível salarial por função
- novas técnicas de produção
- características dos representantes de trabalhadores e patrões
- legislação laboral e IRCT
Fatores internos de RH (Quadro 6.7)
- peso dos custos com pessoal nos custos operacionais
- competências operacionais (existentes e potenciais)
- competências de gestão
- organização do trabalho
- relações laborais internas
ALFA, parte 2: a empresa decide vender diretamente ao consumidor, uma integração vertical a jusante. Contratar ou usar pessoal subaproveitado? Como as competências de venda existentes chegam, basta um treino breve e deslocar essas pessoas para a loja no centro de Lisboa. Os planos de ação terão de definir o programa de treino, quem o dá (provavelmente uma empresa de formação) e quem passa a funções comerciais. O critério final de avaliação continua a ser a rendibilidade.
A estratégia de RH é também global e de médio-longo prazo. O DRH não pode ficar reduzido à velha "função pessoal" de recrutar, processar salários e aplicar a lei.
Planeamento de recursos humanos
Serve para garantir trabalhadores para os postos de trabalho, compatibilizando a médio-longo prazo a procura de mão de obra (as necessidades dos dirigentes) com a oferta, interna e externa.
A previsão da procura depende de
- a estratégia geral (novos produtos? reestruturação? integração?)
- a estratégia de RH (contratar ou formar? quem e quando?)
- fatores externos (uma conjuntura pior significa menos procura)
- fatores internos (pessoal envelhecido significa mais procura)
Métodos: dados existentes, opinião dos gestores de todos os níveis e estudos que liguem atividade a emprego. Deve evitar-se a visão taylorista de especialistas que calculam tudo sozinhos no gabinete.
A oferta analisa-se com
- bases de dados internas (quem temos)
- bases de dados externas (competências no mercado)
Sempre numa perspetiva dinâmica. Na ALFA não havia vendedores, mas havia pessoas "transformáveis". Se forem precisos técnicos de frio daqui a dois anos, é preciso saber que cursos existem hoje e que procura haverá nessa altura.
p. 169Resumo (Quadro 6.8): estratégia e planos + fatores internos e externos → previsão da procura. Procura vs. oferta (interna e externa) → recrutamento, seleção, formação e remuneração.
3.Estratégias típicas em países de salários elevados
3.1.Introdução
Os anos 80 marcaram uma viragem estrutural no espaço euro-atlântico. Seguindo, com adaptações, a tipologia de Liemt (1992), o livro analisa três estratégias e o seu impacto nos RH.
3.2.Substituir trabalhadores por equipamentos sofisticados
- Aumenta a produção por hora e, por vezes, a qualidade. Na tipologia de Porter, é liderança pelos custos.
- Não protege necessariamente da concorrência dos países de salários baixos: estes também podem comprar as máquinas, e o custo de depreciação, operação e manutenção na Dinamarca pode ser maior do que os salários pagos, por exemplo, num país africano, onde muitas empresas ainda poupam em ativo fixo.
- Impacto nos RH: menos postos de trabalho e, mesmo assim, o risco de a empresa não aguentar a concorrência e fechar.
- Nos serviços presenciais não há concorrência de países distantes, mas há a das máquinas locais (lavagem automática, vending). A "moderação salarial" desincentiva a automatização, porque com salários baixos a máquina nem sempre compensa.
3.3.Concentrar-se no que capta valor e subcontratar ou relocalizar o resto
- A empresa fica só com as atividades que mais geram valor (no têxtil, o design e a promoção) e passa o resto a outras empresas (subcontratação/outsourcing) ou a outros países (relocalização/offshoring).
- As diferenças salariais podem ser internacionais, regionais (sul vs. norte de Itália) ou até locais (pequenas vs. grandes empresas no Japão). A subcontratação pode também trazer as pessoas até aos postos de trabalho (imigração). É, por isso, um conceito mais amplo do que a deslocação geográfica.
- O boom atual assenta em transportes e comunicações mais baratos e rápidos.
- Obstáculos (p. 172): instabilidade social, mão de obra local menos preparada e falta de infraestruturas no destino; vontade de controlar o produto (armamento); atividades que não se podem deslocar (turismo). Há também deslocações que nada têm a ver com salários, como a siderurgia, que se instala junto do consumo.
- Os mais prejudicados são os trabalhadores menos qualificados dos países de salários altos: ou a função sai do país, ou, se não puder sair (comércio, construção), "importam-se" trabalhadores mais baratos.
3.4.A flexibilidade laboral
Flexibilidade, na ótica empresarial, é a capacidade dos dirigentes para reagir ao meio no tempo e na diversidade adequados, reformulando as suas opções a qualquer momento. A laboral é a vertente mais falada, ao ponto de se usar "flexibilidade" como sinónimo. Mas há outras (Roldão, 1996):
- na conceção do produto: muitos produtos com poucos componentes;
- na produção: ajustar rapidamente a fábrica a novos produtos e volumes;
- no sistema de informação: ajustar o tempo de resposta às encomendas;
- e as flexibilidades externas (sistema financeiro, Segurança Social, educação, imobiliário…).
Para os autores, a obsessão com a flexibilidade laboral resulta muitas vezes da falta de interesse ou de capacidade para usar as outras.
| Vertente | O dirigente pode definir… |
|---|---|
| Numérica | quantos e quais trabalhadores tem ao dispor |
| Do tempo de trabalho | quanto se trabalha (cronométrica) e quando (cronológica) |
| Funcional | a abrangência das funções de cada trabalhador |
| De pagamento | as condições de remuneração |
Esta perspetiva é patronal: ignora a flexibilidade desejada pelos próprios trabalhadores.
Porquê e para quê? Dois objetivos
1. Aumentar a velocidade de rotação do capital
Encurtar o ciclo de exploração (na indústria, da compra das matérias-primas ao recebimento das vendas) permite recuperar o capital, com lucro, mais vezes por ano, e assim obter mais lucro anual. A flexibilidade do tempo e a funcional reduzem a "porosidade" da jornada. Daí o interesse patronal em facilitar turnos, horas extra, trabalho em dias de descanso e tempo parcial, restringir faltas e pausas, transformar o período normal num período médio e permitir a multifuncionalidade.
O discurso da "adaptabilidade" encaixa aqui: pede-se ao trabalhador que ganhe competências (horizontais, verticais ou de aprofundamento), aceite ser polivalente e se sujeite à flexibilidade do tempo.
2. Aumentar a taxa de lucro em cada ciclo
Baixar o preço da força de trabalho, fazendo cada tarefa ao salário mais baixo possível. Pode ser pela substituição de trabalhadores por outros mais baratos (despedimento, reforma antecipada, não renovação; trabalho temporário, "independente" ou subcontratado) ou por pagar aos mesmos em condições mais vantajosas para a empresa (menos componente fixa, mais indexada). São as flexibilidades numérica e de pagamento.
Os autores leem nesta lógica os discursos da "empregabilidade" (tornar-se contratável, se preciso aceitando piores condições), do "espírito empresarial" (tornar-se independente ou subcontratado, às vezes da própria ex-empresa) e até da igualdade de oportunidades (mais trabalho feminino reparte o custo da família por dois salários e amortece a contestação social).
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em cinco linhas
- A gestão estratégica procura uma boa rendibilidade sustentada (RL ÷ capital próprio), passando por objetivos potenciais, análise estratégica, objetivos escolhidos e estratégia.
- A implementação atua sobre os fatores de competitividade através de planos de ação, que se executam, controlam e revêem.
- A estratégia de RH obtém, mantém e configura as competências necessárias. É contingente e influencia, por sua vez, a estratégia geral.
- O planeamento de RH compatibiliza a procura prevista com a oferta interna e externa, numa perspetiva dinâmica.
- Nos países de salários altos, as empresas automatizam, subcontratam ou relocalizam e flexibilizam (numérica, tempo, funcional, pagamento).
estratégiagestão estratégicarendibilidadeanálise estratégicafatores determinantes da competitividadeestratégia para os RHplaneamento de RHflexibilidade laboral
Exercícios propostos no livro: (1) temas do plano de ação se a ALFA optar por reestruturar para cortar custos; (2) temas do plano de ação de RH se a integração a jusante exigir contratações; (3) um exemplo real de concentração no valor com subcontratação ou relocalização; (4) explicar porque o trabalho por turnos acelera a rotação do capital.
Pista para o exercício 4
Com turnos, os equipamentos trabalham mais horas por dia. O mesmo volume é produzido em menos dias e o ciclo de exploração encurta. O capital investido regressa, com lucro, mais vezes no ano.
Caso de estudo: HABILHOMME
Uma empresa de vestuário masculino da Europa ocidental vendeu durante anos, com sucesso, para consumidores de rendimento médio, com boa margem graças à eficiência produtiva. A partir de meados dos anos 90, as importações massivas destruíram as vendas e a margem. A gerência mudou de estratégia: passou a vender a um segmento em expansão, homens dos 30 aos 40 anos com rendimento elevado, e concentrou-se no design e na promoção em feiras. Fechou fábrica, armazéns e escritórios, indemnizou as trabalhadoras (quase todas mulheres) e subcontratou o fabrico no norte de África, que envia os produtos diretamente aos clientes. Hoje vende menos, mas com margens muito superiores. Das ex-trabalhadoras, cerca de 35% nunca mais trabalharam (metade vive de prestações sociais) e cerca de 50% alternam empregos precários com desemprego cada vez mais longo.
Questões
- Caracterize as estratégias seguidas à luz da tipologia de Porter.
- Faça uma breve reflexão macroeconómica e macrossocial sobre o caso.
Pistas para a resposta
- Antes: liderança pelos custos no mercado global (boa margem unitária, grande volume, eficiência).
- Depois: focalização com diferenciação (segmento de rendimento elevado, design), combinada com a estratégia de Liemt de concentração no valor e subcontratação internacional (3.3).
- Macro: a rendibilidade privada sobe, mas os custos sociais passam para o Estado (prestações) e para as trabalhadoras (desemprego, precariedade), sobretudo as menos qualificadas, que são as mais atingidas (3.3). Também se perde procura interna e se reforçam desigualdades de género e de região. Discuta a tensão entre competitividade da empresa e coesão social.
Teste-se
Qual é, para os autores, o avaliador último da gestão estratégica?
A rendibilidade dos capitais próprios: resultado líquido do período ÷ capital próprio. Traduz a "boa rendibilidade sustentada".
Qual a diferença entre ameaça e ponto fraco no exemplo ALFA?
A ameaça é externa: o poder de mercado do fornecedor monopolista. O ponto fraco é interno: a forte dependência de um produto que precisa do componente X.
Numa estratégia de liquidação, que papel tem a formação?
Interessa sobretudo aos trabalhadores que vão sair e procurar outro emprego, não aos dirigentes. Por isso, pede-se muitas vezes ao Estado que a financie.
Porque é que automatizar pode não bastar contra a concorrência de países de salários baixos?
Porque esses países também podem adquirir as máquinas, e porque o custo de depreciação, operação e manutenção pode ser superior ao dos salários baixos que se pagam lá.
Transformar o período normal de trabalho num período médio é que tipo de flexibilidade?
Flexibilidade do tempo de trabalho. Contribui para acelerar a rotação do capital e, se evitar o pagamento de horas extra, também aumenta a taxa de lucro.
Análise e descrição de funções
No fim do capítulo deve conseguir
- definir tarefa, função profissional e posto de trabalho;
- explicar o que são a análise e a descrição de funções, para que servem e quem as elabora;
- elaborar uma descrição de funções;
- perceber o impacto da mudança e da flexibilidade funcional;
- usar a análise de funções para as alterar (enriquecimento).
1.Tarefa, função profissional e posto de trabalho
| Conceito | Definição | Exemplo (alfaiate) |
|---|---|---|
| Operação elementar | gesto físico ou mental básico | pegar na fita métrica, anotar |
| Tarefa | conjunto de operações elementares com um objetivo produtivo | tirar medidas ao cliente |
| Função profissional / profissão | agregação típica de tarefas, com um nível de responsabilidade, relações e condições próprias, requisitos e um objetivo mais amplo | confecionar vestuário de homem |
| Posto de trabalho | concretização da função numa unidade organizacional | "a empresa PSI tem 12 postos de vendedor" |
O estudo das tarefas, operações, tempos e movimentos é a imagem de marca do taylorismo (F. W. Taylor, 1856–1915), que quis substituir os métodos empíricos dos operários por uma "racionalização" do trabalho. Frank Gilbreth definiu 17 movimentos elementares (escolher, posicionar, unir, inspecionar, repousar…) em que qualquer tarefa se decomporia. No Quadro 7.1, pregar um prego decompõe-se em oito passos, de escolher o prego a pousar o martelo.
Não há uma fronteira fixa entre tarefa e função: uma tarefa pode autonomizar-se e tornar-se função (por exemplo, aplicar o primário, antes tarefa do pintor). As funções podem agrupar-se por natureza (administrativas, produtivas, de direção, comerciais) ou segundo a Classificação Portuguesa das Profissões (CPP, publicada pelo INE), que tem dez grandes grupos, das Forças Armadas aos trabalhadores não qualificados.
2.O que é e para que serve a análise de funções?
Análise de funções
É o estudo e a sistematização de cinco características-chave de uma função:
- conteúdo funcional: as tarefas, principais e acessórias;
- responsabilidade por dinheiro, pessoas, equipamentos, materiais, dados, processos e segurança;
- relações funcionais dentro e fora da organização;
- exigências: físicas e mentais, formação escolar e profissional, experiência, títulos profissionais;
- ambiente natural e social do trabalho.
A descrição de funções é o produto da análise: o registo permanente dessas características, ou seja, um perfil profissional. O taylorismo foi o primeiro grande promotor da análise de funções.
Para que serve (Quadro 7.3)
- Recrutamento e seleção: que perfil procurar?
- Formação: não faz sentido formar em liderança quem não chefia.
- Avaliação da função: porque é que B é mais qualificada do que A?
- Avaliação do desempenho: não se avalia o esforço físico de um gestor de conta.
- Pagamento e promoção.
- Orientação profissional: o trabalhador sabe o que se espera dele e pode planear a carreira.
- Gestão de conflitos: o trabalhador é mesmo negligente, ou a tarefa nem é dele?
- Planeamento de RH.
- Organização e mudança do processo de trabalho.
Por isso, a descrição deve ser comunicada a cada trabalhador e aos representantes sindicais.
3.Elaborar uma descrição de funções
- Quem: os titulares da função, os supervisores e o analista de funções (quem coordena, que pode ser do DRH ou um prestador de serviços). Cada um dá o seu contributo.
- Para quê: o conteúdo depende do objetivo. Uma descrição só para a formação dispensa certos dados. A descrição "convencional" cobre as cinco características e pode incluir quantificação (por exemplo, responsabilidade = 3 numa escala de 1 a 4) a pensar na avaliação de funções.
- Modelo único para todas as funções, desenvolvendo mais ou menos cada ponto consoante a categoria.
| Método | Avaliação | Cuidados |
|---|---|---|
| Entrevista | a mais acessível e bastante fiável | criar confiança e empatia (os trabalhadores podem desconfiar ou aborrecer-se); usar um guião testado; perguntas claras, precisas e concisas; pedir discretamente comprovativos; entrevistar as pessoas certas em número suficiente, sem redundância; entrevistar sempre o supervisor, que corrige enviesamentos e conhece as relações funcionais |
| Questionário | menos fiável; exige entrevistas de validação | distorções por má compreensão ou por tentação de "enriquecer" a própria função; várias versões da mesma função com lacunas e contradições |
| Observação | morosa e pouco fiável; só como complemento | algumas tarefas podem não ocorrer durante dias; responsabilidades e relações não se veem |
| Compilações (CPP; O*NET nos EUA) | consultar antes | encurtam as entrevistas e ajudam a perceber o que se observa |
Regras (Quadro 7.4) e redação
(1) Informar-se antes sobre as funções; (2) entrevistar ou aplicar o questionário; (3) ir observando o trabalhador em ação.
A redação deve ser clara, precisa e concisa, a começar pelo título, sem ambiguidades nem redundâncias e com parágrafos curtos. As tarefas descrevem-se começando por um verbo. Antes de aprovar, deve ser ouvida a estrutura sindical.
4.Exemplo de descrição de funções
O livro dá o exemplo de um analista de profissões num departamento de formação e organização. Vale a pena reter a estrutura, que é a mesma do anexo (p. 197):
| Rubrica | O que contém |
|---|---|
| Data de elaboração | as descrições caducam, por isso a data é essencial |
| 1. Identificação | nome da função e departamento |
| 2. Conteúdo funcional | sumário numa frase, seguido de desenvolvimento: tarefas principais e acessórias, equipamentos e materiais, resultado final |
| 3. Responsabilidade | por que recursos responde e o que pode correr mal em caso de erro (danos, pessoas, imagem) |
| 4. Relações funcionais | de quem depende, quem supervisiona, relações com outros departamentos e com o exterior |
| 5. Requisitos | formação, títulos profissionais, experiência, características físicas e mentais |
| 6. Condições funcionais | local, ambiente físico (riscos, desconforto) e social (competitividade, hostilidade) |
5.Evolução das funções, novas funções e flexibilidade funcional
- As descrições caducam, sobretudo em períodos de mudança técnica rápida. Surgem funções novas e outras desaparecem ou são subcontratadas (por exemplo, "pintor" dá lugar a "pintor de cerâmica" e "pintor de metais").
- É preciso um fluxo de comunicação interna que permita prever alterações (os responsáveis pelo ficheiro devem conhecer os objetivos estratégicos) e comunicar as que já ocorreram (os chefes devem avisar o analista).
- A flexibilidade funcional complica muito o trabalho. Nas linhas de montagem dos EUA nos anos 50, cada operário fazia uma ou duas tarefas, e havia capatazes, técnicos, inspetores, reparadores e pessoal de limpeza separados. Descrever era fácil. No Japão dos anos 60–70, equipas com líder de equipa montavam, reparavam, inspecionavam, corrigiam defeitos, limpavam e faziam melhoria contínua. Descrever tornou-se muito mais complexo.
- Complexo não significa impossível: há muito que se fazem descrições para gestores de topo, cujas funções também são amplas e variáveis.
6.Analisar funções para as alterar
A análise taylorista levou à atomização das funções e ao esvaziamento intelectual do trabalho de base, separando uma minoria que pensa de uma maioria que executa. A ideia tem antecedentes em Adam Smith, que em A Riqueza das Nações (1776) elogiou a divisão do trabalho com o exemplo do fabrico de alfinetes.
Consequências da OCT (Organização Científica do Trabalho)
- Mais repetição, monotonia e fadiga, o que prejudica a própria eficiência que se queria aumentar.
- Funções empobrecidas; as promoções passam a ser quase só salariais.
- O trabalhador perde o controlo e a visão de conjunto do processo e da economia da empresa.
É a degradação das funções que Chaplin satirizou em Tempos Modernos.
p. 194A análise também pode servir o objetivo inverso: tornar as funções mais atrativas. É o enriquecimento de funções, associado a Herzberg (cap. 3). Segundo Herzberg, uma função satisfatória:
- exige variedade de competências;
- produz um bem ou serviço completo, ou quase;
- tem impacto positivo sobre outras pessoas;
- é exercida com autonomia (planear, organizar, executar, controlar);
- permite conhecer o resultado do próprio trabalho.
| Conceito | O que é | Exemplo dos alfinetes |
|---|---|---|
| Rotação de funções | alternar entre funções, que podem continuar atomizadas | metade do ano corta metal, a outra metade afia pontas |
| Ampliação de funções | mais tarefas, sem que a função fique mais atrativa (alargamento horizontal) | corta o metal e afia a ponta |
| Enriquecimento de funções | mais conteúdo, sentido, autonomia e feedback (alargamento vertical) | — |
Uma função "rica": o médico internista (Quadro 7.5)
Vê o doente como um todo (bem completo), tem papel relevante no tratamento, zela pela saúde e pela vida (impacto nos outros), trabalha com autonomia e vê o resultado da sua intervenção.
Para enriquecer uma função, é preciso conhecer a sua relação com o produto final e o que os titulares consideram que a tornaria motivadora, dentro das competências que têm ou podem adquirir. Para isso, a entrevista continua a ser o melhor método.
Síntese, palavras-chave e exercício
Em cinco linhas
- Operação → tarefa → função → posto de trabalho.
- A análise estuda tarefas, responsabilidade, relações, exigências e ambiente. A descrição é o registo permanente desse perfil.
- Serve para recrutar, formar, avaliar funções e desempenho, pagar, orientar, resolver conflitos e planear.
- Faz-se sobretudo por entrevista (incluindo o supervisor), com o questionário validado e a observação como complemento. Deve ser datada, atualizada e comunicada.
- O taylorismo atomizou as funções. O enriquecimento (Herzberg) faz o caminho inverso e não se confunde com rotação nem ampliação.
tarefafunção profissionalposto de trabalhoanálise de funçõesdescrição de funçõestaylorismoflexibilidade funcionalenriquecimento de funções
Exercício do livro: construir uma descrição de funções (a sua ou de alguém que entreviste ou a quem aplique um questionário) e registar as dificuldades encontradas com o método.
Caso de estudo: MUO, Máquinas e Utensílios do Oeste
Desde a fundação, no final dos anos 40 e com 9 trabalhadores, o dono paga parte do salário segundo a "dedicação" de cada um, avaliada por ele próprio. Nos anos 90 a empresa tem 253 trabalhadores e a avaliação chama-se agora "avaliação do desempenho", mas continua autocrática e discricionária. As acusações de "falta de dedicação" muitas vezes nada têm a ver com as funções: um conferente de mercadoria foi penalizado por não ajudar a reparar o telhado. Os trabalhadores protestam e demitem-se, dizem que na empresa só existe a função "Tudo", o sindicato intervém e a empresa perde dois processos em tribunal. O filho, que assume a gestão, percebe que primeiro é preciso um manual de descrição de funções, depois divulgá-lo e só então avaliar o desempenho com base nele.
Questão
Comente o caso do ponto de vista da utilidade (ou não) da análise e descrição de funções.
Pistas para a resposta
- Sem descrição, não há critério objetivo para avaliar o desempenho nem para pagar, e a avaliação fica arbitrária.
- A descrição serve para gerir conflitos: no caso do telhado, o conferente não falhou nenhuma tarefa sua. Explica também os processos perdidos em tribunal.
- Orientação: o trabalhador sabe o que se espera dele, o que acaba com a função "Tudo".
- O crescimento para 253 pessoas exige formalização (cap. 2, fator tamanho).
- A sequência do filho (descrever, comunicar, avaliar) está correta. Refira os cuidados de elaboração (entrevistas, supervisor, sindicato) e o risco de rigidez se houver necessidade de flexibilidade funcional.
Teste-se
Qual a diferença entre função profissional e posto de trabalho?
A função é o conjunto típico de tarefas, responsabilidades e requisitos (por exemplo, vendedor). O posto é a sua concretização numa unidade organizacional, e uma função pode ter muitos postos (12 vendedores).
Porque é imprescindível entrevistar o supervisor?
Porque tem uma visão externa da função, pode corrigir respostas enviesadas do titular e conhece bem as relações funcionais.
Porque é a observação só um método complementar?
É morosa e pouco fiável: algumas tarefas podem não ocorrer durante dias, e as responsabilidades e relações funcionais não se observam diretamente.
Ampliar uma função é o mesmo que enriquecê-la?
Não. Ampliar é acrescentar tarefas, que podem continuar pobres. Enriquecer é dar variedade, sentido, autonomia, impacto e feedback.
Que três consequências negativas teve a OCT?
Mais repetição, monotonia e fadiga; esvaziamento das funções, com promoções quase só salariais; e perda do controlo e da visão de conjunto por parte dos trabalhadores.
Recrutamento, seleção, acolhimento e socialização
No fim do capítulo deve conseguir
- definir e caracterizar recrutamento e seleção;
- caracterizar as formas e os métodos de recrutamento;
- comparar as técnicas de seleção mais usadas;
- perceber a relevância do acolhimento e da socialização.
1.Recrutamento e seleção
1.1.Introdução
Recrutamento
O termo vem do francês recruter e do vocabulário militar. É o conjunto de estratégias, técnicas e procedimentos para atrair candidatos com o perfil exigido. Objetivos: atrair o maior número de candidatos com potencial, reduzir o risco de saídas por falta de informação sobre a organização e cumprir as responsabilidades legais e sociais. Não é preciso cobrir todo o mercado, mas sim concentrar esforços nas fontes que interessam.
Seleção
É a comparação entre o perfil dos candidatos e as exigências do posto, para escolher os que têm mais probabilidade de se ajustar. Para as autoras, selecionar bem é talvez o maior contributo que um profissional de RH pode dar à organização.
Antes de recrutar: consultar a descrição de funções (cap. 7), analisar o histórico do posto (absentismo, rotatividade), entrevistar quem já exerce a função e as chefias ou colegas, e visitar o posto de trabalho.
p. 203Critérios gerais de recrutamento, além do perfil específico de cada função: iniciativa, liderança, análise e resolução de problemas, comunicação (falar bem e saber ouvir), trabalho em equipa, criatividade, inovação, gestão de prioridades e domínio técnico.
O selecionador precisa de conhecer a descrição e os pré-requisitos da função, os desafios e o perfil comportamental da área, a cultura e os valores, e a missão, visão e objetivos estratégicos.
1.2.Métodos e formas de recrutamento
O processo começa quando um departamento decide preencher uma vaga (por saída, transferência ou crescimento). Como preencher uma vaga custa dinheiro, devem ponderar-se primeiro alternativas: eliminar tarefas, redistribuí-las ou recorrer a horas extra. Depois, define-se a função, o perfil pedido e o que se oferece (remuneração e benefícios), e o chefe envia ao DRH uma ficha de pedido.
| Método | Característica principal |
|---|---|
| Head-hunting / executive search | abordagem direta a quadros muito especializados e bem pagos, que não respondem a anúncios |
| Outplacement | empresas que recolocam profissionais; permite poupar tempo e custos |
| Empresas de recrutamento generalistas | recrutamento, recolocação e trabalho temporário, sobretudo para quadros médios e inferiores; usam anúncios |
| E-recrutamento | Internet com filtros de triagem; rápido, abrangente e barato |
| Recrutamento interno | promoção ou transferência de quem já lá trabalha |
| Anúncios (jornais, revistas, rádio, TV) | os jornais permitem detalhar os requisitos |
| Centros de emprego | úteis sobretudo para o primeiro emprego |
| Ensino superior e associações de estudantes | serviços de colocação e estágios |
| Candidaturas espontâneas | ficheiro interno de currículos |
| Organismos profissionais | sindicatos e associações profissionais ou patronais, algumas com publicação de currículos |
| Palestras e conferências | dão visibilidade à organização |
| Intercâmbio com outras organizações | contactos no mesmo ramo |
| Rede de conhecimentos do pessoal | os colaboradores divulgam a vaga, por vezes com prémio por indicação |
Recrutamento interno: vantagens (Quadro 8.2)
- progressão na carreira, motivação e coesão
- lealdade e permanência
- adaptação mais rápida
- custos mais baixos (admissão, integração, período experimental, formação)
Recrutamento interno: desvantagens
- promover alguém acima do seu nível de competência (o "princípio de Peter")
- rotatividade excessiva, que se previne exigindo, por exemplo, um ano no posto atual
- conflitos entre colegas que disputam o lugar
- não traz conhecimentos e experiências novos
O recrutamento interno pode ser uma movimentação vertical (promoção), horizontal (transferência) ou diagonal (transferência com promoção). Baseia-se na avaliação do desempenho, na formação e nas condições de promoção.
Recrutamento externo: vantagens (Quadro 8.3)
- maior abrangência, por isso candidatos mais qualificados
- aproveita a formação paga por outras organizações
- renova a cultura e traz criatividade (capital intelectual)
Recrutamento externo: desvantagens
- mais caro (anúncios, consultoras, equipa)
- mais lento (é preciso conhecer o candidato de raiz)
- resultado imprevisível: os valores e métodos do recém-chegado podem chocar com os da casa
- Externo direto: a organização vai ao mercado por si, com anúncios (que devem dizer claramente o que se pede e o que se oferece) ou contactos diretos.
- Externo indireto: quando o direto falha ou faltam meios próprios, recorre-se a head-hunters, outplacement ou recrutadoras, ou simplesmente à rede de conhecimentos do pessoal.
- Misto, que é o mais comum: (1) primeiro externo e, se falhar, interno; (2) primeiro interno e, se falhar, externo; (3) os dois em simultâneo. Neste caso, em igualdade de condições, deve preferir-se o candidato interno.
1.3.Documentos da candidatura
- Curriculum vitae
- Resumo do percurso académico e profissional, adaptado a cada posto. Serve para apresentar o candidato, despertar interesse pela sintonia com o perfil, orientar a entrevista e mostrar a evolução possível. Secções típicas (Quadro 8.4): dados pessoais, objetivo, formação académica e profissional, outros títulos, experiência, línguas, informática e outros dados de interesse (voluntariado, prémios, associações). O livro mostra um exemplo no modelo europeu (Europass).
- Carta de apresentação
- Acompanha sempre o CV. Explica quem é o candidato e porque se candidata, e liga o seu percurso às necessidades da organização. Deve ser formal, concisa e caber numa página, com identificação, anúncio, função pretendida e referência ao CV em anexo. A primeira frase marca a diferença. Por e-mail, as regras são as mesmas.
- Ficha de candidatura
- Formulário da empresa (identificação, situação atual, habilitações, experiência, formação, línguas, informática, tempos livres), anexado ao CV. O DRH deve confirmar por escrito a receção da candidatura.
1.4.E-recruitment
É o uso da Internet para procurar candidatos e receber e triar candidaturas, através de bases de dados de CV, páginas web das organizações e sites de emprego.
- Para a organização: mais candidaturas, pré-selecionadas automaticamente pelo perfil; custos muito menores do que um anúncio de imprensa (sobretudo se ficar muito tempo publicado); atualizações quase gratuitas; pode até dispensar consultoras.
- Para o candidato: acesso a qualquer hora e em qualquer lugar, e dados que pode atualizar numa área pessoal.
- Rapidez: sem as demoras do jornal e do correio.
- Redes sociais (LinkedIn, Monster…): mais candidatos, menos custos, acesso fácil e internacionalização. Têm limites, por isso devem ser vistas como mais uma fonte.
1.5.Seleção e técnicas de seleção
A seleção deve ser bem planeada e começa pela informação sobre o posto (a descrição de funções ajuda). Os critérios típicos são os conhecimentos técnicos, a experiência, as condições físicas e a personalidade.
a) Análise curricular e verificação de referências
Confirma a veracidade dos dados e aprofunda o desempenho em empregos anteriores, por contacto telefónico ou pessoal ou por carta de recomendação. Uma carta básica indica o período e a função, as qualidades demonstradas e o motivo da saída.
b) Entrevista de seleção
É uma conversa, com ou sem guião, para identificar conhecimentos, capacidades e comportamentos. É das técnicas mais usadas, porque permite o contacto direto e esclarece dúvidas. Objetivos: confirmar o CV, conhecer o candidato e o seu ajuste ao perfil, informá-lo sobre a organização e o posto, deixá-lo acrescentar informação (motivações, objetivos) e, por vezes, decidir.
| Tipo | Como é | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|
| Não estruturada | tema geral e perguntas livres | perguntas individualizadas; boa perceção da pessoa | exige um entrevistador muito hábil; é lenta; difícil comparar candidatos |
| Semiestruturada | segue um quadro de referência | mais rápida e comparável; permite aprofundar temas | exige boa capacidade do entrevistador |
| Estruturada | perguntas fechadas, padronizadas e por ordem fixa | fácil de analisar e comparar; replicável | pouca flexibilidade; não aprofunda o imprevisto; ignora as circunstâncias pessoais |
Pode também ser conduzida a partir do CV ou de um guia, com casos e problemas para resolver, passando por temas variados para testar conhecimentos, ou como conversa informal.
| Formato | Nota |
|---|---|
| Individual | a mais usada; rápida e menos inibidora, mas mais subjetiva (um só avaliador) |
| Em série | várias entrevistas individuais seguidas (DRH, depois chefe da área); demorada e cansativa |
| Painel | vários entrevistadores ao mesmo tempo; poupa tempo, mas perturba o candidato |
| De grupo | vários candidatos juntos; boa para soft skills e reação ao stress; difícil de gerir |
| Social | avaliação informal sem que o candidato saiba |
| De stress | o entrevistador é hostil ou provocador de propósito, para ver o autodomínio (funções comerciais ou de marketing); exige grande preparação |
| Telefónica / virtual | a telefónica serve para confirmar dados de quem já se conhece; a virtual reproduz a presencial online |
Do lado do candidato (Quadro 8.8, em síntese)
O livro agrupa as perguntas típicas em sete temas: caráter geral, passado profissional, projetos de carreira, personalidade, salário, interesses extraprofissionais e outros. A lógica das respostas sugeridas é sempre a mesma:
- ligar o que diz às necessidades da organização e às funções do posto;
- ser sucinto e escolher exemplos concretos;
- não criticar empregadores ou colegas anteriores;
- nas qualidades e defeitos, apontar um defeito "aceitável" e o que faz para o corrigir;
- no salário, valorizar primeiro o conteúdo da função e depois referir um valor médio de mercado;
- no fim, fazer perguntas que mostrem interesse.
Na preparação: pensamento positivo e autoconfiança, conhecer bem o próprio CV (com números), conhecer a organização, estar preparado para surpresas e cuidar da postura e da apresentação.
p. 226Registo: notas escritas (podem ser enviadas ao entrevistado para validar) ou suporte audiovisual. Convém um guião de registo com dados pessoais, percurso, motivação, projetos e uma grelha de avaliação de 1 a 5 (apresentação, dinamismo, comunicação, controlo emocional, liderança, conhecimentos técnicos, decisão…), terminando numa classificação global.
Enviesamentos típicos do entrevistador
- juízos feitos antes da entrevista, a partir dos documentos;
- primeiras impressões que ofuscam o resto;
- fixação nos momentos finais (daí registar "na hora");
- fixação num momento positivo ou negativo;
- estereótipos ("é alemão, logo é organizado");
- julgar pela cultura e valores próprios.
| Vantagens | Desvantagens |
|---|---|
| conhecer pessoalmente; avaliar a comunicação verbal e a postura; obter e clarificar muita informação | exige planeamento e um espaço adequado; é demorada e cara |
c) Questionário
Conjunto estruturado de perguntas sobre a personalidade ou a relação com a função. Deve ter blocos temáticos em ordem lógica, um assunto por pergunta e ser claro, preciso e conciso. As perguntas podem ser abertas (resposta livre) ou fechadas (escolha múltipla, V/F, escala de concordância). O livro dá o exemplo de um questionário de personalidade com uma escala de 1 a 5.
| Vantagens (Quadro 8.11) | Desvantagens |
|---|---|
| muitas pessoas em pouco tempo; dados normalizados e fáceis de tratar; igualdade de tratamento, que evita discriminações | não permite aprofundar nem esclarecer; vulnerável a respostas "embelezadas" (sobretudo nos de personalidade); com perguntas fechadas, o candidato não se consegue destacar no que domina |
d) Testes
Avaliam características mentais, conhecimentos, aptidões e capacidades. Usam-se como complemento. As fronteiras são difusas: uma entrevista de stress é, afinal, um teste de personalidade, e um teste de conhecimentos pode ser um questionário.
| Tipo | O que avalia |
|---|---|
| Personalidade | com frequência pelo modelo dos cinco fatores (Big Five): estabilidade emocional vs. neuroticismo; extroversão vs. introversão; amabilidade vs. rudeza; conscienciosidade vs. laxismo; abertura à experiência vs. convencionalismo |
| Inteligência e capacidades | inteligência geral ou específica; capacidades físicas, psicomotoras (coordenação, tempo de reação) e percetivas (audição, visão periférica) |
| Conhecimentos | de "papel e caneta" (por exemplo, um relatório em francês) ou situacionais: simular o dia a dia da função para ver o saber julgar e o saber fazer ("repare esta avaria") |
| Vantagens (Quadro 8.13) | Desvantagens |
|---|---|
| igualdade, que evita discriminações; os testes situacionais dão a conhecer a organização e o trabalho; sem "papel e caneta", é mais fácil mostrar o que se sabe | perguntas fechadas limitam a afirmação do candidato; a tensão condiciona as respostas |
e) Assessment centers
Não são uma técnica autónoma, mas uma forma integrada e sofisticada de combinar simulações, entrevistas e questionários, muitas vezes sob stress. Vários avaliadores sem relação hierárquica entre si formam um júri, registam os desempenhos e integram-nos num relatório.
- Preparação: definir o objetivo (aqui, seleção), analisar a função e as funções-alvo futuras, conceber provas realistas e grelhas de avaliação, e informar os candidatos.
- Realização: provas; o júri observa e regista.
- Feedback: reunião, muitas vezes longa, para uma classificação consensual (por candidato ou por competência) e um prognóstico de sucesso.
A prova mais conhecida é o in-basket: o candidato assume a função e resolve, em cerca de 2 horas, um "cesto" de documentos com vários problemas, justificando por escrito cada decisão.
| Vantagens (Quadro 8.14) | Desvantagens |
|---|---|
| procedimentos padronizados e comparáveis; o candidato percebe melhor as exigências reais | preparação muito exigente; observadores bem formados |
1.6.Contratação
O responsável preenche uma ficha do candidato (classificação, integrar ou não, razões) e apresenta o contrato para assinatura. O art. 11.º do Código do Trabalho define o contrato de trabalho como aquele em que uma pessoa singular se obriga, mediante retribuição, a prestar atividade a outrem, no âmbito da organização e sob a autoridade deste.
| Tema | Regra |
|---|---|
| Modalidades | sem termo (implícita), a termo resolutivo, tempo parcial, intermitente, comissão de serviço, teletrabalho, trabalho temporário |
| Termo resolutivo (art. 140.º) | só para uma necessidade temporária e pelo tempo estritamente necessário |
| Termo certo (art. 148.º, segundo o livro) | tem data de fim; em regra, mínimo de 6 meses e até 3 renovações, com limites de duração (ex.: 18 meses para quem procura o 1.º emprego) |
| Termo incerto | dura enquanto durar a necessidade (ex.: acréscimo excecional de atividade); limite de 6 anos |
| Período experimental (art. 114.º) | ambas as partes testam a relação; salvo acordo escrito, qualquer uma pode denunciar sem aviso prévio, sem justa causa e sem indemnização |
Nota: os prazos refletem o Código do Trabalho na versão citada pelo livro (3.ª ed., 2022). Confirme sempre a redação em vigor.
2.Acolhimento e socialização
Acolhimento
Processo pelo qual o novo colaborador é recebido e fica a conhecer os aspetos essenciais da organização.
Socialização
Dá-lhe uma base de valores, atitudes e comportamentos que favoreçam a comunicação e a cooperação com os colegas, para que ganhe autonomia no posto e se sinta confortável na organização.
2.1.Programa de acolhimento
- Visita guiada às instalações (às vezes com uma apresentação audiovisual)
- Apresentação da história, cultura, regras, políticas, estrutura e pessoas-chave
- Entrega do manual de acolhimento
- Apresentação aos quadros e ao diretor do departamento
p. 238Manual de acolhimento: boas-vindas; apresentação da organização (missão, visão, objetivos, políticas, indicadores); organigramas; carta deontológica (direitos e deveres, regras, horário, remuneração, benefícios). Deve ser curto e apelativo.
Erros comuns no acolhimento
- tratá-lo como burocracia, esquecendo o lado humano;
- umas breves boas-vindas do Diretor de RH e logo "despachar" a pessoa para o chefe;
- entregá-lo a quem não tem preparação;
- tarefas demasiado complexas e excesso de informação no 1.º dia;
- deixar colegas descontentes "fazer a cabeça" ao recém-chegado.
2.2.O processo de socialização
É um processo de aprendizagem que molda o novo membro às necessidades e à cultura da organização, a pensar numa relação de longo prazo.
| 1.ª | Primeiro contacto: o recém-chegado traz os seus valores, atitudes e expectativas. |
| 2.ª | Choque entre essas expectativas e a realidade; a socialização "desliga" os pressupostos antigos e substitui-os pelos da organização. |
| 3.ª | Desenvolve as competências do trabalho e absorve os valores da organização e dos colegas; os problemas da fase anterior ficam superados. |
Métodos de socialização: o próprio processo de seleção (primeiro contacto com a cultura); o programa de integração; os grupos de trabalho (recorde Hawthorne); o conteúdo da função (talvez a principal fonte); a formação (técnica, mas também transmissora de valores); os sistemas de controlo e recompensa ("pau e cenoura").
Programa de integração e o mentor
- acompanhamento personalizado por um mentor, um colega experiente;
- formação no posto de trabalho;
- rotação por outros postos, para conhecer a organização, criar relações e ganhar competências;
- avaliação da evolução, com a opinião do mentor, que pode levar a ajustar o programa.
Fases da relação com o mentor: iniciação → desenvolvimento (supervisão próxima) → separação (autonomia) → redefinição (relação entre pares).
O livro inclui uma grelha simples de avaliação da integração (organização, resultados, iniciativa, desempenho, aprendizagem, relacionamento, integração na equipa; escala de 1 a 3).
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em cinco linhas
- Recrutar é atrair e selecionar é escolher. Ambos começam na descrição de funções.
- O recrutamento pode ser interno, externo (direto ou indireto) ou misto, cada um com vantagens e custos.
- A candidatura é composta por CV adaptado, carta de uma página e ficha. O e-recruitment é barato, rápido e abrangente.
- Técnicas de seleção: CV e referências, entrevista (estrutura, formato, enviesamentos), questionário, testes (Big Five), assessment center (in-basket).
- Acolhimento (programa e manual; evitar erros) e socialização (3 fases; integração com mentor em 4 fases).
recrutamentoe-recruitmentseleçãoacolhimentosocializaçãomentor
Questões de revisão do livro: recrutamento e os seus métodos; vantagens e desvantagens do interno e do externo; e-recruitment; enviesamentos na entrevista; vantagens e desvantagens da entrevista; o que avaliam os testes; acolhimento; fases da socialização.
Caso de estudo: RISoftware
Uma empresa brasileira de software, vista pelos clientes como competente, precisa com frequência de técnicos e vendedores com conhecimentos avançados de informática e recorre sobretudo ao recrutamento externo. Quando abre uma vaga, a área avisa o departamento de pessoal, que a divulga no site da empresa e reencaminha os CV ao diretor da área. Uma psicóloga faz a triagem e conduz entrevistas e testes. Depois da admissão, o novo colaborador recebe um Manual de Integração com a documentação do contrato e as normas da empresa.
Questões
- Vantagens e desvantagens do recrutamento externo para a RISoftware.
- Comente o processo de recrutamento, seleção e socialização.
Pistas para a resposta
- Externo: traz competências técnicas escassas e renovação, e aproveita a formação feita noutras empresas; mas é mais caro e lento, tem resultado incerto e pode desmotivar os internos, que não progridem. Faria sentido um recrutamento misto?
- Recrutamento: usa só o e-recrutamento no site. Podia alargar a redes sociais profissionais, universidades e indicações dos colaboradores.
- Seleção: triagem curricular, entrevistas e testes estão bem, mas convém envolver o diretor da área (entrevista em série), usar testes situacionais para técnicos e vendedores e cuidar dos enviesamentos.
- Socialização: entregar só um manual é o erro de tratar o acolhimento como burocracia. Faltam visita, apresentações, mentor, formação no posto, rotação e avaliação da integração.
Teste-se
Antes de abrir um recrutamento, que alternativas se devem ponderar?
Eliminar tarefas, redistribuí-las pelos colegas ou recorrer a trabalho extraordinário, porque preencher uma vaga tem custos.
O que é uma movimentação diagonal?
Uma transferência com promoção: o colaborador muda de área e sobe de nível ao mesmo tempo.
Qual a principal desvantagem da entrevista estruturada?
Perde flexibilidade e espontaneidade: não permite aprofundar o que não foi previsto e ignora as circunstâncias pessoais do candidato.
Quais são os cinco fatores do modelo de personalidade usado nos testes?
Estabilidade emocional (vs. neuroticismo), extroversão, amabilidade, conscienciosidade e abertura à experiência.
Porque não devem os avaliadores de um assessment center ter relação hierárquica entre si?
Para evitar que a opinião do superior influencie as dos subordinados e enviese a avaliação.
Quais as fases da relação com o mentor?
Iniciação, desenvolvimento, separação e redefinição (relação de igual para igual).
Remuneração e benefícios complementares
No fim do capítulo deve conseguir
- avaliar funções (ordenação, pontos, métodos intermédios) com preocupação de equidade;
- avaliar o desempenho com normas quantitativas e qualitativas e identificar as suas perversidades;
- atribuir prémios de desempenho e prémios indexados a indicadores financeiros globais;
- compreender a flexibilidade de pagamento, na perspetiva estrutural e histórica;
- conhecer os outros fatores da remuneração e os benefícios complementares;
- usar o orçamento de base zero, decidir se a força de trabalho é tratada como custo ou como ativo, e avaliar sistemas remuneratórios.
O fio condutor do capítulo
Descrição de funções (cap. 7) → avaliação de funções → escala remuneratória básica → ajustada por desempenho, prémios globais, antiguidade, inflação e produtividade, lei e IRCT, capacidade financeira, sindicatos e mercado de trabalho → remuneração efetiva. A isto somam-se os benefícios complementares.
1.Avaliação de funções
Serve para determinar o valor relativo de cada função face às outras. Os autores lembram que é tão antiga como a primeira divisão de tarefas entre homens e mulheres (citando Engels), mas o capítulo trata da versão moderna, formal e assente na descrição de funções.
- Quem avalia: uma comissão de trabalhadores, eventualmente com representantes do patronato e dos sindicatos. O DRH não deve fazer parte: limita-se ao aconselhamento técnico e à coordenação. O resultado vai para um manual acessível a todos.
- Ordenação simples (da função mais qualificada para a menos): só funciona em organizações pequenas, com poucas funções de hierarquia evidente, e não diz quanto mais vale uma função do que outra.
O método da classificação por pontos
É considerado dos mais adequados. O exemplo do livro usa a grelha do grupo norte-americano HAY (anos 50): 3 fatores e 8 dimensões.
| Fator | Dimensões |
|---|---|
| Saber-fazer | conhecimentos técnicos ou especializados; conhecimentos de gestão; capacidade de interação humana |
| Resolução de problemas | exigência dos problemas; grau de iniciativa exigido |
| Responsabilidade | liberdade para atuar; impacto nos resultados; magnitude económica |
- Escolher os fatores e as dimensões.
- Ponderar cada dimensão. A ponderação depende da estratégia: numa estratégia de diferenciação pesa mais a iniciativa; numa de custos, o cumprimento de normas.
- Definir níveis (por exemplo, N1 a N4), cada um com um descritivo.
- Atribuir pontos a cada nível.
- Escrever o manual de avaliação.
- Pontuar cada função em cada dimensão.
- Somar para obter o valor total da função.
- Converter pontos em remuneração.
Exemplo de cálculo (com números ilustrativos)
Máximo de 500 pontos. Se "conhecimentos técnicos" pesar 20%, vale no máximo 0,20 × 500 = 100 pontos. Com 4 níveis iguais: N4 = 100, N3 = 75, N2 = 50, N1 = 25. Uma função que precise de conhecimentos técnicos de nível 2 recebe 50 pontos nesta dimensão. Repete-se o processo para as outras sete dimensões e soma-se (por exemplo, 225 pontos no total).
O Anexo 1 do livro (p. 306) mostra a tabela completa, com pesos de 5% a 25% por dimensão.
p. 249Cuidado com o contexto social. Os passos 6 a 8 aplicam-se primeiro a funções de referência: funções comuns no mercado, bem conhecidas, fáceis de comparar e consideradas normalmente pagas. Se houver dúvida, ouvem-se os delegados sindicais e consultam-se inquéritos salariais, retirando-lhes prémios e benefícios para não falsear a comparação e definindo bem o mercado relevante (setor? região? país?). Só depois se avaliam as restantes funções.
- Escalões de pontos: não faz sentido pagar de forma diferente por cada ponto. Por exemplo, 10 escalões de 50 pontos, e todas as funções entre 250 e 300 pontos ganham o mesmo. Escalões mais largos (banda larga) reduzem a hierarquização e a distância social.
- Remuneração do escalão: a da função de referência que lá cabe é a remuneração-alvo (média próxima dela, pouca dispersão). A estratégia pode justificar pagar mais a uma função crítica para o negócio.
- Grupos funcionais (gestão, administrativas, comerciais, técnicas superiores, industriais, auxiliares): ponderações diferentes por grupo, sem esquecer a equidade entre grupos. Os trabalhadores comparam, e o argumento de que "são funções diferentes" não evita conflitos.
- Ao implementar numa organização já existente: sobem-se as funções mal pagas e baixam-se as sobrepagas. Neste segundo caso, com muito tato: aumentos menores ou nulos, ou aplicando o novo valor só ao sucessor.
Outros aspetos
- Métodos intermédios
- Definem-se níveis funcionais por características gerais (escolaridade exigida, experiência, supervisão exercida e recebida), com a mesma remuneração-base por nível. São adequados a médias organizações.
- Revisão
- Descrições e avaliações ficam obsoletas, sobretudo com mudança técnica rápida e quanto mais pormenorizadas forem.
- p. 254Inexistência de avaliação formal
- É o caso mais comum, sobretudo nas PME, que pagam "o que se paga por aí". As justificações habituais são (A) seguir o mercado, (B) a tarefa ser complexa, interminável e cara, o que é válido para funções técnicas muito voláteis, e (C) impedir a flexibilidade funcional, uma marca do modelo japonês.
2.Avaliação do desempenho e prémios indexados a indicadores financeiros globais
2.1.Introdução
Desempenho
É eficácia (atingir objetivos) mais eficiência (relação entre objetivos atingidos e meios usados). Pode consistir em resultados (objetivos quantificados) ou em comportamentos que os decisores consideram benéficos.
Produtividade vs. intensidade
Produtividade é a produção útil por unidade de tempo. Depende do esforço, mas também do conhecimento, dos meios de produção, da organização e da gestão, e até de condições naturais. Intensidade é o desgaste físico e psicológico por unidade de tempo. Um verdadeiro acréscimo de produtividade não aumenta o desgaste.
As teorias do reforço, da expectativa e da equidade (cap. 3) tendem a defender o pagamento por desempenho. Os autores criticam a ideia simplista de que "atingiu resultados, logo é produtivo, logo merece prémio" ou "a empresa lucra, logo os trabalhadores são produtivos". Os indicadores globais (lucro, VAB, vendas) dependem de fatores fora do controlo do trabalhador. O melhor indicador de produtividade empresarial é o VAB por hora de trabalho.
2.2.Avaliação do desempenho
O objetivo é definir critérios, a partir da descrição de funções, para acrescentar um prémio de desempenho à remuneração-base. O prémio é nulo se o desempenho apenas cumprir o mínimo da função. A figura central da avaliação é o supervisor.
Norma quantitativa
Assenta em resultados quantificados e nasceu com a industrialização. Há três métodos típicos:
- quantidade produzida ou vendida, ou número de serviços ou operações por período;
- tempo poupado na execução, mantendo a qualidade;
- grau de alcance de objetivos complexos, para quem tem funções de gestão (redução de custos, quota de mercado).
A vantagem é ser objetiva e imune à subjetividade do avaliador. Mas nem sempre é viável e, mesmo quando é, nem sempre é defensável.
Trabalho à peça, com números ilustrativos
Se a avaliação da função der 12 €/hora e a produção normal for de 24 unidades/hora, cada unidade vale 0,50 €. Normalmente usa-se como complemento: garante-se, por exemplo, 75% da taxa (9 €/hora, o equivalente a 18 unidades) e paga-se 0,50 € por cada unidade acima de 18. Quem produz 22 recebe 9 € + 4 × 0,50 € = 11 €.
Deve haver limites: acima de certo volume o valor por unidade desce e, a partir de um teto, deixa de haver pagamento, para proteger a qualidade. O método do tempo poupado segue a mesma lógica: produzir 5% acima do normal significa receber mais 5%.
Nas comissões de vendas (por exemplo, 80% fixo e 20% comissão) também convém haver limites, para o vendedor não descurar a relação com o cliente nem o trabalho de retaguarda. Objetivos mais complexos (angariar ou reter clientes, vender novos produtos) aproximam-se do método 3.
Evolução histórica do pagamento por desempenho
- Trabalho à peça individual: o seu apogeu vai do último quartel do séc. XIX até à linha de montagem (a primeira foi na Ford, em 1913). É a época de Taylor, Gilbreth e Fayol, em que o ritmo ainda dependia muito do esforço individual.
- Fordismo: é a máquina que impõe o ritmo, por isso os prémios de equipa fazem mais sentido do que os individuais.
- Equipas semiautónomas (anos 80–90; caso Volvo Kalmar): reforçam os prémios de equipa. A equipa pressiona cada membro a cumprir a norma coletiva, como se viu em Hawthorne.
- O trabalho à peça individual persiste e agrada sobretudo em culturas individualistas.
Prémios de equipa: aplica-se a mesma lógica à equipa (por exemplo, 6 pessoas × produção normal) e reparte-se o prémio por igual, globalmente (a equipa decide) ou proporcionalmente à remuneração-base, o que é pertinente quando as funções são diferentes. O fundamental é perceber o que os trabalhadores consideram equitativo. Como a produtividade depende cada vez mais do conjunto da empresa (Marx já notava o crescimento do trabalho indireto), justificam-se também prémios globais para todos.
Norma qualitativa
Não há um número à partida, mas há parâmetros. As ferramentas típicas são:
- questionário com escala qualitativa (por exemplo, de A = excelente a E = insatisfatório, com pontos associados);
- escala descontínua: vários textos sobre o mesmo item, apresentados fora de ordem, entre os quais o supervisor escolhe o que melhor descreve o avaliado. Isto contraria a tendência para escolher o meio ou o topo;
- ordenação simples do melhor para o pior, só viável em organizações muito pequenas.
Adequa-se a funções diversificadas, atípicas ou de resultado difícil de quantificar (gestores, administrativos, porteiro) e é a única forma de avaliar a aquisição de competências. Suporta a "avaliação do mérito" nos serviços. Os incentivos podem ser irreversíveis (integrados na remuneração-base, o que é recomendado quando premeiam competências adquiridas) ou reversíveis (pontuais). Pode também premiar sugestões que aumentem a produtividade (Fayol já valorizava a iniciativa).
Para evitar a inflação do mérito, fixa-se um orçamento em percentagem da massa salarial (por exemplo, 5%), repartido em cascata pelos supervisores, o mais perto possível dos beneficiários.
Perversidades das normas
Norma quantitativa
- "Esticar" o objetivo: subir a produção considerada normal para obter mais trabalho pelo mesmo dinheiro.
- A contratualização dos objetivos (Gestão por Objetivos, Peter Drucker) só aparentemente resolve o problema, porque as partes têm poder desigual. Às vezes é o próprio subordinado que "estica" o objetivo, para se proteger de reestruturações.
- Desajuste a funções complexas: forçar poucos objetivos quantificáveis leva a descurar tarefas importantes. É o caso do médico avaliado pelo número de doentes, ou do professor avaliado pelo número de publicações e não pelas aulas.
Norma qualitativa: 8 distorções típicas
- avaliar a pessoa ("é boa pessoa") e não o desempenho;
- favorecer quem se parece com o avaliador;
- extrapolar a partir de uma característica (efeito de halo);
- pesar só o desempenho recente;
- usar a avaliação como castigo ou repressão;
- avaliar os membros pela equipa;
- evitar conflitos dando a todos nota alta ou média;
- ignorar fatores de contexto.
Remédios: envolver o supervisor do supervisor ou fazer avaliação de 360° (chefes, subordinados, colegas, clientes, fornecedores); manter registos escritos ao longo do ano, contra a distorção 4; e formar os avaliadores.
Ordenação e distribuição forçada
A pontuação converte-se em menções (Satisfaz/Não satisfaz; Insuficiente…Muito Bom; Insuficiente…Excelente), que trazem benefícios, nada ou consequências (formação, mudança, penalização, despedimento). Por razões orçamentais, é comum estratificar o Satisfaz e impor quotas às menções mais altas (distribuição forçada). Os autores criticam esta prática:
- a estratificação só é aceite se tiver base objetiva, porque de outro modo parece injusta ("porque tenho 2 e o meu colega 3?");
- as quotas não têm base racional: porque 25% e não 30%? Invocar a lei normal em universos de centenas de pessoas é um erro;
- destroem o trabalho em equipa: o sucesso do colega passa a ser uma ameaça, instala-se a competição desenfreada, a desconfiança e o medo, e surge o "dividir para reinar", que pode chegar à destruição psíquica dos mais vulneráveis.
A proposta dos autores
Usar a menção Satisfaz / Não satisfaz, que é a menos imperfeita, complementada por um louvor para desempenhos de grande relevância. O louvor deve ser validado pelo topo, tornado público e traduzir-se em benefícios significativos. Se não houver dinheiro, a direção deve assumi-lo com frontalidade: o Satisfaz fica sem efeito financeiro até a situação melhorar.
Perversidades e ineficácia dos prémios
Os prémios aliviam a pressão por progressões automáticas, podem aumentar a intensidade do trabalho e dão ao trabalhador uma ilusão de independência. Geram tensão e conflito quando:
- substituem a remuneração-base por prémios incertos e só para alguns;
- os critérios não são claros, precisos e conhecidos com antecedência;
- falta equidade (premiar a produção, mas não quem a abastece);
- surgem "caçadores de prémios" hostilizados pelos colegas;
- os objetivos estão desatualizados e são excessivos (equipamento velho, menor poder de compra dos clientes);
- o bom desempenho é respondido com objetivos mais altos ou prémios mais baixos;
- se perdem prémios por razões externas (o camião parado à espera de peças);
- as sugestões são recusadas sem explicação e depois aplicadas;
- há divisão igualitária em equipas com desempenhos ou funções muito diferentes.
São ineficazes quando se banalizam, porque não acompanham as mudanças técnicas, ou quando o ganho extra não compensa o esforço.
Síntese intermédia (p. 275)
Um sistema de avaliação deve servir realmente para avaliar, e não para disfarçar cortes de despesa. Deve minimizar as perversidades e ser ligeiro: a Gestão por Objetivos consome muito tempo às chefias (acordar objetivos, acompanhar, verificar).
2.3.Prémios indexados a indicadores financeiros globais
São muito usados para gestores de topo, para alinhar os seus interesses com os dos acionistas (prática antiga nos EUA e generalizada na Europa desde os anos 80). Também se aplicam a todos os trabalhadores: os planos Scanlon e Rucker (EUA, anos 30–40) e a lei francesa de 1967 sobre a participação nos resultados. Distinguem-se dos prémios de desempenho, porque o indicador está longe do que cada pessoa faz. Mesmo para um gestor: porque é que a quota de mercado dependeria só dele?
| Método | Como funciona |
|---|---|
| % do acréscimo do VAB | distribui-se uma parte do crescimento do VAB (por exemplo, 10% de um aumento de 15% = 1,5% do VAB), proporcionalmente à remuneração-base, eventualmente em ações |
| Plano Scanlon (Joseph Scanlon, sindicalista, anos 30–40) | quando o rácio gastos com pessoal / vendas desce abaixo da média histórica, parte da poupança (por exemplo, 60%) é distribuída todos os meses. Guarda-se uma reserva para os meses sem poupança, e o que sobrar distribui-se no fim do ano. |
| Plano Rucker (Allen Rucker, anos 30) | variante baseada no rácio valor acrescentado / gastos com pessoal |
| Participação nos lucros | uma % do resultado (líquido, antes de impostos…), proporcional à remuneração-base, que pode subir por escalões de resultado |
Fontes de tensão
- São vistos como corporativistas, sobretudo quando se dão ações, porque ligam o trabalhador aos lucros. Os sindicatos desconfiam deles como forma de cortar na base.
- Dependem de fatores extrínsecos (qualidade da gestão, conjuntura). Por isso nunca devem substituir os prémios de desempenho: o essencial do que o trabalhador ganha acima da base deve depender do seu desempenho ou do da sua equipa.
2.4.Notas finais
- Coerência com a estratégia (Porter): a liderança pelos custos premeia volume, vendas e tempo poupado, dá peso às comissões e tende a usar prémios globais para substituir custos fixos. A diferenciação premeia a inovação, dá mais peso à base dos vendedores e o trabalho à peça não lhe serve.
- Negociar a distribuição com os trabalhadores e os seus representantes. Um esquema feito "no silêncio do gabinete" é visto como enviesado e, portanto, injusto, e perde a maior parte do efeito.
3.Flexibilidade de pagamento
É uma estratégia típica do espaço euro-atlântico depois dos anos 80 (cap. 6, 3.4). Depende da lei e dos IRCT, e do processo político que os molda. Santos (1989) enumera os fatores que a promovem: menos regulação da negociação salarial; fim do salário mínimo e da indexação; trabalho temporário, independente e ao domicílio; menos carga fiscal sobre o trabalho; dupla grelha salarial para jovens e recém-admitidos; e emprego dissimulado.
- Indexar os salários à inflação esperada em vez da verificada já é flexibilizar, porque abre a porta a subestimar a inflação e a baixar os salários reais.
- As outras flexibilidades alimentam esta. A numérica facilita despedir e contratar o sucessor com outras condições (o exemplo dos EUA). A funcional e do tempo facilita mudar funções, horário e, com isso, o salário (o exemplo japonês).
- Na empresa, faz-se através de prémios de desempenho e de prémios globais.
Aspetos estruturais: a tese neoclássica e a crítica dos autores
Tese neoclássica e neoliberal
- Nível micro: salários ajustados a cada mercado (setor × profissão × região).
- Nível macro: baixar os salários em geral para baixar os preços, aumentar a procura e o investimento intensivo em trabalho, e assim reduzir o desemprego.
- Para isso, abolir o salário mínimo, os encargos patronais e o subsídio de desemprego. Os sindicatos seriam barreiras (as experiências de Pinochet e Thatcher).
- Friedman (1968): a política de procura só baixa o desemprego até à sua "taxa natural", e abaixo disso gera inflação. Para baixar essa taxa: mais flexibilidade (de pagamento, numérica e do tempo), mobilidade e formação à medida dos patrões.
Crítica dos autores
- A flexibilidade de pagamento incentiva métodos de trabalho obsoletos e bloqueia a produtividade.
- Reduz a procura global: menos salários significa menos consumo, menos investimento e mais desemprego, o efeito contrário ao pretendido.
- No fundo, aumenta a parte do capital no rendimento nacional.
- A "taxa natural" funciona como um travão ao poder negocial dos trabalhadores, para proteger os lucros.
Perspetiva histórica
O círculo virtuoso pós-1945 (Quadro 9.1, com base em Boyer)
Houve uma política keynesiana (despesa pública social, impostos progressivos, juros contidos), negociação coletiva que repartia os ganhos de produtividade e produção em massa estandardizada.
- ↑ produtividade
- ↑ rendimento dos trabalhadores
- ↑ procura interna (consumo)
- ↑ investimento
- ↑ emprego e produtividade
A qualidade da vida laboral foi desvalorizada: o trabalho degradado, como a linha de montagem, era "compensado" com poder de compra, e os piores postos iam para imigrantes.
p. 286Depois dos choques petrolíferos (anos 70), com a concorrência asiática e o excesso de capacidade face ao consumo, a rendibilidade caiu. As empresas reagiram com outsourcing e offshoring, automação, downsizing, flexibilidade funcional e do tempo, e com a globalização financeira. O resultado foi desemprego, instabilidade e mais risco para as empresas, que por isso fogem aos custos fixos (Recio, 1988). O risco aumentou porque:
- aparecem concorrentes novos e mal conhecidos, relocalizados;
- os fornecedores dependem de multinacionais que mudam de país;
- os capitais voláteis tornam instáveis os juros e o câmbio (Nunes, 2010);
- os governos, sobretudo os mais fracos, perdem margem de política económica, o que deixa as PME sem apoio.
p. 288Os trabalhadores ficaram mais fracos (desemprego, precariedade, falências, encerramento de fábricas onde os sindicatos eram fortes, unidades de curta duração) e aceitaram pagamento flexível para salvar o emprego. É paradigmático o acordo Saturn (GM–UAW, 1985), em que 20% do salário passou a depender do desempenho. Juntam-se a concorrência de trabalho imigrante ilegal ou precário, o princípio do país de origem na UE e o afastamento das classes médias do Estado social (Hyman, 1998). Para os menos qualificados, a escolha passou a ser entre o desemprego e um salário próximo da média mundial.
4.Outros fatores da remuneração e benefícios complementares
- Antiguidade
- Progressão automática (diuturnidades), desde que o desempenho seja satisfatório. Justifica-se porque a permanência traz conhecimento do passado da organização e competências relacionais. Pode dar-se dentro do mesmo nível (por exemplo, de 5 em 5 anos) ou só depois de atingido o nível máximo. Cria diferenças dentro do mesmo escalão de pontos.
- p. 292Inflação e produtividade
- A inflação justifica cláusulas de indexação ao IPC. A produtividade embaratece os bens de consumo e aumenta o poder de compra. Com salários nominais parados e produtividade a subir, os trabalhadores ficam absolutamente mais ricos e relativamente mais pobres, porque perdem peso no rendimento nacional. Por isso os sindicatos pedem indexação à inflação e à produtividade.
- Legislação e IRCT
- O mais relevante é o salário mínimo, ligado às necessidades do trabalhador e não aos fatores de formação do salário. Adam Smith já defendia um mínimo de subsistência. O salário mínimo impôs-se com o Estado social. Se a avaliação der valores abaixo do mínimo ou do IRCT, a escala é ajustada.
- p. 293Capacidade financeira do empregador
- Depende da elasticidade da procura (preço e rendimento), da conjuntura, das cinco forças de Porter (rivalidade, poder de fornecedores e clientes, substitutos, novos concorrentes), do peso dos custos fixos e da eficiência. Quando é escassa, pode obrigar a cortes, uniformes ou desiguais. Uma função com muitos postos num negócio volátil pode acabar paga abaixo da referência.
- p. 295Ação sindical
- A dispersão por muitos sindicatos enfraquece a negociação. A taxa de sindicalização e a combatividade relacionam-se positivamente com os salários e dependem da capacidade de mobilização, da solidez da estrutura e do contexto. Um sindicato com mais poder técnico de pressão (maquinistas, pilotos) consegue mais para os seus.
- p. 296Mercado de trabalho
- (1) Entre duas funções com os mesmos pontos, paga-se mais a que é menos procurada pelos trabalhadores. (2) Se o mercado paga uma função bem acima da avaliação, trata-se como exceção, para não perder pessoas. (3) Para trabalhadores deslocados para outro país: garantir um nível de vida equivalente e um suplemento, ou uma tabela própria do país de destino.
Benefícios complementares
Podem ser legais (nacionais), de IRCT (setor ou profissão) ou voluntários. Exemplos: seguros de vida; pensões de sobrevivência, de invalidez e de reforma; assistência médica; licença de maternidade paga; creche; subsídio de desemprego; refeitório ou subsídio de refeição; transporte da empresa; carro, casa e estacionamento; empréstimos bonificados; viagens de férias; ações e stock options; indemnização por rescisão; apoio jurídico; bilhetes para espetáculos.
- Atribuição: pacote rígido; à escolha do trabalhador, ou por um crédito a gastar em benefícios (sistema "cafetaria"); ou misto (núcleo fixo e parte variável).
- Os voluntários pesam mais nos dirigentes e quadros superiores, o que aumenta as disparidades e gera tensão.
- A compensação por doenças e acidentes profissionais, hoje geralmente seguradas, é um avanço cultural recente. Até meados do séc. XX era um problema de cada trabalhador.
- Os benefícios podem servir de truque para baixar salários, daí a desconfiança sindical.
- Há também os benefícios sociais gerais, que não estão ligados ao emprego: ensino e saúde gratuitos, transportes subsidiados, rendas indexadas ao rendimento, tarifas sociais. Explicam porque diferenças salariais entre países nem sempre se traduzem em diferenças de nível de vida.
5.Orçamento, repartição da riqueza e avaliação do sistema
- Orçamento de base zero
- Periodicamente, imaginar os gastos com pessoal como se a organização (ou o departamento) começasse do zero, comparar com o real e ajustar quando se justificar. Cortes, com cuidado, aproveitando saídas naturais. Atenção: substituir antigos por novos mais baratos pode sair caro, e há casos de readmissões, porque a antiguidade tem valor. Esta lógica está por trás de muito offshoring e outsourcing, que na prática "zeram" o orçamento de pessoal. O orçamento deve separar a remuneração-base, a componente ligada ao desempenho e a componente ligada a indicadores globais.
- p. 301Custo ou ativo?
- Dois rácios, acompanhados ao longo dos anos: gastos com pessoal / custo total de exploração (o peso da força de trabalho no negócio) e gastos com pessoal / VAB (quanto recebe pela sua contribuição). Se o primeiro se mantém e o segundo desce, a contribuição não é recompensada, o que é sinal de que a força de trabalho é tratada como custo.
- p. 302Avaliar o sistema remuneratório
- Serve para verificar se continua alinhado com a estratégia. A avaliação externa usa dados de consultoras e organismos públicos ou a comparação informal com o setor ou a região. A interna olha para a facilidade de atrair candidatos e para as saídas voluntárias, por função, e usa entrevistas de saída, porque as saídas podem ter a ver com recompensas intrínsecas e não com o salário. É preciso corrigir sem hesitar, mas sem querer evitar todas as saídas, o que seria caro e imobilizador. Deve também verificar-se o cumprimento da lei e dos IRCT, e a distância entre o que o topo decide e o que se pratica.
Síntese, palavras-chave e exercícios
Em seis linhas
- A base da remuneração é a avaliação de funções (ordenação, pontos, métodos intermédios), feita por comissão, com funções de referência, escalões, grupos funcionais e equidade. Muitas PME limitam-se a seguir o mercado.
- O desempenho avalia-se por norma quantitativa (objetiva, mas "esticável" e desajustada a funções complexas) ou qualitativa (flexível, mas sujeita a 8 distorções).
- A distribuição forçada e as quotas são injustas e corroem a equipa. Os autores preferem Satisfaz/Não satisfaz com louvor.
- Prémios de desempenho e prémios globais (VAB, Scanlon, Rucker, lucros) geram tensão. Devem ser coerentes com a estratégia e negociados.
- A flexibilidade de pagamento é defendida pela teoria neoclássica e criticada pelos autores. Historicamente, veio substituir o círculo virtuoso pós-1945.
- Outros fatores: antiguidade, inflação e produtividade, lei e IRCT, capacidade financeira, sindicatos, mercado. Juntam-se os benefícios complementares, o orçamento de base zero, a questão custo vs. ativo e a avaliação do sistema.
avaliação de funçõesclassificação por pontosequidadeavaliação do desempenhoprémios de desempenhoprémios indexados a indicadores financeiros globaisflexibilidade de pagamentoantiguidadeinflaçãoprodutividadecapacidade financeirasindicatosoferta e procura de força de trabalhobenefícios complementaresorçamento de base zerorepartição da riqueza criadaavaliação dos sistemas de remuneração
Anexos do livro (pp. 306–308): tabela completa do método de pontos, com a avaliação de uma função técnica, e dois exemplos de grelhas de avaliação do desempenho que combinam objetivos quantificados e qualitativos (este último com escala descontínua), com o limiar de 1,60 para "Satisfaz".
Exercícios propostos no livro: (1) avaliar três funções da CPP pelo método de pontos; (2) um fator externo que afete os prémios globais; (3) desenhar um esquema de avaliação do desempenho para uma função conhecida; (4) calcular a evolução real do salário mínimo na última década; (5) como a elasticidade-rendimento e os custos fixos afetam a capacidade financeira; (6) caracterizar a aplicação de um benefício complementar.
Caso de estudo: Sociedade Alimentar, Lda.
É uma empresa grossista de um produto alimentar, com 210 trabalhadores, a maioria industriais e de armazém. A procura sobe 15% de repente, com duas encomendas estrangeiras, e a capacidade não chega: uma encomenda falha em parte. Um novo sócio, filho do fundador que morreu há pouco, conclui que o problema é o desempenho dos trabalhadores. Acusa alguns em público e, depois de ler dois livros, desenha um sistema de avaliação com prémios, baseado na quantidade produzida por mês e em normas técnicas do equipamento que encontrou no arquivo. O diretor de produção critica timidamente, mas a gerência aprova o sistema como experiência.
Ao fim de dois meses: o equipamento não aguenta o ritmo e as avaliações saem más; o clima degrada-se (críticas ao sistema, ao equipamento velho e aos colegas); abandonam-se a manutenção e a higiene e segurança; e falha outra encomenda. O sistema é suspenso.
Questões
- Explique as falhas que levaram à suspensão do sistema.
- Proponha medidas para resolver o incumprimento das encomendas.
Pistas para a resposta
- Diagnóstico errado: o problema era de capacidade técnica e não de esforço. A produtividade depende dos meios de produção e da organização (2.1). Exigir mais com o mesmo equipamento é aumentar a intensidade.
- Norma quantitativa mal construída: baseada em normas antigas do equipamento, é um objetivo desatualizado e excessivo. Faltou participação e negociação, e os critérios não foram conhecidos com antecedência.
- Perversidades: foco exclusivo no volume, abandono da manutenção e da segurança (desajuste da norma quantitativa), mau clima e conflitos entre colegas. O diretor de produção e os supervisores foram ignorados. As acusações públicas violam o tato recomendado no cap. 2 e as regras de liderança do cap. 4.
- Medidas: diagnóstico técnico da capacidade; investimento ou manutenção do equipamento; turnos ou horas extra temporárias, ou contratação a termo para a nova procura estável (cap. 6, planeamento); eventualmente subcontratar parte da produção; e, se se quiserem prémios, que sejam de equipa, negociados, realistas e com qualidade, segurança e manutenção incluídas.
Teste-se
Porque não deve o DRH fazer parte da comissão de avaliação de funções?
Porque o seu papel é técnico: aconselhar e coordenar. A comissão deve ser formada por trabalhadores e, eventualmente, representantes do patronato e dos sindicatos, o que reforça a legitimidade e a equidade percebida.
O que são funções de referência e para que servem?
São funções comuns no mercado, bem conhecidas, fáceis de comparar e consideradas normalmente pagas. Servem para calibrar a conversão de pontos em remuneração, de acordo com o contexto social, antes de avaliar as restantes funções.
O que significa "esticar o objetivo"?
Aumentar a produção ou o volume considerado normal para obter mais trabalho pelo mesmo dinheiro (ou menos). É a principal perversidade da norma quantitativa.
Porque criticam os autores a distribuição forçada?
Porque as quotas não têm base racional (a lei normal não se aplica a universos pequenos), geram injustiças e destroem o trabalho em equipa, ao transformar o sucesso do colega numa ameaça.
Explique o Plano Scanlon.
Quando o rácio gastos com pessoal / vendas desce abaixo da média de referência, uma parte da "poupança" (por exemplo, 60%) é distribuída pelos trabalhadores todos os meses, guardando-se uma reserva para os meses sem ganhos.
Como saber se uma empresa trata a força de trabalho como custo?
Comparando ao longo dos anos o rácio gastos com pessoal / custo total com o rácio gastos com pessoal / VAB. Se o primeiro se mantém e o segundo desce, a contribuição não é recompensada e a força de trabalho é tratada como custo.
Porque dizem os autores que os trabalhadores podem ficar "absolutamente mais ricos e relativamente mais pobres"?
Se a produtividade sobe e os salários nominais ficam parados, os bens ficam mais baratos e o poder de compra aumenta (mais ricos). Mas a parte dos salários no rendimento nacional diminui (relativamente mais pobres).
Glossário de estudo
São definições curtas, redigidas para revisão rápida, com a remissão para o capítulo onde cada termo é trabalhado. O livro tem o seu próprio glossário nas pp. 313–317.
- Acolhimento cap. 8
- Receção do novo colaborador e apresentação do essencial da organização (visita, pessoas, regras, manual de acolhimento).
- Análise de funções cap. 7
- Estudo das tarefas, responsabilidade, relações, exigências e ambiente de uma função.
- Assessment center cap. 8
- Combinação de simulações, entrevistas e questionários, observada por vários avaliadores sem relação hierárquica entre si (por exemplo, o exercício in-basket).
- Avaliação de funções cap. 9
- Determinação do valor relativo de cada função, que dá origem à escala remuneratória básica (ordenação, pontos, métodos intermédios).
- Avaliação do desempenho cap. 9
- Apreciação dos resultados (norma quantitativa) ou dos comportamentos (norma qualitativa) de uma pessoa ou equipa face ao que a função exige.
- Benefícios complementares cap. 9
- Vantagens além do salário (seguros, pensões, saúde, refeição, carro, ações…), que podem ser legais, de IRCT ou voluntárias.
- Ciclo motivacional cap. 3
- Necessidade → procura de formas de a satisfazer → escolha e adoção de comportamentos → recompensa ou punição → reavaliação.
- Comissão de trabalhadores cap. 1
- Órgão eleito pelos trabalhadores (um por empresa) com direito, entre outros, a controlo de gestão e a intervir na reestruturação.
- Conflito organizacional cap. 5
- Desacordo percebido entre partes da organização. Pode ser de tarefa, de relacionamento ou de processo, e intrapessoal ou interativo.
- Contrato de trabalho cap. 1 · cap. 8
- Acordo pelo qual alguém presta a sua atividade a outrem, sob a sua autoridade, em troca de retribuição.
- Convenção coletiva cap. 1
- IRCT negocial: contrato coletivo, acordo coletivo ou acordo de empresa.
- Cultura organizacional cap. 2
- Valores coletivos fundamentais que orientam a vida de uma organização, a sua "personalidade".
- Descrição de funções cap. 7
- Registo datado e permanente do perfil de uma função, que resulta da análise de funções.
- Distribuição forçada cap. 9
- Quotas máximas para as melhores classificações. Os autores criticam-na por ser injusta e prejudicar o trabalho em equipa.
- Dupla subordinação cap. 1
- Condição do assalariado: jurídica (sujeito à autoridade) e económica (dependente do salário).
- Enriquecimento de funções cap. 7
- Dar à função variedade, sentido, autonomia, impacto e feedback (Herzberg). É diferente da rotação e da ampliação.
- Equidade cap. 3 · cap. 9
- Recompensa proporcional ao contributo, comparada com a de outros. Não é o mesmo que igualdade.
- Equipa cap. 3
- Grupo com papéis definidos entre os membros, interdependência, liderança partilhada e responsabilidade individual e coletiva.
- E-recruitment cap. 8
- Recrutamento pela Internet (sites, bases de CV, redes sociais), com triagem automática.
- Estratégia cap. 6
- Caminho para objetivos globais e de médio-longo prazo. Na empresa capitalista, uma boa rendibilidade sustentada.
- Estratégia para os RH cap. 6
- Obter, manter e configurar as pessoas e competências de que a estratégia geral precisa.
- Flexibilidade laboral cap. 6
- Margem do empregador para definir quantos trabalhadores tem (numérica), quando e quanto trabalham (tempo), o que fazem (funcional) e quanto ganham (pagamento).
- Força de trabalho cap. 1
- Capacidade humana (conhecimentos e hábitos) para executar tarefas físicas e intelectuais.
- Função profissional cap. 7
- Conjunto típico de tarefas, com a sua responsabilidade, relações, requisitos e objetivo.
- Função Recursos Humanos cap. 2
- Obter, integrar e desenvolver as pessoas de que a organização precisa para os seus objetivos estratégicos.
- Gestão de Recursos Humanos (GRH) cap. 2
- Otimizar o contributo humano para os objetivos estratégicos, tendo em conta os condicionantes internos e externos. É tarefa de todos os gestores.
- Inteligência emocional cap. 4
- Reconhecer e gerir as próprias emoções e as dos outros. Quatro domínios: autoconsciência, autogestão, consciência social, gestão das relações.
- Intensidade laboral cap. 9
- Desgaste físico e psicológico por unidade de tempo. Não deve ser confundida com produtividade.
- IRCT cap. 1
- Instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho: convenções, acordos de adesão, decisões arbitrais, portarias de extensão e de condições de trabalho.
- Liderança cap. 4
- Influência exercida sobre um grupo, num contexto, através da comunicação, para atingir objetivos.
- Mentor cap. 8
- Colega experiente que acompanha a integração do recém-chegado (iniciação → desenvolvimento → separação → redefinição).
- Motivação cap. 3
- Vontade de fazer um esforço elevado em direção a objetivos: direção, intensidade e persistência. Pode ser intrínseca ou extrínseca.
- Negociação distributiva / integrativa cap. 5
- Distributiva: dividir um bolo fixo (ganho–perda). Integrativa: aumentar o bolo (ganho–ganho).
- Orçamento de base zero cap. 9
- Recalcular os gastos com pessoal como se se partisse do zero e comparar com o real.
- Planeamento de RH cap. 6
- Compatibilizar a médio-longo prazo a procura de mão de obra com a oferta interna e externa.
- Poder cap. 5
- Capacidade de influenciar o comportamento de outros, assente na dependência. Fontes: recompensa, coerção, legitimidade, referência, expertise, recursos, informação.
- Portaria de extensão cap. 1
- Ato do Estado que alarga uma convenção a não filiados do mesmo setor e profissão.
- Posto de trabalho cap. 7
- Concretização de uma função numa unidade organizacional.
- Prémios indexados a indicadores globais cap. 9
- Pagamentos ligados ao VAB, aos lucros ou a rácios de gastos com pessoal (Scanlon, Rucker).
- Produtividade cap. 9
- Produção útil por unidade de tempo (por exemplo, VAB por hora). Depende de muito mais do que o esforço.
- Recrutamento cap. 8
- Atrair candidatos com o perfil pretendido: interno, externo (direto ou indireto) ou misto.
- Seleção cap. 8
- Escolher, entre os recrutados, quem melhor se ajusta ao posto (CV e referências, entrevista, questionário, testes, assessment center).
- Sindicato cap. 1
- Associação que defende e promove os interesses socioprofissionais dos trabalhadores. Agrupa-se em uniões, federações e confederações.
- Sistema técnico cap. 2
- Todos os meios usados para produzir. Woodward distingue produção unitária, em massa e em fluxo contínuo.
- Socialização cap. 8
- Aprendizagem dos valores, atitudes e comportamentos da organização, em 3 fases (contacto, confronto, adaptação).
- Tarefa cap. 7
- Conjunto de operações elementares com um objetivo produtivo limitado.
- Taylorismo / OCT cap. 7
- Organização científica do trabalho: atomização de tarefas, tempos e movimentos, separação entre conceção e execução.
Guia de estudo elaborado a partir de: Silva, V. P. G. & Reis, F. L. (2022). Capital Humano – Temas para uma boa gestão das organizações (3.ª ed.). Lisboa: Edições Sílabo.